ontra quem”, pergunta Gérard Lebrun ao seu leitor, a epistemologia “teria podido atingir a idade adulta”? À guisa de resposta, Lebrun nos conduz para a Introdução da Lógica formal e transcendental de Husserl – “texto pomposo, mas instigante”:
Leiamos novamente essas páginas apocalípticas: transformadas em “técnicas teóricas”, nossas ciências modernas perderam a grande crença que as unificava, assim como seu enraizamento na razão teórica. Vejam, nos diz em suma Husserl, de que naufrágio niilista a fenomenologia, e somente ela, é capaz de salvá-los in
extremis. Ora, ocorre que nossa época não mais compreende que interesse teria essa salvação. E o destino atual da palavra epistemologia não é justamente um sinal dessa despreocupação? A “epistemologia” – bem o sabemos – está bastante em voga para que muita mistificação tenha sido e continue sendo cometida em seu nome. Mas de nada adianta zombar de uma moda; é preciso interrogá-la, pois o fato dela ter sido adotada é sempre instrutivo. Ora, essa moda, parece-me, indica que estamos bem à vontade diante do “declínio” diagnosticado por Husserl.1
Um fato instrutivo, o “destino atual” da epistemologia – e somos levados, ainda uma vez, aos “problemas fundamentais” do husserlianismo, expressão do limiar da modernidade filosófica: foi contra a reflexão racionalista sobre as ciências que a epistemologia pôde se estabelecer, trazendo à luz o fato de que a racionalidade de determinada ciência se enraíza em um “sistema autóctone de decisões e escolhas”. Desta feita, as ciências se vêem reconduzidas à heterogeneidade primordial que as apreende desvinculadas de uma “ratio”, de uma “mathesis”: “ciência e razão pura não mais se sobrepõem”.2 A epistemologia pôde, então, emancipar-se de uma problemática circunscrita pela “teoria do conhecimento” (Erkenntwisstheorie), compreendida como a tentativa “pós-
1 LEBRUN, Gérard. “A idéia de epistemologia”. In: A filosofia e sua história. Organização de Carlos Alberto
Ribeiro de Moura, Maria Lúcia M. O. Cacciola, Marta Kawano. Apresentação de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Cosac Naif, 2006, p. 143.
2 Idem, ibidem, p. 136.
cartesiana” de “sistematicamente remeter as ciências à razão homogênea da qual era
necessário – a qualquer custo – que elas fossem o produto.”1 A “curiosidade epistemológica”, com efeito, somente se exibe em sua plenitude lá onde a “razão pura” se despede do papel de progenitor; e se o racionalismo acabará por se “adaptar à existência dispersa das ciências positivas” (desde que não se atenha à “intransigência” de um Husserl2), isso em nada diminui a força das palavras de Bachelard, verdadeiro manifesto epistemológico, condição de possibilidade da atitude epistemológica: “A aritmética não está fundada na razão. É a doutrina da razão que está fundada na aritmética.”3 Ou ainda, para tomar Lebrun diretamente: “o fato de haver ‘história da ciência’ implica que a palavra
epístasthai designa uma aventura; o fato de haver ‘epistemologia’ implica que designa uma
estratégia. Nada mais que isso.”4
Nada mais, portanto, que isto: seria insuficiente dizer que a epistemologia é inseparável de uma “história das ciências”; se quisermos abordá-la em seus desdobramentos característicos, deve-se dizer que a ela cabe a tarefa de estabelecer a historicidade das ciências (sempre conjugadas no plural). Não é pouco: uma tarefa desse tipo exige que a epistemologia saiba adotar uma perspectiva filosófica que a faça distinta tanto das disciplinas propriamente históricas quanto das disciplinas ditas científicas. Assim sendo, é da “história da ciência” filosoficamente questionada – ou seja, interrogada em sua formação, sua reforma e na formalização de seus conceitos – que deve surgir uma “filosofia da ciência.”5 Ao relacionar de modo íntimo a reflexão filosófica com a análise histórica das ciências, a epistemologia acabará por colocar em relevo o desafio fundamental lançado pelas ciências à filosofia, a saber, aquele referente à própria racionalidade. Aventura e
estratégia, nos termos de Lebrun.
Portanto, se é correto afirmar – como o faz Canguilhem – que a filosofia mantém com a história das ciências uma relação mais direta do que com a história ou com as ciências propriamente ditas, isso se deve, sobretudo, ao novo estatuto que, a partir de Gaston Bachelard, a indagação epistemológica lhe confere em face da prática científica: um
1 Idem, ibidem, p. 132. 2 Idem, ibidem, p. 133.
3 BACHELARD, Gaston apud Idem, ibidem, p. 136.
4 Idem, ibidem, p. 138.
5 CANGUILHEM, Georges. “L’histoire des sciences dans l’oeuvre épistémologique de Gaston Bachelard”.
“epistemólogo racionalista” como Léon Brunschvicg pode perfeitamente insistir no fato de que não há “verdade” antes da “verificação”, isto é, de que a ciência antes diz a verdade do que a reflete; mas a verificação brunschvicguiana permanece ainda um “conceito intelectualista”.1 Será preciso esperar a epistemologia bachelardiana para que a “verificação” (ou “prova”) seja encarada como um “trabalho produtivo” regido por um conjunto de regras provisórias (e nem sempre explícitas): trata-se de uma atividade que consiste em reorganizar a experiência (o dado) e, portanto, em suscitar efeitos sem equivalentes naturais – a experiência não é mais o ponto de partida, mas o objetivo final da prática científica: elabora-se a experiência. Nas palavras de Bachelard, citadas igualmente por Canguilhem, é preciso reconhecer que “A ciência não é o pleonasmo da experiência.”2
Com efeito, a própria objetividade deve ser compreendida como uma “tarefa pedagógica difícil, e não mais como um dado primitivo” – “o mundo científico seria a nossa
verificação.”3 Quer dizer: a objetividade deve ser conquistada, e é no “acordo discursivo”, precária e renovadamente refeito e reinstituído no seio da “Cité scientifique”, que as “provas são trabalhadas”.4
O reconhecimento de uma historicidade radical da razão implica sustentar que não há uma lógica geral de cientificidade, mas apenas uma produção regional de normatividade – a cada passo na progressão de uma disciplina científica, as fronteiras entre científico e não-científico são renegociadas, deslocadas, refeitas, como bem ilustra a trajetória da física, considerada a partir dos anos 30 do século XX por Bachelard: “O físico foi obrigado, três ou quatro vezes nos últimos vinte anos, a reconstruir sua razão e, intelectualmente falando, a refazer uma vida.”5 Nas palavras de Canguilhem, “a ciência moderna faz da descontinuidade uma obrigação da cultura”.6
A conseqüência mais geral da tese epistemológica, tal e qual ela se edificará nos primeiros anos do século XX, está na recusa em considerar a existência de um caráter unitário, progressivo e contínuo da racionalidade que faça as vezes de chave mestra de sua
1 CANGUILHEM, Georges. “Gaston Bachelard et les philosophes”. In: Études d’histoire et de philosophie
des sciences, op. cit., p. 191.
2 BACHELARD, Gaston. La formation de l’esprit cientifique: contribution à une psychanalyse de la
connaissance objective. Paris: Vrin, 1989, p. 23.
3 BACHELARD, Gaston. Le nouvel esprit scientifique. Paris: Librarie Félix Alcan, 1937, p. 11. 4 CANGUILHEM, “Gaston Bachelard et les philosophes”, op. cit., p. 192.
5 BACHELARD, Le nouvel esprit scientifique, op. cit., p. 175.
evolução – as diversas ciências ou regiões do saber não são manifestações parciais de uma racionalidade única e profunda. Donde a contribuição essencial da epistemologia de Bachelard para toda uma geração de epistemólogos franceses: a introdução do conceito de “ruptura epistemológica” – assinalável pelo momento no qual a linguagem utilizada no interior de uma dada ciência torna incompreensíveis as tentativas anteriores de construção de seus problemas basilares. Cabe à epistemologia tornar inteligível este momento de edificação precária e difícil do pensamento científico, sempre retomado e retificado segundo graus diversos – os “pensamentos retificados”, dirá Bachelard, “não retornam nunca ao seu ponto de partida”.1 Toda e qualquer ciência, nesse sentido, não se apresenta como uma “constelação de verdades”, mas sim como o “tema possível de um exame
histórico ou filológico”: 1) as ciências “são aventuras contingentes”, de maneira que suas proposições são acontecimentos; 2) é possível “conferir-lhes o estatuto de um texto”, considerando-as como um “corpus de fórmulas (enunciados, protocolos, indicações de pesquisa...).”2
Lembremos que Bachelard inaugura este novo desafio lançado à racionalidade tendo por base as assim chamadas “ciências duras”: química e física (consideradas exemplares à luz da reflexão bachelardiana). Canguilhem, por seu turno, retoma as principais categorias metodológicas da epistemologia de Bachelard para debruçar-se sobre a análise das chamadas “ciências da vida”: biologia, anatomia e fisiologia. E se Bachelard representa a reversão fundamental de um continuísmo histórico que encontrará na epistemologia francesa o limite de suas pretensões, caberá a Canguilhem tornar manifesto o modo como as ciências da vida, na particularidade de seu acontecimento, implicam o “homem enquanto ser vivo” no interior da “constituição de um saber”.3 Ponto cardeal para o desenvolvimento da démarche eminentemente foucaultiana: a reflexão epistemológica de Canguilhem não é separável da referência a um processo geral que, nas palavras de Foucault, poder-se-ia caracterizar como uma “normalização social”, logo, da referência ao papel de exigência e coerção exercidas pela “norma” nos domínios aos quais ela é
1 BACHELARD, Le nouvel esprit scientifique, op. cit., p. 93 (o Capítulo IV da obra é particularmente
esclarecedor no que tange à idéia de recorrência).
2 LEBRUN, “A idéia de epistemologia”, op. cit., pp. 137-138.
aplicável.1 Por essa via, como não articular a instauração de racionalidade própria ao
discurso científico com as técnicas de investimento na “vida”? “Aristóteles não é, ao mesmo tempo, o lógico do conceito e o sistematizador dos seres vivos? /.../ A fixidez da repetição dos seres constrange o pensamento à identidade da asserção.”2
Lembremos, ainda, que Bachelard e Canguilhem se dirigem àquilo que faria a especificidade do conhecimento científico, de sorte que consideram sempre a vigência de uma demarcação entre a esfera do discurso científico e a do não-científico. Trata-se, portanto, de um exame crítico – em sentido kantiano – das condições que determinam a possibilidade do conhecimento científico. Contudo, à falta de articular a apreciação das condições da racionalidade científica a uma análise transcendental das formas do sujeito fundador, a epistemologia, ao postar-se em uma perspectiva histórica, dirige-se para a reflexão das condições práticas e contingentes da formação do saber científico. Destarte, se criticismo há, a epistemologia vai buscá-lo lá onde “Husserl não perdoa Kant”: tornada autocrítica, a “razão” deve se reportar às ciências “para conhecer as condições de sua competência, para saber até onde se estende seu direito de determinar objetos.”3 Em outros termos: não se trata mais de submeter o conhecimento à jurisdição de uma realidade ou de uma verdade transcendente (ou transcendental) em relação à esfera de cientificidade – a ciência não reproduz uma verdade, ela a produz; e ela o faz de acordo com as diversas regiões possíveis de constituição de cientificidade no interior de um dado horizonte histórico, sem que haja critérios universais ou exteriores a partir dos quais se possa julgar a verdade de uma determinada ciência.4
Assim, o que importa aqui é antes o “élan” epistemológico: fazer notar que a forma da racionalidade dominante, a qual se dá o estatuto de razão, é apenas uma das formas possíveis do “trabalho da racionalidade”. Nesta medida, não mais um exercício descritivo das conquistas progressivas da razão; antes – e isso é fundamental – um exercício de depuração das filigranas de uma configuração conceitual (trama que não se confunde com
1 FOUCAULT, Michel. Les anormaux: cours au Collège de France (1974-1975). Collection “Hautes
Études”. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana, par Valerio Marchetti et Antonella Salomoni. Paris: Seuil/Gallimard, 1999, pp. 45-46.
2 CANGUILHEM, Georges. “Le concept et la vie”. In: Études d’histoire et de philosophie des sciences, op.
cit., p. 336.
3 LEBRUN, “A idéia de epistemologia”, op. cit., p. 137.
4 CANGUILHEM, Georges. “Idéologie et rationnalité dans l’histoire des sciences de la vie”. In: Études
uma simples soma de elementos que bastaria enunciar). Uma “depuração do conceito”, portanto: a epistemologia procura rastrear, ao longo de suas ramificações e descontinuidades, não aquilo que os conceitos de “função” e “diferencial”, por exemplo, teriam representado no século XVII do ponto de vista de uma aquisição indispensável à razão, mas sim a ruptura que estes conceitos teriam provocado na constituição do objeto denominado “movimento”.1
Em lugar de procurar a fundamentação da prática científica a partir daquilo que seria o “profundo enraizamento da inteligência humana no passado”, deve-se buscá-la na “coerência de axiomas sem premissas”, na “coesão de técnicas sem antecedentes”: estar atento à historicidade das ciências significa abordá-las do ângulo de uma “história das filiações conceituais” na medida mesmo em que uma filiação desse tipo “possui um estatuto de descontinuidade”, o que significa que ela não se reduz a uma coleção de biografias e nem tampouco a um quadro de doutrinas.2 É preciso encontrar mais do que a soma das partes que compõem um conceito; é preciso encontrar seu “estilo”, os enunciados que ele admite ou não, as decisões – inclusive extracientíficas – que ele implica, os deslocamentos que ele opera, os objetos que com ele se pode remanejar, construir, manejar: “o verdadeiro é o dito do dizer científico. Devemos reconhecê-lo em quê? Nisto: ele não é jamais dito primeiramente. Uma ciência é um discurso regrado [normé] por sua retificação crítica.”3
Uma epistemologia que afirma a verdade inicialmente como produção e o saber como verificação (isto é, produção de verdade) possui, entre outras, uma implicação central: se a verdade é produção, então parece suspender-se aqui toda sorte de perspectiva ontológica que porventura (ou desventura) viesse a constituir um substrato para a edificação de uma “teoria do conhecimento” – inversão decisiva de perspectivas no interior da
démarche epistemológica, como bem ilustra Lecourt: “um filósofo, quando lê uma palavra, tem a tendência a enxergar nela um ser; o cientista vê nela um conceito a partir do qual todo o ser se resolve no sistema de relações em que ele se inscreve.”4 Ou ainda, nas
1 Idem, ibidem, p. 141.
2 CANGUILHEM, “L’histoire des sciences dans l’oeuvre épistémologique de Gaston Bachelard”, op. cit., p.
184.
3 CANGUILHEM, “Idéologie et rationnalité dans l’histoire des sciences de la vie”, op. cit., p. 21. 4 LECOURT, Dominique L. L’épistémologie historique de Gaston Bachelard. Paris: Vrin, 2002, p. 23.
palavras de Bachelard: “o objeto nos designa mais do que nós o designamos”.1 A ciência
não está diante do dado ou da experiência originária, a propósito dos quais verifica-se uma teoria; os objetos de uma ciência – sobretudo a moderna – são o resultado da “produção” de um mundo à imagem da razão.2 Assim sendo,
O objeto do historiador das ciências não pode ser delimitado a não ser por uma decisão que lhe assinala seu interesse e sua importância. Ele está alhures, sempre ao fundo, mesmo no caso em que esta decisão obedece a uma tradição considerada sem crítica. Um exemplo é aquele da história da introdução e da extensão das matemáticas probabilísticas [mathématiques probabilitaires] na biologia e as ciências do homem no século XIX. O objeto dessa história não depende de nenhuma das ciências constituídas no século XIX; não corresponde a nenhum objeto natural do qual o conhecimento seria a réplica ou o pleonasmo descritivo. Por conseqüência, o historiador constitui ele próprio um objeto a partir de um estado atual das ciências biológicas e humanas, sendo que ele não é nem a conseqüência lógica e nem o arremate histórico de nenhum estado anterior de uma ciência distinta, nem da matemática de Laplace, nem da biologia de Darwin, nem da psico-física de Fechner, nem da etnologia de Taylor, nem da sociologia de Durkheim. Por outro lado, a biometria e a psicometria não podem ser constituídas por Quêtelet, Galton, Castell e Binet senão a partir do momento no qual as práticas não-científicas tiveram por efeito fornecer à observação uma matéria homogênea e suscetível de um tratamento matemático. A estatura humana, objeto de estudo de Quêtelet, supõe a instituição das armadas nacionais e do recrutamento, bem como do interesse dispensado aos critérios da reforma. As aptidões intelectuais, objeto de estudo de Binet, supõem a instituição da escolaridade primária obrigatória e o interesse dispensado aos critérios de repetência [arriération]. Portanto, a história das ciências, na medida em que ela se aplica ao objeto acima delimitado, não apenas possui relação com um grupo de ciências sem coesão intrínseca, mas também com a não-ciência, com a ideologia, com a prática política e social.3
1 BACHELARD, Gaston. La psychanalyse du feu. Paris: Gallimard, 1949, p. 11.
2 “Après avoir formé, dans les premiers efforts de l’esprit scientifique, une raison à l’image du monde,
l’activité spirituelle de la science moderne s’attache à construire un monde à l’image de la raison.” Cf. BACHELARD, Le nouvel esprit scientifique, op. cit., p. 12.
3 CANGUILHEM, Georges. “L’objet de l’histoire des sciences”. In: Études d’histoire et de philosophie des
Quatro elementos, intimamente articulados, devem reter a nossa atenção no trecho citado acima: 1) o “objeto do historiador das ciências” é delimitado por uma decisão que assinala ao pesquisador “seu interesse e sua importância” – o que ressalta a idéia de uma “história das ciências” compreendida como “atividade axiológica”, sendo a epistemologia aquela que “é chamada a fornecer para a história o princípio de um julgamento”;1 2) não se trata, portanto, de um “objeto” do qual o “conhecimento” seria uma “réplica descritiva” – lição fundamental da epistemologia bachelardiana: sem relação com a historicidade do discurso científico a epistemologia não passaria de um duplo (supérfluo) da ciência;2 3) o historiador constitui o objeto a partir do “estado atual” das ciências, perfazendo um caminho que consiste não em filtrar o passado por meio de um conjunto de enunciados ou teorias atualmente válidas (como se elas estivessem contidas no pretérito), mas sim em partir do atual a fim de compreender a maneira através da qual um enunciado se constituiu como “verdadeiro”; 4) este processo de “constituição de discursos verídicos” – a expressão talvez evoque antes a obra de Foucault do que a de Canguilhem – não se limita ao âmbito interno de uma dada ciência ou das várias ciências tomadas em suas irredutibilidades: às inter-relações conceituais vêm somar-se relações que extrapolam o domínio “estritamente” científico. Produto de práticas sociais, a ciência, na lógica de seu próprio desenvolvimento, torna-se ela própria uma “prática social”. E é por ela ser, nesse nível, uma tomada de posição que se torna possível tomar posição frente a ela.3
Destarte, se é preciso fazer da “história das ciências” uma “história das filiações conceituais” é porque é no nível conceitual que se tramam e se matizam – a contragolpes, acidentes, desvios – as linhas de força dos discursos tidos como verdadeiros, é lá que são construídos os “objetos” com os quais a epistemologia, se quer fazer jus à historicidade própria às práticas científicas, deve lidar. E se uma “história” como essa passa também pela “prática de uma sociedade”, é porque o conceito é formado quando ele permite instituir um
1 Idem, ibidem, pp. 19;13. 2 Idem, ibidem, p. 12.
3 MACHEREY, Pierre. “Posfácio: a filosofia da ciência de Georges Canguilhem (epistemologia e história das
ciências)”. In: CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas. Revisão técnica de Jorge Alberto Costa e Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 279.
“protocolo de observação”.1 É esse o sentido que deve recobrir a leitura das palavras de
Canguilhem em sua tentativa por circunscrever aquilo que, de certo modo, não pode ser circunscrito – o objeto da “história das ciências”:
O objeto do discurso histórico, com efeito, é a historicidade do discurso científico, enquanto essa historicidade representa a efetuação de um projeto internamente regrado [normé], mas atravessado de acidentes, retardado ou desviado por obstáculos, interrompido por crises, quer dizer, por momentos de julgamento e de verdade. /.../ A história das ciências é a tomada de consciência explícita, exposta como teoria, do fato de que as ciências são discursos críticos e progressivos para a determinação daquilo que, na experiência, deve ser tomado por real. O objeto da história das ciências, portanto, é um objeto que não está dado, um objeto cujo inacabamento é essencial.2
A historia das ciências vista como “projeto regrado”, um projeto interrompido por “crises”, quer dizer, por “momentos de julgamento e de verdade” – levado a termo, um tal entendimento deságua naquilo que Claude Imbert denominará de “Le temps de Cavaillès”, um “tempo” no qual todas “as linguagens, sua parte explícita de signos e sua parte implícita