4 Analyse
4.5 Dramaturgi i teater og levd liv
4.5.4 Fra klassesamfunn og fordommer til mangfold og selvrealisering
Segundo Sousa (2002: 18), as maiores contribuições ao campo teórico das Ciências da Comunicação vieram de Schulz, “com a sociologia fenomenológica baseada na aceitação da intersubjetividade” e de Berger e Luckmann, com a corrente da sociologia do conhecimento designada por construção social da realidade. As questões do jornalismo, enquanto elemento participante do processo de construção social da realidade, seriam: a) seleção de determinadas fontes em detrimento de outras; b) seleção de determinados acontecimentos em detrimento de outros; c) descontextualização dos acontecimentos; d) recontextualização dos acontecimentos sob a forma de notícia; e) limitações de tempo que o jornalista tem para abordar a realidade.
Podemos agora nos perguntar como a notícia se apresenta na sociedade ou, como prefere Motta, “qual é o trabalho simbólico da notícia”? Motta (2005: 8-15) usa a expressão para designar “o processo de construção de sentidos pela notícia, especialmente sobre os seus aspectos simbólicos”, assegurando: “São as notícias que tornam o complexo e desordenado mundo no qual vivemos menos caótico para cada um de nós, que nos ajudam a selecionar, priorizar, organizar, compreender e ordenar os acontecimentos de nossa realidade imediata”. Motta continua, assumindo plenamente o efeito de agenda- setting provocado por esses produtos do jornalismo sobre a população:
Lemos, ouvimos e vemos as notícias diariamente porque elas orientam primordialmente a nossa vida prática, os nossos comportamentos, as nossas preferências, os nossos gostos, as nossas decisões de todo tipo. As notícias são,
assim, experiências diárias de conhecimento prático primordial e essencial para os indivíduos nas sociedades contemporâneas.
Com Schudson, Shoemaker e Reese, Sousa (2002: 16-17) vê a notícia como uma construção resultante de forças “interdependentes, interactuantes e sem fronteiras rígidas”. São elas: 1. ação pessoal – notícias são produto das pessoas e de seus subjetivismos; 2. ação social – derivam de dinâmicas do sistema social e do meio organizacional; 3. ação ideológica – resultam de forças de interesse que dão coesão aos grupos; 4. ação do meio físico e tecnológico – ”dependem dos dispositivos tecnológicos que são usados no seu processo de fabrico e do meio físico em que são produzidas”; 5. ação histórica: são “produto da história”, durante a qual interagiram as cinco forças anteriores. Embora todas essas operações sejam importantes, nós nos ateremos às ações apontadas por Sousa que se relacionam ao objeto de nosso trabalho.
No campo da ação pessoal está a teoria do gatekeeping. Sousa (2000a: 10-12) admite: “A auto-imagem que os jornalistas têm de seu papel poderá, igualmente, ser um fator de influência na seleção de informação e, portanto, um elemento importante para a configuração da notícia”. Segundo esse autor, Johnstone, Slawski e Bowman, em pesquisas, descobriram que os jornalistas que se consideravam ‘neutros’ olhavam para a profissão como “resumindo-se a recolher, processar e difundir rapidamente a informação para uma audiência o mais vasta possível, evitando histórias cujo conteúdo não estivesse suficientemente verificado”. Já os jornalistas que se consideravam ‘participantes’ defendiam uma posição equiparada aos cães de guarda, “paladinos da investigação jornalística”.
“Parece, assim, ser mais ou menos claro – frisa Sousa – que a forma como os jornalistas definem a sua profissão pode afetar o conteúdo que produzem: os jornalistas que se vêem como ‘neutros’, em princípio, fabricarão histórias diferenciadas dos ‘participantes’.” É interessante destacar esta última observação de Sousa, porque a postura que os profissionais adotam, no papel de gatekeepers, ao selecionar a informação, tem a ver com a visão de mundo e da profissão que abrigam. Se o jornalismo é o lugar do exercício cívico ou se é apenas um canal de comunicação – em ambos os casos o jornalismo é mediação –, isso pode determinar o tipo de informação veiculada. Este ponto apresenta correlação com a hipótese geral deste trabalho, pois quem faz as notícias são os jornalistas, e se elas estão mutando, certamente essa mutação afeta o modo de fazê-las e os que a fazem. A mutação atinge todo o processo produtivo.
No momento, chama-nos a atenção no enunciado de Sousa também a ação social da notícia. Estudos sobre newsmaking jogam alguma luz sobre o fenômeno pelo qual apenas uma pequena parcela dos fatos se converte em notícia. Ultimamente, muitas das pesquisas em newsmaking examinam o fator tempo: a atualização constante dá novas formas à notícia, transcende a ação pessoal do jornalista, pois afeta o newsjudgement, a seleção, e acrescenta o fator velocidade.
Fazemos um parênteses para tratar do conceito de “atualidade múltipla” de Rost (2002). O autor afirma que uma das particularidades do jornal digital é o tipo de atualidade que ele constrói, o que denomina atualidade múltipla, feita de “diferentes temporalidades internas”. Dentro do conceito de atualidade múltipla está a noção de tempo real, que chama de atualidade sincrônica, ou seja, o meio está em sincronia com os fatos. Aos acontecimentos que sucederam há pouco ou que se renovam ao longo do dia, Rost vê como atualidade recente; aos que se prolongam no tempo e são atualizados de forma mais espaçada, atualidade prolongada, contrapondo-se aos que sempre são de interesse para o público e perduram (atualidade permanente). Os que não são atuais, mas podem ser consultados pelo arquivo ou bases de dados, classifica de não atualidade.
“As informações mais atuais teriam (...) mais hipóteses de passar pelos portões”, enquanto “os acontecimentos fora das horas normais de trabalho apresentam menos hipóteses de serem cobertos”, diz Sousa. No jornalismo on-line, pelo menos no Brasil, os fluxos ainda obedecem a horários muito semelhantes aos da redação impressa, que tem fechamento, ao contrário do meio digital, onde o fechamento é contínuo. A pressa, ainda segundo Sousa (com Schlesinger), impede a profundidade, “razão pela qual as notícias se concentrariam no primeiro plano (foreground) em detrimento do plano contextual de fundo (background)”.
As notícias são ainda, para Sousa, resultado de uma ação histórica que se reflete hoje sobre o modo de produção: “Podemos dizer que as notícias que temos são fruto da história”. Avanços nos processos de transmissão e difusão da informação trouxeram novas formas de noticiar. O telégrafo, por exemplo, teria dado dimensão ao valor-notícia Atualidade13: antes, as notícias demoravam dias ou semanas para ir de um lugar a outro. Outros fatores são igualmente históricos: a urbanização e organização territorial das cidades provocaram a concentração de consumidores; a elevação dos níveis de alfabetização facilitou a disseminação da informação; o surgimento da propaganda
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propiciou uma nova forma de financiamento para as empresas jornalísticas e gerou outros produtos da comunicação.
Sousa (com Altheide) conclui:
A notícia resultaria, portanto, de um processo organizado e constrangido de fabrico que nela deixaria as suas marcas, até porque só seria notícia o que fosse perspectivado como tal no seio da cultura profissional dos jornalistas e da cultura própria do meio social envolvente e, exceto em casos excepcionais, só seria notícia o que pudesse ser processado pela organização noticiosa sem grandes sobressaltos ou complicações no ciclo produtivo (Sousa, 2000a: 28).
2 Notícia e história
Quando algum tema se torna uma questão ou problema, debruçar-se sobre o passado e examiná-lo com isenção, sem se deixar contaminar pelos novos significados agregados, não é uma tarefa fácil para os cientistas. Analisar a construção histórica da categoria “notícia” no mundo ocidental seria objeto de uma outra tese. Entretanto, a preocupação em mostrar as correlações entre a hipótese de mutação do produto e sua configuração atual na tela eletrônica obriga-nos a fazer um retrospecto, sem que isso signifique atrelarmo-nos a razões deterministas para provar nossa assertiva.
De que maneira a notícia, esse “bem simbólico de uso universal” (Lage, 2000: 16), evoluiu ao longo do tempo, a partir das primeiras publicações e agregou valores de atualidade, periodicidade e compromisso com a cidadania – além da objetividade, imparcialidade e neutralidade –, instituindo uma nova profissão: o jornalismo? O primeiro registro de que dispomos sobre a existência de um produto noticioso – com as características de regularidade, circulação pública e atualidade – são os tipao (202 a.C), relatórios periódicos, distribuídos entre os oficiais chineses da dinastia Han (Newton, 1997: 1-35). Depois, vem a iniciativa de Júlio César (59 a.C.), a Acta Diurna Populi Romani, que poderia representar um primeiro ponto de mutação na história da notícia no mundo ocidental, pois foi responsável pela criação de alguns conceitos:
1) Atualidade: de Acta, o relato sobre o quotidiano dos senadores deveria ser atual e relevante. As placas feitas de pedra, cera ou pergaminho (album) passam a ser redigidas diariamente (diurna), dando origem ao conceito de diurnale¸ do italiano giornale, ou jornal. Ressalte-se aí a ligação do jornalismo com o dia.
2) Cidadania: o interesse pela política e pelas decisões relativas à vida do povo romano (populi romani) – e por extensão à vida das cidades – reunia a população em torno
das notícias, lidas em voz alta, já que a alfabetização é parca. As pessoas começam a ter uma idéia da importância do fluxo de informações para seu dia-a-dia (Jorge, 2004). A divisão social em Roma, porém, não dá direitos iguais a plebeus e a patrícios (os senadores, patris da comunidade). Só em 212 d.C. a cidadania é concedida a todos os homens livres das províncias romanas.
3) Jornalismo: estabelece-se o jornalismo oficial, com os actuarii, os profissionais que redigem as notícias para a acta. A Acta contém os atos e deliberações imperiais, relatos de vitórias militares, dados administrativos e a vida no Senado romano, podendo ser vista como uma antepassada dos diários oficiais.
4) Periodicidade: as tábuas chegam a ter regularidade. Durante os séculos que se seguem, esse tipo de comunicação se transforma num verdadeiro jornal, expandindo-se para as províncias do império romano.
5) Espaço público: O Album é afixado nos muros do Fórum Romano, complexo de áreas livres, prédios de governo, templos e lojas, onde circulam senadores, sacerdotes, homens de negócio, vendedores e plebeus. O imperador Júlio César determinava que as informações fossem publicadas, isto é deixadas ao conhecimento público.
Além de introduzir esses cinco conceitos, a Acta assinala uma mutação na notícia, pelas seguintes razões: a) a notícia se estenderia para além da palavra falada, seria propagada por meio de um suporte físico, o Album ou tábua branca onde eram esculpidos os textos; 2) pela primeira vez seu fornecimento teria regularidade e gozaria de credibilidade, dando uma forma de organização ao produto noticioso: a Acta chegou a ser distribuída em outras províncias fora de Roma.
Man assinala quatro pontos principais no gráfico da comunicação humana nos últimos 5.000 anos: a invenção da escrita; a invenção do alfabeto; a invenção dos tipos móveis; e o advento da internet (Man, 2004: 11). Não faltarão autores para nos apontar os turning points na história da humanidade. Mas fiquemos com os episódios que se ligam diretamente à notícia. Na Tabela 2 podemos acompanhar os episódios iniciais da história da notícia impressa com o advento do primeiro prelo mecanizado. Nesta tabela, encaramos esses episódios como pontos de mutação na trajetória em direção ao modelo de notícia que temos hoje. Senão vejamos: os livros de notícias ingleses, no século XV, são manuscritos e circulam mais ou menos na época em que um comerciante de Mainz (Mogúncia, região do rio Reno, na Alemanha), Johannes Gutenberg, lutava para criar tipos móveis para impressão, por volta da metade do século XV. Os newsbooks narram guerras, crimes, a movimentação na Corte, a chegada de reis, príncipes, eclesiásticos. Ressaltamos que as
primeiras notícias divulgadas pelos newsbooks se regem pelos mesmos valores-notícia que tornam o relato interessante ainda hoje – disputa, mistério, morte, notoriedade e religião. Enquanto, no século XVII, proliferam as “relações de novidades” ou “relações de notícias” (Sousa, 2004: 31-47), podemos observar como os conceitos de interesse e atualidade já estavam presentes nos relatos, conformando as primeiras características do ser vivo notícia.
Tabela 2 – História da notícia
Pontos de mutação pós-Gutenberg – séculos XV/ XVII
Data Local Acontecimento
1470 Inglaterra Livros de notícias (newsbooks)
1534 México Primeira tipografia das Américas imprime hojas volantes.
1549 Inglaterra A palavra Newes aparece pela primeira vez na publicação Newes concernynge the Councell holden at Trudent.
1587 Itália Acusado de ser chefe de um grupo de menanti, Annibale Capello é condenado à forca.
1588 Alemanha Distribui-se nas feiras uma publicação com o resumo dos acontecimentos mais importantes do ano. 1594/ 1600 Alemanha França Portugal
Mercúrio, o mensageiro dos deuses, torna-se sinônimo de comunicação. Surgem o Mercurius gallo-belgicus, o Mercure Galant, o Mercúrio Portuguez
1609 Alemanha Primeiros periódicos: Avisa (Avisos) e Relation (relação ou lista).
Fonte: Jorge, 2004
O navegador italiano Américo Vespúcio faz, entre 1494 e 1506, três viagens ao continente que seria batizado como América, em sua homenagem. Escreve cartas e relatórios aos patrocinadores, Dom Manuel e Lourenço de Médici, e os escritos são divulgados pelo mundo. Assim, a primeira notícia sobre o Brasil é publicada em Portugal em 1504: trata-se de uma carta de Vespúcio contando a viagem que fez em 1501. Rizzini (1988: 147-148) constatou:
A carta a Lorenzo di Médici, impressa em Roma em 1503, sob o título Mundus Novus – cronologicamente a primeira relação de viagem ao Brasil – causou na época, tanto na Itália como na França e países alemães, o que hoje chamaríamos um sucesso de livraria. Parcas de notícias, continham ainda assim tal soma de novidades que despertaram desde logo o interesse dos letrados e principalmente dos livreiros.
Encontram-se, espalhadas pelo mundo e copiadas em vários formatos, 41 dessas edições, na maioria apócrifas. A carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 150014, dá ciência ao rei de Portugal da descoberta das novas terras; por motivos políticos, fica guardada na Torre do Tombo (Lisboa) até 1773. A primeira publicação só ocorre em 1817. Como veremos, as notícias sobre o Brasil e as notícias no Brasil tardaram a se difundir,
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Considerada a primeira reportagem sobre o Brasil, a Carta de Caminha levou 317 anos para ser conhecida. Já a notícia da morte de Napoleão Bonaparte foi mais rápida: dois meses para se difundir pela Europa.
retardando a expansão dos relatos em nosso território. Em 1535, os espanhóis – pioneiros no Ocidente no fabrico do papel, ao instalar na Europa um moinho de papel, em 1056, com tecnologia árabe – enviam uma máquina impressora ao México, onde se monta a primeira tipografia das Américas; aí se imprimem as hojas volantes (folhas volantes). Porém, apenas em 1722 seria publicado o primeiro jornal da América do Sul, o Diario de Lima, no Peru. A imprensa chega ao Hemisfério, mas demora a aportar em terras brasileiras.
No mundo, ainda não há a designação repórter, que somente surgiria, como figura e como profissão, no século XIX. “Até o século XVIII, a imprensa não havia adquirido, mesmo nos países mais evoluídos, como a Inglaterra ou a França, a consideração de que sua importância a fazia merecedora”, contam Albert e Terrou, recordando que os mercadores de notícias são personagens desprezados, enquanto o jornalismo é “subliteratura desprovida de valor e prestígio” (Albert e Terrou, 1990: 11). Os profissionais são designados por termos depreciativos: avvisisti, rapportisti, gazzetanti. Em 1587, na Itália, preso por ordem do papa Sixto V como cabeça de um grupo de menanti (os leva-e- traz, talvez os primeiros repórteres), Annibale Capello é condenado, tem uma mão decepada, a língua arrancada e é enforcado com um letreiro que o chamava de falsário e caluniador. Nessa época, a maioria da população do mundo não lê. A leitura é privilégio da classe abastada e dos religiosos. Para saber das notícias, os cidadãos comuns assistem a peças musicadas, cantilenas – poemas líricos e com narrativas atualizadas, baseadas em histórias reais e fantasias.
A publicação que o impressor estabelecido em Colônia (Alemanha), Miche von Eyzingen, distribui em 1588 pode ser considerada uma das precursoras do moderno jornalismo. O veículo passa a ser semestral, coincidindo com a Feira de Frankfurt e em seguida, semanal. A razão para isso é a periodicidade dos serviços de correio. Peucer (2004) lembra que os correios haviam sido instituídos no império romano e foram incentivados na França pelo rei Luís XI, que se preocupou em “saber com mais rapidez e conhecer mais facilmente o que se passava em qualquer que fosse das províncias de seu império”. Os postos de mudança de cavalos convertem-se em núcleos de informação: aí se instalam as primeiras “redações”.
A imprensa periódica, com regularidade na apresentação dos produtos, surge na Alemanha, em 1609, com Avisa (Avisos), publicado em Wolfenbüttel, e Relation (relação ou lista), lançado em Estrasburgo. Relation é um semanário de quatro páginas, dedicado à classe alta. Os veículos da época trazem acontecimentos narrados por correspondentes de
vários pontos do mundo, apesar de a figura do correspondente ou enviado especial só vir a ser reconhecida em meados do século XIX (Jorge, 2004).