Foi solicitado aos que responderam NÃO ou DEPENDE (85%; 17/20) que justificassem suas respostas. Essas justificativas nos mostram que a ofensividade de uma palavra ou expressão não depende necessariamente do seu sentido literal (sua denotação), mas de outros fatores pragmáticos, contextuais e de identidade. Por exemplo, de acordo com o informante Q-INF/01, a ofensividade dependerá “do momento em que a palavra [é] empregada”:
Q-INF/01 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Do momento em que a palavra [é] empregada.”
Como a palavra “momento” poderá soar um tanto ambígua nessa afirmação (não sabemos se o informante estava se referindo a um lugar, tópico de fala, pessoas envolvidas etc.), nós a interpretaremos no seu sentido macro, já que os demais informantes nos forneceram descrições mais elaboradas e específicas que poderão facilitar o nosso entendimento quanto ao real sentido da palavra em questão.
4.3.1 Intenção do locutor
Ao analisarmos a grande parcela das respostas dadas pelos informantes, notamos que segundo a opinião deles, o termo “momento” está relacionado com a intenção do falante, como bem exemplificado nos exemplos a seguir.
Segundo o informante Q-INF/06, a ofensividade de certas palavras se materializa quando elas são utilizadas de forma pejorativa com a intenção de ofender ou depreciar alguém. Como exemplo disso, ele cita que a palavra puta pode ser ofensiva em contextos de misoginia, mas que também poderá perder sua ofensividade quando resignificada para as mulheres:
Q-INF/06 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do contexto. ‘Puta’ pode ser usado num contexto de misoginia, mas também pode ser resignificado para nós mulheres. ‘Macaco’ é muito ofensivo se dito num contexto racista, mas se for para se referir ao animal não é ofensivo. ‘Viado’ se é um gay que fala, não é ofensivo, mas os heteros às vezes dizem em sentido pejorativo para ofender. Como pode ser ofensivo para um homem, mas para mim não é.”
Esse conceito é ratificado de forma clara na justificativa do informante Q- INF/05 quando ele explica que palavras como puta, viado e buceta são ofensivas quando utilizadas em discursos de ódio, mas que perdem essa ofensividade quando apropriadas por movimentos sociais (ex. o movimento LGBT) através de um processo de autoafirmação de identidade:
Q-INF/05 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Termos como ‘puta’, ‘viado’, ‘buceta’, que estão associados a opressões de gênero e LGBT foram apropriadas pelos movimentos e hoje fazem parte de um processo de autoafirmação da identidade. O que não descarta a possibilidade de serem utilizados enquanto termos ofensivos por pessoas que pretendem se utilizar de discursos de ódio.”
Esse ponto de vista é reiterado ao analisarmos a fala de um dos entrevistados, o informante E-INF/08, que, ao proferir a palavra rapariga numa conversa entre amigos, não a considerou ofensiva.
E-INF/08 – (Trecho de fala)
INF: “Eu não vejo esse palavrão... tipo... como dizem ‘rapariga’, como um ato de malícia ou como o pessoal fala, né? [...] eu usei numa frase onde... eu me sinto... eu me enquadro nela. Tipo... sem tipo de... malícia alguma.”
Apesar dessa palavra ter sido considerada a segunda mais ofensiva pelos informantes do questionário, o informante (um homem bissexual36) não a considerava um palavrão pois, segundo ele, foi proferida numa frase onde ele sentia-se enquadrado nela e “sem [...] malícia alguma”.
De acordo com a resposta do informante Q-INF/08, a palavra puta (exemplificada aqui através das expressões Puta merda! e Puta que pariu! ) pode também, ser utilizada para expressar descontentamento ou surpresa, sendo comparada a expressões como Droga! e Caramba!. Esse ponto de vista é reiterado na resposta do informante Q-INF/15 com relação às palavras merda, porra, foda e
bosta e o uso delas como agressão verbal ou apenas um expletivo.
Q-INF/08 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Algumas expressões que são usadas para expressar descontentamento não são necessariamente uma ofensa. Se algo mau me acontece e de repente digo ‘Puta merda! ’ seria o mesmo que dizer ‘Que mau! ’ ou ‘Droga! ’. Se algo me surpreende e digo ‘Cacete! ’ ou ‘Puta que pariu’ seria o mesmo que dizer ‘Caramba! ’. Então, depende do uso e da intenção.”
Q-INF/15 – (RESPOSTA: NÃO) “Da palavra ‘merda’, por exemplo, se eu falar ‘Seu merda! ’ com alguém, pode sim, ser ofensivo. Agora, se eu falar de uma situação e citar a palavra, não será ofensivo. Seria só uma maneira de expressão. E isso acontece com ‘porra’, ‘cu’, ‘foda’ e ‘bosta’.”
As opiniões dos informantes Q-INF/12 e Q-INF/14 corroboram também para essa correlação entre a ofensividade de uma palavra e a intenção do falante. Como já foi dito anteriormente também pelo informante Q-INF/06, ao afirmar que palavras como macaco e viado são ofensivas quando utilizadas com um intuito discriminatório, constituindo, assim, parte de um discurso racista e homofóbico.
Q-INF/12 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do contexto. ‘Viado’, por exemplo, pode ser um termo homofônico, como pode ser um mero tratamento entre amigos.”
Q-INF/14 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do contexto. Exemplo, ‘caralho’ pode ser apenas uma expressão. Mas as palavras como ‘macaco’ e ‘viado’ são ofensivas porque discriminam pessoas.”
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Os informantes que responderam NÃO, concordaram de modo geral, que a ofensividade das palavras é determinada, não necessariamente pelo seu sentido denotativo, mas pela intenção do falante ao usá-la e a receptividade do ouvinte, como observado nos trechos das falas dos informantes Q-INF/03, Q-INF/11 e Q- INF/13.
Q-INF/03 – (RESPOSTA: NÃO) “A própria palavra em si em algumas situações não aparenta ofensividade, outros sim, porém, depende da situação em que ela está sendo empregada e do estado de espírito da pessoa que a receber ou da interpretação.”
Q-INF/11 – (RESPOSTA: NÃO) “Pois esses que são excrementos fisiológicos não tem poder agressivo ou ofensivo ou até discriminatório quanto os que denominam uma pessoa.”
Q-INF/13 – (RESPOSTA: NÃO) “Não, pois algumas expressões são usadas para definir uma situação em que o indivíduo se sentir insatisfeito com alguma coisa ou simplesmente uma reação de surpresa, e não necessariamente uma ofensa.”
Acreditamos ser importante mencionar uma ocorrência de agressão verbal racista ocorrida aqui no Brasil há quase dois anos e que ilustra muito bem essa concepção que acabamos de discorrer. Em 28 de agosto de 2014, durante uma partida de futebol entre os times do Grêmio e Santos na Arena do Grêmio em Porto Alegre, uma torcedora gremista foi flagrada por câmeras de TV chamando o goleiro do Santos de ‘macaco’. Como o goleiro era um homem negro, o xingamento foi considerado racista, resultando, assim, em um processo de injúria racial com pena prevista por lei de até três anos de reclusão, além de pagamento de multa37.