Se, nesse empreendimento coletivo que abarca a criação de uma revista e de uma disciplina, fosse necessário destacar um nome e um evento-chave, não se poderia evocar outros que não o de Camille Jullian e sua primeira tentativa de ingresso no Collège de France. No dia 13 de dezembro de 1886, motivado por uma série de sucessos em sua recém-iniciada carreira, Jullian endereçou ao administrador dessa instituição uma carta apresentando sua candidatura24. O jovem latinista, então com 27 anos, possuía já um respeitável currículo. No que diz respeito à sua trajetória acadêmica, além de ter sido aluno da ENS, membro da École Française de Rome e estagiário de Mommsen na Universidade de Berlim, ele ministrava há alguns anos cursos na Faculdade de Letras de Bordeaux. Quanto à sua produção, além das teses, Jullian havia publicado livros e memórias, bem como um número considerável de artigos nas mais importantes revistas científicas francesas (os M la ges d’A h ologie et Histoi e, a Revue Archéologique, a Revue Philologique, a Revue Historique, entre outras).
A cadeira ambicionada por ele era a de Epig aphie et d’A ti uit s Romaines, cujo titular, Ernst Desjardins, seu antigo professor em Paris, havia falecido. Para a infelicidade de Jullian, contudo, apareceram outros três pretendentes ao mesmo posto, Gustave Bloch (1848- 1923), Jean-Baptiste Mispoulet (1849-1917) e René Cagnat (1852-1937), todos mais velhos e bastante qualificados. O primeiro, Bloch, havia sido normaliano e membro da École Française de Rome no momento em que esta se separava de sua matriz ateniense. Sua tese, defendida em 1883, discutia as origens do senado romano e sua produção posterior, restrita a artigos, mantinha-se atrelada ao estudo das instituições políticas de Roma. Bloch era, naquele momento, professor de Antiquités Grecques et Latines na Faculdade de Letras de Lyon. Jean- Baptiste Mispoulet, por seu turno, era o mais desfavorecido em termos de títulos e de publicações. Sem jamais ter sido aluno da ENS, ele devia sua formação aos cursos de Rénier e de Desjardins que acompanhara no Collège de France e na EPHE. A produção que acumulava até o momento poderia ser encontrada basicamente no Bulletin Critique, embora possuísse um livro (sobre as instituições de Roma) e uma memória (sobre o senado romano) laureados respectivamente pela Académie des Sciences Morales et Politiques e pela Académie des Inscriptions et Belles-Lettres. A despeito desses trunfos, Mispoulet não contava com grau de doutor e, por conseguinte, mantinha-se às margens da Universidade (sua atuação na área
24 Cf. Arquivos do Collège de France, na pasta Assemblée du 16 janvier 1887, o documento código g-IV-
183 limitava-se a cursos para auditores livres oferecidos na Sorbonne). René Cagnat, por fim, destacava-se de seus concorrentes em mais de um quesito. Embora não tenha passado pela École Française de Rome, esse antigo normaliano esteve envolvido desde cedo com a epigrafia latina. Após ter defendido em 1880 um doutorado sobre as milícias municipais e provinciais no Império Romano, ele foi encarregado pelo governo francês da nova frente de escavações que se abria na Tunísia. Para além da experiência de campo e das publicações que isso lhe rendeu diretamente, Cagnat foi convidado na mesma época para ser diretor de um dos suplementos, o relativo a África, da Corpus Inscriptionum Latinarum, a monumental coleção dirigida por Mommsen. O prestígio conquistado nesses primeiros anos de atividade foram ainda aumentados com a publicação do livro que mais o tornou conhecido, seu Cours élémentaire d’ pig aphie lati e (1886). Entre uma e outra de suas missões arqueológicas no exterior, Cagnat atuava como professor na Faculdade de Letras de Douai.
Pouco mais de um mês após Jullian ter escrito sua carta, no dia 16 de janeiro de 1887, os integrantes do Collège de France se reuniram, como reza o regulamento da casa, para deliberar acerca do sucessor de Desjardins25. Seguindo os registro da ata dessa assembleia, constata-se que, após a apresentação dos quatro candidatos, o professor de Histoire de la Littérature Latine, Gaston Boissier, pediu a palavra para desenhar aos colegas um resumo do quadro que se lhes apresentava. Para ele, causava certo embaraçoà te à dia teà deà sià uat oà a didatosà uitoà e o e d veis .à N oà o sta te,à o oà algu sà pa e ia -lhe mais recomendáveis que outros, ele tratou logo de descartar dois nomes: o de Bloch e o de Mispoulet.àDoàp i ei o,à e o he euàoà espí itoàvigo oso ,à deàp i ei aào de ,à asà iti ouà os fatos de seus trabalhos serem pouco numerosos e, o que era ainda mais comprometedor, apenas marginalmente ligados à epigrafia. Do segundo, limitou-seàaàdize à ueà suaà e ó iaà coroada pela Academia não é inteiramente de primeiraà o .àJ àe t eàosàoutros dois, Jullian e Cagnat, Boissier pareceu hesitar. Seguiu-se então uma breve exposição de suas produções, da qual se inferiu que Jullian deveria aparecer como o segundo e Cagnat como o primeiro a ser indicado pelo colegiado para o crivo do ministro da Instrução Pública (o qual, por via de regra, deveria respeitar a ordem definida pela assembleia). Além de Boissier, outros dois professores se manifestaram: enquanto Louis Havet, titular da cadeira de Philologie Latine, concordou com as considerações do colega, Jacques Flash, professor de Histoire des Législations Comparée, quis o pleta àaàe posiç oàdosàtítulosàdoà“ .àBlo h .
Uma vez aberta a votação, quanto ao primeiro nome a ser indicado, Cagnat obteve uma maioria de dezoito votos, seguido de longe por Bloch, com apenas oito. Jullian apareceu
25 Cf. Arquivos do Collège de France, na pasta Assemblée du 16 janvier 1887, o documento código g-IV-
184 em terceiro lugar com três votos e ninguém optou por Mispoulet. Não obstante, quando se passou para a votação do segundo nome, aqueles que haviam votado em Cagnat optaram em sua maioria por Jullian. Foram, ao total, dezessete votos para ele, seguidos de onze para Bloch e um para Mispoulet. Resultado final: Cagnat ganhou a eleição e Jullian voltou para Bordeaux com um louvável, mas frustrante, segundo lugar.
A crônica desse fracasso suscita importantes questões para quem almeja compreender a dinâmica de funcionamento da REA. Ela fornece, por um lado, subsídios para apartar o nome de Jullian do coletivo constituído em torno da referida publicação. Tratava-se, afinal, do único de seus fundadores disposto a (e em condições de) obter um posto no Collège de France, o que reclama explicações. Por outro lado, tal crônica permite acompanhar o momento preciso em que a carreira de latinista de Jullian deu u aàgui adaàde isivaàe àdi eç oà sà á tiguidades Nacio ais , com as quais, de fato, ele viria a conquistar Paris dezessete anos mais tarde.
Quanto ao primeiro ponto, as especificidades de Jullian no interior da REA, é salutar atentar para o que se poderia chamar de um legado familiar duplamente vantajoso. Enquanto seus colegas provinham de famílias católicas mais ou menos remediadas, ele, nascido na Marselha de 1859, foi o único filho homem de um casal que tinha por pai, de quem herdara nome e sobrenome, um abastado banqueiro provincial e por mãe, Marie Rouvière, uma descendente de proprietários fundiários. Some-se a isso, fato indissociável do anterior, a pertença de ambos, pai e mãe, à fina flor dos protestantes vaudois franceses.
Os vínculos com a elite protestante abastada parecem ter marcado Jullian, sensibilizando-o a um cenário no qual essa sua condição resvalava com frequência nos modos à época disponíveis de se fazer ciência e política. Ele cresceu, efetivamente, sob um regime, o da Terceira República, marcado por intensos conflitos de classe (a Comuna de Paris, as primeiras grandes greves de trabalhadores e a fundação da SFIO) e de fundo político-religioso (a laicização do Estado francês e o Affaire Dreyfus). Não por acaso, essas questões guiaram sua interpretação do mundo e, em particular, suas estratégias de inserção em universos letrados.
Vê-se um exemplo de como Jullian esteve atento ao que se passava ao seu redor quando, em novembro de 1880, ele escreveu a seus pais comentando a suspensão de um professor da ENS por suposto envolvimento com congegaçõesà eligiosas:à euà fi ueià uitoà surpreso ao ver o nome do Sr. Ollé-Laprune envolvido com política; ele é doce demais para fazer o que lhe condenam. Sua demissão é uma revogação. Eu sei que ele é um católico convicto, mas muito tolerante; a prova é que ele nos ama muito, a [Henry] Michel e a mim, e que ele me recomendou com vigor ao Sr. Geffroy, seu p i o à JULLIáN,à :à -7). Pode-se dizer o mesmo de suas observações acerca da carreira do próprio Geffroy. Jullian especulou
185 sobre o futuro do diretor da École Française de Rome em uma carta de outubro de 1881. Nela, suspeitava ue,àe àfu ç oàdeàseuà le i alis o ,àoà ualà oàoàdei aà uitoà e àe àPa is ,à Geffroy perderia seu posto (JULLIAN, 1936: 164-5)26.
Jullian teve, contudo, o faro suficientemente aguçado para perceber que o vínculo religioso não era em si mesmo uma desvantagem. No período de sua formação, é interessante observar como ele se valeu de redes protestantes para fortalecer sua posição na Universidade. Em maio de 1880, ele escreveu de Paris a sua mãe para contar-lhe do encontro com Jules Bonnet, um dos fundadors da “o i t de l’histoi e du p otesta tis e f a çais e diretor do Boletim dessa instituição (JULLIAN, 1936: 2-3):
Ele é muito rico, a julgar por suas relações e as numerosas viagens que fez; ele é amigo de Mignet, dos Orléans e amigo muito íntimo de seu camarada de École [Normale Supérieure], o Sr. Geffroy, diretor da École de Rome. Não poderia ele me recomendar? O Sr. Bonnet me prometeu (...) Eu espero que papai fique contente com este encontro que eu havia procurado, já há bastante tempo, fazer e que eu enfim fiz.
Ora, este senhor fora também colega de seu pai nos tempos de liceu e, de fato, abriu-lhe inúmeras portas durante o período em que permaneceu na Itália e na Alemanha. Graças a ele, Jullian foi acolhido por fiéis estrangeiros, frequentou bibliotecas de acesso restrito e recebeu encomendas de textos sobre a história de sua Igreja que o tornaram conhecido no meio.
Outro apadrinhamento importante proveniente dos círculos protestantes veio da parte de Gabriel Monod. Diretor da Revue Historique, ele acolheu desde cedo as contribuições de Jullian, primeiro sob a forma de resenhas e, finalmente, dando-lhe a direção de uma seção da revista dedicada à Roma Antiga (trata-se do item Tavau su l’a ti uit o ai e, publicado com alguma regularidade entre 1893 e 1908). Nas cartas de Jullian endereçadas a seus pais, fala-se com entusiasmo das encomendas de Monod, bem como dos contatos estabelecidos a partir dele (JULLIAN, 1936: 72, 165, 273-4).
Mas não se deve confundir o uso dessas redes de influência com alguma forma de militância religiosa. Embora jamais tenha deixado de assumir publicamente seu credo, Jullian reconheceu que a transferência desse trunfo para a Universidade tinha uma eficácia limitada. Assim, na sedução de letrados católicos ou judeus, ele se valeu das outras modalidades de capitais de que dispunha, em particular o prestígio intelectual.
Com efeito, Jullian soube cultivar a fama de prodígio desde o período de sua formação. Após brilhantes estudos no Liceu de Marselha, ele foi aprovado no exame de admissão da ENS com uma idade inferior à permitida (17 anos, quando o mínimo era 18), tendo mesmo de
26 Jullian não se enganou quanto a isso. De fato, em fins de 1882, Edmond Le Blant acabou sendo