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4.1 General Information
Quanto às regras que orientavam a conduta das normalistas, parece prevalecer o que Júlia (2001, p. 22) afirma: “[...] A cultura escolar desemboca aqui no remodelamento dos comportamentos, na profunda formação do caráter e das almas que passa por uma disciplina do corpo e por uma direção das consciências.” No tocante ao que esse autor coloca,
destacamos “o remodelamento dos comportamentos”, que pode ser observado nos
depoimentos abaixo relacionados:
[...] Conduzir e se comportar de acordo com a Igreja Católica, porque o colégio era de freiras. A gente foi criada naquela teologia. Deus, Deus e Deus. Ave-maria, Pai Nosso. E tinha que se comportar com aquilo ali. Não podia estar respondendo ninguém, faltar à missa do domingo, não ter roupas indecentes, etc. Era tudo dentro do comportamento de uma católica, muito católica. Era assim (LAURA BARRETO).
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Tinha as aulas de civilidade. [...] Não, a gente não recebia assim por escrito não. Mas existia o estatuto. O estatuto já de internato. Naquele tempo, muito engraçado. [...] Tinha o estatuto que era mais para o lado da parte de internato. As meninas não tinham esse conhecimento como é hoje do estatuto mesmo oficializado. Mas o primeiro estatuto está registrado lá no cartório (MARIA ANA FERNANDES).
Acerca do estatuto a que se refere a entrevistada, este é denominado de “O Estatuto da Escola Normal Dona Francisca Mendes” e encontra-se registrado no Livro B1, com o nº de ordem 118, com data de 18 de maio de 1949, no Cartório do 2º Ofício Rodrigues de Paula, na cidade de Catolé do Rocha-PB.
Diante das declarações das entrevistadas, podemos inferir que naquele espaço formava-se o modelo de professora, aquela que iria educar os filhos dos demais. Assim, esperava-se que as normalistas aprendessem não apenas os conteúdos e saberes da profissão, mas também um modo de ser, um modo de portar-se, fato reforçado nas palavras de uma das entrevistadas:
[...] Como se diz [...] o comportamento tinha que ser [...] era bem cheio de limites. Podia fazer isso, não podia fazer aquilo. Tinha obrigação disso, obrigação daquilo. Era um comportamento bem exigido. E ai de quem desobedecesse (GERCINA DE FREITAS).
No cotidiano do Colégio Normal Francisca Mendes, parece-nos existir um espaço de relações de forças, constituindo-se naquele ambiente um tipo específico de sujeito: a professora primária. A partir da cultura escolar empreendida e da disciplina existente, as normalistas participavam de um cotidiano programado, normalizado e vigiado que buscava diariamente transformá-las de indivíduo em sujeito, capaz de se apropriar, através das práticas pedagógicas e das normas existentes, de um saber próprio à profissão a desempenhar posteriormente. De acordo com a normalista Sedy:
[...] A primeira regra que me ocorre era não sujar o colégio. O colégio era impecável. [...] A outra coisa era o que elas chamavam “civilidade” e tinha no boletim. Nessa “civilidade”, entrava muita coisa que não aparecia como disciplina, como matéria assim ensinada, sabe? Mas era uma prática levada as últimas consequências. Era: os relacionamentos, relacionamento com os professores, relacionamento com os colegas, era ir limpa, que era considerada civilidade. Não ter civilidade era (ir) mal penteada, eram unhas sujas, era responder mal, era usar uma linguagem muito elementar, era ética, moral, respeito, tudo entrava dentro de civilidade. É tanto que meu pai quando pegava meu boletim, era a primeira coisa que ele olhava. Existia também a questão da aplicação, que aí era o desempenho (SEDY).
De acorda com a entrevistada Terezinha Diniz, a realidade das normalistas internas pode-nos levar a inferir que tinha mais rigorosidade no disciplinamento, naquilo que os pais
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confiavam suas filhas para serem preparadas para a profissão de professora primária, para o casamento e para o lar. Tais evidências podem ser verificadas nos depoimentos:
Muito bem. Nós tínhamos até uma chamada aula de formação toda semana.. Essa aula de formação a madre chegava principalmente para as internas. Ela reunia todas as alunas no grande salão e naquele salão ela botava um “F” bem grande no quadro, que significava formação. E ali vinham as regras de disciplina, as regras de boa conduta, as regras religiosas, porque a gente devia, realmente, seguir os princípios de uma formação religiosa. E principalmente da boa conduta entre as colegas, como tratar bem os professores. E aquilo ficou impregnado em nossa mente, uma disciplina exemplar (TEREZINHA DINIZ).
Esse disciplinamento, a obediência e a organização parecem-nos ser elementos presentes no cotidiano escolar das normalistas:
[...] Tinha obediência, tinha obediência às aulas, às professoras, não falar. Aliás, falar um de cada vez. Escutar o toque do sino ao término das aulas e ao início. Não sair correndo quando ia embora para casa, no final da aula. Tinha que sair com calma. Quanto ao material escolar, tinha que levar o seu material correspondente àquele horário do dia. Porque tinha aquele horário organizado, a gente recebia o horário da semana (BERTA AZEVEDO). No que se refere à questão das regras que orientavam as condutas das normalistas do Colégio Normal Francisca Mendes, podemos perceber o que Julia (2001, p. 22, grifo do autor) enfatiza:
[...] o colégio não é somente um lugar de aprendizagem de saberes, mas é, ao mesmo tempo, um lugar de inculcação de comportamentos e de habitus que exigem uma ciência de governo transcendendo e dirigindo, segundo sua própria finalidade, tanto a formação cristã como as aprendizagens disciplinares.
As regras e as normas eram transgredidas pelas normalistas que recebiam “suspensão”, “pagavam multa” e recebiam notas baixas no quesito da “civilidade”, como podemos perceber
nos depoimentos abaixo:
Eu me lembro de uma vez que eu fui suspensa, eu e uma colega minha, a gente brincando. Ela tava do lado de fora e eu comecei a jogar as coisas do lado de fora pra ela. Aí fomos suspensas eu e ela. Aí levava a suspensão, a carta para o pai (GERCINA DE FREITAS).
[...] Aí a gente aproveitava pra escorregar, jogar o corpo se escorregando na cera pra cair lá adiante. Só que acabava o encerado. Então elas definiram uma multa pra quem fizesse isso. Eu fiz muito isso. Eu era horrorosa. Levei muito carão e paguei muita multa (SEDY).
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[...] Ah sim, no boletim a nota de comportamento, aplicação e civilidade. Não era matéria, mas tinha que ter, era parte de avaliação formativa. E isso perdurou por muitos anos. [...] pra botar as notas de comportamento, aplicação e civilidade (MARIA ANA FERNANDES).