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5.6.3 Analysis
De acordo como fora informado na seção anterior, a obra Serões da Mãe Preta reúne uma série de contos de animais que interagem entre si com atitudes e comportamentos humanos.
Proezas de um jabuti é primeiro ciclo formado por quatro histórias protagonizadas por um esperto e inteligente jabuti; As aventuras de um papagaio, também é um ciclo de quatro histórias que narram as aventuras de um papagaio falante; em seguida, alguns contos avulsos, de apenas um episódio, como: O batizado da preguiça; Os dois macacos; O cão o gato e o rato; A mutuca. Após esses grupos de contos independentes, segue um grupo de seis contos com a temática Os amigos mortos, e, por fim, Peripécias por que passou uma onça.
Após todos os contos, ainda nas páginas regulares da obra, há um grupo de versos, os quais fogem à forma como foram narrados os contos. A importância desses poemetos talvez esteja relacionada à própria proposta de leitura que previa que as crianças também tivesse acesso a esse tipo de texto. Por isso, eles são relacionados na obra como um importante exercício de leitura às crianças, conforme prevista.
[...] Os livros devem constar de assuntos úteis e ao alcance da inteligência dos alunos, tais como: narrações, factos históricos, fábulas apropriadas em prosa e verso, escritos sobre higiene, economia, agricultura, ciências naturais, etc. (A ESCOLA, 1900, p. 27).
Vale lembrar, conforme já comentado, que com a publicação de Serões, Juvenal Tavares, ao lado de Sílvio Romero e Couto de Magalhães, inaugurou no Brasil o gênero
24 Optei por citar alguns episódios, quase que integralmente no corpo do texto, para facilitar ao leitor a
contos de tradição oral para o público infantil, assim como a Mãe Preta como narradora de histórias para crianças.
Na primeira metade do século XX, outros escritores ganharam destaque, como por exemplo, o paraense Osvaldo Orico, que publicou Contos da Mãe Preta, em 1932; Viriato Corrêa (1937), que tem como narradora da obra Cazuza, uma negra chamada Vovó Candinha; e Raimundo Morais, em Histórias silvestres do tempo em que animais e vegetais falavam na Amazônia (1939), que recorre às lendas indígenas do Norte.
Apesar de esta tese ter se comprometido em analisar a infância. A educação e a criança na obra em questão, não foi possível escapar de dar atenção à figura da Mãe Preta, responsável pelos serões, mas, sobretudo por ser uma personagem influente na formação leitora da criança.
Conforme descrita pelo próprio escritor, Mãe Preta é uma figura lendária, que no Pará, diferentemente de outras regiões do Brasil, ela era reconhecida como parte das famílias, pois os cuidados que ela destinava às crianças brancas, tomando-lhe o papel de mãe, de ensinar a elas as primeiras palavras, de amamentá-las, enfim, essas práticas a faziam uma mulher competente, o que acarretaria a ela, assumir o papel de contadora de histórias registradas em livros. É possível que Juvenal Tavares tivesse se perguntado: quem melhor assumiria o papel de narradora de histórias para crianças que não fosse uma mulher que acumulasse experiências no trata os pequenos?
Então, de acordo com o que Juvenal Tavares informa no prólogo do livro, no estado Pará, o negro possivelmente seria feliz em sua condição de propriedade do senhor branco. Entretanto, ao selecionar a Mãe Preta para o papel principal de sua obra, mostra que mais do que integrada como parte da família, ela era uma autoridade do lar, pelos conhecimentos que possuía que a faziam mais importante na vida da criança do que a própria mãe branca.
A citação seguinte retirada do prólogo da segunda edição de Serões da Mãe Preta é longa, porém necessária para que o leitor possa refletir sobre a visão que Juvenal Tavares fazia dessa figura, trazendo-a não tão somente a mulher negra e livre, mas exalta também, com a sua obra, a importância atribuída à leitura da criança sendo reconhecida como sujeito histórico pela sociedade. No referido prólogo, ainda há importantes registros sobre alguns termos usados na época que diferenciavam as crianças brancas das negras, o que podem indicar que as crianças negras não tinham acesso aos mesmos bens culturais que as crianças brancas.
Mãe Preta
No Pará e Amazonas, a “mãe preta” é um tipo legendário criado pela escravatura. Não sei se no Sul apareceu igual personagem: o que sei, o que todos sabem, pelos tristes fatos da escravatura no Brasil, é que o escravo do Pará e Amazonas em nada era comparável com o do Sul.
Ali o negro era considerado, não como um homem, mas como uma besta de carga, uma simples máquina feita para o trabalho material e meio de enriquecer o branco. Para ele havia a senzala, coisa desconhecida entre nós; o “bacalháo25” e outros suplícios infamantes, instrumentos cruéis com que o
seviciavam e o levavam à mesma estiva com os animais irracionais. Aqui, não. O escravo era tratado como um membro da família, guardando-se apenas a distinção que naturalmente existe entre o criado e o patrão. As mulatinhas eram criadas com as meninas, com quem iam à missa e aos passeios, com suas chinelinhas de polimento e tacão alto, com rosários de ouro, etc.
Eram tratadas com recato e dormiam no mesmo quarto em que dormia a família.
A dona da casa, a branca, ou a “mãe tinga”, como a chamavam as rapariguinhas, concentrava em si o supremo poder do lar. Mas havia um outro ente, outra autoridade no estudo doméstico, igualmente
respeitável, que partilhava com ela esse poder: – era a “mãe preta”, ordinariamente uma mulata velha, séria e bondosa, que tinha a grave incumbência de criar todos os meninos da “sinhará26”.
Oh! quantas recordações docemente saudosas, não nos traz este ente querido, em cujo “colo” íamos para o banho, a cuja narração de historietas inverossímeis passávamos as horas agradáveis do serão, a cuja voz, cantando o “ninã-nínã” ou o “murucutu27 empresta o teu sono”, adormecíamos em
nossa redinha de fio de algodão!...
A “mãe preta” tomava a si o cuidado especial e carinhoso de dar aos meninos todo o bom tratamento que lhes convinha, asseiando-os com especial dedicação.
À noite, rodeada das crianças, embaixo de uma grande candeia de barro alimentada com azeite de andiroba, ela lhes contava alegres e divertidas histórias.
Se fossemos poeta de gênio, em vez desta singela notícia, consagraríamos um poema a essa personalidade da ‘mãe preta’, cuja imagem sempre querida, guardamos no peito, cuja recordação perdura em nossa memória, em traços indeléveis.
Na impossibilidade, porém, de cometermos tão transcendental trabalho, apresentamos este livrinho, em que se procura copiar com verdade os “contos da mãe preta” (JUVENAL TAVARES, 1990, p. 20-21).
Como é possível perceber na longa citação, o autor, além de procurar mostrar a imagem da Mãe Preta como uma mulher bondosa, ele a autoriza a assumir a tarefa de contadora de histórias, o que implica habilidade e competência para lidar com a entonação da
25 Bacalhau, segundo Rosa Assis (2014), significa um chicote de couro para bater e maltratar pessoas,
em especial os escravos.
26 Sinhará, refere-se à patroa, mulher branca (ASSIS, 2014). 27 Murucutu – s. f. Coruja.
voz, com os gestos, com a linguagem adequada, e, por fim, com o resultado final que é o aprendizado das crianças, iniciado pelo domínio da oralidade e finalizando com a leitura de versos em voz alta. Essa situação se confirma à medida que Mãe Preta vai conduzindo as histórias, bem como pelas explicações que ela dá às crianças que ficam atentas, até o momento em que avalia o aprendizado das crianças elegendo um menino para ler uma das histórias em voz alta.
Portanto, de acordo com esse papel que a Mãe Preta desempenha, percebe-se que sua condição de contadora de histórias não é a única razão que interfere na sua escolha como contadora de história e nem mesmo o fato de ela ser tratada como um membro da família onde vivia como escrava e até assumia o comando dos lares no lugar da sinhará, mas o fato de ela se comparar a uma professora pode ter sido a grande razão de ser eleita como personagem principal da obra de Juvenal Tavares. Além disso, por ser mulher, Mãe Preta tinha o dom da maternidade e sapiência para lidar com crianças, o defendiam os intelectuais da época, entre os quais José Veríssimo (1985), sobre a natureza educadora da mulher, como mãe e mestra.
Em qualquer momento, essa possibilidade é confirmada em palavras pelo autor, principalmente quando ele exalta as qualidades da Mãe Preta e o seu importante lugar na família dos senhores brancos, sem omitir as marcas da escravidão refletidas em suas palavras que a identifica como “uma velha negra [...], em cujo colo íamos para o banho [...], que tinha a incumbência de criar os filhos da sinhará”.
Segundo Luís da Câmara Cascudo (2000), o povo brasileiro se acostumou com a voz das mães pretas. Do mesmo modo Gilberto Freyre (2002) também as destaca pelas relações que elas estabeleciam no convívio entre as crianças, filhos de senhores brancos, considerado que essa relação se constituiu como elemento fundamental na formação da cultura mestiça brasileira, pois, nesse convívio, as mães pretas transformavam vários elementos da cultura europeia através da impressão de um outro ritmo dado a canções de ninar da tradição portuguesa. Refere-se ainda do cuidado que elas tinham com as crianças, que iam desde a higiene do corpo até o resguardo espiritual, quando elas faziam uso do conhecimento popular como as simpatias, as benzeduras, o preparo de comidas e das histórias que elas contavam às crianças.
Assim como Gilberto Freyre (2001) chamam a atenção para a importância que a “velha negra” teve para a formação da sociedade brasileira, Juvenal Tavares vai além dessas práticas domésticas descritas por esses autores quando consagra a Mãe Preta como detentora do conhecimento, como leitora e preceptora.
Segundo os apontamentos do Vicente Salles (1990), Mãe Preta também foi eleita por José Veríssimo em O Conto Popular, publicado em 1889. Nesse conto, Veríssimo destaca a senhora negra como uma grande narradora das “histórias da carocha”, chegando a elevar o elemento africano à categoria de mais importante agente de comunicação do folclore brasileiro.
Monteiro Lobato (1957), no início do século XX, apresenta a Tia Nastácia, uma senhora negra que desfruta da afetividade da matriarcal família branca para a qual trabalha e, ao mesmo tempo, apesar de suas breves, porém, muito significativas incursões pela sala e pela varanda da casa da Dona Benta, ela encontra no espaço da cozinha emblema de seu confinamento e de sua desqualificação social (LAJOLO, 1998), contrariando a ideia de Juvenal Tavares sobre a liberdade que essa personagem tinha para circular nas casas dos seus senhores como membro da família.
Rafaela de Andrade Deiab (2010) desenvolveu uma pesquisa intitulada A mãe-preta na literatura brasileira: a ambiguidade como construção social (1880-1950). Nessa pesquisa a autora analisa a figura da Mãe Preta na produção do período de 1888 a 1950. Segundo suas análises, além de terem sido tomadas como vias de acesso a interpretações paradoxais sobre a escravidão brasileira e seu legado, a figura da Mãe Preta, na relação de afeto e intimidade para com a criança, não conseguiu romper com a diferença e hierarquia social justamente pela tensão construída nas representações ambíguas dessa figura na literatura brasileira. Entre as várias funções que essa intérprete da obra Serões da Mãe Preta exerceu, o que mais se destaca é o de ama de leite de crianças brancas, de modo que é muito comum em registros fotográficos sua imagem ao lado de uma criança branca.
De um modo geral, a mulher negra, por muito tempo se reservou a amamentar os filhos das famílias brancas28, enquanto lhes era negado o direito de amamentar os próprios filhos, os quais eram colocados nas rodas dos expostos, uma prática que não escapa da historiografia que procura configurar a história social da criança e da infância.
Portanto, levando-se em conta o destaque dado por Juvenal Tavares à Mãe Preta, percebe-se, imediatamente que as crianças ocupam um lugar aparentemente periférico nos serões. . Isso, talvez reflita a dificuldade de se encontrar registros fotográficos de crianças e sobre elas nos fatos e acontecimentos registrados no final do século XIX, devida a timidez com a que aparecem na obra se comparadas à contadora das histórias. Tal fato é muito
28 Cf. GUIMARÃES, Damiana. No colo da ama de leite: a prática cultural da amamentação e dos
cuidados das crianças na província do Grão-Pará, no século XIX. Dissertação de mestrado. ICED/UFPA, 2013.
comum na história que reconhece a criança como sujeito, o que signifique que ela tenha ganhado a confiança dos adultos de escrever sua próprias história, esta geralmente contada e retratada por outros.
Ocupar um pouco do espaço destas páginas sobre as questões que envolveram a apresentação da Mãe Preta, foi uma maneira de elucidar que as crianças negras estão no meio da história da escravidão no Brasil, que nas palavras do autor, são “as mulatinhas”, estas ligadas diretamente à Mãe Preta pela condição de escrava que já não era mais, salva pela abolição e “os meninos” e “as meninas”, seriam os filhos brancos da mãe tinga, ou sinhará.
A distinção remonta uma dúvida sobre o que faria com que Juvenal Tavares, um defensor da abolição da escravatura no Pará, diferenciaria as crianças negras das brancas pela identificação como são apresentadas no prólogo. Estaria o autor comprometido com os governantes que lhes autorizaram a publicação da obra para que não levantasse polêmica sobre essa questão? Ou estaria o autor habituado com os termos, que mesmo depois da escravidão não mudaram?
Por outro lado, é provável também que Juvenal Tavares, como um jornalista crítico até temido, poderia estar fazendo uma crítica, e ao mesmo tempo uma denúncia com o emprego do termo com o qual ele não concordava e, por isso, fez uso propositalmente dos termos para chamar a atenção do leitor informando-lhe que as diferenças entre crianças pretas e brancas ainda era uma realidade que precisaria mudar, posto que a elas também caberiam todo o reconhecimento como sujeitos de direitos, o que faz com que ele ressalte os termos.
De todo modo, nota-se que apesar do reconhecimento da criança, sem distinção de raça ou classe social, não assegura à criança negra de ser simplesmente criança, a julgar o fato de os senhores brancos permanecerem com as “mulatinhas” em suas casas por estarem interessados em aproveitá-las em algum momento de suas vidas, como força de trabalho. Essa era a lógica do sistema escravista que se prolongou mesmo com o “fim da escravidão”. E Juvenal Tavares, como um abolicionista, conforme apontam os críticos sobre sua biografia e atuação em prol da abolição da escravatura, possa ter se valido do termo propositalmente para lembrar a sociedade da condição que ainda viviam as crianças negras e de como ainda eram tratadas para diferenciá-las das brancas, inclusive chamadas de rapariguinhas pelos portugueses que na terra se estabeleciam com suas famílias.
Para reforça essa possibilidade em relação às crianças negras mencionadas na obra de Juvenal Tavares, vale considerar, segundo os estudos desenvolvidos por Venâncio (1988); Freyre (1952); Mott (1972), que as crianças negras que moravam nas casas dos seus patrões desempenhavam múltiplas tarefas em casa, tais como: servir à mesa, abanar moscas, carregar
água, lavar pratos, servir café, auxiliar na cozinha, na limpeza da casa, esvaziar e limpar os urinóis, preparar o banho dos senhores, além de tudo isso, elas também lavavam os pés dos membros da família e de visitantes, como também engraxavam os sapatos, escovavam as roupas, carregavam pacotes, balançavam a rede, faziam pequenas compras, levavam recados, cuidavam das crianças, eram pajens e mucamas.
Esses resquícios da escravidão são evidenciados em obras literárias, a citar a obra Negrinho do Pastoreio, adaptação de João Simões Lopes Neto. É uma lenda do folclore brasileiro que se passa no Sul do país. Narra a história de um menino pequeno e negro, que sem nome e sem padrinho é chamado de Negrinho. Pela sua condição de filho de escravo, exercia função de adulto no manejo dos cavalos de seu “pai de criação” que não media esforços em torturá-lo sob a menor falha que cometesse no pastoreio (LOPES NETO, [s/d], p. 15).
No conto intitulado Negrinha, escrito por Monteiro Lobato, em 1920, é narrado a história de uma personagem também chamada Negrinha, uma menina órfã que aos quatro anos foi adotada pela cristã D. Inácia, uma viúva gorda e rica que não tivera filhos, mas era mestre na arte de destratar crianças. O escritor narra, com precisão, as inúmeras crueldades que a dama, esteio da religião e da moral, exercia sobre Negrinha, “até que a morte levasse aquela carnezinha de terceira de uns quinze quilos mal pesados”. (LOBATO, 1973, p. 12).
Em Memórias de Brás Cubas, nos raros momentos em que Machado de Assis faz referência aos negros nessa obra, ele narra episódios da infância do anti-herói Brás Cubas (Nhonhô), encenando a primeira paixão da adolescência desse personagem pela cortesã Marcela. No capítulo XI, há um episódio que descreve a vida de Prudêncio, um moleque de casa “[...] era o meu cavalo de todos os dias [...]; eu trepava-lhe o dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, - algumas vezes gemendo [...]” (ASSIS, 2004, p. 32).
A escritora Cora Coralina, em seu livro O Prato azul-pombinho (2002), no conto De como acabou, em Goiás, o castigo dos cacos quebrados no pescoço, ela registra a história da menina Jesuína, filha de escrava forra e órfã, criada pela madrinha de mesmo nome, senhora “apatacada, dona de Teres-Haveres”. A menina Jesuína, um dia, por azar, quebra a tampa de uma terrina e recebe como castigo um colar de cacos quebrados no pescoço. Numa noite, uma das pontas do caco corta-lhe uma veia do pescoço, ficando a noite inteira a esvair-se em sangue, e quando a madrinha acorda, encontra-a morta.
Como é possível notar, a violência sofrida por crianças no percurso da história não está somente nas formas de tratamento que distinguem as negras das brancas, mas essas e
outros tipos de violência ganharam as páginas da ficção como um meio de denúncia sofridas por crianças negras, escritores como Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo, entre outros, transformaram sua obras em espaços onde puderam retratar diversos tipos de punições que também sofreram em suas infâncias.
Essas são algumas representações da criança negra discutidas na literatura desencadeadas a partir da obra Serões da Mãe Preta, cuja personagem que dá nome ao título pode ter dado seu grito de liberdade quando Juvenal Tavares a deslocou do cativeiro à obra, transformando-a em mais do que uma simples contadora de histórias para crianças, mas em uma mulher conhecedora das coisas, capaz de desempenhar a função de uma educadora do lar.
Nesse sentido importa reforçar que, segundo Juvenal Tavares, assim como a Mãe Preta, uma ex - escrava é representa como uma mulher considerada no seio familiar, as crianças negras citadas como “mulatinhas”, pelo menos não aparentam sofrer violência física como as retratadas nas outras obras exemplificadas.
Como nas obras citadas, no decorrer da história da infância brasileira, crianças brancas e pobres, assim com as negras pertenciam a grupos de
[...] pessoas pobres que não tinham recursos para criar seus filhos, por mulheres da elite que não podiam assumir um filho ilegítimo ou adulterino e, também, por senhores que abandonavam crianças escravas e alugavam suas mães como amas de leite (VENÂNCIO, 1996, p.67).
As “mulatinhas” do prólogo de Juvenal Tavares se inserem no grupo de filhas de negras livres e vêm à tona num momento em que a infância começa a "tomar corpo", a ser notada enquanto um ser diferente do adulto, passando a ser alvo de atenção especial, sendo cada vez mais institucionalizada (ARIÈS, 1989), mesmo que essa distinção ainda estivesse longe de desaparecer, conforme constatada, em plena república, nas terminologias usadas pelo autor, como concebida por Rizzini (1993, p. 94) quando expõe que "a diferença na