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6. KAPITTEL 6: DISKUSJON

6.2 TILTAK FOR Å STYRKE FAGDIMENSJONEN

Por se tratar de um produto essencialmente jornalístico, chama atenção também as formas como se conformam o texto à linguagem tipicamente do ofício. Historicamente tida como uma forma narrativa “imparcial, objetiva e clara”, a linguagem jornalística sempre se identificou com a utilização da terceira pessoa e as formas impessoais de narração. No entanto, como já discutido neste capítulo, as configurações do jornalismo contemporâneo levam ao questionamento da “imparcialidade jornalística”, justamente pela incompatibilidade

43 Mesmo quando se tratam de entrevistas, os posicionamentos destacados dos entrevistados também buscam apresentar perspectivas “diferenciadas” em relação ao assunto tratado, como já descrito na primeira categoria. Assim, segundo Márcio Seidenberg, cada número da revista é tido como uma unidade.

de tal preceito com a complexidade cada vez maior observada nas relações sociais contemporâneas.

Tendo em vista a peculiaridade do que se pode denominar uma “atemporalidade” das edições publicadas pela Ocas, a questão da (im)pessoalidade no periódico aqui estudado toma significativa importância, já que a estrutura de produção jornalística da Ocas permitiria experiências mas “livres” das atribuições tradicionais da produção jornalística – busca da verdade, objetividade e imparcialidade.

Ressalta-se que, a simples utilização da primeira pessoa em uma abordagem jornalística não seria garantia para a obtenção de uma cobertura mais contextualizada e condizente com a complexidade da estrutura societária. No entanto, considera-se que, ao registrar as impressões pessoais dos narradores jornalísticos44 com o recurso da primeira pessoa, a possibilidade de busca por uma abrangência mais qualitativa dos fatos, contextualizando-os, se torne mais latente que em outros textos. Essa questão da abrangência qualitativa dos textos também será abordada na discussão da categoria a seguir.

No ano de 2009, nos textos45 publicados na seção “Cabeça sem teto” a utilização de primeira e terceira pessoas da narrativa foi equilibrada: quatro textos em terceira pessoa, e três em primeira. Já nas reportagens de capa foram observadas seis matérias em terceira pessoa, e apenas uma em primeira pessoa. Inicialmente, esse panorama oferece um retrato quantitativo que distancia o jornalismo praticado na revista Ocas de experiências mais sutis nas narrativas contemporâneas.

No entanto, em quatro textos específicos, há trechos em que se recorre à pessoalidade (primeira pessoa): seja para descrever o ambiente de entrevistas e o contato estabelecido com os entrevistados nas entrevistas “Zizi integral” (nº63, janeiro/fevereiro 2009, “Capa”) e “No consultório do Dr. Drauzio” (nº67, setembro/outubro 2009, “Capa”), ou para descrever o contexto de apuração dos fatos e a relação do narrador com o fato na matéria “Roteiro de um funeral” (nº68, novembro/dezembro 2009, “Cabeça sem teto”), e até mesmo para se referir à equipe Ocas e ao trabalho da revista com as pessoas em situação de risco social na entrevista “Travessias” (nº66, julho/agosto 2009, “Cabeça sem teto”).

44 Utiliza-se aqui tal denominação, porque nem sempre os autores dos textos são jornalistas por formação. No entanto, como já ressaltado neste capítulo, o filtro jornalístico para as matérias e reportagens publicadas está sempre presente.

45 Na discussão desta categoria, foi considerado cada texto publicado nas seções, ou seja, podem ter sido publicados dois textos numa mesma seção, mas que foram aqui abordados em suas formas unitárias. Para mais detalhes, ver apêndice e anexos.

Dentre os textos que utilizam a primeira pessoa destaca-se o texto “Antes que o frio doa...” (nº65, maio/junho 2009, “Cabeça sem teto”)46, no qual o narrador em primeira pessoa passa informações sobre a dificuldade de enfrentamento das baixas temperaturas para quem mora nas ruas, a partir da própria experiência, já que o autor é um ex-morador de rua e vendedor de Ocas. O texto mescla o relato com as informações dos principais problemas que acometem os moradores de rua em função do frio. A matéria ainda publica depoimentos de moradores de rua sobre a questão, nos quais são destacadas as relações que estabelecem com o ambiente – outros moradores de rua, animais de estimação, o próprio preconceito – para enfrentar o frio. No texto observa-se o que se pode denominar como “narrador-fonte”, o qual fornece informações a partir da experiência sensível do fato, conferindo legitimidade à narrativa, ao oferecer ao leitor uma espécie de “pacto” a partir da experimentação prática da informação.

Os outros dois textos em primeira pessoa publicados em 2009 na seção “Cabeça sem teto” têm em comum o tom de relato. Intitulados “Quanto vale ou é por quilo?” (nº64 março/abril 2009) e “A conversa que não terminou” (nº67 setembro/outubro 2009), ambos foram escritos por vendedores ou ex-vendedores da revista Ocas, ou seja, por pessoas que têm a experiência de estar em risco social como pano de fundo para opinar sobre as formas de tratamento da população de rua pelo operações do governo – no caso do primeiro texto, bem como para achar pontos em comum entre a luta por democracia e liberdade que a figura de Vladimir Herzog enfrentou e a luta diária por direitos das pessoas em situação de risco social – como ocorre no segundo texto.

O único texto em primeira pessoa publicada na seção “Capa” em 2009 foi a entrevista com Fernando Bonassi, feita pelo jornalista Sérgio Vilas Boas, reconhecido por escrever perfis e biografias jornalísticas. No próprio texto o jornalista identifica o tipo entrevista que está desenvolvendo como sendo inspirado nas experiências do chamado “novo jornalismo”, em especial nas matérias produzidas por Gay Talese, em que são destacadas as impressões do jornalista/narrador na narrativa informativa que se constrói.

Já no ano de 2010, há apenas dois textos em primeira pessoa nos seis números que contabilizam todas as edições do ano. Ambos foram publicados na seção “Cabeça sem teto”, e também se reduzem a relatos sobre situações. O primeiro texto, intitulado “Reencontros em papel” (nº69 janeiro/fevereiro 2010), trata-se dos relatos de um ex-vendedor de Ocas e de um fotógrafo-escritor que passaram a ser amigos e trocar cartas depois do contato por meio da

46 O texto recebeu o prêmio da categoria “Melhor Artigo de Vendedor” na 16ª Conferência Anual da INSP (Rede Internacional de Publicações de Rua), ocorrida em 2011 em Glasgow, na Escócia.

venda da revista Ocas. O segundo texto, “Relato do descaso” (nº73 setembro/outubro 2010), apenas reproduz o relato escrito por dois moradores de rua, e que serviu como denúncia ao Ministério Público, sobre inadequação e descaso dos serviços de abrigo e acolhimento oferecidos pela prefeitura do Rio de Janeiro. Ou seja, ambos os textos em primeira pessoa publicados em 2010 pouco têm de jornalístico enquanto estrutura textual, apesar de apresentarem aspectos importantes sobre a realidade da rua – a construção de uma amizade por meio da venda da revista Ocas, e as formas de tratamento pessoais recebidas em albergues e abrigos da prefeitura.

Ressalta-se que em quatro textos do ano de 2010 o recurso à primeira pessoa aparece de forma pontual, à semelhança das utilizações observadas no ano de 2009. Na matéria “Nas ruas, onde o povo está...” (nº70, março/abril 2010), são publicados depoimentos (em primeira pessoa) de artistas de rua, além de haver referência, também em primeira pessoa, ao contexto de produção da matéria, e o encontro com os artistas. No texto “Luta pela dignidade”, que compõe a reportagem “Esporte transformador” (nº73, setembro/outubro 2010), há uma pequena contextualização da produção da matéria, que utiliza a primeira pessoa para mostrar que a produção do texto se deu por meio de uma visita ao local a que faz referência (“Estivemos presentes [...] no Viaduto”). Já o texto “Medalhistas de honra” (nº74, novembro e dezembro 2010), são publicados dois textos de albergados, resultantes de oficinas de criação de texto, nos quais o recurso à primeira pessoa ocorre para ressaltar a ideia dos autores sobre a importância da solidariedade no contexto da desigualdade e exclusão sociais. Por fim, na reportagem de capa composta pelas matérias “O cinema das ‘Veias Abertas’”, “O cinema de ‘garimpo’” e “O cinema de resistência” (nº74, novembro e dezembro 2010), são publicados depoimentos, em primeira pessoa, de doze cineastas participantes da Mostra de Cinema e Direitos Humanos sobre seus filmes.

Ao se fazer um balanço dos dois anos estudados, as reportagens de capa mantiveram praticamente 100% de textos em terceira pessoa – a única exceção foi o texto do reconhecido perfilador Sérgio Vilas Boas, convidado para entrevistar o escritor e diretor Fernando Bonassi. Mesmo com as ponderações feitas, esse fato demonstra que, experiências que contemplem uma abrangência mais complexa dos fatos não se dará, na publicação estudada, pela via de uma estruturação diferenciada do texto jornalística.

Em última instância, a abordagem dos fatos feita pela revista Ocas, ainda que partindo de pautas que buscam refletir uma realidade de exclusão e desigualdade sociais, não se desvincula da linguagem jornalística já reconhecida e reproduzida na contemporaneidade.

Mesmo buscando alguma valorização de depoimentos das experiências pessoais, tal destaque não é feito por meio de novas abordagens jornalísticas, mas por meio de relatos.