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7. VaReleVeRINg VeD NaTIONalTHeaTReT
7.3 Funn fra intervjuer
O filme Confissões de Adolescentes, já nas primeiras cenas, aponta para as diferenças entre os adolescentes de hoje e a juventude da geração passada – cujos alguns membros, agora, são os pais desses adolescentes – ao comparar os comentários postados nas páginas do facebook com os antigos diários, normalmente, escritos por meninas: “No tempo dos meus pais era mais fácil, as meninas tinham diários e escreviam tudo neles, ninguém ia ler mesmo.”29. Além disso, também deixa claro que a relação com a tecnologia e com as mídias
digitais é um elemento-chave para falar de jovens atualmente. As primeiras cenas são compostas por confissões audiovisuais de adolescentes, em que cada uma delas levanta um problema ou expressa um sentimento ou conta uma experiência, apontando para os temas que serão abordados no decorrer da narrativa fílmica. E mais, o filme todo é narrado em conjunto com as barrinhas do facebook, isto é, a própria forma da narrativa fílmica é feita de maneira a imitar a página do facebook. As redes sociais não chegam a ser protagonistas em Confissões de Adolescentes como o é a música em Somos tão jovens, mas são coadjuvantes importantíssimas.
Embora muita coisa tenha mudado desde a época em que adolescentes escreviam diário até os dias atuais, em que o facebook exerce, dentre outras, a mesma função daquele,
28 Carles Feixa, 2014.
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algumas situações e problemas não deixaram de existir. A configuração pode ser nova, isto é, o mundo pode estar diferente, e o estilo de vida ter mudado, mas alguns dilemas e algumas experiências centrais continuam bem semelhantes. Mesmo porque a adolescência é, entre muitas coisas, uma fase socialmente construída para as primeiras vezes – o primeiro beijo, o primeiro namoro, a primeira transa –, isto é, para a experimentação de novas situações; situações que, teoricamente, não faziam parte da vida de uma criança. É a fase em que o jovem começa, aos poucos, a ser introduzido no mundo adulto. É uma fase de transição social, fisiológica e psicológica; não apenas experiências, situações e responsabilidades mudam; o próprio corpo está em modificação, o que implica em alterações psicológicas assim como no pensamento e nos sentimentos.
Confissões de Adolescentes consegue desenhar um panorama geral dos interesses, pensamentos, sentimentos e dilemas dos jovens assim como das experiências cotidianas e dos problemas enfrentados pelos adolescentes das classes média e alta urbanos, nos anos atuais, como, por exemplo: relação de insegurança com o próprio corpo; insegurança projetada na zombaria do outro; bullyng; instabilidade emocional; alternâncias bruscas na autoestima; autoconhecimento; descoberta ou invenção de uma identidade própria, de um eu; o primeiro beijo; a primeira vez; virgindade; sexualidade; gravidez; independência financeira; consumo de um estilo de vida caro; festas, baladas e bebidas alcoólicas; mundo virtual e mídias digitais, games, celulares, internet e redes sociais; amizades, inimizades, namoros e relacionamentos; relacionamento tensivo com os pais; vestibular; escolha da faculdade; escolha de uma profissão; trabalho; expectativas para o futuro, etc.
O filme retrata uma juventude, a juventude de classe média alta urbana da década de 2010. Ele não se propõe a dar conta da variedade de realidades juvenis existentes, entretanto, ao focar no universo das quatro irmãs cariocas, Christina (Sofia Abraão), Bianca (Bella Camero), Alice (Malu Rodrigues) e Carina (Clara Tiezzi) – que residem num apartamento confortável, localizado num bairro bom do Rio de Janeiro, e que possuem um padrão de vida relativamente alto em comparação com grande parte da população brasileira –, ultrapassa-o, chegando a questões centrais que se configuram muito mais em função da idade biológica e da geração (idade socialmente constituída) do que da classe social ou do gênero, apesar de não se desvincularem dessas questões.
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A narrativa fílmica concentra-se em quatro momentos diferentes da vida de um adolescente, isto é, cada irmã vive algumas das experiências pelas quais, usualmente, um adolescente passa. O filme começa com a cena em que as quatro irmãs são informadas pelo pai sobre as dificuldades financeiras da família e que, provavelmente, terão que se mudar de bairro, o que nenhuma delas deseja (com exceção de Christina, que não mora mais na casa do pai), pois é no bairro em que moram que estão seus amigos, namorados e a escola onde estudam. Então elas se propõem a cortar gastos. Christina, a irmã mais velha, dispõe-se a procurar um emprego para pagar suas próprias contas; Bianca propõe-se a diminuir os gastos com manicures, já que ela era capaz de fazer as próprias unhas e a das irmãs; Alice tenta ser responsável pela limpeza da casa; e Carina, a irmã mais nova, a melhor adaptada às tecnologias, começa a realizar consultas relacionadas a aparelhos eletrônicos e computadores. No final, elas não conseguem contribuir muito para melhorar a situação e acabam aceitando o fato de que irão mudar de bairro.
Carina, a mais nova, é a personagem que melhor explicita a relação de familiaridade dos adolescentes com as tecnologias. Além disso, ela vive um momento importante na vida de algumas meninas: a expectativa da festa de 15 anos. Até então não havia despertado para os namoros; acreditava-se uma menina pouco atraente, que não interessava a nenhum menino, até descobrir que seu colega de classe, Felipe, é apaixonado por ela a ponto de se fazer passar por um vampiro e imitar a estória de amor narrada no best-seller infanto-juvenil Crepúsculo a fim de conquistá-la. Carina e Felipe iniciam um namoro. É por meio de Carina que o filme aborda a íntima relação dos adolescentes de hoje com os aparelhos eletrônicos e computadores e também põe em foco o primeiro namoro, os primeiros passos da vida amorosa.
Alice, a terceira filha, namora Marcelo há algum tempo e está focada em perder a virgindade, mas, quando, finalmente, consegue, engravida. É por meio de Alice que o filme aborda a primeira vez e a gravidez na adolescência. A adolescente passa por uma difícil transição desde a experiência da iniciação sexual e todas as transformações de perspectiva e percepção de mundo que isso implica até seu mundo desabar diante da notícia indesejada de uma gravidez não planejada. Ela passa por difíceis momentos, nos quais tem que decidir se teria ou não o bebê e como seria sua relação com o pai do bebê. Alice encontra-se encurralada, tendo que tomar as próprias decisões; decisões essas que afetarão o rumo de sua
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vida e da vida de seu namorado e que terão consequências permanentes. Talvez seja esse o momento em que, pela primeira vez, ela se vê, claramente, diante do peso e da responsabilidade de suas ações e escolhas; está diante de um momento irreversível: não pode voltar no tempo e simplesmente não estar grávida. Assim, teria que escolher entre duas opções “ruins”, fazer um aborto – o que implica riscos à própria vida, tendo em vista que é ilegal no país, portanto não é feito em hospitais, onde teria uma assistência melhor – ou ter um bebê aos 16 anos, tornar-se mãe. Ou seja, sua transição para o mundo adulto tenderia a ser abrupta, diminuindo suas possiblidades de desfrutar, plenamente, de uma moratória social como muitos jovens de classe média e alta urbanos fazem.
Bianca, a segunda filha, vive um momento de descoberta sexual. Experimenta um relacionamento homossexual às escondidas, pois enfrenta dificuldades para se abrir com os amigos, com as irmãs e com o pai, Paulo, com o qual tem uma relação conflituosa. Ela se sente pressionada por Paulo a optar por prestar vestibular para direito, tendo em vista que ele é advogado e que sua irmã mais velha já está seguindo os passos seguros do pai. É por meio de Bianca que o filme aborda a fase do vestibular e da escolha de uma faculdade, que implica na escolha de uma profissão ou de uma carreira, e, por conseguinte, trata-se de um momento em que muitos adolescentes se vêm obrigados a pensar no futuro, a decidir o que, teoricamente, farão pelo resto de suas vidas.
Christina ou Tina, a filha mais velha, vive as experiências de sair da casa do pai e morar sozinha, de procurar estágio na sua área de formação, direito – mesmo não gostando da ideia de se tornar uma advogada, já que, no fundo, deseja ser cantora –, e de trabalhar numa loja de doces para pagar o aluguel. Além disso, nesse momento, passa por um processo de desgaste do primeiro relacionamento sério – desde o tempo da escola, ela namorava Lucas, mas eles já não se entendem tão bem e, ainda por cima, ela descobre, pelo facebook dele, que é enganada. É por meio de Tina que o filme aborda a dificuldade de decidir pela carreira a seguir, o início da vida profissional e os caminhos para independência financeira.
O filme deixa muitas questões em aberto, não resolve todos os problemas tematizados, de forma a ressaltar que, na vida, não há regras nem caminhos fáceis ou preestabelecidos. A narrativa fílmica deixa a homossexualidade de Bianca em aberto, mostrando que é uma fase de autodescoberta, que ela ainda não está preparada para assumir um relacionamento
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homossexual. Deixa em dúvida se Christina vai abandonar a faculdade de direito para se dedicar à música, escolha que configura o seguinte problema: um jovem deve seguir os passos seguros para uma vida estável ou arriscar e dedicar-se ao que gosta de fazer, isto, quando e se souber do que gosta? Deixa em aberto como será a vida de Alice e Marcelo com um bebê, tendo em vista que eles optam por ter o filho e por contar a Paulo sobre a gravidez. No final, o filme passa a impressão de que não existem respostas prontas ou preestabelecidas aos milhares de perguntas, dúvidas e incertezas que costumam rondar as cabeças dos adolescentes, ou seja, esses jovens terão que ir descobrindo ou inventando respostas e caminhos ao longo do tempo e da vida.
Em Confissões de Adolescentes tudo acontece ao mesmo tempo e muitas coisas mudam rapidamente – o tempo voa – assim como na vida dos adolescentes de hoje. O início do filme traduz bem o momento atual com uma multiplicidade de vozes se sobressaindo umas às outras, advindas das várias confissões audiovisuais de adolescentes. A adolescência é um momento turbulento em que as experiências são vividas com intensidade; há muitas transformações e escolhas a serem feitas. A criança, normalmente, na nossa sociedade, não tem que decidir por si própria, não governa a própria vida, já os adolescentes vivem um meio termo, não são completamente independentes, são obrigados a prestar contas para os pais – além do mais, precisam deles e, na maioria das vezes, são dependentes financeiramente –, mas já começam a sentir a pressão de ter que tomar as próprias decisões e, por conseguinte, de se encontrarem diante de situações com as quais não sabem lidar. Começam a ter consciência de que nem sempre sabem o que fazer ou o que querem, principalmente, o que querem para o futuro. Que faculdade fazer? O que querem fazer da própria vida? – perguntas que traduzem a “aterrorizante” ideia de ter que decidir o que farão pelo resto da vida. É um momento crísico, em que tudo está mudando, em que existem mais incertezas e dúvidas do que certezas e verdades e em que, no fundo, pouco se sabe sobre a vida e sobre o futuro. Além do mais, estão tão acostumados à vida presente e não gostam de pensar em mudar, em sair da escola onde estudam, em se distanciar dos velhos amigos e fazer novas amizades, em ter mais responsabilidades, em começar a trabalhar para pagar as próprias contas, etc. Os jovens e os adolescentes vivem um momento de transição, de mudanças e escolhas, momento agravado, nos dias atuais, pela velocidade em que as horas passam e as coisas se modificam.