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Segundo Émile Durkheim, ―o crime não se observa só na maior parte das sociedades desta ou daquela espécie, mas em todas as sociedades de todos os tipos. Não há nenhuma que não haja criminalidade.‖ (2001, p. 82) A forma muda, mas os atos qualificados como criminosos continuam e sempre,

em todas as partes, existirão homens que cometerão crimes e serão reprimidos pelo sistema penal. Partindo desta ideia, essa parte do capítulo comaçará a traçar as características da variante do romance policial, que será denominado de romance neopolicial latino-americano.

Também, nesta parte, aparecerão algumas ideias de Gustavo Forero Quintero, apresentadas no seu artigo La novela de crímenes em America latina: hacia uma nueva caracterización del género, publicado na Revista Linguística e Literatura. Ele diz que na América Latina a definição de novela que trata do crime evoluiu a ponto de exigir características distintas do gênero policial e que faz sua análise a partir da aplicação de um conceito complicado e difícil de ser usado nos estudos literários por seu caráter ambíguo e impreciso: conceito de anomia social.

A palavra se origina do vocábulo grego, 'a' + 'nomos'; 'a' significa ausência, falta, privação, inexistência; e 'nomos' quer dizer lei, norma; anomia significa, portanto, falta de lei ou ausência de normas de conduta social. Em âmbito geral, é a ausência de leis ou de um conjunto de normas de conduta social que asseguram a ordem social. O estado de anomia provoca turbulência, caos, implicando em uma patologia social que desemboca em uma crise econômica, política e na degradação da sociedade. É o indicativo de desvio de comportamento, onde resulta impossível o indivíduo se reconhecer, como tal, dentro de uma norma social estabelecida, o impedindo de se adequar dentro da sociedade.

Para o sociólogo Émile Durkheim, o primeiro a usar o termo, na sua obra Da divisão do trabalho social, o estado anômico se estabelece quando a sociedade sofre com a perda de valores compartilhados, onde os indivíduos que a compõem e experimentam um grau de ansiedade e insatisfação crescentes, deixam de ter paz; portanto, a anomia é uma condição onde quase tudo passa a ser permitido e tolerado, não gerando nenhum tipo de punição e quanto mais a sociedade se torna anômica, mas violenta ela se converte ou vice-versa. Porém, é a própria sociedade a primeira interessada que o estado de ordem e paz reine, diz o autor no prefácio da segunda edição de sua obra:

[...] se a anomia é um mal, é antes de mais nada porque a sociedade sofre desse mal, não podendo dispensar, para viver, a coesão e a regularidade. Uma regulamentação moral ou jurídica exprime, pois essencialmente, necessidades sociais que só a sociedade pode

conhecer; ela repousa num estado de opinião, e toda opinião é coisa coletiva, produto de uma elaboração coletiva. Para que a anomia tenha um fim, é necessário, portanto, que exista ou que se forme um grupo em que se possa construir o sistema de regras atualmente inexistente. (DURKHEIM, 1999, p.X)

Esse estado de anomia social estará presente nos romances neopoliciais latino-americanos, mostrando que a degradação ou a ausência da norma servem como tema e fazem parte das estratégias desse tipo de romance. Além disso, sugere uma redefinição do romance policial clássico e da novela negra, permitindo estabelecer características próprias. Essa suposição de redefinição ultrapassa o campo literário, pois reflete também sobre o significado do que venha a ser lei, delito, sanção e impunidade dentro do princípio penal e social; portanto, o romance neopolicial latino-americano é uma variante que acontece e se propaga na América Latina a partir da anomia, mas ainda trazendo consigo algumas características e influências da novela negra, eminentemente norte-americana.

Muitos escritores do pós-boom receberam grande influência da novela negra estadunidense, isso fica claro quando inserem, em seus textos, aspectos ultrarreais dentro de uma ação ficcional, mostrando a crueza e a verossimilhança dos diálogos, alimentando temas e tramas para as indústrias de cinema e televisão. Diz Giardinelli:

La influencia norteamericana ha sido reconocida por muchos narradores hispanoamericanos, y no solo del género negro. Hoy puede asegurarse que no hay escritor latinoamericano contemporáneo que, en su juventud, no haya sido fanático o frecuentador habitual de esta literatura. Y eso ha dejado su huella más allá de cada uno/una luego se haya inclinado hacia otros géneros. Lo indudable es que buena parte de la formación literaria de casi todos los autores del boom y de los que vinieron luego fue la novela negra norteamericana. (GIARDINELLI, 2013, p. 220)

Enquanto a novela negra norte-americana surge de um individualismo característico de sociedades liberais e capitalistas, tendo como disparo e motivação principal, para o crime, a obsessão pelo dinheiro, o romance neopolicial latino-americano emerge de um mundo desordenado, sem lei, tendo como tema e motivação, para o crime, não o dinheiro, mas as diferencias e as carências sociais: ―En cambio en nuestra literatura, más importante que el dinero son los efectos de su injusta distribución.‖ (GIARDINELLI, 2013, p. 222)

Deste modo, o neopolicial latino-americano pode ser definido como um romance no qual o delito, na maioria das vezes assassinatos, não é tratado como um episódio ou uma motivação, mas como tema básico, do qual derivam e com o qual estão relacionados todas as ações, dramas e conflitos humanos, cada um com o seu peso, deixando um rastro de desolação, morte, crueldade e violência. Mesmo que apareça um policial buscando evidências que reforcem o suspense, o caminho fica aberto para que possa ser experimentado o terror, a suspeita, a dúvida, durante os momentos do cotidiano e que o crime possa ocorrer ou ser cometido por pessoas mais comuns, dentro da sociedade, não importando quem seja: o vizinho, a mulher que vai ao supermercado, o estudante, o homem que sempre está no bar, o advogado, um menor, um amigo ou o pai de família, o empresário, o médico, o familiar próximo, entre outros. Sobre todos esses personagens pode pesar o ato de extrema violência ou a possibilidade do delito, o impulso assassino repulsivo que esconde algo mais terrível, uma vontade desenfreada que aparece como reflexo da perversão de uma sociedade que perdeu a humanidade.

Esses romances estão povoados de personagens condenados ao esquecimento, que se impuseram um autoexílio, que vivem à margem de sociedades que aparentemente são harmoniosas e civilizadas, e que mostram a visão de desengano do mundo e do ser humano. Uma sociedade hipócrita que massacra e vive de e pela aparência marcada, na própria narrativa, por lugares abandonados, lúgubres, obscuros, taciturnos, um mundo que, no fundo, causa repulsa e aversão, sem valores e sem justiça. A violência, em termos sociais, apresentada como o valor máximo que está acima de qualquer outro é, de alguma maneira, a que mantém a ordem, pois elimina a escória.

O crime se constitui em um tema popular e sua multiplicação adquire diferentes significados, cuja análise não seria nada banal, pois o romance neopolicial latino-americano é, em si mesmo, um relato sobre o crime, a ética e a suposta verdade, portanto intersubjetivo (o que interessa é a maneira como os sujeitos se revelam e se deslocam dentro da narrativa e na sociedade atual). O neopolicial consegue atingir um imenso número de leitores por ser de fácil compreensão, também sendo um modo de evasão da rotina cotidiana que aponta, ao mesmo tempo, nas suas páginas, essa rotina.

O romance neopolicial latino-americano interessa porque humaniza sem idealizar, critica sem ser panfletário, examina com muito cuidado a mente dos assassinos sem usar nenhum juízo de valor, até mesmo mostrando certa empatia por eles, como se eles fossem também vítimas de um sistema econômico e social falido, o que não é muito fácil de ser narrado. Por isso os autores desse tipo de romance se sentem desafiados em termos de elaborar uma narrativa, pois tentam tratar, através da sua escrita, de temas profundos que povoam a sociedade contemporânea, como a violência e o capitalismo exacerbado, provocando reflexão e estranheza naquele que lê.

Mesmo diante de tamanho desafio estrutural, nesse tipo de romance não há como escapar de um detetive, que geralmente é um policial, que investiga um fato ou uma série de acontecimentos (especialmente crimes) que infringiram as leis estabelecidas. Além disso, essa variante potencializa os ambientes caóticos, com graves problemas sociais, onde as normas de convivência, entre os cidadãos, foram reduzidas a um pronome, EU, muito íntimo de si e pouco do outro. O que interessa, para a maioria dos que estão dentro desse contexto, é individualismo e as vantagens que levarão em cima dos outros, nem que para isso sejam chantagistas e corruptos.

Os autores, dessa vertente, exploram em suas narrativas o substrato social de crise (econômica, social, política e moral), no qual vive a sociedade e muitos deles, que fogem do ofício de serem jornalistas, utilizam técnicas do jornalismo, na sua escrita, tais como: partir de um crime verdadeiro; ir ao lugar onde o fato ocorreu; falar com as pessoas que vivem ou estavam na cena do crime; anotar tudo que possa servir como indício; analisar o cenário (como as pessoas do local se portam, se vestem), pois assim suas narrativas se aproximam mais à realidade; por conseguinte, são mais consumidas, pois os leitores identificam nelas a possibilidade de se parecerem como personagens das mesmas.

Logo, é muito comum que escritores desse gênero, mostrem as complexidades marginais das sociedades, os problemas sociais, econômicos, políticos, principalmente os latino-americanos. O romance Días de combate, de Paco Ignacio Taibo II faz uma reflexão e se converte, ao mesmo tempo, em um mecanismo de denuncia:

-Bien, He asesinado once veces y he causado heridas menores. En ese mismo intervalo de tiempo, el Estado ha masacrado a cientos de campesinos, han muerto en accidentes decenas de mexicanos, han muerto en reyertas cientos de ellos, han muerto de hambre o frío decenas más, de enfermedades curables otros centenares, incluso se han suicidad algunas docenas… ¿Dónde está el estrangulador? -El Gran Estrangulador es el sistema.

-¡Bravo! –sonrió-. Ve, ¡ve!, es evidente. Yo sólo soy un hombre que juega a la vida y la muerte, como ellos.

-A la vida y a la muerte ajenas.

-Privilegio que da ver el tablero de juego desde arriba, tener la capacidad de mover las piezas. Sin embargo, no negará que me he puesto en el juego, que he arriesgado y ganado la partida.

-¿Y las mujeres muertas?

-¿Y los centenares de hindúes muertos de hambre? No es válida su pregunta.

Usted se dirá: la tribu se une y elimina al tigre. Yo le diré: ¿la tribu no debería unirse para eliminar al sacerdote, a los guerreros, a los parásitos? ¿No está el tigre dentro de la piel de la tribu? (TAIBO II, 2004, p. 150)

Este novo modelo de gênero trata o crime sob outro prisma, pois se depara com a dialética: crime versus lei. Além disso, apresenta um criminoso, cujo papel é o de perturbar a ordem estabelecida e denunciar, mesmo que de uma maneira nada convencional, as imperfeições da sociedade que cada vez se torna mais abismal, aumentando a fenda que há entre as classes sociais.

A proximidade, cada vez maior, dessa variante do romance ao jornalismo acontece porque, atualmente, o jornalismo investigativo contribui para que se possa entender o romance neopolicial latino-americano como um espaço de denúncia, ultrapassando o lugar de entretenimento. A sociedade precisa de respostas imediatas para as questões que envolvam a precariedade, a violência, o abandono, o descrédito, a corrupção, etc., mas, nem sempre, o jornalismo de investigação apresenta todas as respostas necessárias, até porque sofre censura, e é nessa lacuna que crescem os romances e os autores neopoliciais, que já contam com um público fiel.

Esse público consumidor, além de ter necessidade de conhecer o que acontece, aposta nessa leitura, porque ela traz algumas características relevantes para serem lidas dentro de uma sociedade dinâmica, que não pode perder tempo que são: síntese; clareza; concisão; rapidez; foco; linguagem acessível, entre outras, se assemelhando às crônicas jornalistas criminais. Um fragmento do romance Consejos de un discípulo de Morrison a um fanático de Joyce, de Roberto Bolaño, cujo foco narrativo é desde a perspectiva do criminoso, serve como ilustração:

Al día siguiente la prensa solo hablaba de lo mismo, la violencia en Barcelona y la inseguridad urbana; junto a nosotros aparecían como personajes del día el par de punkies, unos chavales de san Adrián que la noche anterior se habían cargado al dueño de un futbolín y a un par de policías, y Ramón Correa, del famoso filicida, que se había fugado de la Modelo. La alarma era mayor cuando se conocían las estadísticas, más de quince muertos en menos de un mes, veinticinco atracos a manos armadas y los únicos que habían sido capturados, precisamente aquellos que no derramaron ni una gota de sangre, eran los del Hispano Americano. A Ana y a mí nos encasillaban aparte, vagamente locos, movidos por venganzas personales, tal vez miembros de un grupúsculo terrorista. […] Volví a las noticias. Parecía como si la ciudad se hubiera sumergido en una película de gángsters que la aterrorizaba pero que simultáneamente la hacía feliz. […] había regresado el reinado del terror, estos crímenes en el fondo pretendían desestabilizar la democracia. (BOLAÑO, 2009, p. 73-74)

Enquanto, por um lado, a novela negra norte-americana surgiu das questões sociais ligadas à depressão econômica de 1929, da proibição da venda de bebida alcoólicas, do fortalecimento das máfias, do desenvolvimento da indústria cinematográfica, baseando-se política e filosoficamente na confiança no Estado e na capacidade regenerativa das suas instituições, cujo detetive funcionava como um auxiliar da polícia e da justiça e todos juntos restauravam a ordem rompida por um delito; por outro lado, no romance neopolicial a aliança entre esses segmentos é quase impossível, porque, aqui, além das instituições do Estado caírem no descrédito e na desconfiança, encaradas como inimigas, sujeitas à corrupção e negociatas políticas obscuras, a dinâmica social e econômica, em muitos países da América Latina, deriva do narcotráfico, dos jogos ilícitos, da corrupção e da complexidade das relações sociais, implicando uma conduta que exige nova configuração dentro da literatura, que faça sentido, muito diferente do que foi sempre consumido e lido como canônico.

Por isso, condutas anômicas (condutas marginais ligadas à violência, aquelas que o indivíduo adota quando se vê privado das referências e dos controles que organizam e limitam seus desejos e aspirações) e aspectos anômicos como a violência gratuita, a delinquência, os crimes políticos, o narcotráfico, determinam o surgimento de um novo gênero narrativo, no caso o neopolicial, que se espalha por toda América Latina, narrando a violência, ao mesmo tempo extrema e interna, tornando-se um fenômeno de mercado, pois acaba sendo o espelho da vida real. Existe um caso particular que são as

narconovelas produzidas no México (geralmente produzidas nas cidades de fronteira) que apresenta o escritor Émer Mendonza como um dos principais representantes deste gênero.

Algumas obras de Roberto Bolaño, ou mesmo 2666, podem ser classificadas como romance neopolicial latino-americano? Como os leitores se perdem ou desfrutam de uma trama que os direcionam a um desfecho inesperado, nada clássico? Como conseguem encontrar-se dentro de uma narrativa onde detetives e assassinos não existem como os que os leitores esperam? Estas são algumas questões que servirão como introdução da parte que segue.