No interior da terapia ocupacional mundial, existem algumas vertentes históricas que explicam o surgimento da profissão e que são divergentes no que diz respeito ao seu marco inicial. Conforme Cavalcante, Tavares e Bezerra (2008) e Bezerra e Trindade (2013), toda profissão surge para atender a necessidades sociais originadas do processo histórico. Sendo assim:
No que diz respeito à Terapia Ocupacional, pode-se dizer que essa necessidade surgiu com a Primeira Guerra Mundial e com a intensificação do processo de industrialização fordista, no início do século XX. A Terapia Ocupacional emerge socialmente não só para tratar das vítimas dos acidentes de trabalho da indústria moderna, mas também para colocar em condições de exploração os indivíduos que, por alguma problemática física e/ou sensorial, encontravam-se à margem da produção capitalista (BEZERRA; TRINDADE, 2013, p. 159).
Para Guajardo (2012), a condição de existência da terapia ocupacional não se deu em razão de uma ordem natural de acontecimentos ou de uma condição intrínseca das pessoas que se reuniram para inaugurar um novo ofício; pelo contrário, sua existência é devida a determinados problemas sociais, expressos em âmbitos como saúde, educação, trabalho, justiça e proteção social.
Contudo, a discussão acerca da utilização da atividade e do trabalho como forma de tratamento existe desde meados do século XVII, ganhando espaço na literatura médica a partir do século XVIII, quando o tratamento moral utilizou a atividade como recurso terapêutico para o tratamento do louco, porém ainda não era possível denominar essa prática como terapia ocupacional (MEDEIROS, 2003).
Com base na perspectiva humanista do tratamento moral europeu, surgiu nos Estados Unidos, à luz da orientação do psiquiatra norte-americano Adolf Meyer, uma prática denominada terapia ocupacional. A origem dela teve como objetivo atender aos doentes crônicos com sofrimento mental residentes em hospitais de longa permanência como também em hospitais gerais (SOARES, 1987; MEDEIROS, 2003).
Para o desenvolvimento dessa prática, médicos que acreditavam na eficácia dessa intervenção terapêutica treinavam enfermeiras e assistentes sociais para o trabalho. Durante a Primeira Guerra Mundial, preparou-se um contingente maior de pessoas para atuar com essa
técnica, objetivando formar terapeutas ocupacionais para o tratamento de acidentados de guerra (MEDEIROS, 2003).
Todo esse interesse norte-americano pela utilização do trabalho/ocupação como forma de tratamento culminou na criação da Sociedade Nacional para Promoção da Terapia Ocupacional, ainda durante a Primeira Guerra Mundial. Essa Sociedade surgiu em 1917, a partir de uma reunião na cidade de Clifton Springs, Ontário, Nova Iorque, em que um grupo de pessoas interessadas no assunto se reuniu durante três dias para conversar sobre o assunto. Estiveram presentes nessa reunião George Edward Barton, Willian Rush Dunton Jr., Thomas B. Kidner, Isabel G. Newton, Susan C. Jonson e Eleonor Clarke Slagle, profissionais de diversas áreas (VALVERDE 2007; VALER; ORTEGA, 2011).
Apesar de que há muito já se ouvia falar sobre o uso da ocupação como ferramenta terapêutica em alguns países europeus, nos Estados Unidos e no Canadá, sob nomenclaturas variadas e concepções distintas, e com o oferecimento de cursos não estandardizados para formação de terapeutas ocupacionais nos Estados Unidos desde 1914, foi a partir do encontro de George Edward Barton e Willian Rush Dunton, e das cartas trocadas por eles semanalmente desde aquele ano, que a ocupação terapêutica ganhou um status significativo com a criação da Sociedade Nacional para Promoção da Terapia Ocupacional. Em suas conversas, Barton e Dunton identificaram a necessidade da construção de uma entidade que unisse os profissionais que trabalhavam com ocupação e assim o fizeram em 1917 (VALVERDE, 2007).
Após a fundação da Sociedade Nacional para Promoção da Terapia Ocupacional, a jovem profissão denominada terapia ocupacional obteve significativa absorção social e consequente expansão, sendo fortemente impulsionada pelo sistema capitalista, pela divisão do trabalho na área da saúde e pelo contexto da Primeira Guerra Mundial (SOARES, 1987).
Existe algo singular na criação da Sociedade que marcou o desenvolvimento inicial e a primeira expansão da terapia ocupacional: a diversidade de opiniões dos seus seis fundadores acerca do processo de vida das pessoas, da ocupação humana e dos serviços necessários. Esse detalhe figura uma história interessante, pois todos aqueles profissionais comungavam o reconhecimento dos benefícios da ocupação como terapia, porém todos o legitimavam segundo suas distintas formações e experiências de vida (PELOQUIN, 2007; JARA, 2011).Os fundamentos ideológicos dos fundadores eram provenientes de várias vertentes, entre elas estão
o tratamento moral11, o movimento de artes e ofícios12, a ideia de equilíbrio entre os “ritmos da vida”13 e a própria reabilitação decorrente dos acidentes industriais. Essas perspectivas exerceram tanta a influência no início da terapia ocupacional quanto uma série de acontecimentos relacionados ao momento socioeconômico-político da época, que levaram as pessoas a acreditar no ideário da utilização do “trabalho” como meio e fim de tratamentos em saúde (MEDEIROS, 2003; JARA, 2011). O principal incentivador para construção da Sociedade foi George Edward Barton, que estudou arquitetura nas escolas públicas de Boston e deu continuidade aos seus estudos em Londres, onde foi financiado por uma empresa de arquitetura e desenho industrial do sr. William Morris. Morris seguia a ideologia dos Movimentos de Artes e Ofícios da Época Medieval como paradigma da primazia do ser humano sobre a máquina, e foi essa ideologia que influenciou a visão de artes e ofícios14 de Barton na fundação da Sociedade (VALVERDE, 2007). O Movimento de Artes e Ofícios:
Buscava melhorar os efeitos negativos da industrialização ao recomendar o retorno a uma vida mais simples em que o corpo e a mente pudessem participar de ocupações que dessem por resultados finos objetos de artes manuais (BORIS, 1986 apud VALVERDE, 2007, p.167. tradução nossa15).
Quando Barton retornou aos Estados Unidos, vivenciou um período de sucesso profissional até ser acometido por algumas enfermidades. Primeiro teve dois dedos dos pés amputados devido às condições climáticas do Estado onde vivia; também foi diagnosticado com tuberculose e acometido por uma paralisia no lado esquerdo de seu corpo, levando-o ao internamento, em 1913, no hospital de Clifton, em Clifton Springs (VALVERDE, 2007).
A temporada de Barton no hospital foi marcada pela sua busca por independência e pela observação das pessoas incapacitadas. Nessa condição, Barton imergiu nos estudos sobre as
11“O tratamento moral engendrou um novo saber acerca da loucura com Pinel na França, Tuke na Inglaterra, Chiaruggi na Itália e Todd nos Estados Unidos” (MEDEIROS, 2003, p.71). O tratamento moral entendia “o doente mental como um portador de uma desordem interna e acreditando numa natureza humana racional”. Sua prática defendia “a bandeira do exercício da liberdade do espírito humano”. O tratamento moral provocaria uma mudança no comportamento dos indivíduos com sofrimento mental por meio da “utilização da racionalidade influenciada pelas atividades laborativas”. A ideia do tratamento era “incentivar os hábitos que lhe eram passados por uma ordem natural do processo produtivo e, ao mesmo tempo, de desestimular os pensamentos mórbidos provocados pela perda dos mecanismos de adaptação à realidade” (MEDEIROS, 2003, p.73).
12 Es considerado un precursor de la TO junto al tratamiento moral, como dos filosofías primordiales en la práctica de la disciplina. El movimiento de artes y oficios planteaba el respeto por el trabajo humanizado, contraponiéndose al concepto de trabajo enajenado de la filosofía marxista. Buscaba reposicionar el ideal del valor del trabajo artesanal en la época industrializada a principios del siglo XX (JARA, 2011, p. 9-12).
13 Seria o equilíbrio entre trabalho, descanso e lazer.
14 Esta dimensión del Arte se podría definir bajo el lema de que las actividades realizadas por las personas son un instrumento terapéutico (VALVERDE, 2007, p. 167).
15 Versão original: Buscaban mejorar los efectos negativos de la industrialización al recomendar el retorno a una vida más sencilla en la que el cuerpo y la mente pudieran participar en ocupaciones que dieran por resultado objetos finos de artesanía manual (BORIS, 1986 apud VALVERDE, 2007, p.167).
teorias que abordavam o processo de recuperação de pessoas com deficiência. Ainda no ambiente hospitalar, Barton recebeu influências16 da medicina, da enfermagem, da religião. Também foi dentro do hospital que iniciou o contato com alguns profissionais17 que, posteriormente, foram convidados para fundação da Sociedade (VALVERDE, 2007).
Em 1913, Barton declarou que não poderia mais trabalhar com arquitetura e comprou uma casa próxima ao hospital para continuar seu tratamento. Posteriormente, essa casa se tornou a Consolation House18. Nesse novo ambiente, Barton trabalhou em sua recuperação com Isabel G. Newton, sua secretária pessoal, que, mais tarde, veio a ser sua esposa e membro fundador da Sociedade (PELOQUIN, 2007; VALVERDE, 2007).
Na Consolation House, Barton produziu alguns trabalhos científicos que versavam sobre a recuperação de pessoas por meio da ocupação19 e sobre a terapia ocupacional (VALVERDE, 2007). Em 1914, ele definiu a terapia ocupacional da seguinte forma: “ciência de instruir e encorajar os doentes em tais trabalhos que envolviam aquelas energias e atividades produzindo um efeito terapêutico benéfico” (CORRÊA, 2016, p. 12).
Foi na Consolation House que, em 1917, ocorreu a reunião de fundação da Sociedade, na qual Barton se denominou diretor. Em 1918, devido às divergências de opinião dos membros da fundação, Barton e Newton se demitiram dos cargos que exerciam na Sociedade. Depois da primeira reunião, eles não voltaram a frequentar nenhuma das reuniões posteriores, limitando- se apenas a participar de comitês e pagar a anuidade de sócio (VALVERDE, 2007).
A união de Barton com a medicina era clara e isso podia ser percebido desde a linguagem que ele utilizava até as analogias que ele fazia, assim como na sua crença de que o trabalho da terapia ocupacional deveria ser desenvolvido por enfermeiras (PELOQUIN, 2007). Valverde (2007) ressalta que as contribuições mais importantes de Barton para os profissionais que trabalhavam com ocupação se deram quando ele trouxe à tona o tratamento moral, o despertar para o trabalho da reeducação de pessoas por meio da ocupação, o vínculo estabelecido com a Sociedade de Artes e Ofícios e com a medicina da época.
16Estas influencias pueden agrupar en dos grupos; la lectura del libro “Medicina e Religión”, escrito por el reverendo Worcester, de corriente humanista y con una clara promoción de el Tratamiento Moral como ación terapêutica em personas con problemas de salud, fue una de las mayores influencias recebida por Barton durante este período y le sirvó de motivación personal para su recuperación. Los estudios sobre anatomía, cirugía, enfermedades nerviosas, materias médicas generales y asistió a conferencias en la Escuela de Enfermeria del Sanatorio de Clifton Springs (VALVERDE, 2007, p. 170).
17 Barton, Meyer, Hall y Tracy (VALVERDE, 2007, p. 170).
18 La Consolation no era una institución, era un movimiento representado por los esfuerzos de un hombre. Se podía considerar como el prototipo temprano de un centro de rehabilitación, su idea conseguir que las personas pudieron volver al trabajo y a sus ocupaciones diarias (VALVERDE, 2007).
19 La ocupación en sus textos aparece desde dos vertientes; impulsar la mejoría física y aclara la mente y por otro lado se convierte en un proceso de reincorporación productiva de la persona (VALVERDE, 2007, p.172).
Outro membro notório da Sociedade foi Eleanor Clarke Slagle20. Ela realizou sua primeira formação em música e, posteriormente, estudou trabalho social com Jane Addams21 na Escola de Civismo e Filantropia pertencente à Hull House22, em Chicago. Ao observar os efeitos positivos das atividades no Hospital Estatal de Kankakee, local onde Adolf Meyer havia desenvolvido um programa de terapia ocupacional, surgiu seu interesse pela utilização das artes e ofícios, o que a levou a se inscrever no curso sobre entretenimento e ocupação ministrado por Julia Lathrop, também na Escola da Hull House, uma vez que as ações desenvolvidas naquela instituição sofriam forte influência do movimento de artes e ofícios (VALER; ORTEGA, 2011; JARA, 2011). Ao finalizar essa formação, em 1911, Slagle começou a fornecer cursos similares de entretenimento nos serviços de saúde mental em Michigan, no Hospital de Newbery e em Nova Iorque, sobre o pretexto de ensinar as artes, ofícios e ocupações (PELOQUIN, 2007; VALER; ORTEGA, 2011).
Em 1912, Adolf Meyer convidou Slagle para planejar e dirigir um Departamento de Terapia Ocupacional na Clínica Psiquiátrica Phipps, do Hospital John Hopkins, Baltimore, no qual Meyer era diretor e supervisor dos serviços de Slagle (PELOQUIN, 2007; ORTEGA, 2011).
Na Clínica Phipps, Slagle montou um programa de treinamento de hábitos no intuito de estruturar a participação das ocupações de pessoas com de doenças mentais graves:
O programa de entretenimento de hábitos exigia que os pacientes se levantassem, se lavassem, se vestissem, limpassem a sala, utilizassem adequadamente a mesa e desenvolvessem atividades artesanais básicas. Progressivamente, se esperava que os pacientes se especializassem em ocupações que os colocassem com maior ênfase no trabalho fora da sala, como jardinagem, trabalho no campo e construção de tapetes para o hospital (VALER; ORTEGA, 2011, p. 2, tradução nossa23).
20 Nació el 13 de Octubre de 1871 en Hobart, Nueva York. Es probable que su interés por todo lo relacionado con atención a la discapacidad surgiera de sus propias experiencias familiares: su padre, un afamado arquitecto, regresó de la guerra civil discapacitado a consecuencia de una herida de fuego, su hermano padeció tuberculosis y problemas de adicción, y su sobrino contrajo poliomielitis y posteriormente problemas emocionales (KIELHOFNER, 2006 apud VALER; ORTEGA, 2011, p.1).
21 Fundadora da Hull House, ela ganhou o prêmio Nobel da Paz devido ao trabalho social desenvolvido naquela instituição. Foi considerada uma fonte de inspiração para muitas mulheres no contexto do surgimento da primeira onda do movimento feminista ao final do século XIX nos Estados Unidos (JARA, 2011).
22 Institución de gran influencia en Estados Unidos por expandir el poder y la participación de las mujeres en diferentes esferas sociales a principios de 1900. Lugar vinculado con el Chicago School of Civics and Philanthropy, en donde Slagle tomaría el curso: “curative occupations and recreations”, el cual tendría una fuerte orientación hacia la Salud Mental (JARA, 2011, p.12).
23 Versão original: El programa de creación de hábitos exigía que los pacientes se levantaran, se asearan, vistieran, limpiaran la sala, utilizaran adecuadamente la mesa y desarrollaran actividades artesanales básicas. Progresivamente, se esperaba que los pacientes se “especializaran” en ocupaciones que ponían mayor énfasis en el trabajo fuera de la sala, como jardinería, trabajo en el campo e construcción de alfombras para el Hospital (VALER; ORTEGA, 2011, p. 2).
Meyer (1922 apud JARA, 2011) ressalta que Slagle foi a primeira pessoa a aplicar uma atividade sistematizada nos pavilhões de uma instituição psiquiátrica. Ainda, chama atenção para o fato do auxílio que ela fornecia nas visitas domiciliares aos pacientes e na colaboração com o trabalho médico.
Para Valer e Ortega (2011), Slagle e Meyer desenvolveram conceitos fundamentais sobre ocupação com o uso de metas e métodos planejados cuidadosamente para recuperar a saúde por meio da ocupação. Jara (2011) afirma que a sistematização desses conceitos, oriundos do encontro entre Meyer e Slagle, contribuiu para o reconhecimento mundial de Meyer na medicina, porém a fundação da terapia ocupacional seria atribuída a Slagle, que conferiu os louros aos homens médicos que apoiavam a profissão: Willian Rush Dunton Jr. e Adolf Meyer. Paralelo ao trabalho na Clínica Phipps, Slagle ministrava cursos sobre ocupação, com duração de três semanas, para enfermeiras do Hospital John Hopkins, ensinando os princípios e as aplicações da ocupação (VALLER; ORTEGA, 2011).
Em 1915, Slagle retornou a Illinois, Chicago, para criar uma Estação Experimental da Sociedade de Higiene Mental com o intuito de ajudar no desenvolvimento das ocupações de pessoas com problemas de saúde. Em 1916, esse programa foi denominado Escola de Ocupações Henry B. Favil, passando a ser reconhecida como a primeira escola profissional de terapia ocupacional24, na qual Slagle ocupou o cargo de diretora durante o período de 1918 a 1922 (VALLER; ORTEGA, 2011).
Outro membro da sociedade foi Willian Rush Dunton Jr.25, um psiquiatra preocupado com as enfermidades dos pacientes hospitalizados em sofrimento mental e companheiro de trabalho de Slagle e Meyer na Henry Phipps Clinic and Johns Hopikns Hospital. Peloquin (2007) ressalta que, de todos os fundadores da sociedade, Dunton era quem mais expressava a crença de que a utilização da ocupação naquele contexto era a restauração do tratamento moral utilizado no século XIX.
24 En ella, insistió en la importancia de la formación de costumbres, es decir, lograr realizar las actividades de una manera aceptable socialmente. Destacó la interdependencia entre los componentes físico y mental en la terapia y la necesidad de graduar las actividades de manera progresiva, desarrollando el hábito de la atención y aumentando la complejidad en base a éstes. El programa incluía formación y actividades de artesanía, trabajo, preindustrial y profesional, juegos, bailes folklóricos, gimnasia y actividades de recreo. Se insitía en la importancia de crear un equilibrio entre trabajo, descanso y creación para los enfermos mentales basándose en la filosofía de Adolf Meyer (VALER; ORTEGA, 2011, p.3).
25 Dunton pronto respondió à la sugerencia de Barton de que se estableciera una sociedad nacional de aquellos interesados en ocupación como terapia. Durton era un organizador por naturaliza, habiendo fundado el mismo tanto La Sociedad Psiquiátrica Maryland como Orquestra de médicos de Baltmore. Le convencieron del mérito de la ocupación en el tratamiento de personas con enfermedad mental. Pronto, en sus 30 años de carrera en el Hospital de Sheppard y Enoch Pratt en Towson, Maryland, ya había discutido el valor de la ocupación con su director, Edwar Brush. En 1912, Brush fijó a Dunton en el cargo de la ocupación (PELOQUIN, 2007, p.141).
Durante a segunda reunião da Sociedade, em 1918, Dunton tornou-se presidente da entidade, e Slagle, vice-presidente. Ainda nesse encontro, Dunton enfatizou a efetividade da terapia ocupacional no tratamento de neuroses de guerra entre os soldados e a necessidade de trabalhadores ocupacionais naquele conflito, uma vez que, em 1917, pouco tempo após a criação da Sociedade, os Estados Unidos declararam sua entrada na Primeira Guerra Mundial. Dunton viu a guerra como um catalisador para o avanço da terapia ocupacional (VALVERDE, 2007).
No contexto da Primeira Guerra Mundial, Dunton e Slagle apresentaram às forças armadas dos Estados Unidos suas evidências sobre os efeitos positivos da terapia ocupacional nos soldados feridos. Assim, Slagle foi convocada a dirigir um curso de entretenimento em terapia ocupacional de seis semanas para voluntários denominados auxiliares de reconstrução. Durante essas semanas, ela percorreu 20 hospitais militares, coordenou o treinamento de 4 mil terapeutas ocupacionais e ainda dirigiu a sessão de terapia ocupacional da divisão de neuropsiquiatria francesa, expandindo para outros países a ideia da terapia ocupacional norte- americana (VALER; ORTEGA, 2011).
Mesmo Slagle tendo “capacitado” auxiliares de reconstrução para trabalhar na Primeira Guerra Mundial, Dunton (1919 apud PELOQUIN, 2007) declarou que muitas dessas auxiliares foram erroneamente incluídas no serviço militar, uma vez que elas confundiam destreza manual (artesanato) com terapia ocupacional. Ao constatar isso, ele escreveu um livro26 durante a guerra sobre a terapia de reconstrução em tempos de guerra para transmitir sua crença no poder da ocupação.
O corpo “técnico” enviado à guerra para trabalhar com a ocupação era composto por mulheres, das quais eram exigidos alguns pré-requisitos para ocupar aquele cargo, como conhecimento e habilidade para ocupação, personalidade forte, simpatia, entre outros (GORDON, 2011). A exigência de um perfil feminino para o exercício da terapia ocupacional naquele contexto reafirmou a sensação de que essa profissão era um trabalho de mulher.
Um posicionamento que reforçava essa ideia provinha do próprio Dunton, uma vez que ele atribuiu como fator de êxito das ajudantes de ocupação na guerra o gênero delas:
Verificou-se que a presença de mulheres enérgicas, que corriam pelos corredores dos hospitais, estimulou os pacientes a se ocuparem, fazendo coisas
26 Durante los años que duró la guerra, el libro de Dunton (1919) titulado Terapia de Reconstrucción contenía fotografías del efiente ingeniero Frank Gilbreth, que muestran hombres que llevabam prótesis (e.g., el garfio/pinza de Amar, el brazo artificial de Carnes, y la pierna de Hanger). El libro también incluía fotografías de hombres utilizando aparatos autoportables para vestirse, hacer las labores del campo o conduciendo coches (PELOQUIN, 2007, p.144).
que tiveram um efeito maravilhoso na manutenção da alta moral dos pacientes (DUNTON, 1921 apud PELOQUIN, 2007, p. 143, tradução nossa27).
Sobre esse aspecto da história da profissão, Lopes (1991) ressalta que a ideia de trabalho voltado para mulheres sofreu influência do surgimento da assistência social, que foi a gênese de toda intervenção nas mais diversificadas formas e atuações profissionais, no qual a mão de obra das mulheres era predominante. Assim, a terapia ocupacional deu continuidade à tradição, configurando-se como uma profissão de mulheres, sendo as primeiras praticantes enfermeiras