• No results found

Shaffer (1984, citado por Oliveira & Ferreira, 1993, p.64) refere que as crianças (até os

três anos de idade) eram consideradas como “(…) incapazes de estabelecer interações

(…)” com outras crianças. No entanto, com o passar dos anos, os autores analisaram as

interações das crianças, apercebendo-se que há, realmente, interações entre pares antes

dos três anos de idade e que estes se ligam aos processos de desenvolvimento social e de

comunicação (Amorim, Anjos, & Ferreira, 2012). Richter e Barbosa (2010, p.86)

defendem que “os seres humanos, ao nascerem, trazem como condição de sobrevivência

a necessidade e o desejo de se relacionar e de se comunicar”, justificando a existência de

interações entre as crianças desde o seu nascimento.

As crianças, sem ter a fala desenvolvida, têm acesso a valores e a regras que adquirem

através do desenvolvimento social (Borges & Salomão, 2003). Meneghini e Campos-de-

Carvalho (2003) admitem que a criança participa ativamente no seu desenvolvimento,

através das relações que estabelece com o ambiente físico e social (explorando o meio,

descobrindo ações, selecionando pares).

Para Carvalho e Beraldo (1989, citado por Grana, 2011, p.32) “(…) o papel da interação

entre as crianças no desenvolvimento infantil começou a ser o foco de pesquisas devido

ao contexto social da época (…)”, ou seja, com a entrada da mulher no mercado de

trabalho, a criança começou a frequentar a creche, um contexto privilegiado para o

convívio entre pares, passando a ser cada vez mais precoce o contacto que esta tem com

outras crianças, nos primeiros anos de vida (Anjos, Amorim, Vasconcelos & Ferreira,

2004).

Para haver interação são necessárias, pelo menos, duas crianças que, neste processo,

encetam “(…) uma relação dinâmica, recíproca e bidirecional, já que ambos trocam

experiências e conhecimentos (…)” (Elmôr, 2009, p.24). Borges e Salomão (2003)

afirmam que existe intenção nas comunicações entre as crianças de tenra idade, admitindo

que desde muito cedo a criança comunica através de gestos, de olhares, de expressões

faciais ou de vocalizações (o uso de palavras não é fundamental para a existência de

interação).

Vasconcelos, Amorim, Anjos, e Ferreira (2003) partilham da mesma opinião, afirmando

que as interações entre crianças podem ocorrer através do olhar, entendendo este facto

como contacto social. Já Carvalho e Beraldo (1989, p.59, citados por Grana, 2011, p.119)

referem-se à interação criança-criança como “(…) um sistema socioafetivo relevante para

o processo do desenvolvimento (…)”, uma vez que, nesta interação, sucedem-se

processos que permitem o desenvolvimento de identidades, da comunicação e de regras.

Para Guralnick (1997, citado por Souza & Batista, 2008, p.384) “(…) a interação entre

pares (…) constitui um importante elemento da vida social da criança, pois promove um

contexto propício ao desenvolvimento de (…) competências sociais.” Para Dias e

Almeida (2009), o ambiente em que a criança se encontra favorecerá o desenvolvimento

das suas competências sociais (superação do egocentrismo e desenvolvimento de

comportamentos sociais – regras e de atitudes).

Devemos, assim, olhar para as interações criança-criança como algo que é tão importante

para o desenvolvimento infantil como as interações criança-adulto, uma vez que ambas

desenvolvem competências e funções diferentes, em cada criança (Meneghini & Campos-

de-Carvalho, 2003).

Para Hay, Pederson e Nash (1982, citados por Anjos et al, 2004, p.514) “(…) no primeiro

ano de vida, as capacidades de trocas recíprocas antecedem a locomoção (…) sendo que

os bebês podem interagir entre si, ainda que com habilidades (…) limitados”. Sem ter a

capacidade de locomoção desenvolvida, as crianças interagem entre si, estabelecendo

contacto. Com o desenvolvimento das capacidades motoras de cada criança, a interação

entre pares é facilitada, uma vez que a movimentação pela sala e o alcance de outras

crianças aumenta a sua probabilidade de ocorrência (Vasconcelos et al, 2003).

Borges e Salomão (2003, p.327) afirmam que com o desenvolvimento do sistema

sensorial, nomeadamente a visão e a audição, a criança “(…) alcança um nível lingüístico

e cognitivo mais elevado (…)”, o que a auxilia na interação com os seus pares.

As interações entre as crianças e os seus pares podem ocorrer devido à utilização de

objetos, facilitadores destas interações. Para Amorim, Anjos e Ferreira (2012, p.383)

24

“(…) apesar de existir um grande número de objetos (…), somente alguns figuram como

atrativos, (…) outros não despertam interesse. (…) as crianças têm a atenção e o interesse

direcionados ao objeto que a outra criança manipula.” Assim, os objetos induzem a

criança a procurar o outro, pois ambas ambicionam ter aquele brinquedo, originando

trocas olhares e/ou toques e vocalizações, por exemplo.

Para Kishimoto (1997, citado por Prodócimo & Navarro, 2008, p.1) este brincar entre

pares é considerado um ato onde a criança “(…) explora o mundo (…) de maneira

espontânea e divertida (…)”, sendo através deste que a criança reconhece o meio que a

rodeia, desenvolvendo-se de forma prazerosa e espontânea.

Para Prodócimo e Navarro (2008), o conceito de brincadeira diz respeito às atividades nas

quais as crianças recriam a realidade, utilizando aquilo que conhecem. Para fomentar a

brincadeira será importante as crianças conviverem em ambientes apelativos, onde

possam manipular brinquedos e interagir com outras crianças, o que ocorre na creche,

local onde a criança brinca com os seus pares, estimulando o desenvolvimento da

autonomia, da socialização, da curiosidade ou da linguagem, de habilidades

psicomotoras, sociais, afetivas, emocionais e cognitivas (Teixeira & Volpini, 2014).

Bonome-Pontoglio e Marturano (2010) corroboram a ideia de que a brincadeira entre

pares desenvolve habilidades nas crianças, como as habilidades sociais ou a autoestima.

De acordo com Teixeira e Volpini (2014, p.82), “(…) o brincar para a criança não é

apenas uma questão de diversão, mas também de educação, construção, socialização e

desenvolvimento de suas potencialidades.” A brincadeira é, para as crianças, uma forma

de estar à vontade, de fazer aquilo que querem, ou seja, de se divertirem à sua maneira.

Inerente a esta “diversão”, onde ocorre interação, há desenvolvimento. Conforme defende

Vygotsky (2007, citado por Prodócimo & Navarro, 2008, p.3) “as maiores aquisições de

uma criança são conseguidas no brinquedo (…)”.

Em síntese, será necessário ter em conta que é através das interações que as crianças vão

estabelecendo contacto com os seus pares, desenvolvendo-se de forma harmoniosa. O

ambiente que rodeia as crianças poderá ser facilitador ou inibidor destas interações,

promovendo (ou não) o contacto com o outro (Oliveira & Ferreira, 1993).