4 SPECIFICATION OF ASSETS
4.2 Environment model
Segundo Fowler (1996), nenhum relato sobre o desenvolvimento da fé na infância é suficientemente abrangente se não considerar a formação das representações de Deus. Ele percebe como reducionistas os relatos de Ludwig Feuerbach, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud sobre o “nascimento de Deus”, com explicações da tendência humana de projeção das necessidades de dependência. Fowler considera a obra O nascimento do Deus vivo, de Ana Maria Rizzuto, como um rico relato das construções infantis das imagens de Deus e apresenta a autora como uma psicanalista freudiana devotada, mas revisionista.
A área de pesquisa e estudo de Rizzuto está voltada para a formação da representação de Deus na infância. Assim ela escreve: “Minha área de competência é a formação da representação de Deus durante a infância e suas modificações e seus usos durante o ciclo da vida. É este processo que eu chamo de ‘nascimento do Deus vivo’” (Rizzuto, 2006, p. 65).
O processo de desenvolvimento humano se dá ao longo do ciclo vital, e as transformações dependem da interação da pessoa com as outras pessoas e com o ambiente, compondo assim a história da vida psíquica:
O processo desenvolvimental de formar uma representação de Deus é excessivamente complexo e é influenciado por uma diversidade de fenômenos culturais, sociais, familiares e individuais, que vão desde os níveis biológicos mais profundos da experiência humana até a mais sutil das realizações espirituais (Rizzuto, 2006, p. 237).
A representação objetal de Deus, apresentada na obra de Rizzuto, forma-se na infância, possui uma história e implica uma transformação dinâmica ao longo dos anos. Para Rizzuto, esta representação de Deus é considerada como um objeto transicional ilusório, em termos winnicottianos.
Com relação ao termo “ilusório”, Rizzuto, em nota de rodapé, retoma a etimologia da palavra. “Ilusão” origina-se do verbo latino illudo, que é formado a partir do verbo ludo (brincar), relacionando ao “brincar com”. Assim, pode-se entender que o termo “ilusório” implica um jogo entre a mãe e o bebê, existindo uma interpenetração entre a dimensão de ilusão e a de realidade: “É impossível separar a mãe criada pela criança da mãe que ela encontra” (Rizzuto, 2006, p. 232, nota de rodapé).
Rizzuto se refere à contribuição winnicottiana sobre o objeto transicional, o espaço transicional e as relações objetais, para uma maior compreensão da representação de Deus na primeira infância, a qual prolonga-se na vida adulta.
De acordo com Alletti (2007), transicional não é tudo aquilo que de alguma forma une o subjetivo ao objetivo, mas é aquilo que põe em jogo dinâmicas profundas e unificadoras, é aquilo que “faz ponte” (bridging) entre o mundo interno e o mundo externo.
Para Winnicott (1975), a experiência humana está fundamentada na área intermediária, transicional entre o mundo interno e o mundo externo. Esta experiência implica a primeira possessão não eu, na distinção entre o objeto em si e a sua representação, bem como o uso do mesmo:
Os objetos transicionais e os fenômenos transicionais pertencem ao domínio da ilusão, que está na base do início da experiência. Esse primeiro estádio do desenvolvimento é tornado possível pela capacidade especial, por parte da mãe, de efetuar adaptações às necessidades de seu bebê, permitindo-lhe assim a ilusão de que aquilo que ele cria existe realmente (Winnicott, 1975, p. 30).
A área intermediária de experiência,
incontestada quanto a pertencer à realidade interna ou externa (compartilhada), constitui a parte maior da experiência do bebê e, através da vida, é conservada na experimentação intensa que diz respeito às artes, à religião, ao viver imaginativo e ao trabalho científico criador (Winnicott, 1975, p. 30).
Para uma maior compreensão da representação das imagens de Deus, é importante uma retomada breve dos conceitos winnicottianos de objeto, espaço e relação objetal.
O objeto transicional refere-se a uma representação simbólica de algo interno, transitando entre o dentro e o fora, entre o real e o imaginário:
Não é o objeto, naturalmente que é transicional. O objeto representa a transição de uma criança de um estado de estar fundido com a mãe para um estado de estar em relação com a mãe como algo externo e separado (Winnicott, 1975, p. 30).
O objeto transicional representa a “primeira possessão do não eu” (Winnicott, 1975, p. 13) e refere-se ao campo da experiência:
Pode-se encontrar ampla variação numa sequência de eventos que começa com as primeiras atividades do punho na boca do bebê recém-nascido e que acaba por conduzir a uma ligação a um ursinho, uma boneca ou brinquedo macio ou duro (Winnicott, 1975, p. 14).
Winnicott reconhece que existe algo além da excitação e satisfação oral com os objetos transicionais, pois nestes encontram-se uma base para o desenvolvimento da capacidade de internalização de significados e representação simbólica da presença ou ausência da mãe e ou cuidadores. Estes objetos ajudam o bebê no desenvolvimento da capacidade de espera, superação das frustrações e da representação da mãe quando está ausente. São a presença e o comportamento da mãe que mantêm viva esta representação simbólica. Os primeiros objetos transicionais podem ser o cobertor, o ursinho de pelúcia. Quando estes objetos perdem o significado, eles são deixados de lado, ampliando-se a atenção para novos objetos.
O espaço transicional é marcado pela experiência intermediária, entre a ilusão e a realidade, o espaço de encontro entre o mundo interno e o externo, sendo caracterizado pela presença de objetos transicionais.
Winnicott se refere à experiência intermediária como algo que acontece no interior de um contexto, é uma continuidade da relação do bebê com a mãe e está sempre presente na integração entre um “fora, dentro e na fronteira” (Winnicott, 1975, p. 14). Estas experiências não são exclusivas dos primeiros anos de vida, mas acompanham o ser humano durante todo o ciclo da vida.
O objeto transicional pode ser entendido como representante simbólico da experiência relacional com a mãe, o pai e ou pessoas significativas para a criança, desde o nascimento, bem como é fruto da imaginação infantil para a expressão das primeiras experiências de relacionamento interpessoal. Enfim, este objeto está ligado à experiência subjetiva, remete a uma representação, é transicional e desenvolve-se na área intermediária da experiência, por exemplo “entre o polegar a o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que foi introjetado” (Winnicott, 1975, p. 14).
As relações objetais são constituídas pelas experiências subjetivas desde os primeiros meses de vida, nas relações entre o bebê, a mãe ou pessoas significativas e os objetos do ambiente. As primeiras relações objetais são interações entre as necessidades
básicas da criança e os cuidados maternos, favorecendo um ambiente de sustentação para a díade mãe-bebê e ou outra pessoa significativa.
Algumas das qualidades especiais na relação apontadas por Winnicott são: o bebê assume direitos sobre o objeto; o bebê acaricia afetuosamente o objeto; o objeto nunca deve ser mudado por outra pessoa e sim pelo próprio bebê; o objeto deve sobreviver ao amor ou à agressividade; o objeto deve parecer para o bebê como algo que dá calor, se move, possui textura e tem vitalidade ou realidade próprias; do ponto de vista do bebê, objeto provém de dentro e não do exterior; de modo saudável, este objeto perde o significado com o passar dos anos e expande-se para outros objetos, como o campo cultural.
Neste processo, o self vai se desenvolvendo através das experiências relacionais do bebê com a mãe e ou outros cuidadores.
Rizzuto conclui que as representações objetais são processos abrangentes:
Esses processos são experiências da representação, lembrança, fantasia, interpretação com outros mediante manobras defensivas e adaptativas. Todos esses processos extremamente complexos formam “concepções” ou representações do objeto no momento em que dois indivíduos estão se relacionando entre si (Rizzuto, 2006, p. 108).
Com relação ao processo de representar objetos e a si mesmo, Rizzuto enfatiza o referencial para a organização da atividade mental:
Memórias de objetos são de importância crucial na vida humana, pois a criança tem todas as suas necessidades e seus desejos nas mãos da pessoa da maternagem. Esses múltiplos intercâmbios deixam memórias viscerais ( o leite e a comida “tocam” a criança internamente), proprioceptivas, sensório-motoras, eidéticas, icônicas e (posteriormente) conceituais. O tipo de memória deixado depende da natureza dos intercâmbios, da modalidade de memória madura e da capacidade de representar, disponíveis à criança na época (Rizzuto, 2006, p. 110).
Antes de formar o conceito ou ideia de Deus, a criança forma a imagem (representação) de Deus. Assim Rizzuto resume:
Cada indivíduo produz, ao longo do desenvolvimento, uma representação idiossincrática e altamente personalizada de Deus, derivada de suas relações objetais, suas representações em evolução do self e seu sistema ambiental de crenças. Uma vez formada, é impossível fazer com que essa representação complexa desapareça; ela tão somente pode ser recalcada, transformada ou usada (Rizzuto, 2006, p. 127).
Conforme Rizzuto, a representação de Deus sofre transformações que acompanham as transformações do self e dos pais. Alguns aspectos apresentados por Rizzuto:
• A criança em processo de maturação intelectual pensa sobre Deus em conexão com a sua experiência ampliada do mundo e dos seus pais.
• A imagem de Deus vai sendo formada na matriz de fatos e fantasias, desejos, esperanças e medos, nos intercâmbios com os pais.
• Deus não é criação apenas da criança, ele é encontrado na família, oferecido pelos pais à criança, encontrado na conversa do dia a dia, na arte, na arquitetura e em eventos sociais.
• Deus é apresentado como invisível, mas real.
• A “casa de Deus” é apresentada para a criança como um lugar em que Deus “supostamente” mora de uma forma ou de outra.
• A “casa de Deus” possui regras, rituais para o encontro com Deus.
• A criança também traz dentro de si o próprio Deus que ela montou e neste encontro oficial na “casa de Deus” ela encara o Deus do herói-criança e o Deus da religião:
Reconfiguração, reconsideração e ruminação infinita, fantasias e manobras defensivas ajudarão a criança nessa sua difícil tarefa. Esse segundo nascimento de Deus pode decidir o futuro religioso consciente da criança […]. Nenhuma criança chega à “casa de Deus” sem seu Deus de estimação debaixo do braço (Rizzuto, 2006, p. 23-24).
Rizzuto rejeita a afirmação de Freud de que a representação de Deus vem da resolução do conflito edípico. Ela considera que esta afirmação é incompleta por não explicar como e por que as meninas constroem as representações de Deus. Também fundamenta a sua discordância afirmando que as representações de Deus têm sua origem na infância precoce, antes do período edípico. Com base em suas pesquisas, as representações de Deus compartilham ambas imagens parentais, tanto do pai como da mãe, bem como de outras pessoas significativas presentes na vida da criança.
Para Rizzuto a representação das imagens de Deus está relacionada com uma representação de objetos:
• Como todos os objetos transicionais, Deus está localizado simultaneamente “fora, dentro e na fronteira”.
• Deus é um objeto transicional especial porque é criado a partir de materiais representacionais cujas fontes são as representações de objetos primários e não segue o curso normal dos outros objetos transicionais como os ursinhos de pelúcia, brinquedos, cobertores. Estes são deixados de lado, e o sentido de Deus permanece ao longo da vida. A criança cria uma imagem de Deus de acordo com as suas necessidades.
• O processo psíquico de criar e encontrar Deus é um processo desenvolvimental que abrange todo o ciclo da vida, desde o nascimento até a morte.