Nos dois anos que antecederam as eleições 2006, foi implantado no Brasil um cenário de forte tensão política, gerada pelas denúncias de corrupção no Governo Lula, principalmente depois do que ficou conhecido como o escândalo do “mensalão”, que teve ampla repercussão na mídia, abalou a política brasileira e causou desgaste político do Partido dos Trabalhadores (PT). Uma intensa luta da oposição ao governo Lula buscou implantar um discurso pela ética, estimulando setores médios da sociedade e alguns movimentos sociais. Conforme se aproximava o pleito, aumentava-se a tensão política.
No entanto, embora os escândalos tenham tido bastante repercussão na mídia, o governo Lula conseguiu reverter a crise política e despontou, desde alguns meses antes da deflagração do processo eleitoral, como franco favorito a ganhar essas eleições, voltando a obter bons índices de aprovação, configurando de forma crescente a tendência do eleitorado favoravelmente à sua reeleição à presidência da República.
Para se ter uma ideia, uma pesquisa de opinião realizada pelo IBOPE em julho de 2006, revela que a nota média obtida pelo governo do Presidente Lula é 6,229. A maneira como Lula administra o país nesse período é
aprovada por 55% dos entrevistados, enquanto 36% a desaprovam e 9% não sabem ou não souberam opinar.
Essa conjuntura favorável deveu-se aos índices de crescimento da economia, o crescimento do emprego com carteira assinada, o crescimento do valor do salário mínimo, o aumento do poder de compra dos salários, o
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Fonte: IBOPE opinião.. Disponível em
http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=6&proj=PortalIBOPE& pub=T&nome=pesquisa_leitura&db=caldb&docid=44656DCFD4F555B7832571C0007A53A6. Acessado em 21 de junho de 2010.
controle da inflação, a redução das desigualdades sociais e da pobreza, as políticas sociais e as políticas redistributivas, dentre outros.
Segundo Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2006, foram criados 1,917 milhão de vagas de emprego, um aumento de 5,77% na comparação com 200530.
Esses dados favoráveis ao governo Lula constituiu um fator de grande relevância nos processos eleitorais estaduais, sendo a imagem do Presidente considerada uma variável importante nas disputas eleitorais estaduais deste ano, sendo essa influência denominada por alguns analistas políticos por “Fator Lula”.
A candidata da coligação Vitória do Povo definiu sua estratégia eleitoral buscando sintonizar-se com as tendências políticas nacionais, vinculando sua imagem e da sua propaganda eleitoral com a imagem e avaliação positiva do governo Lula, através da ênfase nas realizações governamentais conjuntas com o Governo Federal.
Enquanto isso, havia uma dificuldade política enfrentada pelo candidato Garibaldi Alves frente ao crescimento de Lula em razão da sua identificação com as forças de oposição ao governo Lula, especialmente o bloco político liderado pelo PSDB e pelo DEM (antigo PFL). No período da crise política, Garibaldi foi o relator da CPI dos Bingos, Comissão Parlamentar de Inquérito constituída pelo Senado para investigar a utilização das casas de bingo para lavagem de dinheiro31. A partir daí, o senador Garibaldi Alves aproximou-se politicamente das posições defendidas pelo senador José Agripino Maia (DEM), uma das principais lideranças nacionais da oposição liberal-conservadora ao governo Lula. Isso selou a estratégia política e as alianças eleitorais entre o PMDB, o DEM e o PSDB nas eleições em 2006 no Rio Grande do Norte.
As alianças políticas e eleitorais nacionais dos principais candidatos ao governo do Rio Grande do Norte em 2006 revelaram-se como um fator de
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Fonte: Estadão. Disponível em http://www.estadao.com.br/economia/not_eco83956,0.htm. Acessado em 21 de junho de 2010.
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Essa foi uma das táticas da oposição, que possuía maioria política nessa CPI, para aprofundar a crise política e o desgaste do governo Lula. A CPI dos Bingos serviu de mecanismo complementar para as investigações realizadas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre as denúncias de corrupção envolvendo parlamentares e empresas públicas e privadas no caso do “mensalão”.
grande importância para o resultado da disputa político-eleitoral, contribuindo para a vitória da candidata à reeleição, a governadora Vilma de Faria.
A conjuntura local
Após Vilma de Faria assumir o governo em 2002, a imprensa local passa a sondar sua sucessão. Cogitava-se a possibilidade da eleição 2006 contar com três candidaturas para o cargo de governador do estado: a da própria governadora, que iria tentar a reeleição, e a dos ex-governadores Garibaldi Alves Filho e José Agripino Maia.
Durante o ano de 2005 a imprensa, divulga uma série de pesquisas que mostrariam a liderança do senador Garibaldi Alves Filho enquanto a governadora aparecia na terceira posição, atrás do senador José Agripino Maia32. Nesse contexto de incerteza à reeleição da governadora existiram indícios de que Vilma de Faria considerou a possibilidade de desistir da tentativa de se reeleger, candidatando-se ao Senado (SPINELLI, 2009).
No início de 2006, o TSE anuncia a continuidade da regra da verticalização33 das coligações partidárias, o que faz com que muitas estratégias mudem no jogo político do estado, e os partidos recomeçam a organizar suas estratégias. Dentre os nomes que se cogitavam para a candidatura, foram confirmados apenas o da governadora Vilma de Faria e o do senador Garibaldi Alves.
José Agripino, presidente do PFL no estado, que nesse momento passa a ser cotado para ser candidato a vice-presidente junto a Geraldo Alckmin (PSDB), não se candidata. Para ele, a aliança federal do seu partido com PSDB será mantida, mas sem a possibilidade da mesma ser seguida a nível local.
Nessa ocasião, afirmava que não iria apoiar nem Vilma nem Garibaldi, visto que os partidos desses dois candidatos tinham uma tendência a apoiar o
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Tais pesquisas, que não tinham nenhum registro no TRE, foram utilizadas como estratégia para favorecer a candidatura de Garibaldi Alves (SPINELLI,2009)
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Instituída pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2002, a regra da verticalização impõe limites aos acordos entre os partidos que fazem nos estados coligações diferentes da aliança nacional.
Governo Federal enquanto o seu partido (PFL) fazia-lhe oposição frontal. Assim, tinha pretensões de lançar um candidato próprio34.
No entanto, o PFL, diferente do que o seu presidente estadual colocara no início do ano, não lança candidato próprio e alia-se à Unidade
Popular, indicando o deputado federal Ney Lopes para vice-governador junto
a Garibaldi Alves Filho. Assim, dá-se início, então, a uma aliança entre as duas principais forças políticas do estado, historicamente rivais, que passa a se denominar Vontade Popular.
Essa situação torna-se bastante desconfortável para esses dois atores do cenário político do Rio Grande do Norte, dada a rivalidade histórica entre ambos. Em razão disto, a aliança PFL-PMDB não foi amplamente debatida pelos seus aliados. Na sua campanha, Garibaldi deixa implícito o argumento de que tal aproximação decorreu-se em favor do processo democrático, visto que a atual governadora apresenta uma característica autoritária. Em entrevista a Diógenes Dantas, importante jornalista político do estado, Garibaldi, quando perguntado sobre sua relação com Vilma de Faria, faz o seguinte comentário35:
As minhas restrições hoje a ela [Vilma de Faria] são de natureza política, porque ela realmente tem sido uma pessoa que tem afastado seus próprios correligionários, seus próprios companheiros, tem sido uma pessoa que quer fazer uma liderança no Rio Grande do Norte absoluta, tem uma tendência ao autoritarismo político, que as pessoas, os seus companheiros, as lideranças políticas, não podem de maneira nenhuma tolerar. (ALVES FILHO, Garibaldi, 2006. In Paiva, 2007).
Em relação à aliança com o senador José Agripino, faz a seguinte justificativa:
Eu posso dizer a você que, com relação a José Agripino, nós recebemos uma carga, uma herança – do ponto de vista
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Idem. 35
Entrevista concedida a Diógenes Dantas, divulgada no “Blog do Diógenes”, no dia 14/08/2006.
político - muito negativa, de lutas do passado. Mas a convivência minha com José Agripino no senado, ela amenizou. Essa convivência pôde proporcionar um diálogo entre nós dois que não existia antes nem poderia existir. Porque nós não freqüentávamos os mesmos ambientes aqui em Natal, os amigos não eram os mesmos, o diálogo, portanto, não existia. O Senado, que é uma casa apaziguadora e conciliadora, cumpriu essa missão. No Senado, você sabe, são 81 senadores apenas... (ALVES FILHO, Garibaldi, 2006. In Paiva, 2007).
Vilma (cujo partido encontra-se na base do governo Lula desde 2002 e continua a aliança com o PT local iniciada em 2006) faz ampla utilização dessa aliança para construir seu argumento de ataque aos adversários. Como estratégia política, consegue o apoio político do PMN – legenda comandada por Robinson Faria, presidente da Assembleia Legislativa e dissidente do PFL – escolhendo como seu vice o deputado Iberê de Sousa. Com isso, a coligação Vitória do Povo passa a ser composta pelos seguintes partidos: PSB, PT, PMN, PCdoB e PPS.
Assim, o quadro que se forma nas eleições 2006 no Rio Grande do Norte fica caracterizado pela disputa entre duas fortes candidaturas: de um lado, a união das duas forças políticas que eram tradicionalmente hegemônicas no Rio Grande do Norte, PMDB e PFL; do outro, Vilma de Faria, com apoio do governo Lula, que passa a ser qualificada pela imprensa política local como a terceira força política do estado.
Além dessas duas principais candidaturas, disputam também os seguintes candidatos: Sandro Pimentel (PSOL), Geraldo Forte (PSL), Xeque Humberto (PTC), Marcônio Cruz (PSDC) e Zé Bezerra (PCB).
A diferença entre os dois principais candidatos no primeiro turno foi de 15.013 votos, menos de um por cento (1%), como podemos visualizar na tabela abaixo:
Resultado Eleitoral – I Turno
Candidato Votos Class. Válidos(%)
40 - WILMA MARIA DE FARIA 764.016 1º 49,57
15 - GARIBALDI ALVES FILHO 749.003 2º 48,60
50 - SANDRO DE OLIVEIRA PIMENTEL 14.172 3º 0,92
17 - JOSÉ GERALDO FORTE 5.907 4º 0,38
36 - HUMBERTO MAURICIO DA SILVA 5.582 5º 0,36
21 – ANTONIO JOSÉ BEZERRA 2.470 6º 0,16
Tabela 1: Resultado Eleitoral- I Turno Fonte: TRE-RN
No segundo turno, a diferença foi de 74.929 votos, correspondendo a 4,76 % dos votos.
Resultado Eleitoral – II Turno
Candidato Votos Class. Válidos(%)
40 - WILMA MARIA DE FARIA 764.016 1º 824.101
15 - GARIBALDI ALVES FILHO 749.003 2º 749.172
Tabela 2: Resultado Eleitoral – II Turno Fonte: TRE-RN
Estes resultados contrariaram algumas sondagens de intenção de voto que durante algum tempo davam a vitória de Garibaldi como algo incontestável.
No entanto, algumas pesquisas de intenção de voto realizadas próxima ao período eleitoral, previram esse acirramento da disputa. Foi uma eleição marcada pelo clima de divulgação de pesquisas (somente no mês de setembro foram 19 pesquisas registradas no TRE) e por uma dramática apuração. Esse acirramento da campanha se deu, em larga medida, pela capacidade demonstrada pela equipe de Vilma em reverter as expectativas eleitorais iniciais e crescer politicamente durante o primeiro e o segundo turno do processo eleitoral.
O acirramento da disputa pôde ser percebido durante as estratégias de campanha na televisão, que mostraremos adiante. Importante destacar que em 2006 a justiça eleitoral, a partir de medidas que representavam algumas reformas políticas, proibiu a realização dos “showmícios”, fato que
enfraqueceu a prática dos comícios, mas que, por outro lado, fortaleceu as caminhadas, as carreatas e, principalmente, ampliou a importância dos discursos no HGPE.
Com esse quadro as equipes de marketing tinham um grande desafio pela frente. Diante do crescimento da importância do horário político nessas eleições, as estratégias escolhidas poderiam representar a diferença nas urnas.
3.2. AS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS NO HGPE: LOCALIZANDO A