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A teoria proposta por Moscovici está imersa de conteúdo sociológico, e a sua compreensão de representações envolvendo aspectos culturais leva a discussão sobre esse tema para além do campo da psicologia. Dessa forma, destaca-se o papel do senso comum na pesquisa sobre representações sociais, pois a base dessas representações está relacionada com as formas comuns e populares de conhecimento. Considerando que as representações sociais bebem na fonte das representações coletivas proposta por Dukheim, questões que envolvem o pensamento primitivo e moderno estão no cerne dessa teoria.

Para entender o pensamento primitivo Moscovici busca em Lévy-Bruhl alguns aspectos das representações encontradas em seus estudos, e traz esse sociólogo para discussão justamente porque este contestou a proposição de que o pensamento dito primitivo deve ser tratado da mesma forma que o pensamento avançado – uma proposta tipicamente durkheimniana –, mas para Levy-Bruhl não podemos encará-los como se fossem idênticos, pois em algum momento, houve uma descontinuidade no pensamento, que gerou uma diferença entre a mentalidade dita primitiva e a moderna. Apesar de buscar suas referências em Durkheim, Moscovici passa a tratar os processos de pensamento de forma diferenciada em nossa sociedade, como teorizado por Levy-Bruhl.

A ciência é o que distingue o pensamento moderno e o pensamento anterior, ela representa o divisor de águas da era moderna e medieval. Na modernidade, a vida mental e social antes imersas na tradição, acabam por serem substituídas pelas ciências e tecnologias, que por meio do pensamento científico impõe suas normas e condena outras formas de pensamento ao desaparecimento. Por meio do abandono de crenças e do conhecimento comum, a ciência procura se impor em relação ao consensual. Uma vez desvendada cientificamente determinada questão, é como se ela perdesse seus significados populares e o pensamento fosse a ser substituído pelo científico42.

A ciência não pode ser reduzida ao senso comum e nem vice-versa, eles representam formas diferentes de ver o mundo e de relacionar com ele. O conhecimento popular do senso

41 Ibidem. 42 Ibidem.

comum fornece, de alguma forma, o conhecimento que as pessoas tem ao seu dispor. Apesar de algumas vezes negá-lo, a ciência por diversas vezes já emprestou ideias vindas do senso comum, suas imagens ou construções sobre algo.

O senso comum, o conhecimento popular – o que em inglês se chama folk science – oferece-nos acesso direto as representações sociais. São, até certo ponto, as representações sociais que combinam nossa capacidade de perceber, inferir, compreender, que vêm à nossa mente para dar um sentindo as coisas, ou para explicar a situação de alguém43.

O fato das representações residirem no conhecimento popular permite-nos conhecer como elas são comunicadas e postas em ação. O senso comum consiste em um conjunto de explicações, de sentimentos sobre algo ou fenômenos naturais, que são utilizados para organizar a experiência dos indivíduos. As representações do senso comum são mescladas, diversas representações de origens diferentes são associadas em um conhecimento comum. E elas sempre podem ser alteradas, na medida em que os sujeitos alterem suas concepções ou conceitos sobre um assunto, ou seja, possui um aspecto essencialmente dinâmico, e abarca tanto crenças religiosas quanto científicas.

Porém outra característica dada ao senso comum é que ele é percebido como um estágio antigo de compreensão, que surgiu da percepção direta das pessoas e das coisas, portanto de certa forma com pouca validade científica. Mas é preciso ressaltar que muitas vezes ele se ajusta a nosso objetivo cotidiano e pela acessibilidade consegue perdurar por gerações. O senso comum é de extrema importância para a teoria das representações sociais, pois elaboramos representações não para simplificarmos algo que é complexo, mas para estabelecer uma ligação do não familiar com o familiar. Para controlar essas percepções estranhas, ancoramos: classificamos a partir de conhecimentos pré-existentes nosso conceito sobre o estranho.

As representações possuem vida na medida em que são úteis para os indivíduos, quando se tornam desnecessárias são deixada de lado ou transformadas. Elas circulam livremente em uma sociedade, através da comunicação se espalham e são compartilhadas. Possuem dois aspectos, um pessoal – na medida em que são percebidas por cada indivíduo –, e outro impessoal, porque pertencem a um conjunto, uma coletividade; na verdade, elas são representações de outros. Em nossa sociedade, a comunicação é cada vez mais rápida e a expansão da mídia proporciona um aumento contínuo do espaço social. Como consequência,

as diferenças entre as representações sociais são gradualmente eliminadas até que seu desaparecimento acabe por transformá-la em representação da representação, tornando-a ainda mais simbólica. Moscovici explana:

Consequentemente, o status dos fenômenos da representação social é o de um status simbólico: estabelecendo vínculo, construindo uma imagem, evocando, dizendo e fazendo com que se fale, partilhando um significado através de algumas proposições transmissíveis e, no melhor dos casos, sintetizando um clichê que se torna um emblema44.

As representações necessariamente estão inseridas em um “referencial de pensamento existente”, pois elas dependem de sistemas de crenças ancoradas em valores, tradições e imagens do mundo. As categorias que utilizamos, portanto, podem ser alteradas em nossas mentes, de acordo com a cultura em que estamos vivendo. Caso nasça um novo fenômeno, ele pode ser introduzido na comunicação por meio de um discurso. Surgem então ideias que são compartilhadas entre os indivíduos e os conduzem a construir um sistema de pensamento consensual sobre aquele assunto, e isso permitirá a manutenção de um vínculo social. Jodelet explica:

Partilhar uma ideia ou uma linguagem é também afirmar um vínculo social e uma identidade. Não faltam exemplos de que essa função é evidente, quanto mais não fosse na esfera religiosa ou política. A partilha serve à afirmação simbólica de uma unidade e de uma pertença. A adesão coletiva contribui para o estabelecimento e o reforço do vínculo social45.

Por esse motivo o estudo das crenças e temas conceituais, ou seja, ideias-fonte, é imprescindível para a compreensão estrutural das representações sociais, e a região onde podemos encontrá-los com facilidade é no senso comum. Nossos discursos, crenças e representações são resultado de outros discursos e outras representações que foram criadas antes de nós. Desta forma o estudo da origem das representações sociais pode ser difícil, considerando que não conseguimos dominar completamente a origem das concepções ao longo do tempo (longue durée). Para analisar as representações devemos procurar identificar o “nível axiomático” em textos e opiniões, ou seja, buscar as ideias principais e imagens, de acordo com Moscovici:

Devemos extrair da massa considerável de índices de uma situação social e de sua temporalidade, e esses índices tomam a forma de traços linguísticos, arquivos, e, sobretudo, “pacotes de discurso”; examiná-los atentamente permitirá que alguma luz seja lançada sobre o que repetem – de um lado, sobre o que eles repetem permanentemente –, o problema da redução

44 Ibidem, p. 216. 45 JODELET, 2001, p. 34.

semântica – e, por outro lado, sobre o que os motiva e os fundamenta –, o problema daquelas “ideias” que de algum modo possuem o status e axiomas, ou princípios organizativos, em determinado momento histórico para certo tipo de objeto ou situação46.

Precisamos compreender, portanto, sobre o que repetem e sobre o que os motiva e fundamenta, para estabelecermos princípios organizativos, contextualizando o objeto ou a situação. Nos discursos podemos destacar palavras que são repetidas, estruturas e locuções; é nas relações internas do próprio discurso que ocorre as relações linguísticas que geram representações. Isso por meio do significado das coisas que são ditas, da forma como iremos interpretar e também pelas escolhas de palavras e expressões utilizadas na descrição de algo.

Por isso existe, no estudo de representações sociais, o interesse direcionado em entender a origem do curso da fala e do significado, ou da explicação. Jodelet (2001, p.18) corrobora esse pensamento:

Na realidade, a observação das representações sociais é algo natural em múltiplas ocasiões. Elas circulam nos discursos, são trazidas pelas palavras e veiculadas em mensagens e imagens midiáticas, cristalizadas em condutas e em organizações materiais especiais47.

Quando nos questionamos em relação ao discurso do conhecimento comum, assim como o conhecimento científico, nos perguntamos o que desempenha o papel de primeira ideia, que é a origem de formação de outras representações. A partir da representação escolhida será possível estabelecer um tema, e desenvolver mediante conceitos a interpretação e o conhecimento sobre algo48.

No entanto, estudar as representações pode ser um desafio, de acordo com Jodelet: “... elas são fenômenos complexos, incitando um jogo de numerosas dimensões que devem ser integradas em uma mesma apreensão e sobre as quais é necessário intervir juntamente”49.

Para auxiliar nessa tarefa, a autora propôs três esferas que devem ser analisadas em se tratando de representações sociais: a da subjetividade, a da intersubjetividade, e a da transubjetividade.

A subjetividade diz respeito aos processos que operam no nível individual – devemos analisar os processos pelos quais o sujeito elabora suas representações. Estes processos podem

46 MOSCOVICI,2000, p. 217. 47 JODELET, 2001, p. 18. 48 MOSCOVICI, 2003.

49 JODELET, Denise. O Movimento de Retorno ao Sujeito e a Abordagem das Representações Sociais.

ser de natureza cognitiva, emocional, ou podem depender da experiência de vida. A esfera da intersubjetividade remete as situações em determinado contexto, onde as representações são elaboradas pelos sujeitos em interação, principalmente na comunicação verbal. Ou seja, diz respeito às relações de vida em um contexto comunitário de um indivíduo. A terceira, a esfera da transubjetividade – que é composta de elementos que atravessam a subjetividade e a intersubjetividade –, sendo de seu domínio os indivíduos, grupos quando em contexto de interação, as trocas verbais, i.e., tudo que é comum a uma coletividade50.