Del 1 – Teori
1.5 Fukt
A rocha esteatito / pedra-sabão tem várias formas de ser trabalhada, dependendo de cada região (ambiente geológico), das características locais e principalmente da qualidade da pedra que ocorre em cada região. Os entraves da criação de um Arranjo Produtivo Local (APL), bem como os mecanismos que possibilitam a criação de um APL da pedra- sabão, foram analisados, tendo como foco a redução da informalidade das empresas locais e o melhor aproveitamento e comercialização da produção artesanal. Tal estudo teve como hipótese de que é possível aumentar a produtividade e a competitividade das indústrias, especialmente das micro e pequenas, associações e cooperativas via potencialização das vocações de aglomerados regionais.
No contexto de artesanato de pedra-sabão, as condições são distintas e o nível de interação entre os atores é ainda muito frágil, além da extensão geográfica e dificuldades de comunicação. Os entraves para a criação do APL da pedra-sabão levantados durante este estudo, incluem ainda a dificuldade de obtenção da matéria- prima, ausência de cooperativas locais que impossibilitam acesso aos recursos governamentais, inexistência de projetos governamentais de transferência de conhecimento, design e criatividade que leva a uma monotonia de formas e variedade de peças oferecidas no mercado, o controle do mercado por parte dos atravessadores e a “aversão” a mudanças culturais por parte dos artesãos.
A dificuldade de obtenção da matéria-prima decorre da ilegalidade das áreas de extração que gera embargos ambientais. A extração de matéria-prima quando para artesanato, em geral, é feito pelos próprios artesãos ou funcionários dos mesmos, sem preocupação com a legalidade da operação, nem na extração e nem na contratação do funcionário para esta função. Embora as empresas que produzem blocos tenham condições financeiras de legalizar a área, em sua maioria operam na ilegalidade. O principal problema para legalização das áreas está na dificuldade de averbação das escrituras de propriedade dos imóveis (sítios), uma vez que os superficiários, em sua maioria, no distrito de Santa Rita de Ouro Preto, possuem apenas o espólio do terreno. Isto se
agrava devido a queima do cartório de Ouro Preto, onde vários documentos ficaram perdidos. A dificuldade na obtenção da matéria prima por parte dos artesãos se dá pela dificuldade ou falta de interesse ou ainda aumento de custos para as mineradoras em separar o “material macio” (pontas) para o artesanato. As empresas alegam dificuldade operacional, visto que sua operação é voltada, explicitamente, para a produção de blocos que são, posteriormente, transformados em chapas.
A ausência de cooperativas locais impossibilita acesso aos recursos governamentais. A região em estudo foi escolhida como a sede para a criação de um APL de pedra-sabão devido à alta concentração geográfica deste bem mineral. Mas, um APL deve ser estrutado de forma a atender uma sociedade ou comunidade e não se encontra muito cooperativismo no ramo da pedra-sabão. O que se observa são trabalhos individuais sem nenhuma forma de cooperativismo ou associação entre artesãos, desde a fase de obtenção da matéria prima, passando pela fabricação do artesanato até a comercialização.
A inexistência de projetos governamentais de transferência de conhecimento, design e criatividade levam a uma monotonia de peças oferecidas no mercado. A baixa visão das tendências da moda e de mercado por parte dos artesãos os leva a produzir artigos únicos, decorrentes, em sua maioria, de sua especialidade individual tradicional, não levando em consideração que aquele produto pode estar fora de uso ou moda. A transferência de conhecimento, um dos objetivos do APL, pode criar cursos de design, bem como, de normas de segurança do trabalho em harmonia com o meio ambiente.
Atualmente, os atravessadores são os principais vendedores do produto, o que faz com que os mesmos não divulguem a região de produção, pois muitos alegam ser os próprios produtores do artesanato, deixando de dar o crédito ao artesão de origem. A venda deveria ser feita pela própria cooperativa ou mesmo empresas/instituições de apoio relacionadas a este produto. Outro problema com os atravessadores é o baixo valor pago pelos produtos, aproveitando-se da necessidade do artesão em vender grandes quantidades. Sem controle dos custos de obtenção da matéria prima e de produção, em sua maioria, os artesãos desconhecem o valor real de sua obra, vendendo-a por um valor
que atenda as suas necessidades imediatas. O atravessador, por sua vez, aproveita desta oportunidade além de deixar claro que eles têm muitas opções de pessoas que querem vender o artesanato.
A aversão dos artesãos a mudanças é uma questão cultural, pois trabalham há muitos anos fazendo as mesmas peças da mesma forma, muitos sequer aceitam a tecnologia que lhes é apresentada. Um exemplo é a pouca aceitação do torno desenvolvido pelo CETEC/CEFET que, embora leve um tempo de produção maior comparado com o tempo despendido pelo artesão para produção da mesma peça, permite um melhor aproveitamento da matéria prima, além da maior segurança proporcionada e vantagens ambientais decorrentes da menor geração de resíduos. O artesão prefere trabalhar no seu torno rústico, que aparenta operar mais rapidamente, a treinar em um novo equipamento que demorará mais tempo para fabricar a mesma peça, não pensando na garantia da sua própria segurança. Esta demora para fabricar a peça é devido à inexperiência dos artesãos na operação do equipamento, porém esta rapidez só será obtida se houver o interesse dele em operar o novo torno. A maior agilidade exige maior dedicação.
Para a implantação de um APL de pedra-sabão na região de Ouro Preto torna-se imprescindível a superação destes entraves. Para tal, faz-se necessário um trabalho em conjunto com os governos municipal e estadual, associação dos produtores de artesanatos em pedra-sabão e das mineradoras de pedra-sabão e das instituições de ensino e centros de pesquisa.
Este estudo contribuiu para apontar as principais carências, deficiências e dificuldades do setor artesanal, disponibilizando informações, visando a orientar iniciativas públicas e privadas que venham a garantir a sobrevivência e a continuidade da atividade na região. A sociedade local será a grande beneficiária deste APL em que haverá geração de emprego, valorização da produção, reconhecimento da arte, além de maior preocupação com a saúde e o meio ambiente.
Como sugestão de trabalhos futuros, pode-se indicar a utilização de rejeitos dos tornos ou de empresas produtoras de artesanato em geral. Estes rejeitos atualmente não são controlados, havendo uma perda muito grande e sua disposição é feita em grande parte de forma aleatória, próximo a margens e nascentes de rios. Outra proposta, também, é a identificação de problemas relacionados ao descarte informal dos rejeitos e à recuperação das áreas afetadas pela atividade.