Segundo Morais (2008), as atividades de escrita espontânea são favoráveis ao desenvolvimento da consciência fonografêmica pela criança, pois permitem que os alunos exponham seu pensamento e apresentem o seu nível de conhecimento sobre a língua escrita, o que permite ao professor desenvolver estratégias compatíveis com o seu grau de desenvolvimento cognitivo sobre o princípio alfabético.
Soares (2016) esclarece que é, sobretudo na escrita inventada, que a criança demonstra o seu nível de consciência fonografêmica, pois é por meio da escrita que a criança representa os fonemas.
São sobretudo as escritas inventadas pelas crianças que revelam tanto o nível em que se encontram em seu processo de conceituação da escrita quanto, simultaneamente, seu nível de [...] consciência fonografêmica, já que, na escrita, [...] a criança precisa representar os fonemas que eles representam (p.232).
Caberá, então, ao professor desenvolver estratégias de ensino que permitam aproximar os alunos da escrita convencional, o que só poderá ser efetuado por meio de reflexão sobre a língua escrita. Algumas pesquisas trazidas por Soares (2016) colocam o papel da mediação docente como essencial no esforço discente para desvendar o mistério do princípio alfabético e permitem que a autora chegue à seguinte conclusão: “a escrita inventada acompanhada de intervenções pedagógicas, na fase inicial de aprendizagem da língua escrita, colabora significativamente para a compreensão da escrita alfabética pela criança, em seu uso tanto na escrita como na leitura” (p. 251).
Partindo desse pressuposto, relataremos as estratégias de ensino com a escrita inventada/ espontânea desenvolvida nas práticas pedagógica de duas professoras.
A professora B1 solicitou que os alunos escrevessem uma carta destinada ao Papai Noel e que dissessem que presente gostaria de ganhar no natal. A docente expôs na lousa os elementos essenciais para começar a escrever uma carta, como: local (nome da cidade) e a data. Explicou que aquela atividade valeria nota e em seguida deixou os alunos à vontade para escreverem.
Por iniciativa própria, uma aluna se aproximou da colega e pediu ajuda para escrever a carta. A professora permaneceu sentada em sua mesa enquanto os alunos tentavam iniciar a atividade. Uns se dedicaram a fazê-la e outros não. A professora insistiu que se tratava de atividade para nota e que todos deveriam escrever a carta.
Uma aluna foi até a mesa da professora e pediu sua ajuda. A docente começou a ajudá-la, porém foi percebido que as intervenções ocorridas se limitaram a dizer a escrita correta das palavras. Não foi possível vivenciar atitudes voltadas para a reflexão sobre a escrita das palavras. Uma aluna, por exemplo, havia escrito a palavra “mia” e a professora disse que a escrita estava incorreta, a palavra correta seria “minha”, pedindo que a estudante apagasse e colocasse o “nh” antes do “a”.
A professora praticamente não realizou intervenções (individuais/ coletivas) nas produções de todos os alunos, pois só recebeu ajuda quem a procurou. Os alunos apresentavam muitas dúvidas quanto a escrita e, algumas vezes, solicitavam a ajuda do colega.
A ilustração a seguir mostra os níveis de hipótese de escrita alfabética de dois alunos nessa atividade. Percebemos que os estudantes se encontram em níveis de escrita distintos. B1: silábico/alfabético e B2: alfabético, necessitando de intervenções pontuais.
Fonte: dado coletada em campo pela pesquisadora [fotografia]
Percebemos que essas crianças estão desenvolvendo uma consciência fonêmica, no entanto, apresentam dificuldades de situá-las na escrita o que necessita da ajuda docente para superá-las por meio de atividades de consciência fonografêmica (associação entre fonemas e letras) necessárias para a escrita (SOARES, 2016).
A professora A também desenvolveu uma atividade de escrita espontânea com
seus alunos. A fim de motivá-los a escreverem um cartão de natal, a professora trouxe os Figura 6 - Atividades de escrita espontânea (produção de uma carta)
seguintes materiais e entregou para a classe: folhas A4 brancas e coloridas, canetinhas, lápis de cor, cola, tesoura e adesivos. Inicialmente, a professora ensinou os alunos a fazerem um cartão de natal personalizado, mostrou como fazer uma árvore de natal para colocar na parte frontal, entregou adesivos de estrelas e as canetinhas para enfeitarem seus cartões como quisessem.
Após essa etapa, a professora disse que os alunos fariam cartões para quem eles desejassem (parentes, amigos, colegas de sala etc.) então teriam que escrever uma mensagem bem bonita para alguém. Todos estavam motivados a escrever aquele cartão!
Nesse sentido, a professora cumpriu o objetivo da escrita com intencionalidade, pois “ninguém nasce sabendo ou 'pronto' para ler e escrever, é necessário desenvolver situações intencionais que trabalhem com os aspectos necessários a este aprendizado” (SOUSA; FREITAS, 2008).
Figura 7 - Exemplos de cartões feitos pelas crianças
Fonte: dados coletados em campo pela pesquisadora [fotografia]
Após a etapa de escrita dos cartões, a professora circulou pela sala vendo os textos que as crianças escreveram e fez intervenções individuais. A maioria dos alunos conseguiu escrever um texto com coerência e, a maior parte dos erros encontrados referia-se à ortografia incorreta das palavras ou erros de concordância.
Desse modo, focaremos na intervenção realizada pela professora com os dois alunos não alfabetizados em sua turma. O estudante EA1 apresentou uma escrita com erros de omissão de letras nas sílabas, segmentação de palavras e erros ortográficos. A professora
começou a ler o texto na presença do aluno, lendo-o da forma como estava escrito e perguntou o que ele quis dizer. O aluno respondeu e a professora apagou o que ele escreveu e disse: pois “vamos reescrever essa palavra”. A professora disse pausadamente as sílabas à medida que o aluno escrevia, ao cometer um erro, a professora explicava que não era aquela letra e fazia o som, pedindo que o aluno prestasse atenção para em seguida escrevê-lo. A professora olhou para a pesquisadora e disse: “se eu dou atenção a ele, a turma toda fica sozinha, está vendo”?
Percebemos que a didática adotada com esse aluno foi correta, pois a professora instigou o aluno a refletir sobre o som das sílabas, o que colaborou para que ele relacionasse à escrita. Já na atuação com a estudante EA2, a professora não conseguiu ajudá-la, de fato, pois a aluna estava em um nível abaixo do estudante EA1 e não conseguiu desenvolver uma mensagem, escrevendo apenas palavras dentro da árvore de natal. A professora indagou sobre o que ela desejaria escrever no cartão, a aluna respondeu que gostaria de escrever “Jesus te ama”, a professora então escreveu a frase em um papel e pediu que a aluna copiasse. Não houve intervenção com essa aluna.
Admitimos que a prática desenvolvida pela professora foi bastante interessante, pois motivou os alunos a escreverem algo de seu interesse. As intervenções realizadas também favoreceram a maior parte dos alunos, deixando a desejar apenas com a aluna EA2, que apresentou mais dificuldades na escrita. Interpretamos que a professora conseguiu interagir com crianças que possuíam um nível mais elevado da escrita, ao passo que sua formação pode não ter contemplado aspectos em que o nível de alfabetização estivesse aquém do esperado, como no caso da aluna EA2.
A seguir, temos uma fotografia feita pela pesquisadora dos cartões feitos pelos dois alunos acima mencionados.
Figura 8 - Atividades de escrita espontânea (produção de um cartão de natal)
Fonte: dados coletados em campo pela pesquisadora [fotografia]
Concluímos que as atividades de escrita espontânea propostas promoveram momentos para que os alunos pudessem apresentar as suas dificuldades. No entanto, esse tipo de atividade necessita da intervenção docente, pois só assim o aluno poderá avançar nas suas percepções. Considerando as particularidades de cada uma das intervenções descritas, vimos que a professora A se aproximou mais do que seria ideal, pois discutiu com a maioria dos alunos os seus erros, oportunizando que eles pudessem refletir sobre eles. Já a professora B1, apesar de oportunizar momentos de escrita espontânea, desenvolveu poucas intervenções com a turma ou momentos de reflexão sobre a escrita alfabética.