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O romance policial clássico passa pelo processo de mudança a partir da segunda década do século XX, depois que os Estados Unidos viveram a crise do crack da bolsa de valores, em 1929. Com o crescimento das máfias e da corrupção, surgiu o gênero romance negro, novela negra, inspirado a partir das populares revistas Pulps. Porém, esse tipo de gênero foi considerado um gênero literário menor, um subgênero e menosprezado por muitos críticos, pois estava em constante estado de urgência e exigência massiva de leitores. O público leitor devorava aquele tipo de texto e por causa disso, editores

demandavam uma quantidade de relatos aos escritores para serem publicados em série.

Lógico que a qualidade de muitos não se mantinha, portanto existia de tudo: falta de rigor, mediocridade, descuido, clicheria e caricaturas. O que importava mesmo não era a qualidade e sim a venda do gênero como produto que seria consumido. Sem dúvida, todos esses aspectos fizeram com que os críticos denominassem aquele produto como subgênero. Mesmo assim, quanto mais saía publicado, ganhava mais leitores, pois as primeiras histórias do gênero eram baseadas, segundo Mempo Giardinelli, na literatura gótica ou de horror (Mary Shelley, Bram Stoker, etc.) ,na de aventuras (Herman Melville, Joseph Conrad, etc.) e nas narrativas das conquistas do chamado Far West, norte-americano (Francis Bret Harte, Ambrose Bierce, entre outros). Nas narrativas de western já se encontrava o elemento que seria primordial dentro da novela negra: o crime, que vai aparecer por causa do incremento gradual e inevitável do capitalismo, trazendo como consequência a delinquência. Afirma Giardinelli:

[...] Far West implica hablar de sus pioneros y de sus temáticas sociales comunes: realismo a ultranza, cierto naturalismo, descripciones costumbristas, acción rampante, heroísmo individual, machismo, dinero, poder, corrupción, etc. Y un estilo también identificable: prosa llana, seca, dura. Dada su inclusión dentro de las corrientes del realismo literario, es evidente que también influenció a la literatura latinoamericana moderna […] Temática y estilo son comunes a ambos géneros (del Oeste y policial negro) porque ambos se inscriben dentro del realismo crítico y ambos corresponden a una misma sociedad que, aunque cambió mucho en algo menos de un siglo (entre 1850 y 1920, aproximadamente), de todas formas mantuvo su esencia y en su literatura se reconoce esa continuidad. (2013, p. 41)

Desses três gêneros literários populares, a novela negra retirou quase todos os elementos de composição que a caracterizam: o suspense, o medo que provoca ansiedade no leitor, o ritmo narrativo, o ritmo da ação, a violência e o heroísmo individual. A partir desses elementos, Samuel Dashiell Hammett e Raymond Chandler, e outros autores, compuseram a base estrutural narrativa das suas novelas negras, que contavam também com a luta do bem contra o mal; a intriga argumentativa; a ambição; a corrupção; a crítica social; o poder; a glória e o dinheiro como fatores capazes de modificar o destino dos seres humanos. (GIARDINELLI, 2013)

Samuel Dashiell Hammett é considerado o precursor desse gênero, também conhecido como hard-boiled (histórias violentas, com estilo seco e frio), pois, a partir dele, o romance policial deixa de ser apenas um jogo. Sua obra Cosecha Roja (Red Harvest), é considerada aquele que funda o gênero narrativo novela negra; ele ainda escreveu outras obras: El halcón maltés (The Maltese Falcon) e La llave de cristal (The Glass Key). O que faz das obras desse autor únicas no gênero é sua originalidade e autenticidade, já que Dashiell Hammett foi, ele mesmo, detetive da Agência de Detetives de Pinkerton; talvez tenha vindo dessa sua função a facilidade de narrar, pois partiu do real, de fatos e de pessoas que realmente acompanhou enquanto detetive e acabou escrevendo regularmente para a revista The Black Mask. Por terem se tornado tão populares, seus livros foram adaptados para as telas de cinema, alcançando um público maior.

A novela negra, ou a literatura policial negra assim denominada por Mempo Giardinelli, no prólogo do livro LatinAmerican Detective Fiction Writers: A Bio-bibliographical Sourcebook, deve ser compreendida desde o ponto de vista de Marcel Duhamel. A origem do nome, novela negra, se deve ao francês criador, em 1945, da Serie Noire, nova forma de ficção sobre crimes, dentro de outra realidade, a rua, cujos personagens transitavam ao lado de gangsteres, mafiosos e assassinos. Os livros tinham uma capa preta com a borda amarela. Segundo a definição de Javier Coma

Se trata de una literatura narrativa, con origen en los Estados Unidos durante los años ‗20 y con desarrollo típico y primordialmente norteamericano, ceñida al enfoque realista y sociopolítico de la contemporánea temática del crimen, encausada paulatinamente como un género determinado, y practicada mayoritariamente por especialistas35.

Giardinelli continua afirmando que a literatura policial negra produziu uma mudança no tratamento do crime, especialmente porque reconhece nele motivos e causas vinculadas com a realidade em que vivem os leitores. A novela negra vincula o crime com a sociedade onde ele acontece, posto que

35 Latin American Detective Fiction Writers: A Bio-bibliographical Sourcebook. Darrel B. Lockhart, editor. Prólogo/Introducción por Mempo Giardinelli. La novela negra en La America Hispana.

Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/153934394/La-Novela-Negra-en-La-America-Hispana. Acesso em: 15.06.2014

toda sociedade, e por consequência, toda literatura proposta a partir desse gênero, apresenta o crime como um de seus protagonistas. O delito não é, em realidade, um problema exato. Não existe crime gratuito, como não existe ausência de causas, sejam elas individuais ou sociais, do mesmo modo que não existe crime que seja perfeito. Cada delito é produto de relações (nesse caso, ruins) entre os seres humanos. Também não existe um modelo de criminoso, como os apresentados nos romances do século XIX, o que existe são circunstâncias que levam qualquer pessoa a cometer um crime. Sempre por trás de um crime existe a manifestação do poder, ainda que seja terminar com a vida dos outros. Completa Giardinelli:

Y es que crimen, poder y dinero son como El miedo y La culpa: no se puede vivir sin ellos. Súmesele ambición y machismo, y la sobrestimación del arrojo personal, y se tendrá una lista bastante completa de los valores que ―humanizaron‖ la novelística policial a partir de Hammett y se verá qué tan estructurales son. (GIARDINELLI, 2013, p. 84)

Com esse gênero se instala também a possibilidade de uma estética diferente, na qual a realidade não fica por baixo e nem supera a ficção. A ficção é verossímil, pois a realidade se conta como ficção. Por isso, essa narrativa resulta tão questionadora como subversiva, pois tem relação com o tempo em que se vive e com o mundo no qual as pessoas sabem que saem às ruas, mas não sabem se voltam. A verossimilhança outorga ao texto uma credibilidade que o legitima, garantindo sua projeção.

Muitos autores, que são reconhecidos como fundadores da novela negra, antes foram escritores de novelas westerns e também escreveram para a revista citada acima: Frank Gruber; Willian Riley Burnett e Horace McCoy, este último um dos mais importantes escritores do gênero (GIARDINELLI, 2013, p. 43-44). Suas obras foram muito reconhecidas graças a um veículo muito original, difundido amplamente por todo os Estados Unidos, as já mencionadas pulp magazines, uma das novidades que causaram furor no país durante os anos de 1920, junto com outros veículos ligados aàcultura de massa, com o rádio e o cinema; por isso os textos, publicados nessas revistas, eram considerados subliteratura, pois estavam ligados ao consumo massivo, à popularidade e à enorme produção comercial, o que não quer dizer que não

havia textos com valor literário. Essas colocações são sempre feitas em comparação ao que era entendido e definido como literatura pelos críticos.

De acordo com sua origem temporal e espacial, no seu inicio, a novela negra costuma trazer como protagonistas gângster e detetives que se situavam no contexto da Grande Depressão Americana e da lei seca, os quais transitavam por um ambiente urbano, geralmente obscuro e sórdido, onde reinava a violência.

A novela negra é uma espécie de continuidade do gênero western que traz uma transformação, usa bases dos romances policiais clássicos, mas deixando de ser apenas uma narrativa de entretenimento mediante enigmas dentro de um espaço fechado e salta para uma novelística que transcende e chega ao mundo externo, às ruas das cidades, ao mundo onde se vive mais perto do real, cuja violência já não está separada do sistema, pois as relações humanas, em si, já conformam uma forma de violência, uma expressão de poder e submissão que implicam em violência. Portanto a cidade, nesse tipo de romance, aparece mais sombria e também mais violenta, além de constituir um espaço importante para a trama.

Os primeiros trechos de Cosecha Roja apresentam uma cidade que já tem um apelido, Poisonville, que ajuda a entender como era o clima que envolvia a cidade, a vila do veneno, algo lúgubre, sem identidade, povoada de personagens com aparência degradante:

Fui al hotel Great Western, dejé allí las maletas, y me fui a dar un vistazo a la ciudad. La encontré fea. Los edificios hacían gala de una arquitectura afectada. Quizá había conocido tiempos mejores. Los altos hornos, con sus chimeneas de ladrillo levantadas al sur frente a una sombría montaña, habían impregnado la antigua pomposidad de una capa de suciedad ocre y de un humo espeso. En consecuencia, sus cuarenta mil habitantes vivían en una ciudad fea, hundida en un valle limitado por dos insípidos montes; las minas contribuían en gran manera a la fealdad general. Perdido entre las nubes negras que salían de las chimeneas de los altos hornos, se veía el cielo. El primer guardia que vi llevaba varios días sin afeitarse. El segundo había perdido dos botones de su poco limpio uniforme. El tercero ordenaba el tráfico en el cruce más importante de la ciudad, el de Broadway y Union Street, con un cigarrillo en la boca. En ese momento dejé de preocuparme por ellos. (HAMMETT, p.3) 36

36 Trecho retirado do livro digital. HAMMETT, Dashiell. Cosecha Roja. Disponível em:

http://www.edu.mec.gub.uy/biblioteca_digital/libros/h/Hammett,%20Dashiell%20- %20Cosecha%20Roja.pdf. Acesso em: 11.10.2016

A instauração massiva da novela negra acontece nos anos de 1940, com a inclusão da psicologia criminal, momento também em que há uma combinação entre ação e suspense, quando os autores conseguem falar de conflitos essenciais do tempo em que estavam inseridos, explorando em seus romances o substrato social das crises: econômica, social, moral e política, que talvez não pudesse ser narrado por outros gêneros literários, não tão ágeis e flexíveis como este.

Outro autor de destaque dentro da novela negra e que seguiu os passos de Hammett foi Raymond Chandler. Ele não só escreveu ficção, como também realizou estudos sobre esse romance, cuja finalidade era de obter, para esse tipo de literatura, o reconhecimento devido nos meios literários. Chandler publicou, tardiamente, seu primeiro conto na Revista Black Mask, aos 45 anos e alcançou respeito e fama graças a sete grandes de suas novelas negras que se tornaram clássicas, protagonizadas por um detetive-filósofo excepcional: Philip Marlowe. Seu primeiro romance foi El sueño eterno (The big sleep) escrito em 1939.

Em seu estudo sobre o gênero, El simple arte de matar, Chandler delineou os limites da novela negra. Para ele o realismo exigia muito talento, conhecimento e consciência, somente Hammett tinha tudo isso e foi assim que conseguiu demonstrar que o relato de detetives podia ser uma forma de literatura importante. Escreveu Chandler em seu estudo:

Es fácil abusar del estilo realista: por prisa, por falta de conciencia, por incapacidad para franquear el abismo que se abre entre lo que a un escritor le gustaría poder decir y lo que en verdad sabe decir. Es fácil falsificarlo; la brutalidad no es fuerza, la ligereza no es ingenio, y esa manera de escribir nerviosa, al-borde-de-la-silla, puede resultar tan aburrida como la manera vulgar; los enredos con las rubias promiscuas pueden ser muy fatigosos cuando los describe un joven gotoso que no tiene en la cabeza otro objetivo que describir un enredo con rubias promiscuas. Y se ha hecho tanto de esto, que cuando un personaje de una narración de detectives dice Yeah, el autor es automáticamente un imitador de Hammett. 37

Além disso, ele afirmava que a novela negra não era um mero jogo de dedução, mas uma maneira crua, brutal de contemplar a sociedade e seu

37 Trecho retirado do fragmento digital: CHANDLER, Raymond. El simple arte de matar. Disponível em:

http://mimosa.pntic.mec.es/~sferna18/EJERCICIOS/2010-11/El_simple_arte_de_matar.pdf

tempo. Anexados a esta tese, seguem os apontamentos do autor sobre esse gênero.38

Violência e dureza, dinheiro e poder, corrupção e crimes, não foram temas e nem características exclusivas da novela negra, mas se tornaram ingredientes utilizados por Hammett e Chandler para criar um estilo narrativo e uma estrutura argumental que definiram as diretrizes da novela negra.

Essa categoria de romance promove a fusão de duas histórias: a primeira que conta o que de fato ocorreu, e a segunda que explica como o narrador e o leitor conhecem os fatos. Geralmente se suprime a primeira em prol da segunda. Aqui, a narração do crime não é anterior ao momento do relato, pois ele se dá (no caso, o relato) junto com a ação, produzindo um deslocamento do foco do relato. Antes, ele se situava no processo mental e lógico para resolver o mistério, obrigando o detetive sempre a olhar para trás; agora, há uma substituição de retrospectiva que está ligada à prospecção.

O crime, nesse tipo de romance, passa a ser central e reflete a sociedade, passando a ser o foco, o centro da narrativa, atravessando a fronteira do como e chegando ao porquê. A sua importância está na forma de como é narrado e acaba virando também um entretenimento. A novela negra, nos Estados Unidos, desnuda os vícios e as ambições da sociedade capitalista, onde o dinheiro e a busca por poder aparecem como os motores das relações humanas, como sendo o provocador dos crimes, da marginalidade e da injustiça. Além disso, ela apresenta uma linguagem de estilo realista, nova, bastante dura e violenta, a linguagem das ruas, coloquial, onde a gíria está presente. Geralmente é narrada em primeira pessoa, dando um tom maior de realismo à obra. O detetive costuma ser um desencantado com a vida, solitário, pobre, um perdedor que atua como justiceiro.

O tempo dos relatos deste romance revela-se linear, direto, consegue- se saber dos fatos passados através de outros personagens, o narrador conduz o leitor como se este estivesse assistindo a um filme. Embora no passado, os diálogos trazem a sensação de presente e a resolução do crime chega aos poucos. O cenário é, na maioria das vezes, urbano, opressivo, realista, perigoso, violento e obriga o detetive a sair pela cidade e a misturar-se

38 Ver apontamentos

com os diferentes estratos sociais, movendo-se por terrenos que desconhece, mostrando que a topografia também pode servir como meio à crítica social. As mansões e os casarões saem de cena e dão lugar à rua suja e becos sem saída, onde a atmosfera sempre está carregada de fumaça e outros vapores.

A ação, neste tipo de romance, é muito dinâmica e se direciona para o desfecho do crime, para resolução do mistério, entretanto o interesse gira em torno de um crime inexplicável, gerado pela violência cotidiana constante e progressiva.

O gênero narrativo novela negra está escrito de uma maneira que chega até o leitor que se considera ―culto‖, quanto àquele que não tem nenhuma pretensão de sê-lo e o lê pelo puro prazer da diversão. Esse tipo de novela aparece quando a sociedade vive em pleno desenvolvimento industrial e os centros urbanos crescem, com isso a criminalidade e a ilegalidade aparecem, juntamente com a institucionalização do corpo policial e jurídico e todos os aspectos que os rodeiam, tirando de cena o espaço privado e inserindo o espaço público.

Naquele momento, acaba surgindo uma população leitora que demanda uma indústria editorial, portanto a novela negra desponta como um gênero tipicamente urbano, a serviço de uma literatura realista e crítica, diminuindo a lacuna, até então existente, entre alta cultura (erudita) e cultura popular (de massas). No seu artigo intitulado La novela negra en La transición española como fenómeno cultural: una interpretación, Mari Paz Balibrea assinala que

Géneros tradicionalmente percibidos como populares y de calidad ínfima, estigmatizados en su propio formato y precio, o en la proveniencia racial o el poder adquisitivo de sus cultivadores y aficionados, se han visto reivindicados y exaltados como nuevas fuentes de calidad artística. (BALIBREA, 2002, p. 113-115)

Em resumo, a novela negra passa a ser um espaço estratégico de crítica ao status quo. Ainda neste artigo, a autora continua dizendo que a novela negra possui uma estrutura de indagação que funciona como um mecanismo de resistência, um espaço de negação do esquecimento, porque todos os aspectos da trama levam a um empenho para saber o que realmente aconteceu, mesmo que não se encontre um culpado. Afirma Balibrea:

[...] las narrativas ponen las armas detectoras del Estado moderno a servicio del desvelamiento de la propia criminalidad de ese mismo Estado y/o de aquellos más beneficiados y respetados por él: político, hombres de negocios, respetables profesionales, etc. El resultado es una experiencia lectora muy rica, pues en su fruición se aúnan en primer término la satisfacción de un deseo de saber que se inaugura con el planteamiento del misterio –a diferencia de la realidad en la que pocas veces conocemos las respuestas a nuestras preguntas, sobre todos si son de naturaleza social o política- ; en segundo término, una trama de acción y aventura abierta al consumo masivo […] la narrativa negra […] en sintonía con un público, que además de entretenerse, busca claves críticas para navegar una sociedad conducida del desencanto al paro y a la euforia consumista, sin detenerse nunca para efectuar una reflexión crítica. (BALIBREA, 2002, p. 117).

Existe, no século XXI, a proliferação desse tipo de narrativa, pois o mundo continua mudando e esse tipo de romance é um dos que melhor reflete os desajustes do sistema (nesse caso o sistema que abrande instituições e a sociedade como um todo). Em Gijón, na Espanha, todos os anos, acontece um grande encontro: Semana de La Novela Negra, que foi idealizada em 1998 e dirigida até 2012, pelo escritor Paco Ignacio Taibo II. Nesse evento há várias categorias de premiação para novos autores39. Um espaço ainda ocupado, em sua maioria, por homens.

O detetive remunerado

Diferente do romance policial clássico, com o enigma como centro da narração, que cria um detetive astuto com um amigo que o acompanha e o ajuda a esclarecer o crime, mostrando a dedução pura, complexa, perfeita e sem falhas, quase matemática, desafiando o sentido dedutivo do leitor, a novela negra apresenta o protesto social, enigmas difusos, pois sai às ruas e se enfrenta com a realidade. O detetive, aqui, será de outro tipo, um ser que se molda ao momento de recessão pelo qual passava a sociedade norte- americana, um homem comum que se adapta ao que vai investigar, tentando ganhar a vida com seu trabalho como detetive. O detetive passa a ser remunerado pelo seu trabalho. Segundo Raymond Chandler, deve ser um homem que saiba encarar a tragédia social, que caminhe pela cidade e esteja

39 Site da Semana de La Novela Negra de Gijón: http://www.semananegra.org/index.html Acesso em:13.10.2016

comprometido em buscar as evidências sem se assustar com o que vai encontrar. Tem que ser o protagonista, um homem completo e comum e ao mesmo tempo extraordinário que pertence ao tempo e ao mundo em que vive:

Debe ser el mejor hombre de este mundo, y un hombre lo bastante bueno para cualquier mundo. Su vida privada no me importa mucho; creo que podría seducir a una duquesa, y estoy muy seguro de que no tocaría a una virgen. Si es un hombre de honor en una cosa, lo es en todas las cosas. Es un hombre relativamente pobre, pues de lo contrario no sería detective. Es un hombre común, pues de lo contrario no viviría entre gente común. Tiene un cierto conocimiento del carácter ajeno, o no conocería su trabajo. No acepta con deshonestidad el dinero de nadie ni la insolencia de nadie sin la correspondiente y desapasionada venganza. Es un hombre solitario,