4 SPECIFICATION OF ASSETS
5 CONCEPTUAL DESIGN OF THE EXECUTION ENVIRONMENT
Segundo Rizzuto, virtualmente todas as crianças, na idade aproximadamente de seis anos, constroem uma imagem e representação de Deus. Para Fowler (1996), a criança tem uma imagem de Deus positiva e confiante, no sentido de ter o seu coração vinculado a esta representação. Na sua teoria da fé, ele constata esta afirmação de Rizzuto.
Um dos casos interessantes, na sua pesquisa, foi a entrevista com uma menina de seis anos, filha de um homem e uma mulher que tiveram uma experiência negativa da fé e da igreja. Os pais resolveram proteger a filha de qualquer exposição à linguagem religiosa, pensando em formar uma criança saudável. Na entrevista com a menina verificou-se que, embora os pais tentassem eliminar Deus do ambiente da filha, ela construiu uma representação primitiva de Deus. Uma das fontes para a construção da sua representação de Deus foi o programa de televisão Bonanza, exibido regularmente. Este programa era um faroeste, com sua história no rancho em que viviam o Pequeno Joe, Hoss e Pa Cartwright, e ocasionalmente exibiam casamentos e funerais. Outra fonte foi a série animada sobre Davi e Golias, um programa que retratava a história de um menino chamado Davi e seu cachorro Golias. A menina, influenciada pela história de amor e cuidado que Davi dedicava aos amigos e a estranhos, bem como ouvindo as orações que Davi e seus pais faziam, tornou-se “amiga” de Deus e reconheceu em Deus a fonte daqueles cuidados. A experiência dessa menina, na busca de sua fascinação
proibida pelos pais, ilustra a afirmação de Rizzuto de que toda criança, na sociedade virtual, cria uma imagem de Deus a partir de uma variedade de fontes.
Para Rizzuto, a representação de Deus emerge no espaço entre os pais e a criança:
Este é o mesmo espaço no qual D. W. Winnicott diz que construímos o os “objetos transicionais”. O que são “objetos transicionais”? Esta terminologia de relações de objetos britânica fornece uma linguagem muito mecanicista para falar sobre nossas relações com os seres humanos que nos são mais significativos. Quando estamos falando de “objetos transicionais”, estamos falando de representação simbólica de nossos laços de relacionamento com outras pessoas importantes (Fowler, 1996, p. 48, tradução nossa).
O cobertor abraçado pela criança é um objeto transicional que simboliza a segurança do retorno dos pais e o ursinho de pelúcia simboliza a constância e amor que a criança espera receber dos pais e de outras pessoas. É neste espaço transicional que Deus torna-se um representante transcendente de uma presença confiável.
Rizzuto afirma que Deus é um objeto transicional especial, particular e único. Fowler e sua equipe de pesquisadores, nas entrevistas com crianças de quatro a seis anos de idade, de famílias católicas cristãs, quando perguntavam sobre Deus, observaram que, ocasionalmente, as crianças pegavam imagens de Jesus para apresentarem as suas respostas. De acordo com Fowler, o objeto transicional tem um rosto, mas para muitas não tem rosto, como o caso de uma criança de quatro anos que respondeu assim: “Deus está em todos os lugares, Deus é como o ar” (Fowler, 1996, p. 49, tradução nossa). Esta criança não possui uma representação física de Deus.
Fowler considera que há várias realizações poderosas, adultas, da realidade de Deus convidando as crianças para a construção das representações emocionais e mentais de Deus. Para Rizzuto, muitos dos personagens fictícios, como o Super-Homem, bruxas (velhas e feias por definição), gnomos (velhos e inofensivos), fadas madrinhas (lindas mulheres adultas) e muitos outros, são personagens adultos:
Socioculturalmente, a criança ouve as pessoas falarem respeitosamente de Deus. Há pessoas especiais – ministros, sacerdotes, rabinos – que o representam oficialmente. Empregam uma linguagem solene com entonações graves e invocam Deus. A criança vê prédios especiais, obras de arte, celebrações – tudo relacionado com a pessoa grande chamada Deus (Rizzuto, 2006, p. 253-254).
A criança, com a emergência da linguagem, começa examinar o ambiente e a fazer uma série de perguntas intermináveis. O que é isto? Por quê? De onde vem isto? Para que é isto?
Por volta dos três anos, a criança amadurece cognitivamente a ponto de se interessar por noções animistas de causalidade. Ela deseja saber o porquê de tudo. Por meio do questionamento, tenta chegar a uma resposta final e não se satisfaz com explicações científicas. A criança quer saber quem movimenta as nuvens e por quê. Se lhe dizem “o vento”, quer saber quem movimenta o vento, e assim por diante. Finalmente, pais ou adultos dizem-lhe que Deus faz essas coisas (Rizzuto, 2006, p. 69-70).
Segundo Rizzuto, na mente das crianças os pais e adultos são “seres superiores” de grande poder e tamanho, dotados de saber sobre as suas intenções. A criança está lidando com representações idealizadas de seus pais, atribuindo a eles grande perfeição e poder, bem como está lutando com seus desejos grandiosos por poderes extraordinários próprios:
O conhecimento de que também os pais submetem-se a um ser maior e que Deus pode fazer coisas que eles não conseguem impressiona enormemente a criança. Mas sua capacidade de admirar esse ser tão grande não diminui a compreensão animista – isto é – antropomórfica – da criança de Deus como um ser semelhante a seus pais, apenas maior. Este Deus é o tema de profundas ruminações que convergem na profunda reflexão da criança sobre seus pais (Rizzuto, 2006, p. 70).
Fowler pergunta: “Como as crianças constroem o objeto transicional chamado Deus?” Ele busca em Rizzuto a resposta, dizendo que esta construção está ancorada nos modelos parentais. A criança olha para um Outro onipotente, misterioso, transcendente, cuidador ou perigoso, recorrendo às experiências que teve com os seus pais ou seus cuidadores. Esses modelos parentais não possuem somente pontos de virtudes, mas também possuem suas falhas. “Deus, como uma representação objetal transicional, é usado pelas crianças para modular os inevitáveis fracassos dos pais” (Rizzuto, 2006, p. 267), bem como a descoberta de um Deus capaz de oferecer um amor maior e melhor do que um pai edípico comum.
Para Fowler, as representações de Deus podem contribuir para substituir, restaurar e curar as feridas causadas pelos pais. Nas entrevistas realizadas na sua pesquisa, constatou que certo grupo de pessoas, antes dos cinco anos de idade, tinha
perdido um dos pais. Estes entrevistados construíram uma representação de Deus, atribuindo imenso poder e apego no relacionamento com Deus, bem como eles poderiam imaginar mais facilmente a perda do self do que a perda de Deus. A representação de Deus para estas pessoas foi muito significativa, ajudando-as no processo de encontrar e manter o sentido de segurança após a morte de um dos pais.
O tipo de Deus que cada pessoa produz como uma primeira representação, na visão de Rizzuto, é a imagem resultante da situação pré-edípica, do estágio inicial do complexo de Édipo, das características dos pais, das dificuldades da criança com um dos pais e irmãos, do pano de fundo religioso, social e intelectual do lar em geral. Esta representação vai sendo construída, ao longo da vida, através de outras situações e experiências vinculadas aos processos primários.
Rizzuto constata que este estudo, sobre o nascimento de Deus, revela a criatividade da criança na construção da representação de Deus através das suas experiências e fantasias. A imagem de Deus criada pela criança está imersa na relação primeira com os pais, com os traços parentais, com os objetos transicionais que ela encontra e com a busca de satisfação das suas necessidades, desenvolvendo um sentido de segurança e valor. “Todo processo representacional ocorre em um contexto mais amplo da família, classe social, religião organizada e subculturas específicas” (Rizzuto, 2006, p. 272).