Um outro fator significativo citado pelos informantes que responderam ao questionário foi a questão do distanciamento social; mais especificamente, o fato de que a identidade dos interlocutores e o nível de intimidade entre eles, influencia o grau de ofensividade das palavras.
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Segundo informante Q-INF/17, a ofensividade de uma palavra “depende de quem fala e para quem é dito” (ver o trecho abaixo).
Q-INF/17 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende de quem fala e para quem é dito.”
A relação entre identidade e ofensividade pode ser observada nitidamente em uma pesquisa sobre palavrões realizada com alunos de graduação da Universidade da Flórida nos Estados Unidos (FÄGERSTEN, 2012). Nesse estudo, os informantes escolheram a palavra nigger (similar ao uso pejorativo da palavra macaco no português brasileiro) como sendo a mais ofensiva da lista fornecida pela pesquisadora, devido a sua notória conotação racista relacionada aos negros. Contudo, segundo os informantes, a sua ofensividade dependerá mais da identidade dos interlocutores do que qualquer outro fator. Por exemplo, notou-se que quando a palavra nigger é utilizada entre interlocutores negros, ela adquire uma função mais solidária, agindo como um marcador de identidade endogrupal. Porém, quando enunciada por um membro de um exogrupo (nesse caso, qualquer outro grupo étnico que não seja o negro), seu grau de ofensividade aumenta consideravelmente. A fim de perscrutar melhor essa ideia, mencionaremos um acontecimento citado por Allen e Burridge (2006) onde um homem branco, técnico de um time de basquete universitário, recebeu autorização dos seus jogadores (a grande maioria negra) para usar a palavra nigger entre eles como marcador de solidariedade. Por fim, o homem eventualmente perdeu o seu emprego como técnico do time devido a protestos de alguns membros da administração da universidade e estudantes que se sentiram ofendidos com essa “violação” do tabu social.
Verificamos a relação entre a ofensividade das palavras e a identidade dos interlocutores nas respostas dos informantes Q-INF/05 e Q-INF/06 a seguir.
Q-INF/05 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Termos como ‘puta’, ‘viado’, ‘buceta’, que estão associados a opressões de gênero e LGBT foram apropriadas pelos movimentos e hoje fazem parte de um processo de autoafirmação da identidade. O que não descarta a possibilidade de serem utilizados enquanto termos ofensivos por pessoas que pretendem se utilizar de discursos de ódio.”
Q-INF/06 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do contexto. ‘Puta’ pode ser usado num contexto de misoginia, mas também pode ser resignificado para nós mulheres. ‘Macaco’ é muito ofensivo se dito num contexto racista, mas se for para se referir ao animal não é ofensivo. ‘Viado’ se é um gay que fala, não é ofensivo, mas os héteros às vezes dizem em sentido pejorativo para ofender. Como pode ser ofensivo para um homem, mas para mim não é.”
Segundo a justificativa do informante Q-INF/05, quando certas palavras consideradas ofensivas são apropriadas por grupos pertencentes a movimentos sociais, elas poderão perder a sua ofensividade através de um processo de autoafirmação da identidade. Tal como observado com a palavra nigger e seu uso endogrupal no estudo de Fägersten (2012), o informante Q-INF/05 explica que palavras ofensivas como puta, viado e buceta vêm perdendo gradualmente a sua capacidade de chocar e ofender por terem sido apropriadas por grupos sociais, nesse caso específico, o movimento LGBT. Entretanto, ele reitera logo em seguida, que essas palavras perdem a ofensividade apenas quando usadas por membros desses grupos com o intuito de servir de marcador de identidade e solidariedade.
Observamos a mesma linha de raciocínio na resposta do informante Q-INF/06 com relação às palavras, puta e viado: “Puta pode ser usada num contexto de misoginia, mas também pode ser resignificado para nós mulheres”, e; “Viado, se é um gay que fala, não é ofensivo, mas os héteros às vezes dizem em sentido pejorativo para ofender.” Em suma, a ofensividade dessas palavras não dependerá apenas da intenção do falante (seu uso misógino e pejorativo), mas da identidade do falante e dos ouvintes.
Essa noção é confirmada também (desta vez de forma menos óbvia) pelo informante Q-INF/06 ao discorrer sobre a palavra viado: “Como pode ser ofensivo para um homem, mas para mim não é.” Nesse caso, o fato do informante Q-INF/06 ser uma mulher, bissexual, e não um homossexual de sexo masculino nos leva a inferir que a perda da ofensividade da palavra em questão está provavelmente ligada ao fato do informante não pertencer a nenhum dos grupos tipicamente associados ao uso ofensivo desse termo.
Um outro fator considerado significativo mencionado no começo dessa seção foi o nível de intimidade entre os interlocutores. De acordo com o informante Q- INF/02, a ofensividade de uma palavra “depende do nível de intimidade entre as pessoas”.
Q-INF/02: (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do nível de intimidade entre as pessoas.”
Os informantes Q-INF/12 e Q-INF/19 possuem uma opinião similar à do informante Q-INF/02.
Q-INF/12 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Depende do contexto. ‘Viado’, por exemplo, pode ser um termo homofônico, como pode ser um mero tratamento entre amigos.”
Q-INF/19 – (RESPOSTA: DEPENDE) “Acredito que depende do contexto no qual a pessoa se encontra, se está em uma conversa informal com amigos ou se é dirigida a alguém, sendo mais ofensiva.”
De acordo com as respostas acima, entendemos que o uso de certos palavrões e xingamentos podem ser considerados como um ‘insulto amigável’ (DALY et al., 2004, p. 952) – algo frequente em conversas entre amigos.
Esse ponto de vista é confirmado em um estudo realizado por Daly et al. (2004), em que o uso do expletivo na língua inglesa, fuck (similar ao termo foda/foder no português brasileiro) foi utilizado como uma expressão de identidade e solidariedade entre os integrantes de uma equipe que trabalha em uma fábrica de sabão na Nova Zelândia. Contudo, o aspecto de maior relevância, além do uso da palavra em questão entre esse grupo específico, talvez seja a observação de que essas pessoas não usavam essa palavra com outras equipes na fábrica, somente entre eles.
Através dos dados coletados durante a fase da observação/entrevista, constatamos que todas as ocorrências de uso de palavrões aconteceram entre amigos. Ademais, nenhum dos entrevistados ao serem questionados pelo pesquisador consideraram que estavam ofendendo o seu ouvinte. Para exemplificar melhor essa informação, segue um trecho da entrevista do informante E-INF/05 que foi observado falando: “Aí é foda, velho! Ficar sem cigarros. Louca pra fumar, viado! Ai buceta!”38, ao demostrar sua “indignação” por não poder fumar:
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E-INF/05 – (Trecho de fala)
PESQ: Então.... Em sua opinião, você acabou de falar um palavrão ou não? INF: Sim.
PESQ: Sim? E qual foi o seu objetivo ao falar tal palavra ou expressão? INF: Expressar indignação.
PESQ: Indignação, hum? Qual é o seu relacionamento com a pessoa com quem você acabou de falar?
INF: Amizade.
PESQ: Amizade? Existem momentos em que você evita falar certas palavras que possam ser consideradas ofensivas ou palavrões para as outras pessoas?
INF: Na frente da minha sogra. [...].
INF: Eu acho que.... é.... quando você está entre amigos existe uma descontração e você se sente mais à vontade para não ter um filtro pra poder é.... utilizar as palavras [...].
Podemos perceber através da fala do informante E-INF/05 que ele age de uma forma específica na presença dos amigos e de outra forma na presença da sogra. Embora não possamos afirmar que o relacionamento do informante com a sogra seja ruim, podemos, contudo, inferir que a intimidade entre eles não é a mesma que entre amigos. Acreditamos, portanto, que esta diferença se deve (em parte) às questões de identidade e de nível de intimidade.
Um outro exemplo sobre essa questão de intimidade entre os interlocutores pode ser bem exemplificado através do trecho da fala do informante E-INF/08:
E-INF/08 – (Trecho da fala)
INF: Acho que tem lugar pra isso... certo...[.] Por exemplo, numa roda de amigos... em casa, por exemplo... numa praça..., mas que seja... tipo...[.] Mas que esteja entre pessoas mais próximas...[.] Não... tipo... totalmente aberto... tipo... pra todo mundo ouvir.
Constatamos nesse trecho que além de sentir-se mais confortável usando esse tipo de linguajar entre amigos, o informante demonstra uma certa preocupação relacionada à presença de outras pessoas (“todo mundo”) que poderiam ouvi-lo usar palavrões.
Diferente da identidade endogrupal que é baseada em aspectos sociais mais generalizados tais como idade, sexo, etnia, etc., percebemos nos trechos apresentados uma ideia de identidade endogrupal baseada na intimidade interpessoal entre interlocutores.