Nestas condições, a liberação final do espetáculo ficaria dependendo do ensaio geral, que já no dia 21 de maio de 1973, já havia sido protocolado um pedido do diretor da Divisão de Censura de Diversões Públicas, Rogério Nunes para o Superintendente
369 As composições “Partido Alto” e “Atrás da Porta”, deste show/LP, também foram “tesouradas”. Na
primeira, composta para o filme “Quando o Carnaval chegar” (1972) de Cacá Diegues, a palavras “brasileiro” foi substituída por “batuqueiro”, e o termo “pouca titica” por “coisica”. Na gravação do disco, as palavras foram sutilmente silenciadas, na medida em que também se aumentava o som dos aplausos, aparentemente gravados. O mesmo correndo com a execução da música “Atrás da Porta”. Já na letra da mesma, ficou acordado que a expressão “nos teus pêlos” ficaria “nos teus peitos”. (Disponível em: <www.chicobuarque.uol.com.br/construcao/index.html >. Acesso em: 15 Jul. 2007)
Regional do DPF, do ainda Estado da Guanabara, solicitando técnicos para acompanhar a montagem da peça. No ofício, consta um pedido de “máxima atenção” para as representações das tais páginas 61, 68 e 70, a que já aludimos. No fim, o remetente alerta: “Outrossim, solicito, ainda chamar à atenção da fiscalização para o desenrolar do espetáculo, com o fim de dar a esta DCDP meios de impor, se necessário, a medida preconizada para os casos de violação do indicado dispositivo legal”. 370
De posse da liberação oficial da peça, os autores decidem chamar o encenador Fernando Peixoto para dirigir o espetáculo. A partir daí as anotações detalhadas do próprio Peixoto nos esclarecem melhor sobre a cronologia dos acontecimentos:
Fim de junho de 1973: Chico e Ruy me procuram em São Paulo. Trazem o texto de CALABAR e a proposta de assumir a direção do espetáculo. Já haviam muitos anos de amizade antes disso, mas partimos para uma verificação crítica mútua: Chico e Ruy foram para o teatro São Pedro assistir um espetáculo meu. ‘Frank V’ de Dürrenmatt, enquanto eu fui para o bar ‘Riviera’ ler o texto deles O acerto foi selado na ‘Baiúca’. A peça estava liberada pela censura federal .. Em setembro e outubro ensaiamos em Ipanema. Dia 30 de outubro entramos no Teatro João Caetano, no Rio. 371
Parafraseando os mesmos apontamentos de Peixoto, em seguida, no Rio de Janeiro, acertaram que a produção ficaria a cargo de Fernando Torres e Fernanda Montenegro, para logo depois formarem a equipe técnica. O grupo era constituído por consagrados artistasprofissionais, cada um na sua área, como por exemplo, Dori Caymmi na direção musical, Edu Lobo na orquestração, Zdenek Hampl na coreografia e assistência de direção junto com Mário Masetti, Hélio Eichbauer nos cenários e dividindo a responsabilidade pelos figurinos com Rosa Magalhães, entre outros.
Com a estréia agendada para novembro de 1973, era necessário dinamizar a produção. Assim, em agosto, iniciase a exaustiva fase de preparação e seleção do casting 372 da peça. O elenco foi formado por Tete Medina, Betty Faria, Hélio Ari,
Antônio Ganzarolli, Lutero Luís, Flávio SãoTiago, Perfeito Fortuna, Deoclides Gouvêa, Odilon Wagner entre outros. Ocorreu que, no dia 8 de outubro de 1973, emitiuse um boletim assinado pelo próprio Diretorgeral do Departamento da Polícia Federal, General Antônio Bandeira, 370 Ofício n. 307/73 – SCTC/SC/DCDP 21 de maio de 1973. Arquivo Nacional. Brasília/DF 371 PEIXOTO, F. (Org.). Programa de Calabar – O Elogio da Traição. Rio de Janeiro: Editora Teatral, 1980, [não paginado] 372 Ibid.
informando que a peça havia sido avocada para reexame. Mais tarde, no final daquele mês, o diretor da DCDP, Rogério Nunes, em Brasília, respondendo a missiva de Fernando Torres, produtor de espetáculo, sobre o andamento do processo, 374 enviou um comunicado, informandolhe que a peça seria reexaminada, sendo assim impedida de estabelecer uma data para o ensaiogeral do espetáculo. 375 Dias antes, mais
precisamente no dia 25 de outubro de 1973, no Rio de Janeiro, o diretor teatral Fernando Peixoto, responsável pela montagem, trabalhava na construção cênica do espetáculo, quando foi interrompido por um telefonema. O encenador escreveu em seu caderno de anotações:
[...] retomo este caderno, agora meio sem saber o que pensar? Cacá telefonou dizendo que o ensaio da censura simplesmente não acontecerá dia 4. Prenderam o texto para revisão. Será que leram mal, antes? Sinto coisa por trás. Um lado positivo, inegável, isso vai implicar em adiar a estréia, o que pra mim não é mau. Mas se proibirem tudo? 376
Cinco semanas depois, segundo a leitura das anotações de Peixoto, o texto agora estava com o Serviço Nacional de Informação, o SNI. Preocupados com o desfecho do drama, Buarque, Guerra e Peixoto decidem continuar assim mesmo, contudo, acham de bom alvitre documentar o trabalho através de filmagem, o que infelizmente não acontece, pois obedecendo as ordens da Polícia Federal, a direção do teatro proíbe filmagens e tampouco a entrada de equipamentos. Dias depois, o também cineasta Guerra intenta cinematografar a peça em Petrópolis, no Rio de Janeiro, mas, sem sucesso .377
Temendo o pior, Peixoto já arquitetava uma produção argentina. No outro dia, os ensaios persistem, durante a madrugada, revelando almejada harmonia entre os elementos cênicos, como cenografia e narrativa. Pela tarde, chega o produtor Fernando Torres com a carta de Brasília a que já me reportei noutra parte, mas prefiro deixar que o próprio Peixoto descreva o momento em que isso aconteceu:
De reto, como sempre, a tarde foi cheia de baldes de água fria. Chegou Fernando com a carta da Censura, sobre a tal de “avocação” da peça pra instância superior. Como esta palavrinha, superior, esconde 373 Boletim n 194 portaria n. 641. 04 de outubro de 1973. Arquivo Nacional. Brasília/DF 374 Missiva de Fernando Torres Diversões para Rogério Nunes diretor do DCDP. 30 de outubro de 1973. Arquivo Nacional. Brasília/DF 375 Ibid. 376 PEIXOTO, F. Teatro em Movimento. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1989, p. 191. 377 Ibid., p. 193.
mentiras. A carta praticamente proíbe o espetáculo. Caracterizase uma censura econômica. É datada de 30 de outubro. A censura política nem chega a ser exercida. A censura foi censurada, proibida de proibir. Os gastos estão feitos. Que vai acontecer de agora em diante, se a proibição for mantida, com os produtores e os próximos espetáculos? Texto liberado não é mais garantia mínima. 378
Peixoto reportase a chamada proibição branca, pois, afinal, como ele justificou
a posteriori: “[...] como manter quatro meses um elenco daquele tamanho, os músicos,
os cenários, o espaço todo, o teatro todo cedido, enfim estrear onde e como quatro meses depois?”. 379
De posse do dossiê Calabar, constatase alguns dados importantes. O primeiro, referese a um outro parecer da peça – além das outras três descritas por mim anteriormente – realizada em 26 de setembro de 1973, feita novamente pelo técnico, como eram denominados, Gilberto Pereira Campos. Nela, o censor refaz o seu parecer. Como ele antecede a data da avocação da peça, é forçoso pensar que tenha sido ele o responsável pela avocação do texto. Comparando ambas leituras feitas no intervalo de cinco meses, percebese que Campos continua avaliando a mensagem da peça como imprecisa. A linguagem permanece como acessível, porém agora “atendendo para o eruditismo”. O tema agora é classificado como sóciopolítico e religioso. Quanto a conclusão, o censor escreve:
Peça escrita em prosa e verso que aborda com propriedade o episódio do BrasilColônia tendo como destaque a Invasão Holandesa e as acirradas lutas entre portugueses e holandeses na conquista do solo pátrio, além de descortinar com proselitismo a controvertida figura de Domingos Fernandes CALABAR e seus contemporâneos. Em vista da prolixidade diálogos e situações desaconselháveis para um público imaturo e ainda pela complexidade do texto, manifestome pela liberação do espetáculo, condicionado ao ensaiogeral e obedecidos os cortes assinalados, para um público MAIOR DE 18 (DEZOITO) ANOS. 380 Apesar das diferenças no formato do novo parecer do censor Gilberto Pereira Campos, o conteúdo permanece o mesmo, inclusive avaliando a peça ainda como apta para ser encenada, com os mesmos cortes e a mesma classificação etária de outrora. 378 PEIXOTO, F. Teatro em Movimento. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1989, p. 192. 379 PEIXOTO, F. Depoimento concedido aos professores Alcides Freire Ramos e Rosangela Patriota em 1 de maio de 2001. Não publicado. 380 Parecer da censora Gilberto Pereira Campos, n. 8606/73, Brasília, 26/07/1973. Arquivo Nacional/DF, proc. 316. livro 1/ reg. 2079AN/DF.
O segundo dado referese ao arquivamento de notícias de periódicos recolhidas pela Censura sobre os autores, notadamente de Buarque, entre os meses em que a peça foi liberada até a sua avocação, como a crítica da Revista Veja, referente a publicação da peça “Calabar – O Elogio da Traição”. No texto, verificase alguns trechos assinalados, o que indica a estreita aproximação do Departamento de Censura em Brasília, com os acontecimentos que envolviam a peça, outrora liberada.
Dentre os fragmentos sublinhados, consta algumas linhas escritas pelo crítico, como o trecho: “[...] se o resultado da guerra tivesse sido outro, um Brasil holandês não teria sido preferível à colonização brutal dos portugueses?”. 381 Noutro intervalo
marcado, o colunista compara o destino de Calabar e outro personagem histórico, porém este caro aos militares: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Noutro, publicado pelo “Diário de Brasília”, a notícia referese ao “sensacional lançamento” de alguns LPs importantes para ano de 1973, dentre eles “Calabar” de Chico Buarque está assinalado juntamente com o disco “Inédito” de Geraldo Vandré por razões muito claras (os outros LPs, “Luz da Noite” de Maria Bethânia e “Réu Confesso” de Tim Maia não consta nenhuma observação). 382
Por fim, consta um artigo com o título, que por si só já justificaria sua presença no dossiê sobre a proibição de Calabar: “Chico: a consciência”. Nele, depois de breve balanço histórico da carreira do compositor, alguns trechos são sublinhados como “... passou a ser o artista contestador” e “Ele não decepciona nem mesmo os que o reprimem por algum excesso...”, além da menção as canções “Cálice”, “Bárbara” e Anna de Amsterdam”. 383
No ano seguinte, no dia 15 de janeiro de 1974, a peça é enfim proibida de ser encenada em todo o território nacional, determinado pelo boletim assinado pelo General Antônio Bandeira 384 tornando sem efeito a autorização anteriormente concedida. Alguns
anos depois, Buarque em entrevista, faria um lúcido balanço da censura na criação teatral:
Eu acredito que o público que assiste a uma peça de teatro que tenha alguma ousadia, alguma contribuição, saia desse mesmo espetáculo enriquecido, é um dado a mais para a cabeça desse público. Isso significa que no mês seguinte, quando voltar ao teatro, ele vai querer 381 MAYRINK, G. Canções da colônia. Veja, São Paulo, p. 119, 21 nov. 1973.
382 SENSACIONAL LANÇAMENTO. Diário de Brasília, Brasília, p. 4, 25 nov. 1973. 383 CONSCIÊNCIA, Chico. A Tribuna, Espírito Santo, 18 nov. 1973.
um acréscimo a essa sua informação ou emoção. Então o autor é obrigado e desafiado a estar sempre criando mais e melhor. Isso durante um ano representa já um salto cultural de todo o País, durante dez anos é realmente o que se chama desenvolvimento cultural de um país. O contrário é emburrecimento. O público que deixa de assistir as peças, não viu Rasga coração, do Vianinha, por exemplo, perdeu com isso. Os autores dramaturgos também perderam, porque não são obrigados a fazer uma coisa melhor que aquilo, e vão ficando parados no mesmo lugar, emburrecendo com as moscas em volta. 385
O crítico Yan Michalski concorda com Buarque na obra “Palco Amordaçado” escrevendo que:
As obras mais significativas, entre as que foram e continuam proibidas, serão fatalmente representadas um dia; mas é muito possível que o seu impacto já não seja então nem de longe o mesmo que elas teriam produzido logo depois que foram escritas, pois o momento histórico e a concepção do teatro que lhes deram origem já estarão até certo ponto ultrapassados [...] O milagre cênico impedido de se realizar no momento mais oportuno não é simplesmente adiado: é condenado à morte. 386
O arbítrio, mais uma vez, vencia o embate travado contra arte.