Nonaka e Takeuchi (1997, p.67), em seus estudos, desenvolveram um modelo de conversão do conhecimento ancorado no “pressuposto crítico de que o conhecimento humano é criado e expandido através da interação social entre o conhecimento tácito e o conhecimento explicito”. O modelo articula quatro modos de conversão do conhecimento. O quadro 3 apresenta os quatro modos, denominados como socialização, externalização, combinação e internalização, que constituem a essência do processo de criação do conhecimento.
Fonte: NONAKA e TAKEUCHI (1997, p.69)
Nonaka e Takeuchi (1997) definem como socialização um processo de compartilhamento de experiências. Os aprendizes instruem- se com seus mestres, não por meio da linguagem, mas sim por meio da observação, imitação e prática. É extremamente difícil para uma pessoa projetar-se no processo de raciocínio do outro indivíduo, sem alguma forma de experiência compartilhada.
A externalização é como um processo de articulação de conhecimentos tácitos em conceitos explícitos. É, portanto, normalmente orientada pela metáfora e/ou analogia.
A combinação, por sua vez, segundo os autores, é um processo de sistematização de conceitos em um sistema de conhecimento, é a combinação de conhecimento explicito com o conhecimento explicito já presente na organização. Isso ocorre quando gerentes de nível médio
desmembram e operacionalizam visões empresariais.
Finalmente, a internalização é o processo de incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito. Para que o conhecimento explícito se torne tácito, são necessárias a verbalização e a diagramação do conhecimento sob forma de documentos, manuais ou histórias orais. A documentação ajuda os indivíduos a internalizar suas experiências, aumentando, assim, seu conhecimento tácito.
O conteúdo do conhecimento criado por cada modo de conversão do conhecimento é naturalmente diferente. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997, p.80), a socialização gera o “conhecimento compartilhado”, a
externalização gera o “conhecimento conceitual”, a combinação dá
origem ao “conhecimento sistêmico” e a internalização produz o “conhecimento operacional”. Estes conteúdos do conhecimento interagem na espiral de criação do conhecimento na qual, segundo Nonaka e Takeushi (1997), o conhecimento deve ser articulado e então internalizado para tornar-se parte da base de conhecimento de cada pessoa. A espiral começa novamente depois de ter sido completada, porém em patamares cada vez mais elevados, ampliando-se assim a aplicação do conhecimento em outras áreas da organização, como demonstrado na figura abaixo.
Fonte: Adaptado de NONAKA e TAKEUCHI (1997, p.80)
Os autores sugerem três características-chave para que ocorra a criação do conhecimento nas organizações
Metáfora e analogia - A primeira é uma forma de fazer com que indivíduos fundamentados em contextos diferentes e diferentes experiências compreendam algo intuitivamente por meio do uso da imaginação e dos símbolos. Já a analogia auxilia a entender o desconhecido por meio do conhecido e elimina a lacuna entre a imagem e o modelo lógico. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), a confiança na linguagem figurada e simbolismo acontecem na externalização.
Do conhecimento pessoal ao organizacional - O conhecimento pode ser compartilhado. Este pode ser ampliado ou cristalizado em nível de grupo, por meio de discussões, compartilhamento de experiências e observações. Portanto, é fundamental o papel das equipes na criação do conhecimento. Esta é uma característica-chave da combinação.
Ambiguidade e redundância - A ambiguidade pode dar um novo senso de direção ou uma forma diferente de pensar. Nesse sentido, o novo conhecimento nasce do caos. Já a redundância estimula diálogos constantes e a comunicação, facilitando, assim, a transferência de conhecimento tácito. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), esta característica é fonte de novos significados e base do aprendizado que acontece na socialização.
Sabbag (2007, p.64) afirma que a criação do conhecimento individual e organizacional é o início do processo de construção do conhecimento. A criação do conhecimento ocorre a partir de três relações: Na relação do indivíduo com outros (estudada pela gestão do conhecimento, na qual ocorre a conversão do conhecimento); na relação do indivíduo com o objeto (discussão feita pela teoria do conhecimento); e na criação do próprio indivíduo (estudada pela ciência da cognição). Este trabalho abordará somente a criação estudada na relação do individuo com outros. Cada relação gera diferentes conteúdos de conhecimentos e a interação entre estes conteúdos gera a espiral do conhecimento. Sabbag (2007, p.64) afirma que “a criação é uma fase: branda, imaginativa e pouco estruturada, além de fugaz”. Para que a espiral aconteça, são necessárias a conversão, a produção (ou criação) e a integração do conhecimento. Em síntese, “o saber começa com a criação, passa pela esquematização e pela validação para resultar no aprendizado”(SABBAG, 2007, p65). As quatro etapas do processo geram a espiral ascendente do conhecimentos.
Nonaka e Takeuchi (1997) discutem 5 condições em nível organizacional para que a espiral do conhecimento ocorra:
Intenção – A organização precisa ter a intenção de gerar conhecimento, que, portanto, se torna importante no fornecimento de critério para julgar a veracidade de um determinado conhecimento. A intenção é carregada de valor.
Autonomia – A autonomia amplia a chance de oportunidades
inesperadas.
Flutuação e caos criativo – Ambos estimulam a interação entre
organização e ambiente externo. A flutuação é “uma ordem cujo padrão
é difícil de prever inicialmente” (1997, p.89). Quando é introduzida numa organização, seus membros entram em caos, e quando isso acontece tem-se a oportunidade de reconsiderar pensamentos e perspectivas. Este caos intencional é chamado de caos criativo que, por meio do aumento da tensão dentro da organização, auxilia na definição de problemas e resolução de crise.
Redundância – Significa “a existência de informações que transcendam as exigências operacionais imediatas dos membros da organização” (1997, p.92). Esta condição é importante no estágio de desenvolvimento de conceito (externalização), quando é essencial expressar imagens baseadas no conhecimento tácito.
Variedade de requisitos – Quando o individuo possui uma variedade de requisitos pode enfrentar muitas situações. Pode ser aprimorada “através da combinação de informações de uma forma diferente, flexível e rápida e do acesso à informação em todos os níveis da organização”(1997, p.94).
Para Nonaka e Takeuchi (1997, p.1), “conhecimento
organizacional é a capacidade de uma empresa de criar um novo conhecimento, difundi-lo na organização como um todo e incorporá-lo a produtos (ou serviços) e sistemas (processos)” Este trabalho pretende, por meio da conversão do conhecimento, definir o conhecimento organizacional de organizações colaborativas e incorporá-lo a seus identidade corporativa.
Snowden (apud FIRESTONE e McELROY, 2003) considera a teoria da conversão do conhecimento como a segunda era da gestão do conhecimento que se iniciou em 1995 com a popularização do modelo Socialization /Externalization/ Combination/ Internalization (SECI), de Nonaka e Takeuchi (1997). O autor afirma que houve divergência entre esta teoria e a de Polanyi, no que concerne à relação entre o
conhecimento tácito e o explícito que prevaleceu nesta era do conhecimento, já que esta negligencia o conhecimento implícito e no processo proporciona uma visão ambígua do conhecimento tácito, quando afirma que este pode ser transformado em explícito. Polanyi (1964), o idealizador do personal knowledge, afirma que este não pode ser compartilhado nem transformado em explicito. Sabbag (2007) considera que Nonaka e Takeushi simplificaram em demasia o processo, uma vez que se fosse fácil externalizar o conhecimento tácito, ele não seria tácito. Snowden (apud FIRESTONE e McELROY, 2003) afirma que os autores do modelo SECI confundem o conhecimento tácito com o implícito que, segundo Polanyi, pode ser explicitado, isto se for utilizado o conceito de explicitação de Bukowitz e Williams (2002) o qual considera que o conhecimento é explicito quando pode ser expresso em diferentes formas de linguagem como a visual, a sonora, a corporal, entre outras.
Considerando os fatos acima, Snowden (apud FIRESTONE e McELROY, 2003) afirma que o Modelo SECI de Nonaka e Takeuchi (1997) está incompleto, e que mais modos de conversão poderiam existir. Se viessem a ser introduzidos os conceitos de conhecimento implícito, de subjetivo (nas mentes) e de objetivo (nos artefatos), o número de categorias passíveis de conversão passaria de quatro a vinte e cinco. No entanto, numa análise mais detalhada poderia demonstrar somente 17 modos viáveis de conversão, considerando-se que os conhecimentos tácitos e subjetivos não podem ser explicitados. Até o momento ninguém, ao que se sabe, realizou esta matriz.