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Algumas das características simbólicas do Monumento às Bandeiras também estão presentes no segundo monumento erguido na região do Ibirapuera, o Monumento-Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932, do escultor ítalo-brasileiro Galileo Emendabile em coautoria com o engenheiro Mário Pucci. No Monumento, os defensores da constituição podem ser comparáveis aos seus antepassados sertanistas, pois, semelhantemente, são tidos como pioneiros e exaltados pela bravura. A associação foi feita em um momento em que se requisitava a

união política de todos os residentes no estado, forasteiros ou não. O bandeirante era assim, além de despersonalizado como no Monumento às Bandeiras, transposto temporalmente para o movimento constitucionalista, momento em que novos e velhos paulistas deviam nele se espelhar150.

Em 1934, esse Monumento foi escolhido por meio de concurso, mas foi somente em 1949, passado o governo Vargas e, assim, favorecendo a homenagem aos constitucionalistas, que se lançou sua “pedra fundamental”. As obras começaram após a assinatura do contrato, em 1951, e ganharam ritmo acelerado na medida em que deviam integrar os festejos do IV Centenário.

150 MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do Museu

O Estado de S. Paulo, 20 de agosto de 1953, p.9, autoria não creditada 151

A imagem publicada em O Estado de S. Paulo revela o Governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez, e o escultor Galileo Emendabile, observando uma maquete do Monumento ao Soldado Constitucionalista, na época em execução na região do Ibirapuera com inauguração prevista para 9 de julho de 1954.

A inauguração oficial do Mausoléu atrasou e só ocorreu em 1955, quando foram depositados, no Monumento, os restos mortais de Martins, Miragaia, Drausio, Camargo e Paulo Virgílio.

“No Ibirapuera, o povo assiste à chegada das carretas do corpo de bombeiros que conduziam as urnas dos cinco mártires”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1955, p. 23152

151 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530820-24011-nac-0009-999-9-not/busca/Ibirapuera>.

Acesso em: 20/05/2014.

152 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19550710-24594-nac-0023-999-23-not/busca/Ibirapuera>.

O uso das representações simbólicas dos paulistas foi, assim, capaz de unir a população local. A imagem acima revela aglomeração de pessoas em torno da homenagem aos “soldados” de 1932 e à cidade de São Paulo que, nas palavras dos estudantes de direito publicadas no artigo de O Estado de S. Paulo,

sem partidos ou grupos políticos, lutou pela constitucionalização do país, exigindo a volta à lei e o respeito à liberdade. Com isso, São Paulo cresceu, sublimou-se, agigantou-se, dignificou-se e venceu, derrotado embora, nos campos de batalha.153

Evidencia-se aqui um discurso em construção por meio da ação seletiva de momentos da história de São Paulo que, cada um a sua maneira, contribuiu para o “agigantamento” do Brasil. O poema de Guilherme de Almeida, gravado nas faces do obelisco que encima o mausoléu reitera a criação desse imaginário: “Aos épicos de julho de 32 que, fiéis cumpridores/ de sagrada promessa feita a seus maiores/ os que houveram as terras e as/ gentes por sua força e fé/ na lei puseram sua força/ e em São Paulo sua fé.”154As próprias estrofes do poema foram

intercaladas com relevos que figuravam alternadamente os soldados e os bandeirantes.

O Estado de S. Paulo, 17 de junho de 1955, p.

10, autoria não creditada155 desconhecida / Acervo Fotográfico Arquivo Fotografia do Obelisco, 1958, autoria

Histórico de São Paulo, PMSP-SEC-DC-RF

153 Palavras proferidas pelos estudantes de direito publicadas em O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1955. Disponível

em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19550710-24594-nac-0023-999-23-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 20/05/2014.

154 Ver MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do

Museu Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.22.

155 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19550617-24574-nac-0010-999-10-not/busca/Ibirapuera>.

Para Paulo César Garcez Marins, a própria expressão dos corpos e rostos esculpidos é associável às soluções sintéticas da escultura italiana do período fascista, que procurava ressaltar a força e a firmeza da “raça”156. Assim, características físicas e morais do passado

bandeirante migram para o soldado, depois para o agricultor e, finalmente, para o operário urbano, todos representados nos mosaicos internos, “amalgamando temporalidades, fundindo e refundando o ‘paulista’”157. Busca-se afirmar a imagem do paulista como homem forte e

empreendedor, incansável trabalhador que deveria servir de modelo a todos os brasileiros. Com mais um monumento instalado no complexo do Ibirapuera, a narrativa sendo construída sobre a importância do modelo paulista dentro do contexto nacional fica ainda mais evidente por meio da resistência à ditadura varguista. Somada à modernidade do Parque, essa narrativa é ampliada. Igualmente, é simbólica a implantação do Monumento de setenta metros de altura no eixo da avenida 23 de maio, que recebeu este nome em referência ao dia em que foram mortos os estudantes conhecidos pelo acrônimo MMDC, em 1932. O nome da avenida foi definido em 1954, com a justificativa de que era necessário homenagear a reconquista da autonomia paulista em face da ditadura. A simbologia é ampliada quando se pensa que, juntamente com a avenida 9 de julho, a avenida 23 de maio forma um vértice na Praça das Bandeiras, “um V que alto falará à alma paulista, simbolizando a vitória de São Paulo.”158

Apesar de a simbologia já estar estabelecida em 1954, a avenida 23 de maio foi sendo entregue ao público gradualmente, com sua inauguração oficial tendo ocorrido somente em 1969.

156 Ver também ZIMMERMANN, Silvana Brunelli. A obra escultórica de Galileu Emendabili: uma contribuição

para o meio artístico paulistano. Dissertação (Mestrado) –Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000, p. 136.

157 MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do Museu

Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.22.

158 São Paulo Bairros. Avenida Vinte e Três de Maio. Disponivel em: <http://www.spbairros.com.br/avenida-