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5. KAPITTEL 5: FUNN OG ANALYSE

5.1 DE FIRE FAKTORENE

5.1.3 Mål og prioriteringer

A revista Ocas, como já apresentado no início deste trabalho, circula nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, por meio exclusivamente de seus vendedores – moradores de rua e pessoas em situação de risco social. No entanto, tal distribuição não é feita de forma indistinta. Os pontos de venda escolhidos estão geralmente ligados a espaços de difusão cultural, artística e/ou educacional.

Essa estratégia de difusão revela e se relaciona com o público-alvo da revista, que é composto justamente pelo grupo de pessoas que frequenta tais espaços e, portanto, já compartilharia de um conhecimento simbólico-cultural prévio. Segundo Márcio Seidenberg, atual presidente do Conselho Executivo da revista Ocas38, a publicação é vendida em “pontos estratégicos e visados”, onde circulam pessoas que estão “em busca de cultura”. Nesse sentido, parte-se do pressuposto que o conteúdo editado pelo periódico leva tal fato em consideração.

Para além da influência na edição dos textos publicados, Seidenberg também chama atenção para a questão da visibilidade da revista Ocas no contexto dos locais onde circula, já que não há concorrência visual, como ocorreria nas convencionais bancas de revistas.

38 Em entrevista concedida com a finalidade de contribuir com esta pesquisa, no dia 29/06. A conversa foi gravada, e o registro está em posse da pesquisadora.

Acrescenta-se o fato de que a revista não é apenas oferecida aos possíveis leitores, mas apresentada como parte de um projeto social, aproximando vendedores e leitores, o que pode representar uma visibilidade mais “qualitativa” que quantitativa.

Tal observação remete à questão da publicidade na revista. O financiamento por meio de anúncios publicitários sempre foi bem aceito no projeto. No entanto, segundo Seidenberg, há certa dificuldade de encontrar empresas dispostas a vincular suas marcas a segmentos marginalizados da sociedade, sobretudo adultos – alguns com problemas que ultrapassam a falta de moradia e emprego, pela presença de sofrimentos psíquicos. O preconceito é especialmente latente no que se refere à faixa etária dos adultos, quase sempre estereotipados como sendo “vagabundos”.

A publicidade da revista Ocas não é o foco desta pesquisa, no entanto, acredita-se ser ressaltado por trazer à tona a questão do preconceito pelo qual também passa a revista. A questão do preconceito e da invisibilidade perpassa todas as edições estudadas, tendo em vista que são abordagens inerentes à discussão sobre a exclusão social, conforme já apontado no primeiro capítulo deste trabalho.

A própria proposta da revista procura suprir tal realidade: o projeto busca, em primeiro lugar, ser uma fonte de renda para quem está fora do mercado de trabalho, além de também servir como forma de expressão para as pessoas em situação de risco social – seja de forma direta, ao publicar textos propostos pelos próprios vendedores, seja por meio da temática dos textos publicados, dos quais as pessoas em situação de risco social podem ser fontes.

Nesse sentido, vale ressaltar o papel dos jornalistas como filtros dos textos que compõem a revista. Segundo Seidenberg, quando se tratam de textos escritos por pessoas não especializadas – em geral os vendedores da revista, os jornalistas atuam como orientadores da construção do texto, comumente por meio de oficinas textuais organizadas pelo próprio projeto. A preocupação é sempre por manter a qualidade condizente com o produto jornalístico, daí a relação de orientação dos jornalistas no processo.

Além disso, o olhar dos jornalistas para o trabalho (voluntário) que exercem também é, de certa maneira, “orientado” a partir dos pressupostos do projeto OCAS, de maneira geral, a preocupação com a exclusão social e suas formas de expressão no cotidiano. “Não temos a pretensão de abranger o universo da rua, que é muito complexo, mas temos como norte a possibilidade de apresentar uma faceta desse grande mosaico que é a realidade da rua”, ressalta o presidente do Conselho Executivo da Ocas. Ele lembra que essa preocupação é constante, principalmente na seção “Cabeça sem teto”, mas acaba por perpassar toda a

publicação, já que a equipe da Ocas busca encarar as edições como unidades, e não como mosaicos de matérias jornalísticas reunidas em um número.

Tal visão mais global das edições da revista se relaciona com uma característica da publicação que, dentre todas as peculiaridades observáveis, se destaca por distanciar a revista Ocas de outras publicações jornalísticas, em um aspecto: a perenidade das notícias. Segundo Seidenberg, as matérias publicadas pela Ocas procuram fugir do perfil noticioso, tendo em vista que os números são feitos para serem vendidos também posteriormente, sem um vínculo seminal indispensável com a data da publicação.

As revistas são muito mais identificadas – pelos envolvidos no projeto, sejam colaboradores ou vendedores – com seu tema principal (suas capas) que necessariamente com a data da publicação. Esse fato revela a importância das matérias de capa para a venda da revista – por isso, com certa freqüência, as matérias de capa se caracterizam por serem entrevistas com personalidades reconhecidas no círculo midiático, capazes de despertar interesse em possíveis leitores de forma atemporal.

Ou seja, mesmo compartilhando dos mesmos códigos que historicamente acompanharam e nutriram a concepção do jornalismo na sociedade, a busca por editar números cuja circulação possa se dar independentemente da data de publicação acaba por ser uma singularidade na experiência da revista Ocas, em relação a outras formas reconhecidas de periodismo de revista.

Pressupõe-se, portanto, que tal característica também tenha um reflexo na estruturação dos conteúdos publicados pelo periódico. Isso porque tal fato seria um contexto favorável para a possibilidade de existência de um trabalho jornalístico mais livre no que tange às suas configurações textuais, com mais chances de se distanciar dos ultrapassados preceitos de “verdade, imparcialidade e objetividade” que ainda circundam a atividade jornalística. Assim, o jornalismo da revista Ocas teria mais chances de se aproximar de abordagens mais contextuais e abrangentes que consideram as sensibilidades, os afetos em sua apuração e estruturação de sua narrativa, conforme ressaltam Sodré (2009) e Medina (2008-I; 2008-II).

É, portanto, a partir desses elementos e pressupostos trazidos pelo contexto de produção e circulação da revista Ocas, por meio da metodologia já apresentada, que se observou a amostra estudada nesta dissertação: as seções “Cabeça sem teto” e “Capa” das edições que circularam nos anos de 2009 e 2010, o que compreende as edições do número 63

até o número 74, totalizando 24 textos analisados, entre matérias, entrevistas e reportagens39. A seguir, serão abordadas as categorias identificadas no estudo.