• No results found

4 Metode

4.3 Forskningsetiske vurderinger

Este trabalho, como vimos até agora, não busca construir cronologicamente as ações que culminaram na criação do Programa, e sim analisar o conjunto de interações que ocorreram entre os médicos que compõem as equipes em saúde da família que passaram a ter contato depois dele, e a partir dessas interações, focando nas diferenças principais citadas a seguir, captar as identidades profissionais desses grupos. Dessa forma é mais interessante, para fins do estudo, conhecer a política pública e seus efeitos na reorganização das equipes, e como a mesma produz diferenças e disputas no ambiente de trabalho a partir da identificação com as diferenças. Tais diferenças, por sua vez, variam desde gênero, raça, nacionalidade, regime de contratação, idade entre outras clivagens. As duas diferenças principais elencadas são a formação dos médicos (especialista ou não especialista) e o regime de contratação (CLT com ou sem revalidação de diploma, PMM). O esquema que esbocei abaixo apresenta o conjunto das interações presentes na unidade de saúde em que essa pesquisa se baseou, interações entre profissionais médicos e seus equivalentes do PMM. Construí o quadro para servir como guia para identificar os grupos que foquei a atenção durante minha pesquisa de campo. As equipes que compõem a Estratégia de Saúde da Família – ESF – são compostas, como veremos adiante (ver capítulo 3), por, no mínimo, um médico generalista, que pode ou não ter especialização em Saúde da Família, enfermeiros e demais agentes de saúde. Algumas dessas equipes são ampliadas e podem ter outros profissionais de áreas distintas em seus quadros dependendo do tamanho do território da equipe. A posição de médico nessas equipes pode ocorrer, no município recortado, por esses três grupos diferentes:

53

Figura 1: Esboço das diferenças entre os médicos a partir da formação e regime de contratação que passaram a interagir depois do PMM nas UBS

Fonte: Elaborada pelo autor.

O espaço onde ocorre essa interação é organizado quase da mesma forma em todas as unidades que visitei. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) possuem, geralmente, um hall de entrada (ver fotografia 1), onde os usuários retiram suas senhas e esperam ser atendidos pelos médicos responsáveis por sua região de moradia. Após serem atendidos na recepção, são encaminhados em seguida para o acolhimento ou consulta, caso agendada anteriormente. O acolhimento é uma triagem dos casos que a UBS recebe e os devidos encaminhamentos para unidades de pronto atendimento, caso o problema não seja do escopo da unidade. O mesmo ocorre nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA), que possuem uma escala dos casos e também encaminham situações menos prioritárias e que não apresentam risco para acompanhamento na UBS. As imagens abaixo foram propositalmente desfocadas para evitar o reconhecimento dos munícipes. Além desse espaço, as unidades possuem uma série de consultórios, os quais os médicos utilizavam conforme suas demandas, de forma intercambiável em alguma delas. Pelo menos é o que pareceu, pois trocavam de consultório para realizar reuniões com suas equipes, para

54 atender seus pacientes e para contribuir com a minha pesquisa. Algumas dessas salas, no entanto, são ocupadas por outros especialistas e possuem equipamento próprio para as funções desempenhadas ali. Possuem também pequenos escritórios ocupados pela administração da UBS, depósitos de insumos, área de embarque e desembarque de pacientes, salas de inalação e medicação, antessalas de espera, banheiros acessíveis entre outros espaços.

Fotografia 1: Hall de entrada e sala de espera de uma das Unidades Básica de Saúde - UBS

Fonte: Fotografado pelo autor (2016).

Os prédios não são padronizados, mas todos possuem elementos em comum. Cada município possui uma organização, com diferentes paletas de cores paras as paredes, disposição das salas, móveis utilizados. A variação da disposição da unidade varia conforme o terreno, o tamanho do prédio e assim por diante. Algumas unidades eram muito maiores do que outras, e atendiam mais população. A maior unidade, em termos físicos, inclusive, se localizava na região mais periférica da cidade, e atendia diversos bairros em seu entorno. Em todas elas há quadros com informações sobre a infraestrutura da unidade, mostrando quais atendimentos podem ser realizados ali, como na foto a seguir:

55

Fotografia 2: Painel informativo sobre a infraestrutura de uma das unidades

Fonte: Fotografado pelo autor (2016).

Como disse anteriormente, há variações na padronização das unidades dependendo do município em que estão situadas. Há espaços dedicados para as crianças, com fraldários e estantes de livros para leituras em pequenas mesas. Essas estantes, muitas vezes, tinham pouco material de leitura dedicado às crianças, e algumas vezes encontrei bíblias e revistas entre os livros infantis. As unidades também eram repletas de imagens de famílias adesivadas nas paredes, ocupando toda a extensão da mesma, como na imagem a seguir:

Fotografia 3: Uma bíblia em um pequeno balcão de uma das unidades

56 As equipes multidisciplinares de saúde da família possuem suas próprias agendas, e se organizam para atender a demanda de trabalho de forma autônoma em relação umas às outras. Algumas unidades de saúde tinham horários mais rígidos e definições prévias de que tipo de atendimento que seria realizado naquele cada dia, e em outras unidades cada equipe se organizava à sua maneira para atender seus respectivos territórios. Os médicos de unidades diferentes realizavam entrevistas comigo em horários, e muitas vezes em dias da semana, distintos, mostrando certa flexibilidade no controle da agenda.

Há algumas exceções, no entanto, que permitia a interação entre os médicos do programa e entre médicos brasileiros e estrangeiros, médicos de formação diferente e assim por diante. O PMM previa uma educação permanente durante sua vigência, quando os médicos dedicam parte do seu horário normal de trabalho nessa formação continuada, bastante valorizada pelos médicos estrangeiros. No município havia, uma vez por mês, reuniões de todos os médicos do programa, que ocorriam todas no mesmo dia. Além disso, o período da manhã quase sempre era reservado para consultas.

Não há muito contato entre os médicos responsáveis por essas equipes, e as interações entre eles ocorriam mais durante as reuniões das equipes da unidade. O encontro ocorre principalmente nesses momentos, e é nesse período que os médicos têm suas impressões a respeito do trabalho que os colegas realizam, onde constroem suas perspectivas sobre o outro e a si mesmo. Paulo, quando perguntado como era a interação com os colegas do PMM, relatou suas experiências durante essas reuniões, e comentou o que havia aprendido com Maria, formada em Cuba, e como essa interação alterou e quais efeitos teve sobre seu próprio trabalho:

Até tenho, toda vez que tem reunião, sempre gosto de perguntar para eles até do comportamento dos pacientes de Cuba, se existe uma melhora na adesão ao tratamento, se o pessoal segue mais a orientação, como é o cuidado da população cubana com a própria saúde, né? Se comparando com o Brasil para ver se a diferença do próprio regime interfere nas pessoas, né? (Isso teve impacto sobre seu trabalho?) Teve sim. Para eu prezar mais e zelar mais pelo lado humano né, porque o médico antes de tudo é especialista em gente. Antes de ser especialista em qualquer outra área. Se não for especialista em gente, não tiver paciência, não saber ouvir, não saber que o mundo da pessoa e tudo aquilo que ela pensa, e todo o juízo que ela tem sobre qualquer situação

57 da vida, é diferente do nosso, a gente tem que simplesmente respeitar. É aprender a gostar de gente, senão não adianta ser médico, ainda mais médico da família (Paulo, médico de família, 30 anos. Entrevista realizada em 17/05/2016).

As disputas morais em torno do cuidado mais ou menos humanizado, por profissionais marcados por essas diferenças, se desenvolveram nesse espaço de interação limitada e pouco contato entre eles. Como veremos nos próximos capítulos, a construção da própria identidade profissional gira em torno dessas disputas com esses outros generalizados e, de certa forma, desconhecidos, a respeito principalmente dos dois pilares do trabalho em medicina da família.

58