3. QUANTITATIVE ANALYSIS OF PERSONNEL AND ECONOMY
3.1 General information about the Norwegian research sector
Essa aula aconteceu no dia 20 de Setembro de 2004 e era uma das primeiras aulas do segundo semestre. A partir do segundo semestre, os alunos tinham uma sala fixa uma vez que a sala do grêmio havia sido reservada para eles, local onde a atividade de reforço acontecia e onde a professora guardava seu material.
É importante ressaltar que no início do segundo semestre de 2004, além da professora ter participado de diversos encontros do Programa Ação Cidadã e da matéria Aprendizagem de Língua Materna, como ouvinte, com a professora Maria Cecília Camargo Magalhães no LAEL-PUCSP, a mestranda Marianka Gonçalves iniciava seu trabalho “Produção de texto no Ensino Fundamental: Ações colaborativas na formação contínua do professor de reforço e aulas de língua materna” tendo como foco a leitura e produção de texto.
Na sala havia quatro mesas quadradas com espaço para quatro alunos cada. Nessa aula, quatro alunos sentavam em uma mesa, quatro em outra, o aluno AL sentava em uma mesa sozinho no fundo da sala. A aluna (AD), que chegou atrasada, sentou com AL, depois veio sentar comigo, eu estava em outra mesa sozinha também no fundo da sala, e por fim, a pedido da professora AD foi sentar com um dos grupos de quatro meninos na frente da sala.
Mais especificamente, essa aula, Identidade, se organizou da seguinte forma:
AÇÃO OPERAÇÕES DESCRIÇÃO DAS OPERAÇÕES
Identidade
Leitura das perguntas do texto Os alunos deveriam responder as perguntas oralmente e por escrito.
Quadro 6 – Ações e Operações da Aula Identidade
Os sujeitos eram a professora e os alunos, sendo nove meninos e uma menina. É importante ressaltar que alguns sujeitos da ação anterior, não faziam mais parte da atividade de reforço: AN, que não havia mais aparecido no reforço, uma das informações é de que talvez sua família tivesse retornado para o nordeste os irmãos, AD e AR, não se sabia a razão e a aluna AP, que segundo a professora, havia resolvido seu problema e pôde voltar às aulas normalmente sem a necessidade de participar da atividade de reforço.
Os instrumentos utilizados foram o texto “Identidade”1, perguntas, leitura, produção escrita das respostas e produção escrita de uma redação2.
A comunidade envolvida nessa ação era, além dos sujeitos acima mencionados, a diretora, a coordenadora, os professores que diariamente davam aulas aos alunos, os demais funcionários da escola, a Diretoria de Ensino, a equipe do LAEL/PUC-SP envolvida com o Programa Ação Cidadã, a mestranda Marianka Gonçalves, a professora Maria Cecília Camargo Magalhães e os demais envolvidos com o curso Ensino e Aprendizagem de Língua Materna.
A divisão de trabalho era a seguinte: a professora determinava o que os alunos tinham de fazer, e fazia as perguntas em voz alta ou pedia a algum aluno para ler e os alunos respondiam em voz alta e depois no caderno.
1 In. Bandeira, Pedro Cavalgando o Arco Íris. São Paulo, Moderna 1993. Anexo 6. 2
As regras eram estabelecidas pela professora, por exemplo como não mencionar ter medo de professores e da diretora. Havia também momentos em que a professora exigia respeito aos alunos. Outra regra era que AD ficasse para assistir a aula de reforço no horário seguinte pois havia chegado muito atrasada.
Dentro dessa ação maior aconteceu uma outra cujos sujeitos envolvidos eram AL e AD; o instrumento era uma pasta; a comunidade era os sujeitos envolvidos, a professora, a pesquisadora e os alunos da sala do reforço; a divisão de trabalho era estabelecida por AL que batia no rosto de AD com a pasta e AD que não reagia e a regra era estipulada pela aluna que não poderia chegar atrasada senão seria agredida com uma pasta no rosto.
O objeto construído nessa aula é a discussão do texto Identidade e a produção de um texto no qual os alunos deveriam falar sobre si mesmo, nota- se que a tarefa é contextualizada no sentido de relacionar o texto com a vida dos alunos. Na outra ação descrita o objeto construído foi o constrangimento. A seguir relaciono o objeto com as proposições feitas por Brookfield & Preskill, 1999.
A discussão da tarefa tem início com a questão - o que gostaria de ser?- os alunos participam respeitando as respostas uns dos outros - Eu queria ser cavalo-marinho (AL). Eu gostaria de ser uma formiga atômica3 (AF) -, mas não há participação da professora através de questionamentos a respeito do significado de ser formiga atômica.
Porém quando a questão é -Você já teve medo ou vergonha?- Conte uma situação em que você se sentiu como o menino. -Cada um vai contar uma situação da vida de vocês (P)- e os alunos mencionam professores -Eu tenho medo da professora (ARa) Eu tenho medo da professora de ciências (AF)-, a professora mesmo com risos pede para que os alunos não falem de professores, ou seja, ela silencia aquilo que faz parte da rotina escolar dos alunos, os professores, e volta para discussão relacionada ao texto. -Pessoal, então vamos fazer assim, não vale falar que tem medo de professor não, viu! ((risos)-, ela não explica e nem discute com os alunos porque não pode falar dos professores, então outro aluno fala da diretora -Professora, e da diretora?
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(AW)- também diz que não, e mais uma vez não explica porque e nem discute com os alunos as razões pelas quais não podem falar da diretora -Essa também não vale falar W. ((risos)) (P)).
A professora não questiona os alunos as razões pelas quais eles têm medo dessas pessoas, perdendo a oportunidade de analisar se esse medo condiz com a situação ou não, além disso, não levou em conta o contexto dos alunos não reconstruindo essa realidade a partir de reformulação de ideais. Além disso, o significado de medo não é trabalhado e o sentido de medo construído aqui é que até mesmo a professora tem medo de falar sobre o assunto que os alunos estão abordando. Então ela impõe não falar sobre professores e diretora.
O fato da professora não abordar as razões dos alunos terem medo de alguns professores e da diretora demonstra falta de hospitalidade, eles podem falar do que eles têm medo ou vergonha, mas a regra estabelecida é não mencionar professores ou a diretora.
Também parece haver falta de hospitalidade quando a professora propõe a tarefa escrita -Oh, pessoal, vocês leram aqui no texto, que o menino ele fala de um monte de coisa que ele gosta, ele fala coisas da vida dele, da personalidade dele. Da identidade de quem? Dele. Agora vocês irão fazer falando da vida de vocês, tudo que vocês gostam(P)-, daí por diante os alunos começam a falar ao mesmo tempo iniciando-se pela lamentação -Ah:::: Professora(Ara)- e em seguida quando o aluno fala do horário -Falta dez minutos- demonstrando a falta de interesse em realizar a tarefa.
No que diz respeito à participação, com exceção de AD que chega atrasada, todos os alunos contribuem com suas opiniões no momento de discussão da tarefa, não só quando a professora pergunta -Por que ele escolheu a pulga e a mosca?(P)- e todos respondem em uníssono -Porque ele tem vergonha das pessoas.(ATodos)- e em outros momentos nos quais os alunos contribuem com suas opiniões individualmente. No entanto, não explicam o porquê dessas respostas e nem são questionados pela professora a respeito disso, podemos afirmar então que houve participação no que diz respeito a responder as perguntas, mas não houve participação através de questionamentos, tanto por parte da professora quanto por parte dos alunos.
Durante a discussão todos ouvem atentamente, todavia quando a professora explica a tarefa escrita -Vocês vão fazer um texto bem organizado, com parágrafo. Quando começar o parágrafo letra maiúscula.(P)- os alunos riem e falam ao mesmo tempo, desse modo, há compreensão quando o assunto interessa aos alunos, mas não há compreensão quando a professora redireciona a tarefa.
A humildade parece não ocorrer quando AL bate com a pasta no rosto da colega e a professora questiona -Você ia gostar se alguém fizesse isso com você?(P-) e o aluno responde -Não professora eu tava brincando. Ela chegou atrasada.(L)-. Porém quando todos riem com o relato do colega -Eu fiz assim ó.(AL)-, a professora questiona -E se fosse com vocês? Vocês iam gostar (P)- e o aluno responde -Não!! (ARa)-. Nesse momento o aluno se coloca no lugar da colega e percebe que a situação não seria agradável se fosse com ele. Enquanto a situação atinge a colega é divertido, mas quando ARa se coloca no lugar dela, percebe que não iria gostar se fosse com ele. Nesse instante ARa reformula seu ideal a partir da realidade da colega, imaginando como seria se ele tivesse recebido a pasta no rosto, ou seja, refletindo a partir do ocorrido com a colega ARa analisa e pondera percebendo que aquilo que tinha imaginado ser divertido, na verdade era divertido porque tinha acontecido com uma colega, mas não seria se fosse com ele.
A humildade também parece não ocorrer no final quando a professora questiona -Você nem começou o seu ainda? Por que que todo mundo sabe o que é pra fazer e você não?- E o aluno responde -Porque eles são burros (AF).
Os alunos se sentiram confortáveis para demonstrar suas opiniões tanto que quando foi perguntado do que eles tinham medo um deles respondeu -Eu tenho medo da professora XX. (AT)-, porém foram tolhidos pela professora que apesar dos risos, rapidamente mudou de assunto. Dessa forma, a mutualidade parece deixar de ocorrer devido à professora não dar continuidade à temática levantada pelos alunos, professores e diretora.
Na questão quatro -Quando o menino sente medo ou vergonha ele gostaria de ser pulga ou mosca. Por que ele escolheu a pulga e a mosca?(P)- não parece ter havido deliberação pois os alunos permaneceram no senso comum com as mesmas respostas -Porque ele tem vergonha das pessoas.
(ARa e AF)- e -Porque ele tem vergonha (outros)-, a professora não questiona o porquê, aceita essas respostas -Então o que você vai responder?(P)- e prossegue com a tarefa -Já terminaram a questão quatro?(P)- isso demonstra o interesse da professora que os alunos respondam as perguntas, não há preocupação em promover a interação entre os alunos e outros questionamentos.
Na questão cinco -Você já teve medo ou vergonha? Conte uma situação em que você se sentiu como o menino.- quando os meninos começam a falar dos professores e da diretora a professora brinca, mas vai para a próxima tarefa. -Pessoal, a última questão é mais faci::nho. Vocês vão desenhar a parte que mais gostaram do texto- nota-se que os alunos continuam falando sobre o que têm medo -Eu tenho medo do...do... eu tenho medo do Zé do Caixão e dois deles- mencionam ter medo de um colega de sala -Eu tenho medo do Nhonho4(AL)- e -Eu tenho medo do J.O. (AF)-, quando AL fala a professora chama a atenção de JO -J.O. pára de mexer com ele.(P)- e quando AF fala a professora não percebe.
Também é interessante observar que os alunos falam sobre o que eles têm medo, mas não mencionam nenhuma situação em que sentiram vergonha.
Não parece não ter havido esperança e autonomia pois não houve debate a respeito dos assuntos abordados, então não houve espaço ou esperança de construir algo novo.
A partir das proposições propostas por Brookfield & Preskill, 1999 podemos observar qual o sentido de cidadania construído nessa aula.
No que diz respeito a hospitalidade, os alunos respondem as questões e suas repostas são aceitas pela professora até o momento em que eles mencionam outros professores e a diretora, então a professora faz uma brincadeira, mas segue com a próxima pergunta impedindo que o tema seja profundamente discutido ela não questiona as razões pelas quais os alunos têm medo dessas pessoas. Enquanto isso, os alunos continuam falando sobre o que eles têm medo, mas não mencionam, com profundidade, do que sentem vergonha.
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Pode-se observar que a cidadania permaneceu em saber o que está escrito, ou seja, checagem de respostas, a professora não instigou um debate para que os alunos extrapolassem do conhecimento científico para o cotidiano, quando o fazem mencionando professores e diretora, que fazem parte de seu cotidiano, a professora prossegue com a tarefa não dando espaço para questionamentos. Ou seja, o sentido de cidadania construído nesse trecho foi o de condição legal, no que corresponde ao texto e não houve oportunidade de construir a atividade desejável, que corresponde a ter liberdade de mencionar nomes de outros membros da comunidade escolar sem restrições. Perde-se então a oportunidade de discutir a partir do contexto sócio-histórico dos alunos e reconstruir a percepção que tinham dos professores e/ou diretora.
Nota-se também que a professora precisa manter respeito para com esses membros e que não sabe muito bem o que fazer com a situação, pois apesar de rir, pede que os alunos não falem a respeito de outros participantes da comunidade escolar. A necessidade de prosseguir com a tarefa é tanta que a professora não questiona a respeito de outras opiniões como ter medo do colega, ou seja, ela não “explora alternativas” (Brookfield, 1987) para melhor conduzir tal situação.
Quando se refere à participação, observamos que os meninos participam das discussões, mas AD que chega atrasada não. Também não parece haver participação da professora fazendo questionamentos para transformação do conhecimento trazido pelos alunos, podemos afirmar então que a cidadania construída nessa disposição ficou entre o legal que considero como o que está escrito no texto e o desejável, que é aquilo que extrapola o que faz parte da vida dos alunos.
Como mencionado acima, houve compreensão por parte dos alunos no momento de falarem e expressarem suas opiniões, mas não parece ter havido compreensão por parte da professora em fazer com que os alunos se colocassem mais a respeito das opiniões explicitadas. Por outro lado, quando é a vez da professora falar para explicar a tarefa escrita os alunos demonstram não gostarem da idéia de ter que escrever e a partir de então começam a falar ao mesmo tempo, um grupo fala sobre os políticos, outros falam sobre outras coisas e riem ao mesmo tempo. Ou seja, os alunos têm o direito de falar mas a professora se cala e os impede de expressar suas opiniões, por outro lado
quando a professora fala de um assunto que não os interessa eles não a deixam falar.
Quando AL bate com a pasta no rosto de AD, ele se sente no direito de puni-la por um (a) dever/regra pré-estabelecido, já que a seu ver, a aluna não havia sido punida. Na verdade, a punição era ficar no próximo horário. A aluna, por sua vez, não tem nenhuma reação, aguardando talvez que a professora tome uma providência.
Mesmo tendo sido chamado atenção por mim e pela professora e sendo tirado da sala, AL, quando volta ainda não se sente constrangido mostrando aos colegas como havia feito com a colega. Todos riem deixando AD envergonhada, até o momento em que a professora os questiona como se sentiriam se aquela situação fosse com eles, se eles iriam gostar, ARa se manifesta dizendo que não e mudam de assunto. Percebe-se que nessa situação o conceito de humildade se constitui para alguns e o conceito de humilhação para AD. Os alunos só percebem que o colega não deveria ter feito aquilo com a colega quando a professora tenta os colocar no lugar dela. Podemos afirmar então, que para AL houve uma concepção de cidadania enquanto condição legal, a colega deveria ser punida por ter chegado atrasada, mas para AD a cidadania se deu por intermédio da professora que conversa com AL fora da sala de aula e tenta colocar os outros no lugar dela. No que diz respeito a mutualidade, podemos afirmar que ela aconteceu nos momentos em que os alunos deveriam dar suas respostas, porém na situação de AD ela não foi questionada sobre como estava se sentindo, mas transferida de lugar.
A deliberação parece não ter ocorrido pois os alunos não foram questionados sobre os porquês de suas respostas, sendo assim não houve espaço para esperança ou autonomia. Os alunos permaneceram com aquilo que já sabiam.
Além disso, a professora deixa de aproveitar diversos momentos em que os alunos trazem a tarefa para seus contextos, por exemplo quando falam de personagens ou de políticos. Sendo assim, os alunos não exploram outras possibilidades de discussão e de ideais a respeito de medo ou vergonha.