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5.2 Forstå Innovasjon

O conceito de mundo da vida, no pensamento habermasiano, constitui uma extensão da teoria da ação comunicativa, com o qual, para além de uma teoria da ação, busca abranger a complexidade da vida social, rumo a uma teoria da sociedade em que, a partir dos diferentes tipos de ação, analisa a constituição da ordem social. Nesta direção, Habermas constrói um conceito de sociedade em que se articulam dois níveis distintos que representam as esferas de reprodução social: o mundo da vida e o sistema. O mundo da vida, no pensamento habermasiano, é o espaço do agir comunicativo, entendido “tanto no seu papel de transmissão de culturas, de integração social e de socialização de indivíduos, quanto como lugar de entendimento mútuo e, portanto, de coordenação das ações sociais” (BANNELL, 2006, p. 27). O sistema, compreendido nos subsistemas econômico e administrativo, constituem, por sua vez, “os lugares da ação estratégica e da razão instrumental” (Ibidem, p. 27).

O primeiro refere-se a uma perspectiva interna que corresponde ao ponto de vista dos sujeitos que atuam na sociedade, enquanto que o segundo constitui expressão da estrutura sistêmica da sociedade (Cf. HABERMAS, 1987b, p. 168). A esfera do

mundo da vida, para Habermas, é responsável pela manutenção da identidade social e

individual, compreendendo um acervo de padrões de interpretação que são transmitidos culturalmente e organizados linguisticamente, orientados pelo agir comunicativo (ibidem, p. 172). O sistema, por sua vez, representa o conjunto de atividades que são orientadas de maneira estratégica e cujo propósito é o de alcançar êxito, assegurando a

manutenção e sustentação econômica das instituições, norteando-se por critérios de natureza econômica (dinheiro) e política (poder) (ibidem, p. 161, passim.). A distinção entre mundo da vida e sistema, no pensamento habermasiano, se estabelece a partir dos diferentes tipos de racionalidade que lhes são subjacentes. Se, de um lado, o desenvolvimento do sistema é assegurado pelo aumento da capacidade de comando das instituições, a evolução do mundo da vida, de outro, é dada pela crescente autonomia das esferas da cultura, da sociedade e da personalidade (Cf. INGRAM, 1993, p. 153 e seq.; MÜHL, 1999, p. 39).

A elaboração do conceito de mundo da vida, em Habermas, tem como ponto de partida a reformulação crítica deste conceito, tal como apresentado em tradições sociológicas que vem desde Durkheim, Mead, Parsons e Luhmann à fenomenologia de Husserl e Schutz (Cf. INGRAM, 1993; MÜHL, 1999). Na perspectiva habermasiana, o

mundo da vida é entendido como o conjunto das formas de vida dentro das quais se

desenvolvem as condutas cotidianas, e que acumula o trabalho interpretativo de muitas gerações precedentes ao longo do desenvolvimento histórico da sociedade, no desenvolvimento de um arsenal de saberes, valores e normas que, constituindo-se num referencial de racionalidade, servem de alicerce aos processos de interação social e de legitimação do entendimento lingüístico (Cf. NOGUERA, 1996, p. 147). Para Habermas, o mundo da vida se estrutura em torno de três componentes fundamentais: a cultura, a sociedade e a personalidade. Por cultura, Habermas entende o acervo de saber de que os participantes num processo de comunicação se abastecem de interpretações para entenderem-se sobre algo no mundo (op. cit., p. 196). A sociedade é definida em termos dos ordenamentos legítimos através dos quais os participantes dos processos de interação regulam seu vínculo a grupos sociais, assegurando com isto a solidariedade (ibidem, p. 196). E, por fim, a personalidade é concebida enquanto as competências que expressam a capacidade de linguagem e ação de um sujeito e que o habilitam a participar de processos de entendimento, afirmando, nos mesmos, a sua própria identidade (ibidem, p. 196). Assim, nas palavras de Habermas, os sujeitos, ao entenderem-se sobre algo no mundo,

están participando de simultáneamente en interacciones a través de las cuales desarrollan, confirman e renuevan lo mismo su pertenencia a los grupos sociales que su propia identidad. Las acciones comunicativas no son solamente procesos de interpretación en que el saber cultural queda expuesto al „test del mundo‟; significan al propio tiempo procesos de interacción social y de socialización (ibidem, p. 198).

A estes diferentes componentes estruturais do mundo da vida (cultura,

sociedade, personalidade) correspondem processos de reprodução cultural, integração social e socialização. A reprodução cultural cumpre o papel de relacionar as situações novas que surgem com os estados do mundo já existentes, assegurando continuidade à tradição e a coerência necessária ao conhecimento requerido à prática comunicativa cotidiana. A integração social define-se como o processo pelo qual as ações se coordenam com as relações inter-pessoais legitimamente reguladas, assegurando aos grupos sociais a continuidade do exercício da prática comunicativa cotidiana. A

socialização, por sua vez, assegura às gerações seguintes a aquisição de capacidades

generalizadas da ação, buscando ajustar as vidas individuais às formas coletivas de vida. É por meio destas correspondências que a ação comunicativa cumpre diferentes funções enquanto meio de produção e reprodução simbólica do mundo da vida. A ocorrência de interferências ou perturbações na realização de tais funções resulta em perturbações nos processos de reprodução com conseqüentes fenômenos de crise, traduzidas na perda de sentido, perda de legitimação, rupturas da tradição, etc. (Cf. MCCARTHY, 1987, p. 466; SALAZAR, 1996, p. 207-208).

Ao analisar a dinâmica de evolução do mundo da vida, Habermas identifica a contínua imposição de coações que, a partir da necessidade de reprodução material do mundo da vida, vão estabelecendo, de maneira gradativa, mecanismos automáticos de coordenação das ações que dispensam a ação comunicativa dirigida ao entendimento. Tais mecanismos vão se impondo como imperativos sistêmicos que, ao mesmo tempo em que se constituem como instrumentos que viabilizam o enfrentamento dos problemas relacionados à reprodução material do mundo da vida, acabam por provocar a progressiva dissociação entre as formas de interação que lhe são características e as estruturas de integração sistêmica (Cf. BOLAÑO, 1998). Para Habermas, dois momentos, em especial, são determinantes neste processo. O primeiro momento corresponde à transição das sociedades primitivas às sociedades tradicionais organizadas em torno do Estado, cujo poder, de acordo com Habermas, distingue-se das imagens religiosas do mundo que, até então, legitimavam a dominação. O segundo momento se dá com o surgimento das sociedades modernas, especialmente sob a égide do capitalismo, dentro das quais os subsistemas econômico e administrativo, ao se especializarem cada vez mais, diferenciam-se daquelas formas de ação às quais,

precipuamente, cabiam os papéis da reprodução cultural, da integração social e da socialização. Para Habermas,

el enorme desacoplamiento del sistema del mundo de la vida constituía una condición necesaria para la transición de las sociedades estratificadas en clases del feudalismo europeo a la sociedades de clases económicas de los inicios del periodo moderno; pero la pauta capitalista de la modernización está marcada por una deformación, una reificación de las estructuras simbólicas del mundo de la vida bajo los imperativos de los subsistemas que se diferencian a partir del dinero y el poder y que se convierten en autosuficientes (1987ª, p. 283).

O mundo da vida, em princípio co-extensivo em um sistema social pouco diferenciado, vai se reduzindo progressivamente a um subsistema entre outros. Neste processo, os mecanismos sistêmicos se desligam cada vez mais das estruturas sociais através das quais se cumpre a integração social, adquirindo autonomia própria (ibidem, p. 432). Tais mecanismos sistêmicos passam, então, a controlar os processos de interação social, a partir dos subsistemas de ação econômica e administrativa, movidos por uma racionalidade com respeito a fins que, gradativamente, vai se tornando independente de seus fundamentos prático-morais. Instauram-se processos cada vez mais profundos de conversão das coisas em mercadorias e da crescente autonomia dos subsistemas econômico e administrativo que se impõem sobre o mundo da vida a partir dos imperativos da racionalidade instrumental, os quais não apenas colocam em xeque as formas de vida tradicionais, mas, sobretudo, solapam as bases de suas estruturas comunicativas, dentro das quais os homens buscavam atuar comunicativamente (Cf. MARTINEZ, 2000, p. 78; REDONDO, 1996, p. 66). Os imperativos dos subsistemas autônomos da economia e do poder penetram, assim,

en el mundo de la vida e imponen, por vía de la monetarización y la burocratización, una asimilación de la acción comunicativa a los ámbitos de acción formalmente organizados, y ello aún en los casos en que el entendimiento sigue siendo fundamentalmente necesario como mecanismo de coordinación de la acción (HABERMAS, 1987ª, p. 572).

A consolidação de meios de controle e autônomos, em relação aos processos de formação do consenso próprios da ação comunicativa voltada ao entendimento, concretiza, desta forma, a separação entre a ação dirigida ao êxito, subjacente à integração sistêmica, e a ação com vistas ao entendimento, própria da integração social. Com isto, se estabelece uma colonização do mundo da vida por parte dos mecanismos

sistêmicos, governados por uma racionalidade instrumental com respeito a fins e meios (ibidem, p. 427 et seq.), a partir da qual os âmbitos da economia e da política se impõem sobre os interesses e necessidades do mundo da vida, bem como das tradições interpretativas e de pensamento que lhes são próprias, construídas no âmbito da cultura e da sociedade e que se expressavam através de diferentes estruturas comunicativas. Desta colonização, resultam as crises e patologias da modernidade, como a perda de sentido e de liberdade nos processos de integração social, em face da dinâmica própria com a qual se desenvolvem os subsistemas do dinheiro e do poder, os quais impõem, de maneira totalitária, formas de organização econômicas e administrativas que controlam e inibem o desenvolvimento e a emancipação dos elementos constitutivos do mundo da

vida, como a cultura, a sociedade e a personalidade. Desta forma, o âmbito da ação comunicativa, no interior do qual se desenvolvem os processos de entendimento e de

construção do consenso, sucumbe diante dos imperativos da política e da administração (poder) e da economia e do dinheiro (mercado), os quais asseguram a imposição, generalização e uniformização das formas de poder estabelecidas e da racionalidade dominante.

A elaboração habermasiana, a partir do conceito de ação comunicativa e da noção de mundo da vida, possibilita a interpretação dos processos sociais nas sociedades contemporâneas a partir da colonização do mundo da vida no interior do qual se dissemina a coisificação das relações nas sociedades capitalistas. Processo que se torna ainda mais agudo num contexto de neoliberalismo econômico, em que as relações humanas são convertidas em relações onde predomina a imposição da racionalidade instrumental sobre as esferas do mundo da vida, que se vê esvaziado em face dos imperativos sistêmicos do poder e do mercado (Cf. MARTINEZ, 2000, p. 87). Com ela, torna-se possível a compreensão das sociedades capitalistas avançadas, a partir do diagnóstico do que Habermas chama de patologias da modernidade, traduzidas na hegemonia de uma racionalidade instrumental orientada a fins, de cujas conseqüências decorre a colonização do mundo da vida pelos processos de monetarização (mercado) e burocratização (poder). Ao mesmo tempo, esta mesma elaboração aponta na direção da recuperação da razão, da racionalidade e dos processos de racionalização, dentro de uma perspectiva que leve à construção de um projeto de emancipação social. Projeto este, dentro do qual – mais do que a defesa do uso público da razão e para além do desvelamento dos mecanismos de reificação, a partir dos processos de realização da

razão instrumental que invadiram o mundo da vida –, se busque resgatar a dimensão crítica da razão e seu potencial transformador, a partir da racionalidade comunicativa. A

teoria da ação comunicativa habermasiana representa, assim, o esforço de reconstrução

dos mecanismos que permitam uma nova racionalização do mundo da vida e dos subsistemas sociais fundada no diálogo intersubjetivo como processo racional intrínseco à prática cotidiana dos sujeitos capazes de fala. O processo racional fundado no diálogo intersubjetivo, viabilizando a construção de novos mecanismos sociais comprometidos com o entendimento e a construção coletiva do consenso por meio do exercício da argumentação, aponta, pois, na direção de um novo projeto de vida social, a partir do resgate da dimensão crítica e emancipatória da racionalidade moderna e de um conceito não reducionista de razão.

É sob esta perspectiva que, do ponto de vista dos objetivos do presente trabalho, identificamos, nas formulações teóricas de Habermas, as bases para a sustentação da tese defendida neste estudo, inicialmente a partir da compreensão de que é no contexto das relações entre sistema e mundo da vida que se constitui e se desenvolve a política educacional, e em particular a formação de professores. Um contexto de relações marcadas pela colonização sistêmica sobre o mundo da vida, cujos imperativos determinam à direção da política educacional e as racionalidades que esta impõe à formação de professores. Dentro desta mesma perspectiva, com o conceito habermasiano de racionalidade – inicialmente concebido em termos de racionalidade

técnica, prática e emancipatória (1986; 1990ª) e posteriormente nas formas de racionalidade instrumental e racionalidade comunicativa (1987ª; 1987b) – é possível analisar a maneira como, nas políticas para a formação docente, se articulam as concepções de saber e de prática docente e seus vínculos com os imperativos que governam a formulação da política educacional.

Capítulo IV