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Não, num é que não pegou bem a mudança... eu, eu fiquei, eu fiquei assim... eu num era nem, eu, eu já estava começando, já estava começando uma mudança, mas muita coisa, eu não conseguia mudar a minha cabeça, né. Quer dizer, então era assim, você trazia aquela educação austera de família italiana, e você, no trabalho você convivia com, com... no trabalho, na escola, você convivia já com essas mudanças né, dos, dos movimentos feministas, daquelas... da, da Beth Fridman, que jogava sutiã, que num sei o quê... né. Então, é meio difícil pra você, é... conciliar aquelas coisas de dentro de casa, aquela educação austera com... com as novidades né.

Lori

Nas três histórias de vida há um eixo de poder, a tradição, que aparece com forte atuação frente à consecução de seus itinerários de vida. Um mecanismo que, muitas vezes, incita a movimentos de mesmice de suas identidades, principalmente, ao que se refere às expectativas de seus pais em requererem de suas filhas um projeto de vida que se reserva à vida privada, voltada para o cuidado familiar, ao projeto de maternidade e as atividades produtivas destinadas ao feminino.

Quando Lori se apresenta pela personagem que desempenha no espaço familiar, demonstra que é parte integrante desta comunidade de vida que também é sua comunidade de sentido. Já Neli e Eli expressam fazer destas profecias seus lugares de inconformismo, razões para superação.

De acordo com a narrativa de Lori, estes elementos tradicionais não parecem ter impedido metamorfoses de sua identidade, quando olhamos para o cenário cultural em que está inserida e vislumbramos o que era esperado socialmente da mulher naquele momento histórico. Lori conseguiu realizar muitos de seus projetos de vida, na medida em que conseguiu ajudar sua família, trabalhar na profissão que gostava, nunca ter deixado de estudar.

Todavia, sua utopia emancipatória está circunscrita dentro deste universo simbólico tradicional. A “mulher de negócios” é gerida por uma personagem anterior, a “filha que lidera”. O desempenho do papel social de “arrimo de família” incidiu em uma proposta identitária de mesmice, o que pode ter obstruído, como observamos em algumas passagens de sua história de vida, itinerários que permitiriam a concretização de alguns de seus sentidos emancipatórios, seja em relação à plena realização de seu projeto de vida profissional ou ao desenvolvimento de sua individualidade. Dois momentos nos parecem emblemáticos deste processo: Em função de uma “chantagem” proferida por sua mãe, resigna-se a frustrar seu sonho de sair do país para estudar uma língua estrangeira. Também pode ser contundente, para seu processo identitário, o fato de que as possibilidades de tornar-se “esposa” ou “mãe” pudessem sugerir oposição à constante reposição desta personagem “filha”, inferindo uma ameaça para sua identidade pressuposta.

Dentro do universo simbólico que compartilha com sua família, saúda alguns referenciais tradicionais, quando, por exemplo, expressa opiniões sobre os scripts sexuais que vigoravam nos salões públicos em meados do século XX para a consecução de encontros conjugais. Estes mesmos referenciais são utilizados por ela para avaliar as mudanças e reivindicações dos movimentos feministas que alcançaram grande visibilidade nesta mesma época.

Entretanto, Lori não adere integralmente aos valores tradicionais. Considera que, ao se afeiçoar com perspectivas teosóficas apresentadas a ela em instituições educacionais as quais optou por freqüentar, possa ter “aberto sua mente” em relação aos valores tradicionais que lhe foram imputados no processo de socialização. Da “filha de italianos, cuja educação familiar e religiosa fora austera”, consideramos que sua identidade passou por um movimento de mesmidade, transformando-a na “mulher que, contra os pais, freqüenta colégios iniciáticos e busca outros sentidos para a vida”. Encontramos, ainda, um incremento de sua racionalidade, em parte de sua narrativa que aponta incompatibilidades, seja para adotar os preceitos religiosos incutidos por seus pais, seja em aderir à luta da sua geração juvenil, que reivindicava maior liberdade sexual e de expressão.

É na contraposição destes sentidos que Lori considera se abrir para o devir humano, “lidando com as mudanças que estavam acontecendo” em seu entorno social. Por esta

perspectiva mediada, também elabora “conselhos” que costuma dar as suas jovens sobrinhas:

“Olha você, não tem mais emprego de marido ein. Por isso você cuide da sua carreira.

A história de Elli é marcada por uma recusa aos padrões e valores culturais. Este embate se dá, principalmente, nas conversas com sua mãe que expressa, pela sua fala e pela sua história de vida, uma concepção de mulher que nasceu no século XVIII. Neste modelo, a mulher deve zelar pelo lar, cuidar do marido e ter filhos, renunciando a qualquer projeto pessoal que não contemple estes três deveres.

O sentido de maternidade que sua mãe expressa chega a ser motivo de espanto para Elli. Para a mãe de Elli, uma mulher tem que ter um filho para que possa ser assistida na velhice. Elli aponta como esta perspectiva pode estar apoiada numa materialidade econômica, quando compara

Deste modo, quando recusa compartilhar dos sentidos que sua mãe lhe professa sob a expectativa de que cumpra um itinerário previsto às mulheres, ou seja, casar e ter filhos, ou quanto rejeita possibilidade de “solteirice” ao modo das histórias de vida de suas irmãs – apropriadas, até mesmo, a uma antiga noção de mulher “solteirona”, “encalhada”. Em oposição, Elli se põe em função do devir humano, e assim se projeta em construção de uma “vida que mereça ser vivida”, interessada num projeto de vida profissional que lhe confere identidade e comprometida com um projeto de maternidade de lhe ofereça outra perspectiva, emancipada de noções tradicionais e/ou instrumentais.