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O detetive do romance policial clássico é apresentado como um ser soberano, objetivo, que não sai do seu espaço de trabalho ordenado e higiênico (escritório ou laboratório), pois nesses espaços ele se sente protegido, não recebe ameaças e não perde o controle. A partir desse lugar, ele consegue desvendar o caso, sem precisar observar diretamente o local onde algo aconteceu (um crime, um roubo, etc.) Ele consegue coordenar os pensamentos e chegar a conclusões sobre osacontecimentos a partir da leitura dos jornais ou apenas com o seu poder de reflexão dedutiva, capaz de reconstruir os fatos ao redor do crime ou do roubo. Esse tipo de detetive não se mistura com os policiais ou investigadores oficiais, ele trabalha por conta própria e, na maioria das vezes, auxilia a polícia na conclusão do caso.

Esses detetives possuem características singulares, que são perecidas com a de um ourives ou de um médico cirurgião, tal a precisão com que analisa e cuida dos casos investigados. Primeiro recorrem à observação, lendo tudo que está ao redor, prestando atenção a todos os detalhes (nas expressões e nos pequenos gestos das pessoas), depois passam para o momento de reflexão (não usa nada que seja subjetivo), testa várias hipóteses, refletindo

sobre o caso que está investigando. Para conseguir levar isso tudo adiante ele faz uso de técnicas científicas como a física, a química, geologia, etc.

O método dedutivo parte do geral para o particular, do macro para o micro, utilizando os princípios percebidos como verdadeiros e indiscutíveis, permitindo a quem investiga chegar a uma conclusão puramente formal e lógica (a lógica, para Aristóteles é a mãe da dedução). O método dedutivo também aparece no pensamento racional dos enciclopedistas.

Geralmente, os detetives são celibatários, solitários, sem tempo para romances; aliás, esse tema, o do amor, as intrigas amorosas envolvendo detetives, não aparece nesse tipo de romance, para não desviar a atenção do leitor da questão principal, o enigma que deve ser desvendado. O enigma se encontra em uma esfera intelectual e o amor desviaria o foco do detetive que não pode misturar razão com emoção. A fala de Watson, no livro, As aventuras de Sherlock Holmes, ilustra a impossibilidade de um detetive ter um relacionamento amoroso:

Ele era, em minha opinião, a máquina mais perfeita de raciocínio e observação que o mundo jamais viu - mas, como amante, ter-se-ia colocado em posição falsa. Nunca se referia às paixões sem zombar e escarnecer delas. Eram admiráveis para o observador, excelentes para arrancar o véu que encobre as motivações e as ações dos homens. Mas para um raciocinador treinado admitir essas intrusões em seu temperamento delicado e precisamente ajustado seria o mesmo que introduzir um fator perturbador que poderia pôr em dúvida todas as suas conclusões racionais.31

A função do detetive é elucidar os incidentes que giram em torno do fato acontecido e não perder tempo em construir um relacionamento amoroso. Para Rainer Rochilitz, “o detetive é um moderno Quixote cuja certeza subjetiva não tem nada de demoníaco, não contém nenhuma utopia”. 32

O detetive acaba sendo um mediador entre duas possibilidades de mundo, o breve mundo onde acontece o crime e o mundo que é restaurado, aquele que volta à ordem primeira, depois que ele desvenda os fatos. Ele não é

31 Fragmento retirado do livro virtual: Sherlock Holmes: edição completa do maior detetive de todos os tempos. Disponível em:

http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2013/07/Sherlock-Holmes-Arthur-Conan-Doyle- Obra-Completa.pdf. Acesso em: 18.10.2016

32 RIEDEL, Dirce Côrtes. Reflexões sobre o romance policial. Revista Matraga, nº4-5. UFRJ, 1988, p.16. Disponível em:

http://www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga04_05/matraga4e5a02.pdf

um homem qualquer, pois através de um método racional de investigação, desvenda não só o caso, como apresenta os aspectos psicológicos dos envolvidos. Ele joga com o leitor, se mostrando mais astuto que todos. Se não houver esse jogo, com a finalidade de entretenimento, tal romance não tem porque existir, ele conquista muito leitores exatamente por causa dessa característica. Não é à toa que nos dois exemplos que serão apresentados, o primeiro fragmento de Assassinatos na Rua Morgue e o segundo de Um estudo em vermelho, os narradores convidam o leitor para dentro da narrativa:

A narrativa que se segue provavelmente se tornará mais clara para o

leitor, se tomar em consideração os comentários e as afirmações que

acabo de expor. (POE, 2011, p.41)

O leitor pode me tomar por um incorrigível abelhudo quando confesso o quanto esse homem estimulava minha curiosidade, e quantas vezes tentei penetrar a reticência que ele mostrava com relação a tudo. Antes de emitir um julgamento, porém, que se lembre o quanto minha vida era sem objetivo e quão pouco havia para me prender a atenção. Meu estado de saúde impedia que eu me aventurasse fora de casa, a menos que o tempo estivesse excepcionalmente propício, e eu não tinha nenhum amigo que me visitasse e rompesse a monotonia de meu dia a dia. Saudei com avidez o pequeno mistério que envolvia meu companheiro e passava boa parte do meu tempo tentando desvendá-lo. (DOYLE, 2013, p. 19) 33

Os dois exemplos apresentados, além de trazer o leitor para dentro da narrativa como cúmplice, mesmo que esse não alcance a perspicácia do detetive, retratam o momento em que os narradores inserem o detetive na trama. No segundo fragmento, quem descreve e chama o leitor é o Dr. John H. Watson, aquele que será o ajudante de Sherlock Holmes, um ex-membro do Departamento Médico do Exército, aspecto que reforça o uso da ciência aliado à elucidação de casos.

Os detetives, dos romances policiais clássicos, se tornam uma espécie de herói, restituidor da ordem e, antes do leitor, têm a mente pronta para deduzir os fatos que só ele vê e sabe, chegando aos indícios, às pistas, aos sinais que o ajudarão na conclusão intelectual do crime. É como se essas características fossem encaradas, por ele mesmo, como uma espécie de arte. Esses indícios estão presentes na narrativa desde o início, mas devem surpreender o leitor no momento do seu desenlace, quando, finalmente, o culpado será identificado e mais uma vez o detetive dá sentido à realidade

brutal que acontece em torno dos fatos. Em uma conversa sua com Watson, Holmes revela:

- Não, não é egoísmo, nem vaidade - disse, respondendo, como era seu costume, meus pensamentos e não minhas palavras. - Se exijo justiça para com minha arte, é porque é uma coisa impessoal, uma coisa fora de mim mesmo. O crime é comum. A lógica é rara. Portanto, deve enfatizar a lógica e não o crime. Você rebaixou o que deveria ser uma série de conferências para uma série de contos. 34

Na criação desse tipo de detetives existe muito dos conceitos da época, principalmente das teorias positivistas e dos conceitos de sociologia propostos por Émile Durkheim que estava preocupado com a forma como as sociedades poderiam manter sua integridade e coerência dentro de uma era moderna que mudava a maneira de pensar e começava a romper laços arraigados, alterando as relações familiares, religiosas e de trabalho.

Naquele momento, os fatos sociais começam a ser tratados como ―coisas‖, objetos passíveis de estudo e análise. O método hipotético-dedutivo (possível resposta ou solução para um problema), utilizado na ciência social por Durkheim, também acaba servindo como base para escritores, como, Conan Doyle, construir o perfil e as características de seus detetives. Os dois, sociólogo e escritor, são contemporâneos, vivenciaram o mesmo momento histórico; o primeiro nasceu em 1858 e o segundo em 1859. Para confirmar o pensamento do sociólogo apresenta-se o fragmento do capítulo II do seu livro As regras do método sociológico, onde ele escreve:

Por isso, atualmente, a sociologia tem tratado, mais ou menos exclusivamente, não de coisas, mas de conceitos. Comte, é certo, proclamou que os fenômenos sociais são fatos naturais, submetidos a leis naturais. Reconheceu-lhes, assim, o caráter de coisas, visto que na natureza só há coisas. Mas quando, ao sair destas generalidades filosóficas, tenta aplicar seu princípio e extrair dele a ciência que nele estava contida, são ideias que toma como objeto de estudo. Com efeito, a matéria principal da sua sociologia é o progresso da humanidade no tempo. Parte da ideia de que há uma evolução contínua do gênero humano, a qual consiste numa realização sempre mais completa da natureza humana; e o problema que ele trata é o de encontrar a ordem dessa evolução. (DURKHEIM, 2001, p.45)

34 Fragmento retirado do livro virtual: Sherlock Holmes: edição completa do maior detetive de todos os tempos.

Disponível em: http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2013/07/Sherlock-Holmes-Arthur- Conan-Doyle-Obra-Completa.pdf.

Essa observação não fica só no âmbito da criação e caracterização do detetive, afeta também a criação da forma narrativa do romance policial clássico, onde os escritores demonstram-se menos preocupados com conteúdo e mais com a forma, o molde, a fôrma, as regras e as estratégias de montagem da estrutura do romance, que vai modificando. À medida que a sociedade se transforma (principalmente com o aumento da população e das novas tecnologias) a literatura também sente necessidade de alteração e dentro dessa necessidade de mudança, o romance policial acrescentará à forma clássica, outros ingredientes que culminaram na novela negra, outra variante do romance policial.

Detetives como Sherlock Holmes, Hercule Poirot e Auguste Dupin, entre outros, são arquétipos da perfeição, da racionalidade, da higienização social, dos jogos científicos e psicológicos. É muito interessante a apresentação do detetive feita por Walter Benjamin, no eu estudo Detective y régimen de la sospecha. Aponta Benjamin:

En los tiempos del terror, cuando cada quisque tenía algo de conspirador, cualquiera llegaba a estar en situación de jugar al detective. Para lo cual proporciona el vagabundeo la mejor de las expectativas. "El observador, dice Baudelaire, es un príncipe que disfruta por doquier de su incógnito". Y si el "flâneur" llega de este modo a ser un detective a su pesar, se trata, sin embargo, de algo que socialmente le pega muy bien. Legitima su paseo ocioso. Su indolencia es sólo aparente. Tras ella se oculta una vigilancia que no pierde de vista al malhechor. Y así es como el detective ve abrirse a su sensibilidad campos bastante anchurosos. Conforma modos del comportamiento tal y como convienen al "tiempo" de la gran ciudad. Coge las cosas al vuelo; y se sueña cercano al artista. Todo el mundo alaba el lápiz veloz del dibujante. (BENJAMIN apud LINK, 2003, p. 20)

Diferente dos outros, Sherlock Holmes é construído como um observador cuidadoso e por isso apresenta deduções lógicas, não usa de adivinhações, mas do raciocínio e muitas vezes precisa visitar o local do crime com a finalidade de procurar indícios tais como impressões digitais, objetos fora do lugar, pegadas, fragmentos de roupas e outros objetos, etc. Neste aspecto ele é muito diferente de Dupin que fica preso ao mundo das ideias e das deduções puras. Não é à toa que um dos capítulos de Um estudo em

vermelho se intitula A ciência da dedução e nesse capítulo o próprio Holmes fala para Watson sobre a diferença entre os dois.

Sherlock Holmes levantou-se e acendeu seu cachimbo. ―Sem dúvida acha que está me elogiando ao me comparar com Dupin‖, observou. ―Em minha opinião, porém, Dupin era um sujeito muito inferior. Aquele truque de se intrometer nos pensamentos com um comentário oportuno depois de um quarto de hora de silêncio é por demais aparatoso e superficial. Ele tinha algum talento analítico, sem dúvida; mas não era de maneira alguma o fenômeno que Poe parecia imaginar.‖ (DOYLE, 2013, p. 27)

Dupin e Holmes aparecem no rol de modelos de detetive mais imitados, reescritos e reinventados, talvez por causa da tradução massiva das obras de Poe e Doyle; não só inspiraram autores europeus, como também os americanos. Na América Latina, no Chile, surge Alberto Edwards (advogado e político) um dos primeiros a escrever dentro desse gênero. O autor apresenta o detetive Román Calvo (entre 1912 -1920), o personagem aparece nos relatos da Revista Pacifico Magazine e depois nos volumes de contos La catástrofe de La Punta Del Diablo e Ramón Calvo El Sherlock Holmes Chileno.

No Brasil, o correspondente é a publicação, em forma de folhetim, de O Mysterio, publicado em 1920, no jornal carioca A folha. Romance escrito por quatro escritores: JJ. Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto, Afrânio Peixoto e Viriato Corrêa, cuja trama tem como foco principal o assassino Pedro Albergaria, cuja finalidade de vida é se vingar de sua condição de pobreza, matando o banqueiro Sanchez Lobo. Leitor de romances policiais, o jovem planeja o crime perfeito para que não seja descoberto.

A figura do detetive, nessa obra, está encarnada em um investigador da polícia, Major Mello Bandeira que reproduz o modo investigativo de Sherlock Holmes, aplicando o método científico-tecnológico de investigação; por agir dessa maneira ele recebe a alcunha de ―Sherlock da Cidade‖. Mas esse detetive, diferente dos outros, não é levado muito a sério, pois na parte do romance escrita por Coelho Neto, a mais humorística e irônica, ele sofrerá uma crítica, não só ele como toda a instituição policial que caem no descrédito.

Depois, em 1932, JJ. Medeiros e Albuquerque escreve o livro, Se eu fosse Sherlock Homes, inspirado no personagem de Conan Doyle.Nessa variante do romance, a investigação está focada em apenas um sujeito, o detetive, o único apropriado para desvendar o mistério. Embora tenha como

antagonista o criminoso, eles só se encontraram no final da narrativa quando a sanção é empregada e a partir do esclarecimento do enigma. O criminoso é entregue à instituição que o julgará e o punirá da maneira mais adequada e de acordo com as leis do lugar. Assim a sociedade reconhece o valor do detetive e o aponta como aquele que foi capaz de restabelecer a paz.

Portanto, além de apresentar pequenas sugestões de buscas que culminarão na revelação final do enigma, em um romance policial clássico, o escritor se baseia em um conjunto de perguntas que o ajudará a preparar a estrutura de escrita pretendida; no caso desse gênero existem algumas perguntas que orientam o autor e que servem de base para sua escrita, como por exemplo: O que aconteceu? Como aconteceu? Como foi feito? Quem fez? Por que fez? Perguntas que justificam a presença de um detetive e que serão respondidas, por ele, no final da trama. Com isso, ele vira o herói que descobre e prende o criminoso e restabelece a ordem, o salvador da pátria.

A estrutura do romance policial clássico é regressiva, entrega as informações aos poucos, mas, como qualquer outro romance, tem o objetivo de investigar e penetrar nos dramas humanos e, através deles, descobrir algumas das contradições essenciais da complexa realidade social. Essa variação do romance, afinal e no final, busca demonstrar, através da razão inquestionável, a impossibilidade de um crime perfeito, um crime sem punição, pois a ordem social deve ser restabelecida e quem tem capacidade para fazer isso é o detetive.