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6. Implementació

6.3. Notificacions per correu

1975, é, segundo Castel (2011, p. 80), a mais rica em acontecimentos. Carolina Grant (2013, p. 5) sistematiza essa fase como sendo marcada pela união da endocrinologia com a sociologia, pela divulgação do caso Jorgensen, transexual feminizado em 1952, e pela construção e consolidação do dispositivo da transexualidade como “transexualismo”.

Ao longo do período da II Guerra Mundial, foram documentados, de forma pontual, alguns casos de experimentos envolvendo transgenitalização, a saber, a transgenitalização

forçada43 de uma travesti, em um campo de concentração nazista na França, conforme citado por Castel (2001, p. 86). Todavia, a terceira fase da retrospectiva histórica do “fenômeno transexual” iniciou-se, de fato, no pós-guerra, nos Estados Unidos, a partir de acontecimentos, os quais definiram o que hoje o discurso-médico-científico entende como “transexual verdadeiro”.

No ano de 1952, como mencionado anteriormente, ocorreu a primeira cirurgia de transgenitalização amplamente divulgada, realizada pela equipe do cirurgião dinamarquês Christian Hamburger, quando o ex-soldado norte-americano George Jorgensen se submeteu à redesignação sexual para se assumir enquanto Christine Jorgensen. O caso de Christine Jorgensen é um marco midiático que ultrapassou os espaços medicalizados e os meios científicos.

Ademais, Castel (2001, p. 80) aponta que o processo de midiatização do caso Jorgensen ilumina todo o período de inovações no tocante à “mudança de sexo”. A importância desse caso na cronologia do “fenômeno transexual” se dá em razão da criação de um “quadro padrão” da experiência transexual, recopiado e/ou revivido pelos futuros candidatos à cirurgia de redesignação sexual, deste então.

No ano seguinte, em 1953, o artigo Transvestism and Transexualism (1953) foi trazido pelo endocrinologista Harry Benjamin, grande expoente da história da transexualidade. Nesse artigo, Harry Benjamin (1953, p. 14) posicionou-se contra qualquer tipo de tratamento psicoterapêutico e psicanalista da transexualidade e do travestismo, passando a indicar a cirurgia de redesignação sexual como a única solução terapêutica possível para pessoas transexuais.

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Em 11 de novembro de 1933, a Administração da Cidade de Hamburgo lançou o primeiro pedido à Chefia de Polícia para “dar atenção especiais aos travestis” e “entregá-los aos campos de concentração”. Ressalte-se que a Alemanha nazista não fazia distinção entre travestis e transexuais e, na maioria das vezes, referia ao “comportamento transgênero” como “comportamento homossexual” e, quando passou a distinguir as pessoas homossexuais das pessoas trans, considerou todos esses últimos como travestis. Durante a infame Noite das Facas Longas (Nacht Der Langen Messer),ocorrida na noite do dia 30 de junho de 1934, o Instituto de Ciência Sexual de Magnus Hirschfeld foi invadido e destruído por tropas nazistas alemãs. Suas produções sobre sexologia foram queimadas e seus clientes e parceiros de trabalho sexologistas foram perseguidos e executados. Magnus Hischfeld, até então exilado, morreu dois anos depois do acontecido. No ano de 1938, o Instituto de Medicina Forense Alemã recomendou que o “fenômeno do travestismo” fosse “exterminado da vida pública”. Ao serem enviados ao campo de concentração, as mulheres trans eram identificadas com triângulos rosa invertidos, juntamente com homens homossexuais, ao passo que os homens trans eram identificados com triângulos pretos, juntamente com mulheres cisgênero. Relatam-se diversos casos de experiências médicas em campos de concentração envolvendo transgenitalização forçada de pessoas trans. Uma figura célebre de luta e de resiliência das pessoas trans durante o período do nazismo é Charlotte Von Mahlsdorf, mulher trans alemã sobrevivente do holocausto e escritora da autobiografia I Am My Own Wife: The True Story Of Charlotte Von

Mahlsdorf (1992). Para maiores informações históricas sobre a vida das pessoas trans durante o regime nazista

Ressalte-se que a primeira utilização do termo “transexualismo” se deu em 1949, pelo sexólogo David Oliver Cauldwell, outro grande expoente dessa fase e da própria história geral da transexualidade, em razão de seu artigo Psychopatia Sexualis. Nesse artigo, Cauldwell (2001, p. 4) relata o quadro clínico de uma menina que desejava ser um menino, acabando por definir a transexualidade como um desejo mórbido e patológico em querer ser membro do sexo oposto, defendendo a ideia da existência de uma variedade de “graus” na forma de expressar a psicopatia transexual (CAULDWELL, 2001, p. 4). Esse termo foi posteriormente resgatado pelo próprio Harry Benjamin em seu artigo Transvestism and Transexualism (1953).

Em 1954, Christine Jorgensen foi eleita “mulher do ano”, ampliando a visibilidade das discussões médico-científicas em torno da transexualidade, da relativização das categorias de gênero e do debate sociológico acerca da construção da identidade sexual. Esse fato é entendido como o gatilho do crescimento substancial das cirurgias de “mudança de sexo”. Esse aumento exponencial das demandas e realizações das cirurgias de transgenitalização levou os psicólogos, principalmente os psicanalistas, a questionarem a potencial banalização do procedimento interventivo, uma vez que entendiam a cirurgia como uma mutilação irreversível.

Foi nesse contexto que os pesquisadores, seguidores da tradição americana da sociologia empírica e sua “teoria da influência determinante do meio”, lançaram-se ao estudo da questão da socialização dos intersexuais (hermafroditas ou indivíduos geneticamente “anormais”), dos meninos com órgãos genitais acidentalmente mutilados e das pessoas transexuais. Nesse cenário, segundo Castel (2001, p. 80), a psicanálise americana perdeu espaço, foi “medicalizada à força” e marcada pelo culturalismo, em razão de ser:

impotente para evitar de servir de caução à sociologia do gênero, e perdeu a batalha sem conseguir defender, por razões epistemológicas fundamentais, o caráter patológico de um distúrbio de identidade sexual puramente subjetivo (CASTEL, 2001, p. 80)

Consequentemente, em virtude de a psicanálise americana não conseguir defender o caráter psicopatológico do transtorno de identidade sexual num âmbito apenas subjetivo, criou-se um vácuo, a ser preenchido com novas teorias cujas construções pudessem dar esse suporte, em um plano secundário. Foi nesse vácuo que, a partir das décadas de 1950 e 1960, ganharam relevância, no cenário teórico estadunidense, as ideias do sociólogo Talcott Parsons e sua Teoria dos Papéis Sociais. Conforme aponta Castel (2001, p. 86), esse é o momento em que se desenvolveu “uma sociologia minuciosa, quase clínica, atenta aos 'papéis' funcionais

dos indivíduos e dos agentes, e que se esforça em traduzir em todos os terrenos o empreendimento abstrato de Talcott Parsons” (CASTEL, 2001, p. 86).

Com o objetivo de explicar o surgimento da Teoria dos Papéis Sociais, Carolina Grant (2013, p. 81) analisa o contexto, as matrizes e as principais preocupações de Talcott Parsons no desenvolvimento de seu “empreendimento abstrato”. O dito “empreendimento abstrato” de Talcott Parsons corresponde a sua intenção de extrapolar a herança funcionalista de Durkheim e conjugar a teoria de ação de Weber com a teoria dos sistemas em ação. Nas palavras de Carolina Grant (2013, p. 83), Talcott Parsons buscou em sua teoria provar que:

Os indivíduos, portanto, permaneceriam sendo os responsáveis pelas escolhas que determinariam suas ações, porém tais escolhas, orientadas à consecução de um fim, sofreriam a influência do processo de aprendizagem e assimilação dos padrões culturais e, sobretudo, dos papéis sociais (GRANT, 2013, p. 83)

Ao partir dessas premissas de sexo e gênero lançadas por Talcott Parsons em sua Teoria dos Papéis Sociais, o psicopediatra John Money lançou, no ano de 1955, os seus primeiros esboços teóricos do conceito de “gênero”, com a elaboração de sua tese acerca dos papéis sociais aplicadas à diferenciação entre os sexos. Todos os trabalhos antropológicos desenvolvidos sobre essas questões, a partir de então, adotaram o pressuposto da distinção definitiva entre “sexo biológico” e “gênero psicossocial”, consagrando este entendimento que passará a ser assente e pacífico em muitos círculos teóricos. Sendo assim, John Money consolidou em sua teoria que as distinções entre os sexos biológicos, especialmente os genitais definidos pelo pênis e pela vagina, conformarão, dessa forma, os gêneros masculino e feminino, os papéis sociais de homem e mulher, assim como as práticas sexuais heterossexuais.

Esse entendimento torna possível que as pessoas transexuais se “adaptem socialmente” com o objetivo de “adaptação social” mediante a cirurgia transgenitalizadora. Ao analisar a teoria de John Money, Carolina Grant (2013, p. 11) entende que “esta necessidade de ‘adaptação’ diagnosticável e as expectativas nela depositadas (coerência entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais) é um dos pilares, ainda, do reforço ao paradigma patologizante” (GRANT, 2013, p. 11).

As teorias de John Money, portanto, legitimaram o procedimento de adequação sexual que vigora até os dias de hoje, segundo as quais os transexuais teriam, em tese, total condição de se adaptar à sociedade, conscientes dos “papéis” que desejam representar e assumindo o entendimento dos papéis sociais desempenhados pelos indivíduos e do processo de construção das identidades. Logo, reproduz-se o raciocínio de que a realização de intervenções cirúrgicas

e endocrinológicas permitiriam o alívio do “mal-estar” da população transgênera e possibilitariam a sua inserção no convívio social com os demais.

Então, a partir da terceira fase da cronologia do “fenômeno transexual”, as publicações que investigaram as origens da transexualidade se popularizaram, todas focadas na explicação do fenômeno com base nas correntes teóricas disponíveis e nos estudos de caso. Nesse contexto, os avanços endocrinológicos-hormonais, aliados aos estudos de John Money e Talcott Parsons sobre os papéis sociais e a diferenciação dos papéis de gênero, passaram a ser colocados em prática mediante a organização de Centros de Identidade de Gênero, nos Estados Unidos, destinados ao atendimento especializado voltado para o público transexual.

Berenice Bento e Larissa Pelúcio (2012, p. 572) apontam como a etapa de fechamento da terceira fase a inclusão do “transexualismo” na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), no ano de 1980. Esse marco médico- científico foi amplamente celebrado enquanto fechamento de um ciclo que se iniciou na década de 1950 consubstanciado na busca pela “cura” de um mal existente em todos os tempos e culturas (BENTO e PELÚCIO, 2012, p. 572), desempenhando um forte impacto na formulação do dispositivo da transexualidade. Desse modo, verificou-se que, ao longo das décadas, o discurso médico-científico mostrou-se um esforço para comprovação de que o “fenômeno transexual” se tratava de uma “doença”, a qual teve sua individualização mais bem acabada e consubstanciada na versão difundida por Harry Benjamin e reiterada até os dias de hoje.

2.1.4 Harry Benjamin, Robert Stoller e a emergência da figura do “transexual verdadeiro"