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Esse artigo foi lido em uma aula, do nível intermediário, observada em junho de 2012 (Anexo 4). Na análise a seguir, buscamos discutir as representações e ideias incorporadas assim como a reação-resposta do professor e alunos aos discursos do texto.

Objetivo e relevância do texto

Como podemos ver, o título desse artigo é Heróis e Ícones do nosso tempo. O tipo de discurso é expositivo, sendo que a voz do texto, que é implícita, tem por objetivo, a princípio, informar sobre figuras que tiveram “grande impacto no mundo de hoje” (cf. a introdução do artigo), figuras escolhidas pela revista Time. A referência a essa reconhecida revista contribui para o efeito discursivo do texto. Pensamos que o tema tem relevância pedagógica uma vez que aborda a relação de diversos países do mundo.

Significado e forma

Os primeiros dois parágrafos discutem a ação afirmativa de Thierry Henry, jogador de futebol francês, contra o racismo. De acordo com o texto, esse jogador começou uma campanha contra o racismo após ter testemunhado jogadores negros de uma equipe inglesa sendo insultados por espectadores durante um jogo internacional. É positivo que o texto mencione o problema social do racismo ligado aos ingleses e franceses. No entanto, é interessante que o texto os ilustra como vítimas nas mãos dos espectadores internacionais (l. 3-4) não identificados no texto.

O terceiro parágrafo apresenta a Rainha Rania da Jordânia “… tentando reconciliar a tradição com a modernidade” (l. 1-2) no seu país e, além disso, “trabalhando para que as crianças sejam vacinadas...” com a ajuda da Fundação de Bill & Melinda Gates (l. 3-4). Há o sentido implícito de que a Rainha, com ajuda dos estadunidenses, está trazendo a 'modernidade', sinônimo de 'progresso', ao seu país e está garantindo um melhor futuro para os cidadãos.

O quarto parágrafo é sobre o músico irlandês, Bono. Veja um trecho do artigo a seguir: Bono, uma das estrelas do rock mais bem-sucedidas, é também um dos defensores mais importantes da África. Quando ele e sua esposa visitaram a África pela primeira vez trabalharam em um campo de refugiados durante um mês. No dia que estavam partindo, um homem se aproximou deles com um bebê. “Esse é meu filho”, o homem disse. “Por favor, leve-o com vocês quando partirem. Se vocês fizerem isso, ele sobreviverá. Caso contrário, morrerá.” Ele [Bono] não podia levar a criança, mas desde então tem trabalhado arduamente para livrar a África da fome e da pobreza (quarto parágrafo, tradução e grifo nosso).

Como vimos, o trecho é sobre uma viagem de Bono ao continente africano. O problema nesse trecho é a representação desse continente como um só país pobre. Subjaz a ideologia também de que Bono, “um dos defensores mais importantes da África”, representante da cultura pop inglesa, está trabalhando para “livrar a África da fome e da pobreza”, ou seja, sem sua presença (a presença inglesa) o continente da África está perdido.

Vale destacar também o parágrafo em seguida, sobre Aung San Suu-Kyi, 'líder moral' (l. 2) de Burma, que tem estado em prisão domiciliar desde 1989 devido a sua oposição ao regime militar.

Conforme o texto, “ela teve que fazer uma escolha insuportável: ficar com o marido e filhos na Inglaterra, e não poder voltar a Burma, ou ficar em Burma para sempre…”. As palavras ‘escolha insuportável’ enaltecem o sentido de sofrimento e a Inglaterra é representada como um 'lar' onde Aung San Suu-Kyi poderia ser acolhida e protegida da perseguição política no seu país.

O último parágrafo é sobre Bernard Kouchner, um ministro francês, que ajudou muitas das “pessoas de barco” que fugiram de Vietnã. A expressão, “pessoas de barco”, diminui os refugiados atribuindo-lhes uma identidade de inferioridade como se fossem apenas objetos. Ao passo que a Bernard Kouchner é atribuída uma identidade de superioridade, sendo “um ministro francês”. De acordo com o texto, este também trabalhou na Somália no Programa de Restauração da Esperança, no original, 'Operation Restore Hope'.

As Práticas Discursiva e Social

Achamos esse texto muito ideológico quanto à descrição e ilustração das relações entre as pessoas citadas no texto, pois no geral, há o entendimento implícito de que os Estados Unidos, a Inglaterra e a França (representantes da bondade europeia) estão garantindo a segurança e sobrevivência dos demais países.

Tal representação incorporada no texto é político-ideológica. Ela apresenta apenas um lado da realidade (ADICHIE, 2010), pois exclui várias informações como, por exemplo, que aqueles países da África que são desafiados pela existência de pobreza, violência, etc., têm seus próprios líderes que se esforçam para melhorar seu país e que em alguns casos os próprios ingleses e americanos são responsáveis por alguns dos problemas que enfrentam hoje; que existem problemas sociais na Europa e nos Estados Unidos, e assim por diante.

Anotamos durante a observação da aula na qual o texto foi lido que o professor e os alunos não discutiram tais sentidos implícitos no texto; apenas seguiram as tarefas pedidas pela lição, respondendo a perguntas tais como: A quem foi pedida ajuda que ele não pôde dar? Quem está tentando lutar contra doenças e como? Quem teve que escolher entre seu trabalho e família? O que escolheu? Quem era político? Por que era incomum? Quem usou o status de celebridade para arrecadar fundos? O que esta pessoa está tentando mudar? Essas perguntas justapostas apenas reforçaram as ideias do texto, não motivaram discussões críticas.

O último artigo, a seguir, diz respeito a representações culturais e a (re)construção de identidades.