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4 Analyse

4.5 Dramaturgi i teater og levd liv

4.5.1 En ”ukjent” historie

Sem ter a pretensão de descrever todas as teorias da comunicação, porém, fazendo um recorte interpretativo para chegar ao nosso objeto de estudo, queremos agora nos concentrar na assim denominada “teoria do jornalismo”, para poder contribuir a uma possível “teoria da notícia”. Traquina afirma que as teorias do jornalismo não vêm da comunicação e que o estudo do jornalismo, nas universidades, é anterior à comunicação (Silva, 2004: 199-216). Por isso há tantos pesquisadores de outras áreas – ciência política, economia, além das ciências sociais – investigando o jornalismo.

Vemos, na Tabela 1, feita a partir de Traquina, as principais tendências na pesquisa do jornalismo, as características e o papel dos profissionais em cada uma. Ressaltamos, ainda com o autor, que essas teorias não são mutuamente excludentes nem independentes umas das outras. Ao contrário, existe uma ligação entre todas elas, o que ilustra a convergência da pesquisa sobre os emissores com a da lógica de produção.

“Por que as notícias são como são?” Ao se fazer esta pergunta, pesquisadores como Nelson Traquina (2001: 145-168) e Jorge Pedro Sousa (2005: 73-92) respondem com teorias que, na verdade, consistem em uma série de constructos – conceitos formados pela generalização de observações específicas – cujos objetivos são explicar os fatos, estabelecer correlações e tentar predizer acontecimentos. Embora o termo teoria, no caso do jornalismo e da notícia, seja discutível e ainda inconsistente para alguns estudiosos – sob a alegação de que os possíveis postulados teóricos muitas vezes não passam de mera explicação para os fenômenos –, acreditamos que possa suscitar reflexões e levar a avanços nesses dois campos.

Tabela 1 - Principais teorias na pesquisa do jornalismo

Teoria Características Jornalista

Espelho Produto é uma transmissão da realidade;

jornalismo reflete a realidade; imprensa é contrapoder.

Comunicador desinteressado; imparcialidade

Gatekeeper Ação pessoal. Processo de seleção é subjetivo e

arbitrário. Baseia-se num “conjunto de experiências, atitudes e expectativas”

Organizacional Notícias são resultado de processos de interação

social que ocorrem na empresa jornalística. Jornalismo é negócio.

Submisso a normas da política editorial

Parcialidade Ação política. Notícias são “distorções

sistemáticas” utilizadas na propagação de idéias hegemônicas. MCM são instrumentos que servem a interesses políticos.

Detém poder sobre produto; preferências políticas influenciam noticiário

Estruturalista Notícias são narrativas: resultado de interação

entre agentes sociais – jornalistas x fontes/ sociedade/ comunidade profissional/ organização. Mídia tem papel na reprodução da ideologia dominante.

Usa critérios na avaliação das fontes: autoridade,

produtividade, credibilidade

Construcionista Notícias: resultado do processo de produção –

percepção, seleção e transformação da matéria- prima. Notícia constrói o acontecimento, constrói a realidade.

Isento, imparcial e objetivo

Fonte: Traquina, 2003: 65-94.

Mais uma vez, fazemos uma escolha para nos aproximar do nosso objeto de estudo. Assim, lidaremos apenas com as teorias que se referem à hipótese de mutação da notícia e das demais mudanças a ela relacionadas, que tratam do conteúdo dos meios e dos modos de produção. À medida que a própria pesquisa sobre os comunicadores coloca questões sobre o seu conceito de notícia, evidencia-se também que a visão que eles têm da matéria- prima com que trabalham determina o conteúdo produzido, ou seja, as notícias.

Para captar o sentido da comunicação de massa, o estudo dos meios deveria, nas palavras de Wolf (2003: 133-134), “concernir essencialmente ao seu papel de difusores das estruturas dominantes de poder e à sua capacidade de gerar um efeito de conformação da audiência”. Porém, isso não basta. Mesmo se definirmos o objeto primário de análise centrado na macrofunção de controle social exercida pela mídia, a idéia de comunicação por detrás confunde a direção do processo de transmissão com a simplicidade da ação de comunicação e isso pode incorrer em erro por reducionismo. Além disso, esta visão funcionalista da comunicação – que afeta o jornalismo – pressupõe um conceito de cultura que é eivado de determinismo: o compartilhamento do conhecimento pelos membros da sociedade seria completo e homogêneo, o que não acontece.

A teoria do newsmaking forma o grande referencial teórico desta pesquisa, pois aqui lidaremos com a construção da notícia, sua lógica de produção e os recursos de que dispõe para chegar ao público. Existe um nexo entre a pesquisa sobre os news makers, profissionais que produzem as notícias, o modo como isso é feito e o estudo dos efeitos a longo prazo, mas essas são outras áreas de estudo a serem aprofundadas. Faremos um breve retrospecto sobre as teorias que possuem articulação com nosso objeto de estudo presente, estabelecendo desde logo as necessárias correlações.

A teoria do espelho é a que deriva mais diretamente da idéia de que o jornalista é um “comunicador desinteressado” (Traquina, 2004: 65) e que seu trabalho é isento e se limita a espelhar a realidade e transmiti-la ao público. A máxima “fatos são sagrados, opiniões são livres” é herdeira dessa teoria, que gerou a separação física entre notícia e opinião, nas páginas do jornal impresso, nas revistas e até no rádio e na televisão. Como diz Pena, nesse caso “o jornalista é um mediador (...), cuja missão é observar a realidade e emitir um relato equilibrado e honesto sobre suas observações, com o cuidado de não apresentar opiniões pessoais”. O dever dele é informar e buscar a verdade. “Mas, para isso, ele precisa entregar-se à objetividade, cujo princípio básico é a separação entre fatos e opiniões (Pena, 2005: 125). A teoria do espelho tem raízes históricas no jornalismo ocidental e o pensamento de que o profissional da imprensa representa os olhos da sociedade tem aí sua origem. Se o repórter é pago para ver, fiscalizar e atuar como “cão de guarda” em nome da comunidade, seu papel é o de transmitir a realidade da maneira mais fiel possível. Traquina chega a afirmar que “os pais da teoria democrática (...) reservaram ao jornalismo não apenas o papel de informar os cidadãos, mas também, num quadro de checks and balances (a divisão do poder entre poderes), a responsabilidade de ser o guardião do governo” (Traquina, 2004: 23). Nesse caso, os MCM se vêem como um contrapoder.

O termo gatekeeper foi introduzido pelo psicólogo Kurt Lewin em 1947, quando estudava as decisões domésticas sobre o consumo de alimentos. Em 1950, David Manning White (In: Traquina, 1993: 142-190) o aplicou à comunicação: a seleção da informação nos veículos de imprensa se daria em ‘portões’, controlados por guardiões. O processo seria subjetivo, influenciado pelos valores e experiências do gatekeeper, mais do que por constrangimentos das organizações. A teoria que constata os poderes dos guardiões, ou seja, os jornalistas envolvidos na seleção, deu impulso à superação da teoria do espelho. Ao mesmo tempo, provocou uma série de estudos sobre as rotinas. Os jornalistas ainda exercem esse poder, em sua rotina diária: são eles que decidem se um determinado fato é

notícia ou não; se a declaração de uma fonte merece entrar na matéria; se um informante vale crédito. No nível das decisões de redação, a tarefa de gatekeeping é realizada hoje cada vez mais veloz e menos reflexivamente, seja pela pressão industrial no ambiente dos jornais e revistas, seja no calor do fechamento do tele ou radiojornal, seja na pressa de estampar a notícia na primeira página dos sites.

O estudo do papel dos meios na formação e mudança de cognições – um ramo da teoria dos efeitos limitados da comunicação – conduziu a teoria do agenda-setting ou agendamento, com o princípio de que “a imprensa pode não conseguir dizer às pessoas como pensar, mas tem capacidade para dizer sobre o que pensar” (Cohen. In: Traquina, 2000: 31) Esta teoria ganhou evidência quando McCombs e Shaw (In: Traquina, 2000: 57) giraram o eixo do estudo dos efeitos, saindo da idéia de que a mídia influenciava a opinião das pessoas, para algo mais profundo: o papel dos MCM no mundo cognitivo, na formação do conhecimento, ou como os consumidores de notícias reelaboram as informações e colocam em sua pauta pessoal os temas que são veiculados pela imprensa. Da perspectiva do agenda-setting deduzimos que os meios: têm poder reduzido, limitam-se a agendar as pessoas, mas seus efeitos cognitivos atuam a longo prazo.

A abordagem do newsmaking consegue juntar os “dois binários” (Wolf, 2003: 148) – 1) da cultura profissional e 2) da organização do trabalho dos jornalistas e seus processos de produção. Por meio do newsmaking é possível fazer uma análise sociológica da produção de notícias e verificar como se dá a construção das mensagens via MCM. Pena alinha os pressupostos desta teoria: a) “o jornalismo está longe de ser o espelho do real. É, antes, a construção de uma suposta realidade”; b) no trabalho de elaboração de enunciados os jornalistas produzem uma espécie de discurso – a partir de operações e pressões sociais: a notícia. “Assim, a imprensa não reflete a realidade, mas ajuda a construí-la” (Pena, 2005: 128-130). Sousa (2002: 16) ressalta que a visão construcionista (ou etnoconstrucionista, na classificação de Traquina) se sobrepõe às teorias estruturalista, organizacional ou do espelho. “Diante da imprevisibilidade dos acontecimentos, as empresas jornalísticas precisam colocar ordem no tempo e no espaço. Para isso, estabelecem determinadas práticas unificadas na produção de notícias. É dessas práticas que se ocupa a teoria do newsmaking”, sintetiza Pena.

“Todas as pesquisas de newsmaking têm em comum a técnica de observação participante”, aponta Wolf (2005: 184, 191-193), que permite a observação dos momentos e fases de crise, bem como as rotinas produtivas. Na abordagem que adotamos neste trabalho, procuramos examinar, por meio da etnografia na redação dos portais Uol e Clarín

e seguindo a indicação de Wolf, a lógica dos processos com que são produzidas as notícias, e a organização do trabalho por meio da qual se dá a construção das mensagens. “Essas determinações – muito complexas – parecem decisivas quanto ao produto acabado, seja ele um noticiário ou uma série de filmes para a televisão.” O newsmaking abrange os estudos da elaboração do relato noticioso e dos critérios de noticiabilidade, assim como a pesquisa sobre as condições de desenvolvimento das tarefas e os resultados na forma de produtos informativos colocados à disposição do público, nas características específicas da imprensa periódica.

Sousa (2002: 141-142) aborda a questão dos efeitos dos meios a partir da forma como um determinado conteúdo é construído e fabricado. Entramos, então, na questão específica do conteúdo produzido e, em especial, as milhares de linhas que saem todos os dias das empresas jornalísticas. “Os meios jornalísticos não seriam meros espelhos da realidade, antes participariam ativamente no processo de construção social da realidade.”