3. KAPITTEL 3: METODE
3.1 FORSKNINGSDESIGN
Como já indicado, os estudos em comunicação alternativa na América Latina e no Brasil foram marcados pela estreita relação entre os movimentos sociais e o surgimento e prática da comunicação alternativa. Nesse sentido, identifica-se na literatura existente sobre o assunto uma significativa e recorrente referência aos termos popular, bem como o comunitário, tendo em vista os vínculos sociais estabelecidos pelos movimentos reivindicatórios e pela comunicação, considerando a importância e centralidade desta na configuração dos espaços.
A confusão que se identifica nas citações dos três termos – alternativo, popular e comunitário – parece refletir a complexa natureza da prática comunicativa que põe em relação os diversos atores e subjetividades nos territórios. A conceituação de “comunicação popular” feita por Peruzzo (1998), que faz um resgate das acepções mais tradicionais sobre comunicação popular/alternativa/comunitária, se baseia em um entendimento que não distingue claramente as acepções de “popular” e “comunitário” quando ligados à comunicação. Como exemplo, ao discutir a contraposição entre comunicação popular e comunicação massiva, a autora lança a seguinte questão: “Quem, mesmo lendo o jornalzinho da “comunidade”, não acompanha o noticiário da televisão? Ou quem deixa de ver a “novela das oito” para assistir um (sic) programa da tevê educativa ou cultural?” (PERUZZO, 1998, p.131).
Essa questão, num contexto de debate sobre comunicação popular, não apenas indica uma brecha na ideia que se tem sobre comunidade e comunicação comunitária, como também sugere certa fragilidade na discussão sobre uma possível perspectiva popular para o entendimento dos meios de comunicação – sejam de massa ou comunitários. Isso porque, é necessário ponderar que nem sempre um “jornalzinho da comunidade” pode ter uma perspectiva que leve em conta os interesses populares. Ao mesmo tempo, falar de “interesses populares” pode se referir a demandas diametralmente opostas a “interesses comunitários”. A própria autora sugere tal ponderação, ao apresentar a natureza polissêmica do conceito de “povo”:
O povo é composto por classes subalternas, mas não necessariamente só por elas. Há momentos em que ele engloba quase toda a nação. (...) Povo não tem estatuto teórico universal, não se podendo, portanto, vê-lo sob uma categoria de análise prefixada. É preciso apanhá-lo em seu contexto, como uma realização histórica, cuja composição e cujos interesses variam em função de fatores determinantes, estruturais e
conjunturais, constituindo-se sempre num todo plural e contraditório. (PERUZZO, 1998, pp. 117-118)
Além disso, ao se considerar o contexto em que se inserem tais conceitos, como sugerido pela autora, a própria definição dos mesmos se torna relativa, sobretudo no que diz respeito às formas em que tais práticas comunicativas se instituem social, política e culturalmente.
Sendo assim, as diferentes abordagens bibliográficas mais tradicionais da área da comunicação que destacam em maior ou menor medida cada um dos três conceitos aqui referidos (alternativo, popular e comunitário) são passíveis de fragilidades em suas definições. A opção pela primazia do conceito “alternativo” pode, como já indicado anteriormente, reduzir a questão à mera opção por mais uma forma de comunicação no mercado, ignorando possíveis atuações na esfera social, bem como os vínculos que podem representar com e entre os sujeitos.
Já a perspectiva popular, como já indicado anteriormente, é carregada de distintos significados, que se confundem entre si, originando uma realidade para a comunicação popular em que a polissemia se impõe como determinante para a relativização das diferentes experiências relacionadas a esse tipo de prática comunicativa: por exemplo, em diferentes situações, podem ser chamados populares tanto um programa televisivo de massa, que pouco ou nada tem de conteúdo crítico, quanto um jornal organizado por um grupo de discussões sobre problemas de um determinado bairro de uma grande cidade.
As referências à comunicação comunitária também estão sujeitas a definições frágeis. Especialmente no que diz respeito ao sentido que toma em suas expressões na sociedade, a comunicação comunitária pode se caracterizar por ser uma forma de manutenção das estruturas e conjunturas marcadas pela desigualdade e violação de direitos. Como afirma Yamamoto (2007), ao concluir discussão sobre as acepções das pesquisas em comunicação popular e comunitária,
o sentimento de comunidade se manifesta numa perspectiva sedutora, uma espécie de fuga da sociedade ocasionada pelas contradições do sistema. Este, por outro lado, se mantém intacto devido à perpetuação dos valores e dos mecanismos funcionais da sociedade capitalistas, como estratégia de manutenção da estrutura social (YAMAMOTO, 2007, p.197)
Dessa forma, reforça-se a constatação que a literatura tradicional que discute o conceito de comunicação alternativa – e, por extensão, comunitária e popular– sofre da falta
do delineamento de parâmetros que possam nortear as discussões sobre o tema, fazendo com que a polissemia e a confusão conceitual se tornem uma marca nos estudos na área.
Neste trabalho, a manutenção da denominação “alternativo” terá o sentido de alternativas encontradas pelas práticas comunicativas de vincular-se num contexto, apropriando-se de seus instrumentos simbólicos de forma crítica e significativa para transformar tal contexto, o que se aproximaria do conceito de comunidade. Isso porque, ao falar de vinculação, entende-se a importância da comunicação nas relações entre sujeitos, instituições e práticas culturais, ou seja, das dinâmicas que se desenvolvem em nível comunitário.
Conforme já apontado no primeiro capítulo desta dissertação, a comunicação assume na contemporaneidade um papel central no desenvolvimento urbano, o que instiga a reflexão sobre como essa posição central da comunicação influencia na configuração dos territórios, palcos para os acontecimentos cotidianos. Martín-Barbero (2003) destaca que é em âmbito local que se estabelecem sentidos para as subjetividades em relação, e no território é que a comunicação estabelece os sentidos sociais.
A comunicação é percebida, em todo caso, como o cenário cotidiano do reconhecimento social, da constituição e expressão dos imaginários a partir dos quais as pessoas representam aquilo que temem ou que têm direito de esperar, seus medos e esperanças. (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.63).
Considerando as novas configurações que se impõem às sociabilidades no advento do século XXI – sobretudo as modificações impostas pelas tecnologias digitais, além do avanço da democracia, no caso brasileiro – faz-se premente ponderar, no estudo de práticas comunicativas não-hegemônicas, as formas como estas se expressam e se colocam diante das relações estabelecidas socialmente. Isso porque, a compreensão das interfaces estabelecidas em torno e em relação às práticas simbólicas predominantes contribui para o estabelecimento de um parâmetro contemporâneo das práticas de comunicação alternativas na atualidade.
Entende-se, portanto, a perspectiva alternativa não como outra opção, uma possibilidade a mais de escolha frente às diversas práticas comunicativas na sociedade, mas sim como um contraponto às práticas hegemônicas no sentido de construírem e representarem outras formas possíveis de engendramento comunicativo no interior da dinâmica da sociedade, partindo sempre dos vínculos estabelecidos entre os sujeitos no cotidiano.
Nesse sentido, é válido destacar o sentido que as minorias sociais (e sua ação) assumem no contexto social contemporâneo. Ao discutir a fluidez que caracteriza as
definições de “comunidade”, o que determina um perigoso cenário para a comunicação, Nemézio Amaral Filho (2008) ressalta que a própria crítica em nome da preservação dos vínculos sociais (comunidade) pode acabar contribuindo para a manutenção do mesmo contexto de desenvolvimento excludente, que é diariamente reforçado pela mídia hegemônica e outras instituições e formas simbólicas de dominação.
Para que as comunidades, por outro lado, tenham acesso a esse modelo (o do desenvolvimento) de relacionamento com o mundo, elas teriam, argumentam puristas e seus adversários – os representantes da ordem econômica vigente – que deixar de ser o que são agora. (...) dito de outro modo, é negada a possibilidade de inserção desses grupos na sociedade envolvente que não seja por meio de sua própria destruição. É por isso que elas devem permanecer como estão: à margem. (AMARAL FILHO, 2008, pp.85-86)
Na contramão dessa conjuntura que leva ao imobilismo das estruturas societárias, com a manutenção de situações de perversidade (SANTOS, 2001), as minorias sociais se constroem na contemporaneidade em ligação direta com a crise das instituições sociais e do próprio espaço público, conforme ressalta Muniz Sodré (2005), ao discutir a definição atual do conceito de “minoria”.
Pois bem, minoria é uma recusa de consentimento, é uma voz de dissenso em busca de uma abertura contra-hegemônica no círculo fechado das determinações societárias. É no capítulo da reinvenção das formas democráticas que se deve inscrever o conceito de minoria. (SODRÉ, 2005, p.14)
A definição apresentada pelo autor contribui para a reflexão aqui feita sobre a face contemporânea da comunicação alternativa na medida em que identifica no interior das práticas sociais (hegemônicas) o lugar de atuação das minorias, que têm como características básicas a vulnerabilidade social, a constante construção social de sua identidade, a luta contra os pressupostos e conceitos que guiam as perspectivas hegemônicas, e a utilização de estratégias discursivas para seu reconhecimento. Nesse sentido, o conceito de minoria se aproxima da definição e ideia de comunicação alternativa contemporânea por ser “um dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contra- hegemônica” (SODRÉ, 2005, p.12).
Ao discutir os novos delineamentos da comunicação comunitária na contemporaneidade, Raquel Paiva (2007) também destaca a questão do contraponto à hegemonia como sendo importante delineamento para tal prática comunicativa, que a própria autora, em determinado trecho do texto considera como sendo uma “alternativa comunicacional” (PAIVA, 2007, p.145). A partir desse contexto de contraposição às
estruturas hegemônicas, a autora ainda elenca outras características que definem as práticas comunicativas comunitárias, no caso, coincidentes com o conceito atual de comunicação alternativa: busca de maior polifonia na dinâmica societária, experimentação de novas formas de linguagens e posturas sociais, possibilidade de interferência no sistema produtivo da sociedade, maior aproximação entre consumidores e produtores das informações que circulam, proposta educativa (com frequente existência de projetos paralelos), desenvolvimento de novas tecnologias, e finalmente a possibilidade de novas reflexões sobre o conceito de comunicação.
Ora, as manifestações comunicacionais da perspectiva contra hegemônica se configuram, portanto, como sendo componentes importantes para o entendimento das relações que estabelecem na contemporaneidade, tendo em vista o papel central que a comunicação – seja em sua acepção hegemônica ou alternativa – exerce no delineamento das estruturas urbanas e do desenvolvimento social. Ao propor uma revisão dos conceitos de “alternativo”, “comunitário” e “popular”, na perspectiva das características da comunicação contemporânea, Cicilia Peruzzo (2006) destaca que as experiências atuais passam a considerar mais outras formas de manifestação simbólicas que ultrapassam a resistência político-ideológica característica das expressões alternativas da comunicação no século XX.
Neste contexto, o caráter mais combativo das comunicações populares – no sentido político-ideológico, de contestação e projeto de sociedade – foi cedendo espaço a discursos e experiências mais realistas e plurais (no nível do tratamento da informação, abertura à negociação) e incorporando o lúdico, a cultura e o divertimento com mais desenvoltura, o que não significa dizer que a combatividade tenha desaparecido. Houve também a apropriação de novas tecnologias da comunicação e incorporação da noção do acesso à comunicação como direito humano. (PERUZZO, 2006, pág.06)
A autora afirma ainda que, atualmente, não apenas os conteúdos, mas também as formas como se configuram os processos produtivos e de difusão dos meios de comunicação podem contribuir para uma perspectiva social mais democrática. Assim, os meios de comunicação que se estabelecem a partir de uma vertente comunitária (com vínculo social e territorial entre os sujeitos), que se pode chamar atualmente – e no contexto da discussão aqui apresentada – de alternativos, são os principais representantes dessa contribuição (PERUZZO, 2006, p.10).
Peruzzo (2006) elenca as novas formas de organização dos grupos sociais que passam a ser protagonistas de experiências alternativas no que diz respeito às práticas comunicativas na sociedade contemporânea, o que incluiria os movimentos relacionados às questões de
gênero, etnia, ambientais, violência, além de cooperativas, associações, ONGs, e outros tipos de organização do chamado terceiro setor (PERUZZO, 2006, p.14). Para a autora, a despeito de um contexto no qual se estimula a competitividade, tais grupos superariam o peso da individualidade em favor da busca por direitos cidadãos e por um contexto social justo.
Entretanto, ressalta-se que nem sempre tais grupos (reconfigurados na atualidade) sejam representativos ou tenham a lógica das minorias caracterizadas por Muniz Sodré (2005), conforme já descrito anteriormente. Nessa linha de pensamento, Gabriel Kaplún (2007) destaca que o imperativo do desenvolvimento contemporâneo, que se impõe para os diversos grupos (sobretudo as ONGs) que se organizam em busca de pretensas mudanças estruturais na sociedade, pode, na verdade, determinar vínculos e ações estritamente instrumentais e pouco eficazes na promoção de alternativas e contextos propícios às mudanças necessárias.
Para Kaplún (2007), a conjuntura que mais revela tal fragilidade é o que ele chama de “lógica dos projetos”, caracterizada pela profusão de ações planejadas para grupos específicos, com atuação pontual e, em última instância, inócua diante da dinâmica social.
Planejar pode ser, assim, um modo de aplanar: aplanar as diferenças e conflitos, aplanar as complexidades e processos para fazê-los mais manejáveis. Quando esta engenharia se expande no campo especificamente comunicacional, converte-se em coisas como o marketing social: a mudança pode vender-se como um produto a mais. (KAPLÚN, 2007, p.184)
Tal constatação desafia a comunicação alternativa não apenas enquanto possível estatuto contra-hegemônico no contexto do imperativo midiático que se impõe às sociabilidades, mas também em relação aos parâmetros que sustentam as relações sociais engendradas pela comunicação – e também determinantes nas configurações das esferas comunicativas. A concretização dos projetos de comunicação alternativa corre o risco de ser um fim em si mesma, afastando-se do sentido de sua inserção e vínculo sociais, ou seja, apartando-se de seu necessário diálogo ativo com os sujeitos e as dinâmicas territoriais cotidianas. E não se trata, neste caso, somente de uma discussão sobre a eficácia social da comunicação alternativa, mas também sobre sua própria sustentação e reconhecimento, entendendo-a em disputa simbólica cotidiana na sociedade.
Nesse sentido, vale destacar que o entendimento de contra-hegemonia defendido aqui se aproxima do conceito de disputa apenas no que se refere aos dispositivos simbólicos que hoje são determinantes para as sociabilidades. Ou seja, não se trata aqui de travar uma disputa
pela hegemonia, mas sim de superar os ditames hegemônicos, raiz das desigualdades e injustiças sociais, em busca de uma nova ética social. Conforme ressalta Raquel Paiva (2008):
A radicalidade do que pode se configurar como contra-hegemonia talvez resida no fato de não se desejar nunca o lugar de sujeito hegemônico, no fato de a contra- hegemonia se orientar por uma razão fundamental que se configure de modo contrário e oposto à hegemonia. (PAIVA, 2008, p.165)
A comunicação alternativa pode se sustentar socialmente na medida em que atue com o objetivo de promover um olhar crítico às estruturas dominantes, de modo a não se apropriar destas mantendo a mesma lógica, mas configurando outras formas possíveis de relações sociais. E, sobretudo, criando novos sentidos à própria prática comunicativa, mais vinculados ao cotidiano dos sujeitos e à construção da cidadania22 nas comunidades onde se desenvolve.
Tendo em vista o horizonte delineado por essa reflexão, faz-se necessário pontuar algumas características que marcam o contexto da comunicação alternativa na contemporaneidade, com especial olhar para o cenário social configurado pelos dispositivos simbólicos, e as consequências de tal configuração.