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da REA encontrará em seu frontispício, entre 1899 e 1914, a reprodução da célebre Dama de Elche (figuras 2.4.1 e 2.4.2). Similar recurso gráfico, inusual nas demais revistas dedicadas aos estudos greco-latinos do período, nada tinha de fortuito. Com efeito, ele estava lá para evocar a unidade temática e os primeiros sucessos do grupo reunido em torno do referido periódico.

A relação entre os colaboradores da REA e a Dama é tão antiga quanto sua descoberta. Quando ela veio à tona nos arredores da Elche de 1897, no sul da Espanha, foi um jovem professor universitário francês quem primeiro a examinou: tratava-se de ninguém menos que Pierre Paris, então encarregado de uma missão arqueológica na região. Perplexo com o estilo e seguro da autenticidade da peça, ele negociou sua compra e transferência para o Louvre.

Os elogios à iniciativa do arqueólogo foram unânimes e à descoberta seguiram-se intensos debates (cf., para uma primeira síntese, REG, 1899: 211-219). Queria-se saber, por exemplo, se tal peça possuía um estilo clássico ou arcaico. Além disto, discutia-se o peso dos traços orientais nela presentes: seriam eles sinal de atraso, ou de algum ethos particular? Entre Ca e e Salambô , a Dama de Elche acabou se impondo como um desafio à História da Arte praticada naquele momento.

Dois dos fundadores da REA atuaram diretamente nas discussões sobre a peça. O próprio Paris, por um lado, defendeu a tese da

influência micênica sobre a arte ibérica, a qual teria moldado o estilo da região entre o séc. XV a.C. e a conquista romana (ROUILLARD, 1996). Assim, a Dama de Elche, apesar de seguramente datada entre 460 e 440 a.C., deveria ser tomada como arcaica nos termos da arte grega. Tal estilo teria se mantido estagnado e adquirido feições próprias em função das particularidades étnicas e históricas da Península Ibérica.

Jullian, por seu turno, investiu em outra direção (REA, 1903: 317-327). Para ele, a estátua seria expressão da presença grega, mais precisamente foceia, na região. Mesmo sabendo que a expansão de Cartago havia desbancado a talassocracia dos foceus quando a Dama foi produzida, ele defendeu a tese de que sua influência ainda se fazia sentir por meio de rotas comerciais. Tratava-se, provavelmente, da obra- prima de algum artesão foceu que atendia a comendatários locais.

Contrastando com as abordagens acima mencionadas, nas quais a história regional é um dos principais elementos acionados na explicação da escultura antiga, Théodore Reinach manteve sua análise restrita a questões estilísticas. Para ele, diretor da Revue des Études Grecques, os traços orientais da Dama não suscitavam maiores questões. Afinal, nada deveria obscurecer o fato de ela ser u aàCarmem que Temístocles poderia te à o he ido (REG, 1898: 39-60). O desejo de integrá-la ao seu domínio de estudo, atendo-se ao que havia nela de puramente grego, guiava, assim, a leitura de Th. Reinach.

179 Uma análise do número de artigos publicados em cada uma das áreas temáticas acolhidas pela REA, entre 1899 e 1920, indica como a nova disciplina foi rapidamente alçada à posição de carro-chefe da publicação. Como se pode verificar no quadro abaixo, se houve um período inicial marcado por fortes os ilações,à oà ualàasà á tiguidades Nacionais àpassaram a competir com os estudos gregos e latinos em termos de número de artigos publicados, não menos da metade dos textos apareceu integrado a esse rótulo a partir de 1906.

Quadro 2.4.3 – Números absoluto e relativo de artigos (articles de fond) por área temática da REA.

ANO N. TOTAL DE ARTIGOS

PUBLICADOS ORIENT GREC (ABS/%) MONDE LATIN (ABS/%) ANTIQUITÉS NATIONALES (ABS/%) 1899 11 8 72,7% 2 18,2% 1 9,1% 1900 12 5 41,7% 5 41,7% 2 16,7% 1901 10 6 60% 3 30% 1 10% 1902 27 (*) 10 37% 3 11,1% 11 40,7% 1903 25 (*) 7 28% 2 8% 12 48% 1904 20 9 45% 6 30% 5 25% 1905 25 8 32% 5 20% 12 48% 1906 30 7 23,3% 3 10% 20 66,7% 1907 39 11 28,2% 1 2,6% 27 69,2% 1908 28 12 42,9% 2 7,1% 14 50% 1909 21 8 38,1% 2 9,5% 11 52,4% 1910 35 8 22,9% 1 2,9% 26 74,2% 1911 36 10 27,8% 3 8,3% 23 63,9% 1912 39 14 35,9% 1 2,6% 24 61,5% 1913 45 13 28,9% 6 13,3% 26 57,8% 1914 40 13 32,5% 3 7,5% 24 60% 1915 18 5 27,8% 4 22,2% 9 50% 1916 21 3 14,3% 5 23,8% 13 61,9% 1917 18 3 16,7% 5 27,8% 10 55,5% 1918 26 7 26,9% 2 7,7% 17 65,4% 1919 26 6 23,1% 3 11,5% 17 65,4% 1920 19 5 26,3% 2 10,5% 12 63,2%

(*) Há, entre 1902 e 1903, uma seção de artigos i tituladaà P i suleàHispa i ue .àEis a razão de o total de artigos não bater com o número publicado nas três demais seções (Orient Grec, Monde Latin e Antiquités Nationales) nesses anos.

180 Mesmo considerando-se o destaque que asà á tiguidadesà Na io ais à receberam no interior da REA, é importante destacar que isso jamais implicou uma forma qualquer de monopólio. A despeito das especificidades da nova disciplina, em especial a interdisciplinaridade dirigida ao problema da origem de regiões e de nações, ela foi também defendida como um braço especial dos estudos sobre o Mundo Antigo. Certamente havia uma razão que tornava indesejável, ou mesmo impensável, sua emancipação total, a saber: a particularidade de sua institucionalização no seio do sistema de ensino francês.

Com exceção da cadeira de Histoire et Antiquités Nationales criada para Camille Jullian no Collège de France de 1905, asà á tiguidadesà Na io ais à o conquistaram postos nos ensinos médio e superior para tratar exclusivamente de seus conteúdos, nem originaram exames aptos a direcionar desde cedo estudantes para eles. Um dos efeitos imediatos disso foi a imposição de limites quanto à atuação profissional de seus entusiastas. Como será visto mais adiante, muitos permaneceram vinculados às cadeiras voltadas à Grécia e à Roma antigas, embora outros tenham conseguido conquistar novos e importantes nichos tanto nas cadeiras universitárias de história e de literatura regionais como nos postos de conservador de museus provinciais. Efeitos desses limites se fizeram sentir igualmente no recrutamento do grupo: a maioria dos colaboradores franceses e universitários da REA, até 1920, possuía uma formação de latinista ou de helenista. De fato, sendo estas duas das áreas centrais nas Faculdades de Letras, era natural que o interessado em se tornar professor ou pesquisador se sentisse compelido a partir daí para então se voltar a outras questões e objetos. Vale lembrar que para os fundadores da REA a situação foi exatamente esta:àasà á tiguidadesàNa io ais à surgiram após os estudos greco-latinos. Para seus herdeiros, o cenário manteve-se praticamente inalterado.

Mas tal ancoragem institucional estava longe de implicar tão somente desvantagens para a nova disciplina. Poder-se-ia dizer que, ao at ela àasà á tiguidadesàNa io ais à Grécia e à Roma Antigas, seus especialistas mantiveram-se próximos a um dos principais pilares do sistema educacional francês. Além disso, estava em questão toda a revitalização de uma tradição. Com efeito, diante da ausência de instituições aptas a formar outras modalidades de especialistas ao longo do século XIX, latinistas e helenistas de carreira haviam se ocupado do estudo da Gália e das origens germânicas da França. Na geração imediatamente anterior àquela dos fundadores da REA, o exemplo vinha de um dos mais ilustres representantes da elite universitária, Fustel de Coulanges21. Entre os contemporâneos que não aderiram totalmente à proposta da revista, Salomon Reinach e Gustave Bloch dedicaram-se, com maior

181 ou menor empenho, a questões similares22. Deste modo, o grupo em torno da REA, ao tornar o que era uma variante estruturalmente possível na carreira de latinistas e de helenistas um objeto de contenda, afirmando uma ruptura com o caráter descentralizado e desordenado que tais estudos possuíam até então, procurou tomar posse de um espaço já existente e de relativo prestígio, potencializando-o.

Outra vantagem nada desprezível dos vínculos com os estudos greco-latinos provinha do fato de um certo uso deles ter sido utilizado para justificar o aparecimento da REA. A nova revista, afinal, queria-se contrária a certos modernismos parisienses, os quais, nesses campos específicos do saber, relegavam o local e o nacional a um plano menor, tudo em função de valores abstratos e universalistas. Tratava-se assim de um capítulo da reação contra a Nouvelle Sorbonne, uma Sorbonne germanizada que ameaçava padrões já consagrados de trajetórias ao fazer com que latinistas e helenistas perdessem espaço para saberes cujas epistemologias não se subordinavam necessariamente às suas23.àCa aliza àasà e e giasàp ovi iais à o t aàtais modernismos, em defesa dos autênticos estudos greco-latinos franceses, era assim um ato ao mesmo tempo científico e patriótico. Sobre isso, como registrou o latinista William Seston, Georges Radet costumava dizer (REA, 1941: 6-7):

Não tendo Lutécia tido um papel de primeiro plano na história de nossas origens, é na província, acreditava ele [Radet], que se está melhor situado para compreender a vida antiga de nosso país. Enfim, ao aproximar os estudos que a concernem e aqueles que tratam do Oriente antigo, da Grécia e de Roma, Radet afirmava que a isolar seria se arriscar a compreender mal sua originalidade, pois a vida de nosso país na época céltica e galo-romana é apenas um aspecto da vida antiga que nele permanece.

Se queremos que tudo continue, é preciso antes que tudo mude .àáà i aàpela qual tornou-se célebre o protagonista do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ilustra bem os efeitos e as lógicas dos investimentos sociais dos fundadores da REA. Como membros de elites, nesse caso universitárias, que se sentem ameaçadas de rebaixamento, eles inventaram uma proposição capaz de frear outras proposições concorrentes. Afinal, nada na síntese das á tiguidadesàNa io ais àcolocava em questão a antiga estrutura do sistema de ensino, até porque Grécia e Roma Antigas permaneciam no centro de formação e dos espaços de

22 Em função de seu cargo de conservador do Musée des Antiquités Nationales, Salomon Reinach

dedicou-se, sobretudo, à arqueologia galo-romana. Destaco aqui, entre tantos outros de seus trabalhos, REINACH, 1889, 1890 e 1895. Já o latinista Gustave Bloch publicou um importante estudo sobre a história da Gália (BLOCH, 1901).

23 Um momento de tensão particularmente instrutivo entre essas epistemologias que se manifestavam

dentro e fora da Universidade foi a Comissão Ribot, a qual ouviu professores e personalidades a fim de propor uma reforma para o sistema de ensino. Tal Comissão foi decisiva para a flexibilização dos padrões de ingresso na vida universitária francesa, tornando opcionais as provas de latim e grego em 1902. Uma instigante análise disso pode ser encontrada em RINGER (1992: 114-126, 141-195).

182 sociabilidade dos representantes da nova disciplina. Nesse sentido, tratava-se de uma inovação de aporte estruturalmente conservador.