Quando questionados se sentiam prazer em pertencer à organização, percebe-se mais enfaticamente tal aspecto nas docentes da IES A. Na instituição B, não houve depoimentos que comprovassem o orgulho por fazerem parte da organização.
Quando eu fui morar fora do país, eu falava: “Gente, o que você sente falta? Efetivamente? Manga”, eu tinha uma vontade de comer manga, e manga eu não como muito, não compro uma manga para comer. Eu sentia uma vontade de comer manga, pizza, porque na Itália a pizza não é que nem aqui no Brasil. Tinha vontade de pizza e descer o corredor desta IES. Quando eu cheguei, eu cheguei num domingo, segunda-feira, eu desci, eu desci chorando, eu falava: “Nossa, um ano sem descer isso aqui, um ano sem ver essa galera fumando maconha, um ano de ver esses alunos, todos mal vestidos, um ano de ver essas meninas lindas, todas empinadas...”, eu fiquei, realmente, você vê que eu fico até emocionada. Total paixão (E1).
Então nas férias é horrível, eu venho aqui trabalhar, eu venho para cá, adoro essa instituição, mas eu não tenho a companhia dos alunos. Então me faz muita falta, isso (...) eu adoro fazer o que eu faço... esse contato com eles, nos corredores (...) bom, eu adoro essa instituição, adotei essa instituição, é a minha casa, eu adoro, tenho muito apoio. Mas eu acho que é o seguinte, muita gente reclama, mas também não se colocam à disposição da instituição, entendeu. Elas querem receber aquilo que elas acham que a instituição pode dar para elas, mas elas dão pouco em troca, não é. Eu, como gosto e aí como é um privilégio que eu tenho, eu dou muito em troca. E essa troca é mesmo, justa, justa (E3).
Percebe-se o orgulho da instituição pela professora E1 quando afirma que uma das suas primeiras vontades, quando retornou ao Brasil, depois de algum tempo fora, foi descer o corredor da IES A. Já pelo depoimento da professora E3, comprova-se o mesmo quando diz categoricamente que adora a instituição, que ali é sua casa, onde encontra o apoio necessário e que se coloca inteiramente à disposição da referida instituição.
Tal fato respalda o que Freitas, Brito e Ribeiro (2010), já que enfatizam que os docentes tendem a se referir a sua atividade com muita admiração, pois o sentido dessa é muito significativo, ajuda-os a relativizar a ansiedade e a enfrentar a demanda desgastante do ato de dar aula.
Mendes (2007) explica que, na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento pode ser enfrentado por meio de estratégias de defesa, que têm por objetivo evitar a desestruturação e o desequilíbrio mental e adaptar o trabalhador às condições dolorosas das situações adversas.
Nesse sentido, identificar as estratégias de defesa utilizadas pelos docentes é tão importante quanto identificar suas percepções sobre o prazer e o sofrimento no trabalho, portanto as estratégias mais utilizadas pelas professoras entrevistadas será o tema que será tratado a seguir.
6.3 Estratégias Defensivas
Segundo Mendes (2007) e Dejours e Abdoucheli (1994), o trabalho não precisa ser feito em um estado de pleno gozo, mas pode ser vivenciado a partir da transformação da
situação que faz sofrer. Para os autores, tais defesas têm um papel importante na adaptação e no ajustamento das necessidades e desejos dos trabalhadores às demandas da organização do trabalho.
As estratégias defensivas que mais se destacam entre as professoras pesquisadas são de compensação e racionalização.
As estratégias de defesa de compensação caracterizam-se pelo fato do trabalhador buscar, fora do trabalho ou mesmo dentro do ambiente de trabalho, estratégias para lidar com as contradições do contexto dele.
As estratégias de compensação manifestam-se quando as docentes buscam realizar atividades físicas para minimizar o custo físico, conseguindo equilibrar as dificuldades da organização do trabalho.
Exercício físico eu faço, mas às vezes eu estou com preguiça. Adoro conversar com os colegas. Uso Floral. Cinema, teatro, tudo isso estimula. Eu sou quase uma hippie, você presta atenção, com certeza eu vou ser o ponto fora da curva nesse lugar aqui (E1).
Eu corro, eu ando no parque, eu e um monte de professor, encontro todos de manhã cedinho. Porque eu não pego condução, eu ando a pé, eu faço tudo a pé, eu mudei o meu estilo de vida, os meus filhos vão para a escola a pé, eu levo o meu filho pequeno para a escola, eu atravesso o Parque da Água Branca, isso é maravilhoso (E2).
Pelo menos três vezes por semana e quando eu estou muito estressada... Eu vou para a esteira correr, porque senão não dá. Cinema, teatro, tudo (E4).
Exercício físico, sempre utilizo. Não tenho muitas opções de lazer, assistir filmes, de vez em quando (E5).
Para mim, este semestre, foi salvador, ter usado a meditação (E6).
A religião também pode ser verificada como estratégias de compensação utilizada pela maioria das entrevistadas.
Às vezes eu vou à capela, (...) para eu pensar (E1).
Oração, sim, sim, muita oração, eu tenho muita fé, eu tenho uma religiosidade muito, assim, que eu gosto muito (E2).
Rezo muito, todo dia antes de entrar na faculdade (risos). Antes de vir, eu me benzo, depois que termina eu falo: “Obrigado, Senhor”. Porque pelas energias que a gente tem aqui dentro, infelizmente a gente não sabe o tipo de gente que tem aqui na faculdade (E4).
Rezo muito, bastante (E5). Rezo muito (E6).
Segundo Mendes (2007), a religião é uma forma de envolver o trabalho na vida, constituindo-se em válvula privilegiada de escape do sofrimento encontrado na atividade. Discorrendo sobre a temática, Silva (2004) pontua que a religião é utilizada não apenas como
saída para o sofrimento, mas também como possibilidade de dar um sentido não apenas à vida mas também à atividade. Assim, segundo o autor, essa defesa se mostra como uma forma eficiente de encontrar o prazer no trabalho, desde que não leve à alienação. Para Mendes (1999), o uso e a clara vivência da espiritualidade no trabalho abrem caminhos para essa renovação, para esse novo significado do trabalho.
Ainda como estratégias de compensação, as entrevistadas relatam que a arte é bastante utilizada tratando-se de uma estratégia utilizada com prazer.
Cinema, livros variados, arte, eu colocaria uma arte, porque professor e arte, eles estão ali, muito juntos é como se fosse beber numa fonte, assim, eu acho que a arte é uma expressão humana fundamental para você sair dessa roda viva do trabalho (E2).
Cinema, teatro, arte... e gosto de jogos e tal. Desabafo muito com os colegas também (...) (E3).
Cinema, teatro, tudo. Já bebi para poder relaxar, cheguei em casa, tomei uma taça de vinho, eu não me alcoolizo, mas eu ah, eu preciso de um copinho de vinho para poder aguentar (...) (E4).
Percebe-se que as estratégias mais utilizadas pelas professoras são o exercício físico, a oração, arte (cinema, teatro), leitura, dentre outras, como um vinho após um dia cansativo, a meditação e o sono.
A entrevistada E4 afirma que ultimamente tem dormido bastante. Apesar da necessidade de descanso ser necessária, a professora E4 relata que esse sono não se trata de sono reparador. Ela diz que tem tido muito sono e que considera isso péssimo, porque acredita não se tratar de um sono reparador, mas sim de um sono de exaustão, porque está estressada. A professora relata que o desgaste por trabalhar em uma IES onde não existe prazer é muito grande. Desse modo, a professora enfatiza que precisa dormir, pois, como não gosta de estar nessa IES, muita energia é demandada e, para recarregar-se, precisa dormir.
Durmo, durmo muito, durmo, acho que dormir é uma coisa que eu faço bastante, mesmo, o que eu acho péssimo eu acho, porque de exaustão, porque estou estressada. Não chega a ser um cansaço, essa dormida, esse cansaço de eu dormir desse jeito, é um pouco assim de... Não, porque você viver com uma situação que para você é ruim, existe um desgaste... É, é essa energia é muito grande, para mim está pior... para mim está pior no momento, cada dia que passa, está pior. Porque eu acho que a universidade piorou muito nesse aspecto, quando eu entrei aqui não era assim, não... Então estou bem desanimada, mesmo. Então aí, é aquilo que você falou, uma das suas perguntas, não fosse as coisas que eu faço fora daqui, do ponto de vista de outras atividades profissionais e também da minha atividade física, eu acho que eu estava pior. Pior, assim, de amortecida, de cansada, porque o meu nível de insatisfação... quanto mais você faz coisas que você gosta, piora a sua percepção daquilo que você não gosta. Então, por exemplo, quando eu não tinha um monte de atividades como eu tive agora, eu lidava melhor com essa situação da faculdade do que eu lido hoje, eu estou mais insatisfeita do que eu estava. É isso, também, isso é importante. Mas é isso (...) (E5).
A estratégia de defesa de racionalização do sofrimento também aparece nesse estudo. Identifica-se que os professores recorrem a justificativas para explicar situações desagradáveis no trabalho que realizam.
Uma vida sacrificada eu não teria só aqui nessa instituição, eu acho que em qualquer lugar. No começo, você, é como diz o meu orientador, é o cara que empurra o piano (E4).
Nota-se que a professora E4 parece justificar a aceitação de uma vida de sacrifícios na função de docente da IES B, enfatizando que, em qualquer outra instituição, encontraria os mesmos problemas. De acordo com Cupertino (2012), o fato de utilizar o mecanismo de defesa da racionalização pode indicar que as docentes permanecem imóveis diante das dificuldades, procurando não modificar o que considera errado.
Algumas professoras compartilham com os colegas as adversidades ou alegrias da profissão, contudo parecem tentar não fazê-lo com a família.
Adoro... (risos) desabafar com os colegas de profissão. Com a família, eu acho que também lá ninguém precisa saber(...) falo um pouco, mas não precisa ser um problema (E1).
Desabafo com os colegas e um pouco também com a família (E3).
Desabafo todos os dias com a minha amiga de trabalho. Com a família... Ah, eu não gosto de levar muita para casa, não, eu vou deixar aí um 4, porque eu acho que já tem coisa chata demais aqui, e assim, eu cresci com gente falando, reclamando demais de trabalho, isso, aí, é um saco, então não, eu procuro não levar coisa para o trabalho, apesar de às vezes eu estar estressada, aí eu falo: “Gente, eu estou estressada, porque eu estou cheia de trabalho, deem um tempo”, mas eu não sou de ficar contando o que aconteceu aqui, é muito chato (E4).
Ah, eu faço isso, sim. Na família não tenho com quem falar isso (E5).
Olha, eu procuro não falar com muita gente, mas com algumas pessoas do trabalho. Eu não sou uma pessoa muito de ficar falando sobre trabalho com a família não (E6).
Outros professores também evitam o contato com outros colegas ou um diálogo mais aberto, utilizando a estratégia de negação da realidade, conforme evidenciado abaixo:
Professores eu tenho pouco contato, na sala dos professores eu entro para assinar o ponto e saio. Também não gosto de ficar muito com os professores, porque professor só sabe reclamar de aluno (risos). É uma estratégia de defesa, então eu evito, principalmente aqueles que reclamam demais de aluno. Na sala dos professores é um lugar ótimo para isso, então eu evito, eu não fico muito na sala dos professores, eu acho chato ficar ouvindo essas reclamações (E4).
Eu não desabafo com os colegas nem com a família, não uso esse artifício, eu acho importante, mas eu não uso. Eu não uso porque... sei lá, o povo se queixa demais, me irrita também (E2).
Para Ferreira e Mendes (2003), essa negação se caracteriza pela naturalização de tal vivência de sofrimento e por comportamentos de isolamento, desconfiança, indiferença e exacerbação do individualismo.
Dejours (1994) coloca que uma das estratégias que tende a se naturalizar nas organizações é o individualismo. Aquilo que os procedimentos de defesa não chegam mais a controlar, o sujeito “suporta” individualmente.
Gaulejac (2011; 2007) interpreta esse individualismo como advento do novo estilo de gestão das organizações denominando-o de Nova Gestão Paradoxal (NGP).
Essa Nova Gestão Paradoxal é, segundo Gaulejac (2011), o novo estilo de gestão disseminada pelas organizações. Nesse novo estilo de gestão, um sistema de comunicação paradoxal contribui para “perder a razão”, no sentido próprio e no sentido figurado. Essa dupla coação (double bind) consiste em instalar um processo de subordinação/dominação a partir de injunções paradoxais.
Um exemplo, frequentemente citado, se refere à relação entre uma mãe e seu filho. Para o aniversário de seu filho, a mãe lhe oferece uma gravata verde e uma gravata vermelha. O rapaz, contente por ter recebido um presente, imaginando com orgulho que sua mãe está contente de vê-lo, vai até o quarto, põe a gravata verde, e volta para junto de sua mãe. “Por que você colocou a verde, você não gosta da vermelha?”, ela lhe pergunta. O rapaz, um pouco confuso, volta para seu quarto, coloca a vermelha e volta para se mostrar para sua mãe: “Por que você colocou a vermelha, você não gosta da verde?” O filho não sabe mais muito bem que atitude adotar. Ele volta para seu quarto e põe as duas gravatas, uma sobre a outra. Sua mãe o olha com um ar desolado, dizendo-lhe: “Você vai me enlouquecer”. O que quer que faça o rapaz é pego em erro. A mãe o coloca numa situação louca, e é ela que o recrimina por isso. O rapaz é encurralado em um sistema de comunicação no qual ele se encontra condenado a ser inadequado, insatisfatório e impotente e, além disso, é considerado responsável por essa situação. Há aí um mecanismo de dominação. Tal sistema aprisiona os indivíduos em uma submissão permanente. A dupla dependência objetiva e afetiva na qual cada criança se encontra é mantida e reforçada por uma dependência psicológica (GAULEJAC, 2011, p. 85).
Gaulejac (2011) enfatiza que a NGP força o indivíduo a obedecer a duas demandas totalmente incompatíveis (já que é preciso desobedecer para obedecer) levando o sujeito a uma situação de derrota, carregando a responsabilidade por sua incapacidade de não responder de maneira satisfatória às demandas que lhe são dirigidas.
Talvez Gaulejac (2011) assim como Dejours (1994, 2007, 2011) ajude-nos a entender as falas emitidas pelas professoras E1, E2, E5 e E6, quando nos diz que o individualismo é um mecanismo de defesa.
Conforme elucidado no referencial, Dejours (2007) esclarece que o individualismo sobrepõe-se quando as tensões e as ideologias defensivas estão estabilizadas após certo tempo. Podem surgir, então, o desencorajamento e a resignação diante de uma situação que
não gera mais prazer e não ocasiona senão sofrimento e sentimentos de injustiça. Assim, para Dejours (1994), aquilo que os procedimentos coletivos de defesa não chegam mais a controlar estará necessariamente, agora, ao encargo de cada sujeito individualmente.
Ousar-se-ia inferir que essa nova gestão paradoxal das organizações também preza por isso ‒ colocar os empregados de tão modo satisfeitos e insatisfeitos que não saberiam como agir ou como se mobilizarem para uma mudança efetiva. Pela entrevista, na interpretação dos dados, percebeu-se que as professoras encontram-se, às vezes, muito satisfeitas com determinados aspectos com a organização e, outras vezes, totalmente insatisfeitas. Interpretando os dados relativos ao prazer e sofrimento das professoras entrevistadas, pode-se visualizar um pouco da NGP difundida pelas organizações.
No relato da professora E2, pode-se visualizar a NGP e como reflete no sujeito trabalhador. Ao mesmo tempo em que E2 coloca a docência como missão de vida ao se deparar com a realidade da carreira docente, ela questiona o próprio desejo de seguir na profissão, pois as condições atuais já não se mostram tão propícias para o desenvolvimento da sua função.
(...) eu me dei até os 52 anos para dar aula, depois disso eu vou só trabalhar na área clínica, mesmo. Não, não quero mais trabalhar com universidade, não. É, sabe porque, uma coisa que eu acho muito deprimente, assim, como vida, mesmo, você estar bastante envelhecido, com dificuldades físicas e de locomoção, e você ter que enfrentar uma sala de 50, 60 alunos para sobreviver... eu vejo professores que deram aula para mim na graduação, os coitadinhos se arrastando pelos corredores (risos) eu falo: “Ah, Meu Deus, não, eu não quero isso para mim” (E2).
Nota-se que quem faz tal declaração de que se dá até os 52 anos para lecionar é a mesma professora que anteriormente enfatizara que a docência é sua missão. Ora, se a docência é sua missão, por que então a professora deseja abandonar a profissão?
A entrevistada E2 complementa:
Olha, então vamos começar do institucional, trabalhar, ser professor aqui está se tornando cada vez mais difícil. Porque os últimos acontecimentos, eles impactaram severamente no nível motivacional e na perspectiva de futuro, de carreira mesmo. Então isso nos faz sentir, assim, bastante, digamos assim, inseguros, além de inseguros, com medo, mesmo. E como vai ser, o que vai ser. Posso apostar aqui? Vou apostar as minhas fichas aqui? Vou para uma pública? Vou melhorar o meu currículo para prestar concurso? Enfim, são várias coisas que ocorrem com a cabeça da gente, não é. O tempo inteiro, o meu maior dilema, hoje, é: eu fico aqui na nessa IES ou saio ... hoje eu penso nisso, mais em termos da IES A, (...) hoje eu estou com 42, eu tenho mais 10 anos de docência, depois, não mais. Então durante esse tempo eu quero ficar em algum lugar que possa me acolher de uma forma mais tranquila, não quero viver no afogadilho (E2).
A entrevistada E1, por seu turno, encontra-se também em um processo tumultuado quanto ao futuro na universidade A. Diz estar atualmente em crise constante perguntando se sai ou não da IES A. Enfatiza que essa atitude a machucaria muito porque ela “ama” a IES A. Declara que a IES A é parte dela, mas mesmo assim encontra-se em crise por causa do salário. Nota-se o que causa a Nova Gestão Paradoxal, o prazer e o próprio sofrimento, dois sentimentos lado a lado, deixando o sujeito-trabalhador em um constante conflito interior, sem saber qual decisão tomar.
(...) uma crise hoje eu vivo constante, será que eu saio da IES A? Por exemplo, essa semana, eu estou numa crise constante, vai estar rolando um concurso em outra IES, eu estou pensando seriamente em prestar,(...) eu amo IES A, assim, para mim, é parte de mim, a IES A, mas eu estou muito insatisfeita com a questão de salário, eu acho que não é justo eu ter estudado tanto, eu faço pós-doutorado (...) (E1).
Isso me faz pensar: então eu vou para uma universidade pública, que já que é para ser medíocre, pelo menos a gente tem a garantia do eterno. E sofro, assim, é um sofrimento, essa semana eu estou sofrendo. Assim, não durmo direito, porque é isso: será que eu presto a porcaria do concurso, passo na porcaria do concurso e vou dar aula numa universidade pública, que é tudo que eu não queria, ou se eu fico na IES A e invisto mais um ano. Mas estava me angustiando tanto, estava pensando: “Se eu passar, eu vou conseguir falar não?” (E1).
Eu dou aula na IES A há nove anos, sabe, poxa, é muito triste para mim. E como os professores que estão no poder já são todos da carreira, eles não entendem o que é você ganhar metade do que eles ganham não, metade é generosidade. Metade do que um professor, no seu nível, ganha. Não é, porque eles ganham muito mais do que a metade, é muito injusto, é muito injusto(...) e economicamente, é injusto. Lógico, você entra dentro da sala de aula, você começa, você esquece, mas racionalmente, é muito injusto e você tem pouca gerência sobre esse processo, você nunca sabe se é verdade, você nunca sabe se vai rolar esse ano, você nunca sabe se vale a pena investir, sabe, é muito horrível (E1).
Eu acho que: não é, então, pessoal, eu tenho total satisfação em dar aula. Profissional: eu acho que se eu tivesse um salário maior, eu abriria mão de outras coisas que eu faço e me dedicaria mais à universidade, então assim, eu me dedico muito, mas sempre correndo, então eu participo do núcleo de reestruturação do currículo, eu participo do núcleo de estudos, eu estou montando um projeto para o CNPQ, eu faço um milhão e duzentos e cinquenta e três mil coisas aqui dentro, mas eu fico muito cansada. Então eu acho que se eu, hoje, abrisse mão, diminuísse a minha carga horária na ONG, ou diminuísse a minha carga horária na IES A, mesmo, eu não queria dar 40 horas. Eu queria dar menos aula, queria dar aula, escolher a aula que eu queria, não ter que pegar as 40. Eu acho que eu seria muito mais feliz, se eu pudesse fazer isso (E1).
O que eu quero no futuro? Eu quero consolidar uma linha de pesquisa de gestão