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olharmos para a vasta extensão das

Américas, da Polinésia, do Cabo da Boa

Esperança e da Austrália, encontraremos

sempre o mesmo resultado. Não é só o

homem branco que age assim como elemento

de destruição; os polinésios de cepa malaia

nalgumas partes do Arquipélago das Índias

Orientais têm feito recuar do mesmo modo os

nativos de pele mais escura. As variedades

humanas parecem agir umas sobre as outras

da mesma maneira que o fazem espécies de

animais diferentes – acabando a mais forte

por devastar a mais fraca. Era melancólico

ouvir na Nova Zelândia os nativos de boa

figura e homens enérgicos dizerem que a terra

estava destinada a ser tirada aos seus filhos

(Diário, 2009, p. 365).”

fauna e flora, minérios, rochas, traçados da natureza, sons, cores, contornos eram fontanários inestimáveis que nutriam sua criatividade; os

delicados e complexos acordes da grande orquestra da natureza o desafiavam a embeber-se e compor sua rica e bela partitura: a sinfonia da natureza.

Embevecidos por aquelas paisagens (que já não existem mais), eu entendia “A RAZÃO POR QUE MUITOS DOS NATURALISTAS ATRIBUEM A FORMA MAIS ELEVADA DE BELEZA, INSPIRAÇÃO E

VALOR MORAL A EXTENSÕES CADA VEZ MAIS RARAS DE NATUREZA EM ESTADO PURO,”17 –

àqueles lugares onde a presença humana era escassa ou inexistente e o mundo natural podia ser desfrutado intensamente.

Meu companheiro preenchia seus dias coletando insetos,18 admirando-se com

a diversidade, o tamanho, as cores e os tipos dos coleópteros (imaginem quantos de meus parentes foram espetados! Coitados!), de formigas, abelhas, mariposas, vespas, borboletas, aranhas, anfíbios, árvores, flores e outros seres.

Seu olhar de naturalista abrangia diversos aspectos, seres e fenômenos do mundo natural: minúsculos vermes, fungos, insetos, mamíferos, fósseis, constituição de cadeias rochosas.19 NÃO É

DIFÍCIL INDIVIDUALIZAR OBJETOS DE ADMIRAÇÃO NESTES CENÁRIOS GRANDIOSOS; MAS É IMPOSSÍVEL DAR UMA IDEIA SEQUER APROXIMADA DOS SENTIMENTOS DE ESPANTO, ADMIRAÇÃO E BEATITUDE QUE NOS INVADEM E ELEVAM O ESPÍRITO.”20

Suas coletas de espécimes serviam para questões mais importantes do que simplesmente satisfazer seu ardor juvenil – não nos esqueçamos de que o ele estava com apenas vinte e dois anos quando embarcou no

Beagle.

Quanto a mim, desanuviava minhas anteninhas curtindo o sol, a paisagem, esticando a carapaça e sorvendo uma deliciosa água de coco.

Em abril de 1832, visitamos uma fazenda localizada no interior de Cabo Frio. Nos emocionamos ao andar pelo meio da mata. Ainda hoje, permanece vívida em minha memória a satisfação de meu amigo ao coletar da floresta bichos e plantas desconhecidos para ele: descobriu uma borboleta que produzia sons interessantes, formigas negras muito decididas a continuarem suas tarefas, mesmo quando ele tentava interrompê-las; aranha parasita; teia de aranha assimétrica; orquídeas deslumbrantes, muitos outros de minha imensa família, além de bichos e plantas.

Os sons da floresta tropical são peculiares. Como a Nona sinfonia de Beethoven regida por Arturo Toscanini, uma vez ouvidos, jamais o êxtase experimentado sucumbirá aos sons banais. Para os

sentidos de meu amigo, os sons da natureza sobrepuseram-se até mesmo ao da mais bela sinfonia

Zarpamos do Rio de Janeiro no dia 5 de julho de 1832 e lançamos ferro em Montevidéu no 26 de julho de 1832. Nos dois anos seguintes, o

Beagle mareou a costa austral da América do Sul e o Rio da Prata. Nesse período, exploramos várias regiões, a cavalo ou a pé. Tivemos experiências dignas de caçadores de aventuras: subimos precipícios, montanhas, geleiras; andamos por desertos, lugares ermos; dormimos ao relento; passamos sede, fome; descobrimos tesouros inimagináveis até para o Besouro Jones.

As comparações entre

hábitos e tipos de espécies levaram- no a perceber que a “COINCIDÊNCIA DE ESTRUTURA E HÁBITOS ENTRE ESPÉCIES REPRESENTADAS EM PONTOS TÃO DISTANTES DE UM GRANDE CONTINENTE É SEMPRE PARTICULARMENTE INTERESSANTE, AINDA QUE NÃO TENHA FORO DE RARIDADE.”21

Toxodon. Disponível em: <http://global.britannica.com/EBchecked/topic/601253/Toxo don>. Acesso em: 20 nov. 2014.

Chegamos à foz do Rio Negro em 3 de agosto de 1833. Fomos até a província de Carmen ou Patagones (Carmen de Patagones é o nome atual), situada no extremo sul do território Argentino. Numa de nossas incursões pelo interior, passamos a noite ao relento. Foi a primeira vez que ele dormiu sob o luar e as estrelas.

O caminho que seguíamos, rumo ao Rio Colorado, ia ao encontro do acampamento do General Rosas, que exigia ver o passaporte do Sr. Darwin. Achei incrível que sua primeira impressão sobre o general fosse favorável.

Minhas asinhas ficaram arrepiadas ao ler sobre o massacre promovido contra os índios, “O GOVERNO DE BUENOS AIRES EQUIPOU RECENTEMENTE UM EXÉRCITO SOB O COMANDO DO GENERAL ROSAS COM O PROPÓSITO DE OS EXTERMINAR”.22 Ele não poupou vidas, humanas

ou não humanas, as atrocidades praticadas eram as mesmas.

Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), em seu livro Facundo, ou civilização e barbárie, descreveu algumas atrocidades do general.23

Apesar de o Sr. Darwin e seus acompanhantes do

Beagle condenarem as ações do general, necessitavam de autorização para transitar em solo argentino e de proteção contra os ataques dos índios revoltosos. Senti- me como se estivesse num filme de faroeste. Lá, contudo, balas, flechas e mortes eram reais.

No dia 24 de agosto de 1833, o Beagle aportou em Bahia Blanca, interior da Argentina, de onde partimos a cavalo para Buenos Aires. Foi um período inesquecível! Na pronvíncia de Punta Alta, nem mesmo a Ilha do Tesouro reservaria bens tão misteriosos e valiosos. Ali, a

história das ciências naturais, sem sabermos, rumaria para outras paragens.

Encontramos restos fósseis de animais gigantescos: Megatherium, Megalonyx,

“A quietação mortal da planície,

os cães que guardam, o grupo