Foto superior: Festa de Maria baile no ranchão, na década de 1970.
Foto inferior: Festa de Maria Coroação da Santa, feita pelas crianças, na década de 1970. Foto acervo da Sr. M. C.
O senhor A. P. descreve como era a tradição da festa de Maio:
A festa de Maio sempre teve trinta novenas com leilões, onde as melhores prendas eram os tabuleiros, que o povo gostava de arrematar. Vinha gente de
longe e da roça, de carro de boi, para assistir a festa. A parte mais esperada pelos rapazes e moças eram os bailes no ranchão que, no começo, era feito de pano de bater arroz e depois passou a ser feito de capim. Os rapazes e as moças iam muito bem vestidos compravam as roupas em Araguari, a Igreja tava sempre cheia, principalmente no fim de semana, quando tinha a coroação da Santa, feita pelas crianças e moças (A.P. Conforme trabalho de campo em 25/01/06).
De acordo com o depoimento do senhor A., pode-se observar que a festa de maio era uma tradição muito forte da população do município, pois a população rural participava maciçamente dela. A vida social era intensamente ligada às festas; dessa forma, todas elas tinham um caráter religioso. Dentro desse universo, não podemos esquecer de falar da morte, que era um acontecimento considerado de extrema importância, já que nele era medido o prestígio do morto; durante a cerimônia fúnebre, quanto maior o número de pessoas presentes, maior era o prestígio do defunto.
A morte tinha um tratamento que misturava princípios religiosos com certas superstições, que cercavam a cerimônia fúnebre. A preparação do morto começava pelo banho, que era considerado uma necessidade de higiene, mas também como um princípio de purificação da alma. Em seguida, dava-se a preparação das roupas, que muitas vezes era até mesmo costurada ao lado do corpo que, segundo dona M. C. ficava estendido em uma mesa.
A fabricação do caixão, geralmente, se dava durante a noite, o que trazia um ar de profunda tristeza, já que nas fazendas eram preparados na própria residência do defunto Na cidade, eram feitos nas oficinas dos marceneiros. Os caixões eram quase sempre de cor roxa ou, raramente, preto. A tristeza maior se dava sempre na hora do enterro, quando muitos ficavam em volta do caixão, onde choravam e pronunciavam palavras de exaltação ao morto.
Comenta-se que era muito comum servir comida durante o velório, geralmente, um jantar para os presentes. Era normal também, entre os presentes, beber uma cachaça, e o velório era sempre local de muitas conversas. Uma vez enterrado o defunto, seguia-se o período de luto, que era marcado pelo uso de roupas pretas. No caso das viúvas, durava cerca de um ano. Já para os viúvos esse período era menor, sendo que o luto para os homens, depois de certo tempo, dispensava a obrigatoriedade de usar a roupa toda preta; bastava uma pequena faixa de pano preto colada ao bolso da camisa. Durante o velório, rezavam-se terços e, nos enterros, o corpo era carregado em cortejo pelas ruas, devendo passar pela igreja onde, na maioria das vezes, celebrava-se uma missa.
Para Alencastro (1997), a morte era um acontecimento social importante, no qual se reuniam, além dos familiares, os religiosos e até mesmo pessoas desconhecidas. A proximidade da morte era percebida sempre quando o padre era chamado para dar a extrema
unção ao doente, já que era praticamente o atestado de óbito e a garantia de estar abençoado, pois os padres eram considerados verdadeiros agentes da salvação. Outro aspecto importante é que ter uma cova dentro da igreja era também uma forma de os mortos manterem contato com os vivos, lembrando-lhes que rezassem pelas almas dos que se foram.
Dona P. S. de Á. descreve como era o tratamento dado aos mortos:
De noite a gente lumiava com as candeia que a gente enchia de azeite e fazia o pavio de agudão e punha fogo naquilo pá lumiá o velório. Quando morria arguém tinha que passá a noite inteira fazeno quarto po difunto, rezava terço a noite inteirinha e cantava também. A família do morto tinha que dá comida po povo que ia no velório, juntava muita gente pa passá a noite no velório. Para o enterro carregava o difunto no bangüê que era feito com quatro pau cruzado e ia quatro home carregano cada um pegava numa ponta, quando cansava ia breganhano e oto pegava até descansá. Todo morto tinha a missa de sétimo dia que era celebrada pa alma, os morto tinha mais respeito, o povo ficava triste. A família tinha que usá roupa preta, quando num tinha era preciso tingi, cozinhava a casca de capitão moiava a roupa passava no barro e deixava secá, depois lavava o barro e passava de novo na casca de capitão até ficá preto, não discorava de jeito nenhum. O luto era seis mêis pos fios e pas viúva era mais de seis méis. De veis enquanto a gente tinha que ir no cemitério vizitá e mandá celebrá missa (P.S.A. Conforme trabalho de campo em 10/01/06).
De acordo com as palavras de dona P., podemos observar que a morte era um acontecimento cercado de muito respeito, que tinha um caráter profundamente religioso, envolvendo a participação de familiares, amigos e até mesmo desconhecidos.
Temos em vista, enfim, que a história consiste também em releituras do passado e apenas a elas temos acesso. Dessa forma, na elaboração deste trabalho de pesquisa, procuramos, neste capítulo, agregar os elementos que contribuíram para a formação do povo mineiro, relacionando os diversos aspectos – religiosos, sociais, políticos, geográficos e econômicos (cujas determinações têm seus limites) – com as manifestações culturais. Sabemos que essas manifestações são tratadas, muitas vezes, como algo folclórico, distante, passado ou gasto, muitas vezes, sem importância. Nesse sentido, procuramos abordar a religiosidade, as tradições, os modos de vida do passado e também as práticas da população e dos fazendeiros do estado de Minas Gerais, do Triângulo Mineiro, bem como do município de Indianópolis, com o intuito de retratar sua relevância no contexto sócio-cultural, como algo que valoriza e dá sentido às manifestações populares já vividas. Muitas delas ajudaram a construir a noção de cultura mineira e algumas permanecem, ainda hoje, em algumas localidades, embora tenham passado por modificações importantes.
Os espaços vividos em Minas Gerais, na Região do Triângulo Mineiro e, particularmente, em Indianópolis, já foram diferentes, marcados por características próprias da vida de um período, onde as relações humanas eram mais valorizadas, os sentimentos eram mais respeitados, o ser humano era mais ligado ao que fazia, e se sentia mais gente, com isso. Eram mais irmãos através das relações de vizinhança e amizade, mais felizes com o seu trabalho, e eram, acima de tudo, mais realizados com suas relações familiares e comunitárias. Com isso não se quer afirmar que não existiam problemas e conflitos dentro da família e nos espaços comunitários, mas era um tempo em que as pessoas se doavam mais em suas relações, pois o individualismo não estava tão presente, dava-se de outra forma, ou seja, pelo contato pessoal. O se interessar pelo outro fazia parte da vida cotidiana das pessoas.
Era um tempo marcado também pela presença da fé e da devoção, da vida baseada na religiosidade. Portanto, existia um estilo de vida marcado pelo costume da cooperação entre os amigos e vizinhos. Entretanto, como vimos, existiam conflitos, mais ou menos complexos. Desse tempo, existem alguns resíduos, pois as mudanças vieram com a implantação das atividades capitalistas e se intensificaram com o processo de globalização que, nessa região do Triângulo Mineiro e, particularmente, no município de Indianópolis, se aceleram a partir da década de 1970, desestruturando a religiosidade, os modos de vida e de produção, transformando radicalmente o uso, os costumes e as práticas do cerrado. São essas mudanças que serão abordadas no capítulo 2.
CAPÍTULO 2
A AGROINDÚSTRIA E O ESTRANHAMENTO DOS CULTOS RELIGIOSOS