É preciso considerar a infância como uma condição da criança. O conjunto das experiências vividas por elas em diferentes lugares históricos, geográficos e sociais é muito mais do que uma representação dos adultos sobre esta fase da vida. É preciso conhecer as representações de infância e considerar as crianças concretas, localizá-las nas relações sociais, etc., reconhecê-las como produtores da história.
(KHULMANN JR.)
A concepção de infância é um fato, um princípio social e cultural, podendo existir simultaneamente em um mesmo momento histórico diversas representações da infância e da própria criança conforme é traduzida na epígrafe em que Khulmann Jr. discute o fato de as crianças serem entendidas como pessoas capazes de ter uma participação direta sobre o mundo onde se encontram para ser reconhecidas como produtores culturais.
É nesta perspectiva que esta seção buscou encontrar resposta à questão de tese que tem a criança como a peça central deste estudo, que da mesma forma que caminhou pelas histórias de Juvenal Tavares, pretendeu transitar pelo núcleo de personagens infantis criados por Dalcídio Jurandir na obra Chove nos Campos de Cachoeira, publicada em 1941, mas que faz referências às duas décadas iniciais do século XX, quando se instalou, no Pará, o declínio da borracha, ou seja, um contexto de produção bem diferente do final do século XIX, onde Juvenal Tavares publicou os Serões da Mãe Preta.
Chove nos Campos de Cachoeira não foi produzida para o público infantil e talvez nem tenha sido essa a atenção do escritor, porém, ele constrói um universo infantil que se mistura aos mundos dos adultos para formarem forças e denunciar a falta de interesse do poder público para com os moradores de Vila de Cachoeira, na ilha do Marajó, onde Dalcídio ambientou a referida obra.
Ao contrário do contexto promissor que se insere Serões da Mãe Preta, a infância em Chove é marcada por situações de abandono e descaso público para com as crianças que vivem em precária falta de saneamento básico, pobreza material e espiritual, que inspiraram o escritor Dalcídio Jurandir a transportar tais características para os seus personagens e dá-lhe voz como sujeitos históricos que sentem os efeitos negativos de uma visível desigualdade
51 A expressão usada por Marli Furtado (2002) para caracterizar os personagens na obra de Dalcídio
social que faz com que esses personagens se sintam inferiores aos que por ventura tivessem sentido o efeito de um progresso tão anunciado na Belém da Belle Époque.
O objetivo central é analisar a infância, a educação e o lugar que a criança ocupa na obra enquanto sujeito histórico, “conhecer as representações de infância [...], localizá-las nas relações sociais” que envolvem os moradores do lugar onde a obra é ambientada. O lugar aqui entendido como um espaço de trocas e conhecimentos contínuos que faz com os seus habitantes se relacionem entre si e com o mundo real e imaginário.
Com total apropriação do contexto social, político, cultural e educacional da Vila de Cachoeira, Dalcídio Jurandir recria esse lugar pelo viés da sua percepção literária e poder criador. Descreve o modo de vida dos grupos e subgrupos de indivíduos que viviam em rios – as populações ribeirinhas, e campos secos, alagados ou alagáveis.
O fio condutor da narrativa se funda em dois personagens: Eutanázio, um homem de meia idade que não vê sentido na vida e que mantém uma relação hostil com as pessoas; e do seu meio-irmão Alfredo, um menino que vive em um constante estado de liminaridade, sempre se sentindo inferior, mas com grande capacidade criativa de poder sobre os menos favorecidos economicamente. Como figura central da trama, seu maior desejo é sair da Vila para estudar em Belém, a cidade dos sonhos, do progresso, dos bondes, das ruas asfaltadas, etc.
Por outro lado, seu meio-irmão, Eutanázio, no tempo da trama, havia voltado recentemente da metrópole, para onde fora em busca de trabalho e independência, e vive a desilusão do fracasso, vagando sem rumo na perspectiva de que irá morrer sem aceitar a morte, sem ter aceitado a vida. Outros personagens também ganham destaque na obra com suas histórias e visões diferentes da vida.
Do conjunto de personagens e núcleos familiares encenados na narrativa, privilegie as situações que focalizam mais o mundo das crianças, suas vozes, seus sofrimentos, suas alegrias, que como excluídos, assim como muitos adultos, sua vozes revelam a miséria que assola o lugar, o que talvez possam identificar o caos da modernidade na Amazônia, pós- ciclo da borracha, segundo seus discursos, seja direto ou indireto, comandados pelo narrador. As personagens que interessam para este estudo são personagens crianças identificadas como pobres porque se encontram em situação de carência dos meios necessários para sobreviver de forma mais digna; algumas são muito debilitadas, do ponto de vista físico, outras são humilhadas, marginalizadas e dependentes da caridade pública; nesse sentido, são tão “derruídas” quanto à Amazônia retratada por Dalcídio Jurandir.
Uma das mais evidentes caracterizações da obra de Dalcídio Jurandir é sua capacidade de fazer-se entender como caboclo, e dessa forma também fazer entender as vozes dos habitantes de Cachoeira52, lugar onde ele viveu até os doze anos de idade e também onde ambienta o romance aqui analisado, onde a reapresentação da infância e da criança não se assemelham as identificadas na obra Serões da Mãe Preta, assim como o lugar e as condições de sua produção.
Tal evidência incide na concepção de que “em diferentes lugares e momentos uma dada realidade cultural é construída, pensada, dada a ler”, conforme pondera Chartier (1985, p. 16), pois, a infância, apesar de sua aparente universalidade (ARIÈS, 1981) e de toda a sua defesa internacional como um direito inalienável das crianças, não se realiza de igual maneira em todos os setores sociais. Logo, direcionar o olhar neste estudo para uma obra ambientada no Marajó é não abrir mão dos sentidos e significados que a cultura representa para os habitantes do lugar, assim como fez Sônia Araújo (2002) quando se deteve a pesquisar, em seu doutorado as escolas – de -fazenda no Marajó.
Para essa pesquisadora, ao aderir ao conceito de cultura concebida por Raymond Williams, que simplifica que a cultura é histórica, afirma que “A cultura, organiza valores e significados da sociedade, mas também institui outros valores e significados ao fazer isto” (ARAÚJO, 2002, p. 42). Isto significa levar em conta as condições de produção dos produtores culturais e as relações que eles estabelecem com o mundo. Ainda para Araújo (2002, p. 42), “Isso ajuda o crítico a deslocar os modos habituais de isolar o produto, a identificar a linguagem através da qual valores e significados foram vivenciados, constituídos e incorporados à história dos modos disponíveis de ver o mundo”.
Nessa perspectiva, para analisar a infância, a educação e os modos como a criança é representada, enquanto sujeito, na obra Chove nos Campos de Cachoeira, significou não desviar o olhar da realidade e dos sujeitos da então Vila de Cachoeira, um lugar que se transformou num município pertencente à Mesorregião do Marajó e à Mesorregião dos Campos, distante aproximadamente 67 km em linha reta de Belém, capital do Pará. A Vila surgiu no período colonial com a chegada dos jesuítas a partir de 1700, quando se iniciou a colonização da região do Rio Ararí, fundando-se as fazendas de gado pertencentes à Missão, em terras do médio e alto Ararí. Com o crescimento da população, em 1811 passou à
52 Dados do IBGE (2014) indicam que no Município de cachoeira do Arari, tem população estimada
condição de Vila, e em 06 de outubro de 1924, através da Lei n.° 2.274, ganhou o status de cidade. 53
Assim, Vila de Cachoeira, no coração da Ilha de Marajó, entra na ficção como cenário onde se movimentam os personagens de Dalcídio Jurandir que registra um recorte da vida Amazônica em Chove nos Campos de Cachoeira, fonte literária na qual a infância, a educação e a criança são analisadas. Nesta obra, o registro da Vila de Cachoeira, como cidade, só vai aparecer no penúltimo capítulo, quando o Dr. Lustosa, se tornou proprietário dos campos de Cachoeira, com o objetivo de instalar no local uma fazenda modelo, onde ele faz uma cerca de arame farpado, para que o povo pensasse que a civilização havia chegado à Vila. Com esse ato de “bondade”, “[...] ele conseguiu com o governo do Estado, um benefício de efeito incalculável para o povo de Cachoeira: saiu um decreto elevando à categoria de cidade a vila de Cachoeira!” (JURANDIR, 1941, p. 375).
A aspa na palavra destacada é de minha responsabilidade, pois, ao comprar os campos para construir a referida fazenda modelo, o então Dr. Lustosa, tido pelos moradores como um advogado bom, gentil, uma simplicidade em pessoa, etc., havia colocado uma placa com o seguinte aviso: “BEM COMUM”- propriedade do Dr. Casemiro Lustosa. Concordei com o que pensou o personagem Eutanázio, que duvidou das boas intenções desse advogado, pois, com esse gesto,
[...] os pobres não podem mais tirar lenha, a cerca já foi levantada e de
arame farpado. [...] Eram os campos onde o povo podia tirar a sua lenha, o seu muruci, um ou outro ovo de camaleão, fazer seu passeio. A vida não pode mais se estender para os campos porque na cerca tem uma taboleta com letras pintadas pelo Raul [...] (JURANDIR, 1941, p. 372).
Esse acontecimento que dava sinais de “civilização” à Cachoeira, influenciou no benefício para a implantação do município.
A origem do nome Cachoeira tem conexões com vários aspectos. O primeiro é o desnível do Rio Arari, em frente à sede, que provoca uma precipitação das águas em forma de cachoeira. Outro motivo é o fato de que um dos principais lagos da mesorregião do Marajó se denomina Arari, cuja importância local tem desdobramentos no fornecimento de alimento e no imaginário local. Arari também é o nome de um cipó da família das Leguminosas Papilionáceas, de flores grandes e cor de fogo, que cresce as margens dos rios da região. Por
fim, Arari é, também, o nome da Arara-canindé (Ara ararauna), ave de plumagem azul com o ventre amarelo, com vários riscos pretos em volta dos olhos54. Os primeiros habitantes da região do Arari, foram os índios Aruãs, também denominados Homens do Pacoval, por ser este local um dos pontos que conserva os vestígios mais acentuados da passagem dos silvícolas pela região55.
O mapa do município representado na Figura 10 registra a sua localização no arquipélago marajoara.
Imagem 12: Mapa do município de Vila de Cachoeira
Fonte: Instituto de Patrimônio Artístico e Histórico Nacional – IPHAN, 2007.
Em Chove, Dalcídio Jurandir situa os seus personagens nas primeiras décadas do século XX, pós-boom da economia da borracha. O período é de relativa decadência que transformou os modos de vida dos emblemáticos, sofridos e marginalizados personagens, com
54 Fonte: PARATUR, 2003.
55 De acordo com Denise Schaan (2007), o Pacoval é um enorme teso – designação de monte artificial,
construído, ainda no período pré-colombiano, pela população nativa, e que não alaga durante as cheias, localizado as margens Rio Arari, que conserva os vestígios mais evidentes da ocupação humana dessa região.
características bem diferentes do modelo de homem moderno idealizado pela nação brasileira com o advento da Primeira República.
Atípico, Dalcídio, ao invés de explorar a exuberância e a riqueza da fauna e da flora regional - o que foi muito comum entre os escritores paraenses da década de 1930 -, ele preferiu dar a sua produção um tom mais social, focando a miséria e a falta de perspectiva que violam a existência dos habitantes da região.
O cenário decadente caracterizado pela pobreza, pela falta de saneamento básico, péssimas condições de moradia e de escola, além do constante discurso da morte e sua materialização, são fatos que provam a situação em que vivem os moradores da Vila de Cachoeira, com destaque às crianças, cuja imagem física e psicológica é coerente ao espaço retratado pelo escritor.
A pesquisadora Marli Furtado (2002) que analisou o ciclo Extremo Norte, de Dalcídio Jurandir, chegou a seguinte conclusão a respeito da Amazônia ambientada nos romances desse escritor:
Uma Amazônia derruída, sem perspectivas, atônita após a derrocada de um ciclo econômico que ergueu palácios, teatros, palacetes; que deu ares europeus às altas temperaturas locais. Enfim, uma Amazônia nada misteriosa, uma região específica, obviamente com suas singularidades, mas na qual se cumpriu um ciclo cuja queda revelou- nos a fragilidade de nosso sistema de produção da borracha (FURTADO, 2002, p. 12).
A citação faz referência à riqueza produzida por meio da comercialização do látex que favoreceu a implementação de um projeto político de modernização das duas principais capitais da Amazônia: Belém e Manaus.
Todo esse cabedal de riqueza que reflete o ciclo econômico começou a mostrar sua incoerência antes no segundo decênio do século XX, pois ainda estava muito presente nesses espaços práticas tradicionais como, por exemplo, o coronelismo, o sistema de aviamento, o trabalho escravo, a falta de saneamento básico, o sistema precário de saúde pública e da educação associados à fome, conforme retratados em Chove nos campos de Cachoeira.
Estas são as marcas registradas do início de um declínio acentuado, nesse período, em que a seringa foi transportada para a Ásia, assim tornando-se a principal fonte de exportação de borracha para a Europa. Essa perda do monopólio do látex foi sentida por toda a região amazônica, inclusive as ilhas que se aglomeram ao entorno da cidade de Belém, entre as quais a ilha do Marajó, onde está localizada a fictícia Vila de Cachoeira.
As mazelas desse lugar estão sobremaneira representadas não só pela descrição do espaço, mas, sobretudo pelo comportamento dos personagens e papeis que assumem na obra, em que poder e humilhação se misturam no tempo da narrativa. Uma passagem em que o Dr. Campos, juiz substituto e alcoólatra, que usa da sua posição social para humilhar Felícia, uma personagem que ganhava a vida se prostituindo, ilustra esse tipo de relação.
- Pois lhe mandei chamar pra isso sua podre! Você além de morar naquele casebre porco, fedorento, onde se vende a cinco tostões, dez, quanto der, a troco dum cigarro, dum pedaço de tabaco, além de tudo isso. Rah! Não sei onde estou que não lhe mando botar no xadrez. Sim, porque essa desgraça de código penal não previu o delito venéreo. Ia, ia, tu ias para a cadeia! Espere. Pensa que sou algum caboclo besta! Não sabe que tenho uma senhora que nem os pés dela você pode lamber... [...] (JURANDIR, 1041, p. 281).
Dr. Campos era autoridade na Vila, e por assumir o cargo de juiz substituto não poupava humilhação a quem quer que fosse, nem mesmo a uma criança, que ele denomina de moleque de favores.
- Mas, ó verme onde estavas? [...]
- Hein? Põe aí a cerveja. Não estás vendo a mesa? Não tem mais olhos seu vagabundinho? Sempre na safadeza, peraltíssimo! [...] Não se retire, não se retire, antes que eu lhe diga tudo o que eu tenho de dizer. Já não lhe disse isto? Sempre quando falo tem de ouvir. Como é que só porque mandei por a cerveja na mesa já vai se escapulindo? Onde estava? Que fazia, que demorou tanto? [...] é a sua vagabundagem, é a sua vadiação. Patife...
(JURANDIR, 1941, 211).
Fatos e comportamentos como os descritos são comuns entre personagens e transtornam o senso de realidade de uma maneira caótica, onde os sentimentos se afloram e, na maioria das vezes, mais para praticar o mal do que o bem, seja diretamente no tempo presente ou no passado quando os personagens são deslocados pela memória, característica essa que, segundo Maligo (1992) é uma das qualidade da obra de Dalcídio.
Além desses deslocamentos dos personagens, há momentos em que o próprio narrador lhes toma a vez no diálogo. Para Maligo (1992), “o uso variado de voz narrativa em terceira pessoa distanciada da ação, diálogo e monólogo interior indica a modernidade da técnica narrativa dos textos de Jurandir” (MALIGO, 1992, p. 29). Todavia, entre as inúmeras situações da Vila de Cachoeira, em todos os aspectos, se contrastam à imagem da moderna cidade de Belém e, pela ausência dessa possível modernidade mais diretamente visualizada na
urbanização das ruas e na construção de prédios, faz com que o menino Alfredo sonhe em sair de Cachoeira para ir estudar na capital.
Então a cidade para Alfredo era um reino de história encantada, toda calçada de ouro e com casa de cristal, meninos com roupas de seda e museus com muitos bichos bonitos.
[...]
Ali estava todo o seu sonho da cidade de bondes elétricos, arraial de Nazaré, largo da pólvora, as lojas de brinquedos, a Torre de Malakof, das senhas vermelhas. Aquele clarão chamava-o. Era o seu sonho de viagens
(JURANDIR, 1941, p. 119 - 130).
Alfredo é um menino descrito pelo autor como alguém submerso na Vila de Cachoeira, espaço que lhe causa angústia, sofrimento, doenças e ao mesmo tempo certo poder em relação a outras crianças mais humildes que ele. É um personagem que sonha com a cidade grande e alimenta esse sonho por meio de um caroçinho de tucumã, espécie de amuleto que o projeta para o futuro que é estudar em Belém.
De certo modo, é compreensivo que o universo do imaginário da criança que vive em áreas afastadas da capital como a Vila de Cachoeira, no Marajó, a cidade de Belém represente uma nova perspectiva de vida, pois é na cidade grande que o progresso, a educação e a civilidade acontecem, e é isso que o menino Alfredo encontra quando se refugia no caroço de tucumã.
Além de Alfredo, o estado de pobreza presente na obra afeta diretamente a vida das outras crianças que padecem, sofrem com doenças e fome sem perspectiva de melhorar a vida, assim como a pequena Marialva56, uma menina que pede esmolas nas casas e se submete a humilhações para poder ter o que comer.
[...] A pequena abria os olhos remelentos. A sua cara era encardida e gasta.
Menina ainda e parecia uma velha. Gaga, quase todos os dias vem com aquele saco sujo, de pano, que D. Amélia enchia de farinha.
[...] Marialva só fez foi esfregar com a costa da mão os olhos remelentos e
coçar as eternas corubas do braço... Mas Alfredo sempre imitava a sua gagueira, negava a farinha, mandava que fosse pedir ao bispo [...] (JURANDIR, 1941, p.120-121).
56 O nome desta personagem, considerando a primeira edição, ora é registrado como Marialva, ora
Na própria citação que descreve o sentimento de humilhação que passa a personagem Marialva, é possível de se notar que a criança é configurada por fios condutores que se contrastam às singularidades da infância projetada na capital paraense no início do século XX, em que pese o elevado padrão de conforto urbano alcançado durante o chamado ciclo econômico da borracha.
Ainda na mesma citação, pode-se afirmar que a menina é a representação de muitas outras crianças que sofrem com a pobreza na sociedade brasileira, apesar do seu reconhecimento como objeto de estudo e investimento na formação pública das crianças nos fins do século XIX e início do XX. Porém, de um modo geral, a imagem da criança retratada na obra não corresponde à imaginada para o futuro do país que se pretendia moderno e civilizado, principalmente no estado do Pará, que tinha como modelo de civilização a Europa.
A infância, em Chove, representa bem o que Márcio Souza (1994) escreveu acerca da pobreza que se ocultava na fase áurea da borracha. Segundo esse autor,
[...] a face oficial do látex era paisagem urbana, a capital coruscante de luz elétrica, a fortuna de Manaus e Belém, onde imensas somas de dinheiro corriam livremente. O outro lado, o lado terrível, as estradas secretas, estavam bem protegidas, escondidas no infinito emaranhado de rios, longe das capitais57 (SOUZA, 1994, p. 139-140.).
As afirmações desse autor coadunam com a situação do espaço em que vivem as crianças ribeirinhas em Chove. Tais condições de visível abandono e falta de higiene, chamou