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2. Sassen: Expulsiones

2.1 Factores histórico-estructurales

2.5.1. Paulo André Barata

Quem vive no meio musical e nas noites da boêmia em Belém do Pará, com certeza conhece a figura ímpar de Paulo André Barata, que se faz conhecer não só pelo grande talento musical, já conhecido em outras plagas, como também pela inegável inteligência e espírito crítico.

FOTOGRAFIA 21 Paulo André Barata e Dayse Puget

Fonte: Acervo da autora

Já o conheço há algum tempo e sempre tive por ele grande admiração. Filho de Norma e Ruy Paranatinga Barata, Paulo André é figura antológica nos meios culturais paraenses, pois cultua a memória de seu pai.

Paulo André nasceu no dia 25 de setembro de 1946, na Santa Casa de Misericórdia, perto da casa onde mora até hoje Avenida Generalíssimo Deodoro. Sua infância foi vivida no bairro do Umarizal. Quebrou uma perna em um acidente ainda criança, por isso foi necessária uma cirurgia quando colocaram uma chapa de platina. Aos 13 ou 14 anos houve uma rejeição deste artefato com consequente osteomielite (BARATA, 2015).

Paulo André, logo cedo descobriu que não tinha vocação para ser doutor, queria ser músico e o pai o apoiou incondicionalmente.

(...) eu queria ser músico muito cedo; isso foi resolvido na minha cabeça e na cabeça do papai também, não tenho a menor dúvida. O papai queria mesmo que eu fosse músico. Ele nunca me disse isso, mas eu tenho certeza disso, que ele queria que eu fosse músico; ele queria que eu botasse pra fora essa coisa que devia estar dentro de mim e ele como poeta conhecia muito bem (BARATA, 2015, p. 2).

Morou no Rio, época em que seu pai era deputado federal e a Câmara dos Deputados se situava no Rio de Janeiro. Sua mãe Norma Soares Barata o colocou no colégio Instituto Pernalonga, que ficava na Rua Conselheiro Lafaiete. Nesta escola, teve contato inicial com a instrumentação musical quando a professora de Canto Orfeônico o escolheu para tocar num tipo de fanfarra, uma bandinha.

O interesse pelo violão começou desde os tempos em que morou em Santarém e Óbidos - Pará com seu avô. Deveria ter aproximadamente 12 anos de idade. Mais tarde já no Rio de Janeiro, em uma hospitalização por conta da osteomielite, estando engessado no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, a sua mãe lhe deu um violão (BARATA, 2015).

Sofreu diversas influências musicais. A primeira delas aconteceu pouco antes de 58, com os primeiros momentos da harmonia dissonantes da Bossa Nova, e quando voltou a morar em Belém, a primeira coisa que ele fez foi estudar violão com um vizinho chamado Tó Teixeira58,

Chegava lá, tinha que botar um banquinho na perna esquerda, colocar o violão [...] não era essa a minha onda aquilo, não era a minha onda. Mas ele me deu uma sequência de acordes e quando voltei da aula eu sabia tocar samba, não foi ele quem me ensinou [...] eu tive mais umas duas aulas com ele, só. Me despedi, vim pra casa e continuei (BARATA, 2015, p. 3).

Outra influência musical veio de um amigo da rua, de nome Leoni Monteiro, conhecido como Léo, que lhe passou harmonia. Outro amigo do pai Ruy Barata, que também se tornou seu amigo e também seu mestre foi José Guilherme de Campos Ribeiro. Outra grande influência foi Dorival Caymmi (BARATA, 2015).

Com relação a Caymmi, Paulo André começou ouvindo um disco de 78 rotações, que trazia o título As Canções Praieiras de Dorival Caymmi, um vinil de seu pai. Ficou encantado. Depois, conheceu também outras canções do Dorival, como

58 Antonio Teixeira do Nascimento Costa, violonista e poeta paraense [13/6/1893 – 29/10/1982] em Tó Teixeira; O poeta do violão / Habib – 2013.

Marina, Dora, e achou tudo genial. Tom Jobim e Baden Powel também fizeram parte da sua formação musical (BARATA, 2015).

Sua primeira composição foi uma valsa, cujo título era Rosa Rubra. Foi feita aos 15 anos de idade, com letra do pai, que disse: “Meu filho, porque tú não tentas compor? Um Baden Powel não aparece todo dia [...]. Você precisa anotar que o Pará é uma sonoridade! [...] Por que você não vai procurar esse som? ” (BARATA, 2015, p. 6).

Paulo André concordou, começou a compor e gostou. Acontece que ele achava que “Belém não dava, metrópole aqui, nunca vi nada aqui. Belém, a não ser o Bar da

Condor59 que tocava muita música caribenha, muito bolero e eu ia pra lá sempre” (BARATA, 2015, p. 7). Ele menciona que aprendeu tudo na Condor,

(...) e hoje fazem aqui um movimento chamado guitarradas; que eu já escutava feito por um cara chamado Armandinho Guitarrista, que ele tinha um conjunto, uma banda lá que o nome era: Armandinho e seus Big Boy. Eu até recentemente fiz uma música homenageando o Bar da Condor e o Armandinho, ele já tocava isso há muito tempo! (BARATA, 2015, p. 7).

Lembra que foi muito influenciado nesse meio musical e que lhe rendeu muitos boleros. Diz que, “Você é produto do meio em que vive [...] no tempo que fazer bolero era para cafona; depois todo mundo fez: Tom Jobim fez, Chico Buarque fez, Gonzaguinha fez; todos eles fizeram, Carlinhos Lira fez” (BARATA, 2015, p. 7).

Além de boleros, compôs uma canção praieira de título Preamar, em parceria com o pai. Essa canção, segundo ele, foi influenciada pela obra de Caymmi. Seguindo os conselhos do pai, foi conhecer algumas sonoridades do Pará: Marapanim e Vigia60.

Levou dois gravadores portáteis com rolinho e como ainda não tinha cassete “Eu gravava tudo aquilo com os pescadores, que nunca tinham visto esse aparelho [...] Eu gravava eles e eles queriam logo ouvir. Era muito interessante. E trouxe muita coisa deles e fiquei trabalhando em cima dessas coisas” (BARATA, 2015, p.7).

Daqueles lugares trouxe a raiz, a sonoridade dos músicos “tanto que, quando eu fui fazer Este Rio é Minha Rua, essas coisas todas pra mim foram muito rápido. Eu tenho isso até hoje, essa veia paraense” ( BARATA, 2015 , p. 8).

59 De muitas tradições na vida boêmia da cidade, o Bar da Condor (hoje Palácio dos Bares) surgiu na

década de 30, idealizado por dois amigos, o industrial Hilário Ferreira e João de Barros. Cantores como Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e muitos outros de renome, se apresentaram no Bar da Condor que passou a ser famoso em Belém sendo ponto de encontro inclusive da classe média [...] a vida noturna da cidade se resumia unicamente na Condor, principalmente aos sábados e domingos. Fragmentosdebelem.tumblr.com/post/25778904222

A relação de Paulo André com o samba enredo é explicada por ele, devido as suas raízes no samba, incluindo um primo chamado Arcelino Barata de Magalhães Costa, um sambista que não era conhecido nos meios do samba por esse nome, mas sim com o pseudônimo de Paulo Roberto.

Paulo Roberto ou Arcelino não tocava instrumento musical, mas fez muito samba de animação. Paulo André acha que a música está no sangue, e ele diz que faz samba e qualquer outro tipo de música (BARATA, 2015, p. 9).

Paulo André fez três sambas enredo: o primeiro foi Muiraquitã e As

Amazonas, para o Boêmios da Campina. Depois, para o Acadêmicos da Pedreira, de parceria com Alfredo Oliveira, Sonho Cabano; e uma homenagem ao pai, em parceria com o próprio homenageado e com Sebastião Tapajós. Desse samba não lembra o título61 (BARATA, 2015).

No carnaval, Paulo André gostava de desfilar nas escolas de samba e inicialmente saiu no Boêmio da Campina. Lembra que “era metido a sambeiro” e saiu na ala de passistas. Atualmente não está mais desfilando e nem fazendo samba enredo, “está aposentado”. Fez jingle político, mas agora diz que, “só faz o que quer”.

Eu continuo fazendo música. Eu tenho um verdadeiro horror, tem uma coisa aí, é ”Nunca mais compusestes nada?” “Ih! Mas eu componho quase todo dia!” Mas eu acabei de compor 18 canções com meu parceiro carioca Paulo César Pinheiro, que eu já tinha feito. Já gravei algumas coisas minha e dele... É um balé que a gente escreveu chamado Pindorama e o Paulinho escutou essas coisas pelo telefone, que eu ligo o computador boto o telefone celular na beira da caixa e ele ouve tudo! Tá empolgado. Vamos ver se a gente grava isso logo! (BARATA, 2015, p. 9).

2.5.2. A parceria de Alfredo Oliveira e Paulo André Barata

Algumas parcerias de samba enredo são eventuais. No caso específico, entre os dois compositores do Sonho Cabano, ocorreu especificamente para a composição deste samba. Os dois compositores embora amigos, não tinham composição de samba de enredo em parceria (OLIVEIRA, 2015). Paulo André foi convidado por Alfredo Oliveira para, juntos compor o samba que já estava iniciado (OLIVEIRA, 2015).

CAPÍTULO 3 - O SAMBA ENREDO