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Quando se aborda o processo criativo do samba Amanheceu, Osvaldo Garcia expõe um fato da sua intimidade.

Eu tava (sic) no motel com uma namorada. Nessa época eu fumava né? Uma das coisas que eu me arrependo é de ser fumante, de ter fumado, isso quase que eu fiquei fumado por causa disso. Então, eu tava, tinha saído de algum lugar, aí fomos pra um motel. Quando eu senti aquela vontade de fazer xixi, ‘um rum. Aí fui acender um cigarro: que eu fui abrir a cortina pra ver que horas mais ou menos que seria ai eu olhei assim para baixo, tinha um jardim, tava assim ainda molhado pelo orvalho. Ai eu chamei, disse assim: ’Oh! Vem ver que coisa bonita, o sol tá bonito, o sol vem sorrindo, as flore se abrindo’. Ai notei: ‘Pô! Isso aí é o Amanheceu né? É um amanhecer muito bacana cara’ (GARCIA, Osvaldo, 2015, p. 35).

Só depois de quinze dias é que ele escreveu a letra do samba e depois então é que foi mostrar para o parceiro Albertino Garcia, que disse “Pô cara! O sol vem sorrindo? Não, é o sol vem surgindo! Isso é uma redundância! ”. Ante essa postura do Albertino, Osvaldo explicou “Fazendo uma poesia aqui, né? O sol vem sorrindo, as flores se abrindo aqui! ”. Frente a essas ponderações Albertino falou “É, vê se colhe! Tem que colher, tem que dar certo! ” (GARCIA, Osvaldo, 2015, p. 35).

Em alguns momentos da entrevista com Osvaldo se estabeleceram momentos mágicos e sem dúvida este foi um deles. O momento foi de tamanha intensidade que, tempos depois ao escrever esta parte do trabalho, me dei conta que não havia sido esclarecido em que momento, em que parte do samba Albertino havia participado.

Por conta deste fato, fui novamente a casa dele no dia 19/2/2016 para que ele me esclarecesse esse pormenor. Como já abordado anteriormente, Albertino já faleceu e Osvaldo relembrou que: Albertino e ele foram “costurando” juntos a letra e adequando a melodia até que, os dois satisfeitos, contemplaram sua obra pronta.

Com relação a este aspecto do processo criativo Langer explica que

O primeiro estádio é o processo de concepção, que tem lugar inteiramente na mente do compositor (não importando quais os estímulos externos que possam inicia-lo ou mantê-lo), e resulta num reconhecimento mais ou menos súbito da forma total a ser alcançado. Emprego a expressão ‘mais ou menos súbito’ porque o ponto dessa revelação provavelmente varia amplamente na experiência típica de diferentes compositores e mesmo nas várias experiências de qualquer deles. Um músico pode sentar ao teclado, congregar toda espécie de temas e figuras numa fantasia livre, até que uma idéia (sic) se apossa dele e uma estrutura emerge dos sons vagueantes; ou ele pode ouvir, imediatamente, sem a distinção de qualquer de quaisquer tons físicos, talvez mesmo ainda sem a cor tonal exata, a aparição musical inteira (LANGER, 2011, p.128).

Com relação ao uso de instrumentos na construção do samba, Osvaldo Garcia esclarece que como nem ele nem Albertino tocavam instrumentos musicais “A letra e a música vão saindo no batuque da caixa de fósforo” (GARCIA in O Liberal/Aqui Belém, s/ ano, p.10).

Observa-se na composição da letra, que o tema ditadura militar se apresenta de forma metafórica. A chegada das Diretas Já aparece nas frases: Chegou, chegou a hora,

chegou; Nesta festa o povo dança (porque) se renova a esperança de quem não se

amofinou (quem acreditou na mudança); Amanheceu um novo dia (a democracia que retorna). A letra também é uma apologia à boemia, tema indiscutivelmente atrelado ao samba e ao carnaval.

Na análise estrutural pontuei como elementos importantes, a forma se desenvolve em A-B. Assim temos a abertura do samba que tem seu início no refrão claramente em duas frases que se estendem de oito em oito compassos simetricamente na distribuição dos compassos com 16 compassos de refrão formando 8 compassos em cada frase. Seção A com 39 compassos e seção B com 39 compassos, uma ponte para retornar ao refrão. É um samba tonal, que gira em torno da progressão harmônica I – IIm – V7 - I e I – IV – V7 - I, que claramente forma uma cadência perfeita e nos remete à letra do samba enredo que acompanha a progressão nos revelando o movimento de estabilidade ao acorde de tônica, de afastamento pelo acorde de II grau e tensão no acorde de dominante com 7 (V7) retornando sempre ao acorde de repouso, e essa progressão dá um sentido de rondó.

A parte A tem seu início partir do compasso 18 e se estende até o compasso 56. Interessante notar que a seção A tem seu início com rítimos métricos e em seguida segue-se com síncopas e contratempos que vão ser os ritmos predominantes da melodia. Osvaldo Garcia explicou que queria colocar a frase: Diretas já, diretas já, mas foi alertado pelo então presidente da escola - Bosco, para que não o fizesse, e ele então substituiu por É carnaval. Este samba foi o vencedor do festival interno do Rancho para levar a escola para o desfile oficial.

O desfile aconteceu na Avenida Visconde de Souza Franco mais conhecida como Doca que a partir de 1982 passou a ser o local dos desfiles.

Recordo que a Doca da minha infância era um alagado por onde passava o igarapé das Almas ou das Armas, os dois nomes utilizados então. As canoas, atracadas nas beiras lamacentas, permaneciam de velas arriadas, compondo o cenário com uma feira livre, onde o artesanato de barro ficava à espera dos compradores. Podiam ser vistos à distancia pelas janelas do bonde, que cortava o Reduto. Na administração do prefeito Nélio Lobato a área foi drenada. Os serviços concluídos em 1973 mudaram a fisionomia do local (OLIVEIRA, 2006, p. 163).

O desfile havia mudado de local algumas vezes. Uma série de fatores motivava a escolha do palco dos desfiles: a dispersão rápida das escolas, o fácil acesso, a altura da fiação elétrica, a proximidade com os barracões da escola entre outros (OLIVEIRA, 2006),

Os locais anteriores foram: a Avenida Presidente Vargas (Praça da República); Avenida Magalhães Barata; Avenida Nazaré; Avenida Castilhos França; Rua João Alfredo, e em 1985, a Avenida Visconde de Souza Franco, mais conhecida como Doca (OLIVEIRA, 2006).

Em 1985, ano do da apresentação oficial do Amanheceu, o prefeito de Belém Almir Gabriel providenciou a construção de 250 camarotes para 2.500 pessoas, arquibancadas cobertas para 8.000 pessoas e arquibancada sem cobertura para um público de 5.000 pessoas. O desfile deste ano foi um dos mais “empolgantes” (OLIVEIRA, 2006).

O desfile do Rancho em 1985 se reveste sem dúvida, de fatos pitorescos e faz parte dos momentos de grande emoção que marcaram a vida do compositor Osvaldo Garcia.

O Rancho desfilou tipo assim 6.15 da manhã, aí, parou de chover, além de parar de chover, o sol apareceu na Doca. Fico emocionado até hoje, impressionante, você sabe? Um negócio assim que, pode perguntar para qualquer pessoa que viveu esse carnaval, até dos concorrentes [...]. Parou, parou de chover, parou mesmo, parou de chover. Foi uma emoção incrível sabe? A coisa foi, acho até, o desfile mais bonito até do Jubileu, entendeu por quê? (GARCIA Osvaldo, 2015, p.20).

FOTOGRAFIA 23 - Comissão de frente do Rancho - 1985.

Fonte: A Província do Pará em 19/20/2/1985 caderno 2, p. 3.

A organização do desfile foi dividida em três atos:86 1º Ato – O despertar de um novo dia; 2º Ato – É Carnaval; 3º Ato – Se renova a esperança.

1º Ato – Comissão de frente; Carro-abre-alas; tripé de borboletas; Ala das borboletas; Estandarte do galo; Ala do galo; Ala do sol; Ala do orvalho.

2º Ato – Tripé sedução; Mestre sala e porta bandeira; Tripé do jornaleiro; Ala do Jornaleiro; Carro Carnaval; Ala dos palhaços; Tripé de Pierrot - Ala dos Pierrots; Ala da Colombina; Estandarte das Máscaras; Ala das máscaras; Passistas; Estandarte do violão;

Ala da poesia; Carro da Praça; Tripés da Boemia; Ala da última Estrela; Baianas; Tripés das flores; Ala das flores; Porta Estandarte; Ala das folhas.

3º Ato – Estandartes com inscrições: “Amanheceu um novo dia” e “Bate Feliz meu coração”; Carro Amanheceu; Ala da Esperança; Estandarte dos pássaros; Ala dos Pássaros; Ala do folião; Estandarte da feira; Ala da feira.

Neste ano de 1985, o carnaval em Belém do Pará foi vencido pelo Rancho Não Posso Me Amofiná com Amanheceu. A escola desfilou com a comissão de frente composta pela “velha guarda” da escola. No carro abre alas, um imenso galo vermelho- amarelo-laranja87 entra na avenida anunciando um novo dia.

86 Tivemos a grata satisfação de receber de Osvaldo Garcia a planta baixa e o roteiro do desfile do

Amanhecer (Nota da autora).

87 Na obra Foi no Bairro do Jurunas de Manito (2000, p. 346), consta que, a cor do galo era branca: “O

carro abre alas era um enorme galo todo branco, trazendo também uma coroa (o símbolo da escola) que girava em torno dos destaques” (Nota da autora).

Como destaque à frente deste carro aparece a cantora paraense Fafá de Belém (OLIVEIRA, 2015). Em um desfile “alegre” a escola vai desfilando compactamente na avenida com:

(...) galos, jornaleiros boêmios, palhaços, pierrôs, borboletas etc. Dezenas de alas pintaram a Doca com suas fantasias. No final, surgiu o carro da ‘Democracia’, lembrando o amanhecer de uma nova era no País. Detalhe curioso; a careca de Tancredo Neves compunha o sol de um painel. Para coroar o espetáculo, um dos melhores sambas da dupla Albertino Garcia e Osvaldo Garcia explodiu na avenida (OLIVEIRA, 2006, p.168).

FOTOGRAFIA 24 - Carro abre-alas Rancho - 1985

Fonte: A Província do Pará em 19/20/2/1985 caderno 2, p. 3.

Na ficha técnica do desfile consta: Comissão de frente: Fundadores do Rancho; Carro abre alas: Enorme galo amarelo-laranja, tendo atrás um sol sorrindo; Porta estandarte: Paulo; Porta bandeira: Neusa; Mestre sala: Piriquitinho (O Liberal, 20/2/1985, 2º caderno, p. 3).

O desfile do Amanheceu se revestiu de momentos especiais.

Foi a última escola a desfilar, e arrastou o público da avenida Doca, que cantou seu samba do princípio ao fim [...] todo mundo de pé. Os aplausos começaram a chegar quando começaram a passar as alegorias do Rancho, numa sequência do lirismo de um amanhecer: o galo, o sol, pierrots, o bar, a praça etc. Mas, os aplausos se intensificaram quando antecedido por Fafá de Belém apareceu um painel lembrando em cores fortes, o céu ao alvorecer com uma caricatura do presidente eleito Tancredo Neves [...] saiu com 3.800 brincantes e uma bateria de 200 ritmistas (O LIBERAL, 18/2/1985, 1º CADERNO, p.5).

E desta forma, o samba enredo Amanheceu (que recebeu a nota máxima no quesito) ficou na história do Rancho e na história do carnaval paraense. Em qualquer

ponto da cidade de Belém, nos bares, festas e grupos de amigos que gostam de samba, ele é cantado com emoção, por tudo que ele significa para o povo do Bairro do Jurunas e para o paraense.