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3. Concepto de frontera

3.2 Frontera: género

É neste contexto, que o jornalista Euclides Bandeira, mais conhecido como Chembra, elabora o enredo para o desfile do Rancho. Este enredo tem uma conotação relacionada a este momento político como Garcia explica:

Colocando toda a telúrica carnavalesca e colocando todo e também esta parte do amanheceu do Brasil, um novo Brasil [...] Então, tinha uma frase muito importante ‘Se renovam as esperanças de quem não se amofinou’. Então, renovar as esperanças do povo brasileiro ‘que não se amofinou’, ou seja, que sempre lutou, quer votar, etc. Mudança no país! Diretas! Chega de militar! (GARCIA, Osvaldo, 2015, p.20).

O carnaval se processa inserido no contexto político social onde ele ocorre e esse fato não poderia ficar à margem do carnaval enquanto produção cultural, servindo se não como um enredo direto, talvez pela própria proibição e perseguição politicas, pelo menos metaforicamente. Acredito que isso ocorreu neste samba enredo.

A cultura popular sempre lidou com os processos de interdição na sua relação com o estado e com a sociedade. Podemos pensar que na origem, este processo se dá em torno de um modelo de sociabilidade que se define também por uma posição de classe e de forma mais específica como disputa no espaço público como forma de representação e deliberação (ALVES e AMARAL FILHO, 1985, s/ n).

A respeito da ditadura militar, acredito que justamente pelo fato de ela ter provocado mudanças em diversos setores da vida dos brasileiros chegando inclusive a ser inspiração para um enredo carnavalesco, merece algumas considerações.

No dia 31 de março de 1864, o general Olympo Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, sediada em Belo Horizonte, Minas Gerais, ordenou às tropas sob seu comando, que se dirigissem ao Rio de Janeiro para exigir a renúncia do presidente João Goulart, Iniciava-se o vitorioso golpe de estado que instauraria a ditadura civil-militar que perduraria em suas diferentes fases do governo, sempre controlada pelas Forças Armadas, até março de 1985, quando pela primeira vez desde abril de 1964, um civil José Sarney assumiu a presidência da República (CUÉLLAS e PETIT, 2012, s/p).

FOTOGRAFIA 22 - Abaixo a Ditadura Militar

Fonte: Disponível em

http://psolouvidor.blogspot.com.br/2015/10/tres-mini- documentarios-para-entender.html

Este fato foi publicado em um jornal paraense justamente vinculando o samba Amanheceu ao momento político “[...] numa saudação até mesmo à nova fase democrática iniciada em 15 de janeiro com a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República” (O Liberal, 16/2/1985, 1º caderno, p. 10).

O enredo depois de criado e escrito pelo Chembra, foi levado para a aprovação da diretoria do Rancho. Chembra já era uma figura inquestionável dentro da escola, e o aval já estava dado pela competência dele. Com relação à participação dos compositores que eram muitos, eles apenas receberam a sinopse do enredo sem mudar nada (OSVALDO GARCIA, 2015).

Tive a grata satisfação de receber do compositor Osvaldo Garcia, a sinopse que lhe foi entregue para que compusesse o samba de enredo Amanheceu. Contemplei com

emoção a página datilografada e amarelada pelo tempo na qual, após o título

Amanheceu, está escrito Tema do Rancho Não Posso Me Amofiná para o Carnaval/85. Vale a pena ter conhecimento desta sinopse que embora não esteja assinada, é de autoria do Chembra segundo confirmação de Garcia (2015). Ei-la na íntegra85.

O amanhecer é o reviver, o recomeço, a renovação, o novo dia, as cores que voltam, a nova esperança. É o fim da escuridão, do medo e dos pesadelos da criança. O momento do adeus entre os amantes que se contemplam pela última vez. Ou do reencontro de corpos apaixonados que se reabraçam na preguiça do sono.

É quando o boêmio, cansado, volta para casa, o violão vazio de notas, todas perdidas na noite morta. É hora do leiteiro, do padeiro, do vigilante que boceja, guarda arma, agradece a Deus por estar vivo e vai dormir, é o peixeiro, o jornaleiro, o fruteiro. Um radinho de pilha ligado num quarto distante.

O garçom esperando ônibus, casaca no ombro, gravata no bolso. A moça da rua que se esconde dos sinais da pintura desfeita pela noite intensa. A mercearia que se abre. O bar que fecha, guardando muitas histórias. Os primeiros ruídos numa cozinha ainda escura, o garoto com o pão debaixo do braço. A moça que se espreguiça redobrando a camisola transparente.

O apito da fábrica, o sino da Igreja. O operário que passa de bicicleta pedalando lento. O homem de paletó, apressado, o estudante de cabelos molhados e cara emburrada. O ônibus, o navio, o avião, partindo e levando, gente para nunca mais. O galo que canta, o relógio que desperta, a mulher do missal e terço.

O orvalho transparente, surpreendido no corpo delicado de uma flôr. A praia que acorda e redescobre e sempre-chegar das ondas, o cheiro de lenha. O farofeiro madrugador que desce do ônibus fretado corre na areia e chuta a bola para o alto. A feira que começa a vibrar nas cores das frutas flôres e carnes e nos pregões que espantam o último sono. O cheiro do café, que se espalha como a luz do dia, invadindo todos os lugares.

O sino que toca outra vez. O último aviso da fábrica que chama o operário atrasado. O estudante que senta e sonha com o recreio. O homem que afrouxa a gravata e começa a trabalhar. É o sol, que traz todas as cores de um recomeço.

Além de ter a oportunidade de ter em mãos a sinopse, pude verificar as marcações feitas com caneta vermelha em algumas palavras e frases. Eis as marcações:

a nova esperança; volta para casa; jornaleiro; o galo que canta; a feira; nos pregões; espalha; começa a trabalhar; é o sol que traz todas as cores de um recomeço.

Percebe-se pela letra do samba, que essas palavras e frases que foram pontuadas por Osvaldo Garcia, se constituíram em parte da inspiração para compor o samba de enredo Amanheceu. Logo abaixo do título da sinopse consta o nome - Osvaldo Garcia, escrito a caneta.