3 USE CASES AND REQUIREMENTS
3.2 Functional requirements
A sintonia de afeto está enraizada em comportamentos, ações e propósitos. Eis alguns exemplos citados por Stern:
• Uma menina de nove meses de idade fica muito excitada quando vê um brinquedo e tenta alcançá-lo. No momento em que consegue agarrá-lo, ela emite um exuberante “aaaaah!” e em seguida olha para a mãe. A mãe retribui o olhar e ergue os ombros como uma dançarina, com a duração de mais ou menos o mesmo tempo que a “aaaaah!” da filha durou.
• Um menino de nove meses sentado na frente da sua mãe. Ele sacode o chocalho para cima e para baixo, demonstrando interesse e divertimento. A mãe olha e começa a fazer os mesmos movimentos do braço do filho, balançando a cabeça para cima e para baixo.
• Um menino de oito meses e meio tenta alcançar um brinquedo quase fora de seu alcance. Ele movimenta-se, esticando os braços, os dedos e quando está quase alcançando ele tensiona o corpo para conseguir aproximar do brinquedo. A mãe, neste momento, diz “uuuuuh… uuuuuh”, fazendo um esforço vocal que vai crescendo. O esforço vocal da mãe equipara-se ao esforço físico do filho.
Algumas características da sintonia afetiva para que se consiga o compartilhar intersubjetivo de afeto são: a impressão de algum tipo de imitação, através da
equiparação do comportamento manifesto do bebê; a constatação de que a modalidade de expressão da mãe e do bebê são diferentes (por exemplo: intensidade e duração da voz da menina são igualadas ao movimento do corpo da mãe); a referência fundamental para a equiparação como o estado do sentimento e não o comportamento externo (o importante aqui é algum aspecto do comportamento que reflete o estado interno da pessoa). A sintonia afetiva está relacionada com o estado interno do eu e do outro:
A sintonia de afeto, então, é o desempenho de comportamentos que expressam a qualidade do sentimento de um estado afetivo compartilhado, sem imitar a exata expressão comportamental do estado interno (Stern, 1992, p. 126).
A expressão dos estados internos, subjetivos, não depende da imitação restrita de comportamentos, mas dos meios de compartilhar estes estados afetivos internos, o que vem a ser a sintonia afetiva.
A troca intersubjetiva em relação ao afeto requer: capacidade dos pais para a leitura do sentimento do bebê a partir de seu comportamento manifesto; história de intimidade com os sentimentos do bebê, possibilitando a realização de um comportamento que corresponda de alguma forma ao comportamento manifesto do bebê; capacidade do bebê para a leitura do comportamento dos pais, não apenas pela imitação do seu comportamento, mas como relacionado aos seus estados afetivos internos:
É apenas na presença dessas três características que os estados de sentimento dentro de uma pessoa podem ser reconhecíveis para outrem e que ambos podem sentir, sem usar a linguagem, que a transação ocorreu (Stern, 1992, p. 124).
A experiência de comunhão e comunicação dos estados internos para o desenvolvimento psíquico da criança é um dos aspectos mais relevantes segundo Stern. Em seus experimentos o maior motivo que as mães citaram para sua sintonia com o bebê foi a experiência de comunhão interpessoal. O motivo para tal sintonia apontado foi o “estar com”, “compartilhar”, “participar de”, “juntar-se a”.
A comunhão, na visão de Stern, significa compartilhar a experiência de outrem sem tentar mudar o que a pessoa está fazendo ou acreditando:
Está claro que a comunhão interpessoal, conforme criada pela sintonia, desempenhará um importante papel para que o bebê venha a reconhecer aqueles estados de sentimento internos
como forma de experiência humana que são compartilháveis com outros seres humanos. O reverso também é verdadeiro: estados de sentimento que nunca foram sintonizados serão experienciados apenas sozinhos, isolados do contexto interpessoal da experiência compartilhável. O que está em questão aqui não é nada menos do que a configuração e extensão do universo interno compartilhável (Stern, 1992, p. 135).
A ausência, a falha ou a perda da experiência de comunhão interpessoal, na visão de Stern, constitui a base das expressões psíquicas patológicas.
Por meio da qualidade interna do sentimento com que um bebê busca um brinquedo, segura um bloco, dá um chute com o pé ou escuta um som, podem ser feitas sintonias. Alguns aspectos gerais do comportamento foram citados pelo autor, relacionados à experiência de sintonia afetiva: intensidade – do comportamento de si e do outro, como foi citado nos exemplos anteriores, a intensidade do comportamento físico do bebê e a intensidade do comportamento vocal da mãe; tempo – a regulação do tempo corresponde aos ritmos das ações, “os bebês parecem ser bem dotados com a capacidade de equiparar padrões temporais” (Stern, 1992, p. 136), como no exemplo da vocalização do bebê “Aaaah, Aaaah…”, e a mãe responde balançando a cabeça de forma semelhante ao ritmo e duração da vocalização do bebê; forma – refere a sintonização de uma característica espacial do comportamento, como o exemplo da mãe que movimenta a cabeça no mesmo sentido que o bebê balança o chocalho.
Em todos os experimentos realizados por Stern citados nesta obra, torna-se visível que o comportamento das mães revelaram uma busca de comunhão e de compartilhamento de experiências, na fidelidade ao comportamento do outro e ao comportamento de si mesma.
A identificação de um estado interno em si e no outro, o alinhamento do ritmo vital de si ao ritmo do outro, enfim a sintonia e os afetos de vitalidade são fundamentais no processo de constituição de um self subjetivo.
Por meio da qualidade interna do sentimento com que um bebê busca um brinquedo, segura um bloco, dá um chute com o pé ou escuta um som, podem ser feitas sintonias:
Alinhamento e sintonia com os afetos de vitalidade permitem a um ser humano “estar com” outro, no sentido de compartilhar experiências internas em uma base quase contínua. É essa
exatamente nossa experiência de nos sentirmos conectados, de estarmos em sintonia com outrem (Stern, 1992, p. 139).
Stern conclui o seu capítulo sobre o senso do eu subjetivo apontando “a sintonia como um trampolim para a linguagem” (Stern, 1992, p. 142). O bebê, nesta fase, possui conhecimento e experiência do mundo interpessoal, começando o desenvolvimento da linguagem verbal através de símbolos significativos, formando assim um senso do eu verbal na relação com o outro.
Fowler (1996) aponta a importância da afinação ou sintonia afetiva na vida das pessoas e que esta afinação proporciona insights que a comunicação verbal pode obscurecer ou distorcer. Ele menciona que ficou fascinado ao olhar os exemplos citados por Stern e por outros autores que estudam o modo como os bebês interagem com os seus cuidadores primários, neste processo de harmonização emocional:
A harmonização é processo de vir a ser dinâmico, mais do que uma série de episódios ou uma categoria de afetos. Nestas ritualizações de comportamento, estamos vendo o surgimento de atividade pré-verbal, pré-simbólica, e ainda assim proto-simbólica (Fowler, 1996, p. 37).
A partir de Fowler e de Stern, pode-se entender a harmonização como sintonia afetiva, constituindo uma resposta da relação estabelecida entre o bebê e a mãe e ou os cuidadores. É um processo de harmonização de si com o outro e do outro consigo, um processo de “estar com”, “sentir com”, “aprender com”, “descobrir com”, “comunicar com”, enfim “compartilhar” significados e experiências. Esta experiência de harmonização, de forma criativa e dinâmica, poderá favorecer a emergência de um self religioso ou de fé.