Alcibíades é, com certeza, um dos personagens históricos mais intrigantes de Atenas no século V. a.c., especialmente por causa de uma ambiguidade que marca tanto os acontecimentos em torno de sua vida, quanto por suas ações e por seu caráter. Um jovem atraente e exuberante59, membro de família nobre e que teve Péricles por um dos seus
preceptores. Era um tipo de promessa pública para a cidade, na medida em que fundia em si uma gama de qualidades físicas e intelectuais únicas. Um homem belo e inteligente, atraente e sedutor, cujo status era o de um autêntico possuidor da virtude ( ), de um α α , semelhante a qualquer grande homem da história de Atenas: ele era o possuidor de todos os gêneros de qualidades que qualquer jovem ateniense deveria almejar60.
Entretanto, era acima de tudo um desvairado, um dissoluto, que às vezes se passava por insolente ( )61; o que de algum modo lhe impediu de ter se tornado um homem
honrado e virtuoso. Alcibíades assumiu a carapaça do declínio moral, uma espécie de herói às avessas, conferindo-lhe certo ar de imprevisibilidade e, simultaneamente, dotava-o de um caráter ambíguo, um intermediário entre o herói e o vil.
Como se sabe por Tucídides (VI. 15. 2), Alcibíades foi de início um opositor do grupo dos generais moderados, representado por Nícias, cuja aposta era de almejar certa trégua entre Atenas e Esparta. Porém, de acordo com o historiador, a oratória de Alcibíades foi decisiva para alimentar certa esperança militar entre os atenienses, na expedição para a Sicília, que acabou por levar a cidade a grandes perdas militares, culminando em sua ruína no final do conflito.
59 É frequente a referência à beleza de Alcibíades por parte dos que querem denunciá-lo (Cf. Platão, Prot. 309a;
Prim. Alc. 104a; Plutarco, Vida de Alcibíades, 1. 4-6). Aristófanes, contudo, faz chacota de certo problema de fala do jovem (Vespas, v. 44-46; citado também por Plutarco, Vida de Alcibíades, 1. 7).
60 De acordo com Plutarco (Vida de Alcibíades, 1. 1), sua mãe era uma Alcmeónida, filha de Mégacles, chamada
Dinómaca e prima de Péricles, enquanto seu pai seria um reconhecido soldado, que teria lutado na batalha de Artemísio, porém morrido na batalha de Coroneia. Platão atesta sua nobreza (Primeiro Alcicbíades, 104a-c) e coloca Sócrates afirmando que o jovem era alguém que poderia ter feito tudo o que queria, tanto por sua beleza, quanto por sua nobreza e riqueza. Cf. Nails (2002, p.10-20) para uma nota geral sobre Alcibíades.
61Nas Memoráveis (I. 2. 12-1ἁ), XἷὀὁfὁὀὈἷ Ὁὅἳ ὁὅ Ὀἷὄmὁὅ “ α α α α ”, ὉὈiliὐἳὀἶὁ ὁὅ ὅὉὂἷὄlἳὈivὁὅ ἶἷ “ὁ mἳiὅ ἷxἵἷὅὅivὁ, ὁ mἳiὅ viὁlἷὀὈὁ, ὁ mἳiὅ ἶἷὅgὁvἷὄὀἳἶὁ” ἷ “ὁ mἳiὅ ἶἷὅὄἷgὄἳἶὁ, ὁ mἳiὅ ἶἷὅmἷἶiἶὁ”, ἵὁm Ὁmἳ ἵlἳὄἳ iὀὈἷὀὦὤὁ ἶἷ ἳὈἳἵἳὄ ἳ imἳgἷm ἶἷ χlἵiἴíἳἶἷὅ ὀἳ ἶἷfἷὅἳ ἶἷ ἥὰἵὄἳὈἷὅέ ἡὅ Ὀἷὄmὁὅ ὅὤὁ
122 Tucídides (VI. 15. 3-4), por outro lado, deixa claro que essa defesa da expedição obedecia mais aos interesses particulares de Alcibíades, que projetava nela simplesmente um meio para alcançar certo sucesso político, do que realmente uma preocupação com o desempenho da cidade na guerra. Ou seja, o jovem visualizava conseguir glória através de uma expedição militar, que não necessariamente seria vitoriosa. O momento era conturbado, via-se uma cidade a meio termo entre uma aposta em sua capacidade militar e ainda fragilizada pelos momentos de pavor vindo dos anos anteriores. Atenas, na verdade, estava prestes a se afundar no conflito com Esparta e, mesmo diante desse quadro, Alcibíades via nisso uma oportunidade para defender seus próprios interesses. O que se percebe é um indivíduo arriscando sua cidade em vista da glória, querendo alcançar riqueza mediante conquistas de caráter público. Fica evidente, pelo olhar do historiador, que o general acreditava que essa empreita militar o consagraria e que, depois disso, seria muito mais fácil atingir suas ambições de riqueza e glória.
Esse retrato dado por Tucídides nos mostra um homem que de início gozava de uma alta estima na política ateniense, porém foi minando seu renome no espaço político por um comportamento desregrado e fanfarrão. É esse comportamento que gera uma desconfiança generalizada dos atenienses pelo seu estilo de vida, que não era visto como o de um general honrado como Nícias (VI. 15. 3.). É como se aos poucos a imagem do eminente jovem, como promessa para a cidade, fosse convertida na de um homem covarde e ambicioso, cujas ações demonstravam intenções puramente egoístas (VI. 15. 4). Tucídides acaba por culpá-lo indiretamente pela destruição de Atenas (VI. 15. 3), na medida em que a desconfiança depositada nele teve o aspecto de um sentimento perverso, cujas consequências extrapolam o simples ostracismo imposto ao jovem. Alcibíades findou por ser visto como o típico defensor da oligarquia e da tirania (VI. 15. 4), levando os atenienses a um sentimento vingativo jamais visto. Isso é o que conduziu a cidade a uma desventura, principalmente após a expedição à Sicília, que culmina em eventos políticos que desequilibram a experiência democrática, como se observa no fim da Guerra do Peloponeso.
Em certa medida, Tucídides nos mostra como o caso da mutilação das estátuas de Hermes (VI. 27. 1-3) e as paródias zombeteiras dos mistérios (VI. 28. 1) foram decisivas para o sentimento de aversão dos atenienses por Alcibíades. Esse sentimento é o que teria extrapolado o limite da relação entre ele e a cidade, permitindo, principalmente, que seus opositores procurassem vinculá-lo a uma imagem do político oligárquico e antidemocrático (VI. 28. 2). A ideia de uma conspiração oligárquica ou tirânica parece ter assolado
123 completamente a política ateniense do século V., principalmente nesse desvelar final da Guerra.
Em seguida (VI. 61. 1-7), o historiador nos mostra que o político não soube lidar com a dificuldade das acusações, que o teria levado a se exilar entre os espartanos (VI. 88. 3-10). Além desse refúgio condenável, Alcibíades ainda tomou para si o papel de uma espécie de informante, às vezes com um ar de conselheiro do exército espartano. Isso é o que confirmaria, em geral, o sentimento de desconfiança dos atenienses quanto à sua lealdade à democracia (VI. 89-93).
Nas Rãs, Aristófanes nos dá uma amostra do tipo de reação ambígua dos atenienses diante do extravagante Alcibíades. No contexto da comédia, vemos o deus Dioniso indo ao Hades à procura de um poeta trágico que lhe sirva de modelo para os poetas do presente. A inciativa de Aristófanes é de mostrar o deus do teatro à procura de um poeta que seja útil na restauração de uma cidade abalada pela Guerra. Para ele, trata-se de encontrar alguém cujos conselhos sirvam de exemplo, permitindo que a cidade restaure a sua estabilidade; um poeta trágico no molde dos antigos seria aquele que conseguiria trazer belos conselhos e gerar na cidade uma confiança para sua restauração. A palavra heroica do poeta, na visão de Aristófanes, seria para a cidade o que afundaria a política baixa dos demagogos62. Um dos
demagogos a que estaria se referindo o comediógrafo se encaixaria perfeitamente na imagem que os atenienses possuíam de Alcibíades. É com esse foco que o final da peça nos joga Alcibíades em um contexto que, aparentemente, era mais de uma crítica literária do que política. Porém, vemos que o quadro de avaliação da poesia trágica era somente um recurso para trazer o contexto político para a avaliação que, nesse caso, estava imediatamente associada com o nome de Alcibíades (v. 1421). O político aparece sendo avaliado pelas bocas de Ésquilo e Eurípedes, como personagens aristofânicos.
A crítica de Aristófanes se resume, é claro, em termos de uma política cujo pano de fundo é a guerra, sobretudo mascarada na minuciosa disputa estética e estilística de Eurípedes e Ésquilo. Porém, quando vemos o nome de Alcibíades, todo o contexto estético parece se explicitar na conjuntura política. O deus Dioniso é levado por Hades a ter que decidir qual é o melhor poeta: Ésquilo ou Eurípedes? Um problema cuja solução não se dá assim facilmente, o que exige do deus intermediar uma decisão, através de um questionamento a respeito da
62 As Rãs foram apresentadas nas Leneias de 405 a.c., em um momento de intensa disputa entre oligarcas e
democratas, na qual Alcibíades aparece, certamente, mais associado aos primeiros do que aos últimos. Cf. a introdução de Maria de Fátima Silva à sua tradução das Rãs (2014, p. 7-11).
124 política ateniense. Eis que o deus do teatro pergunta aos poetas trágicos: quais seriam as suas opiniões sobre Alcibíades? (v. 1421-1422). É claro que a ironia de Aristófanes nos indica uma chacota política; contudo, em vez de dar uma resposta imediata, vemos Ésquilo emendando outra pergunta, de igual relevância: “ὁ que a cidade pensa ἶἷlἷς”63 (v. 1424). Nesse ponto,
Aristófanes deixa claro qual é a intenção subentendida: colocar no juízo da poesia trágica um dos momentos mais trágicos da cidade de Atenas. Surge a resposta de Dioniso: “ἳἶὁὄἳ-o, detesta-o, deseja tê-lὁέ” (v. 1425). A descrição não pode ser mais clara, trata-se de uma relação confusa e ambígua, em que a cidade se confunde com os seus próprios demagogos, sobretudo no que diz respeito a Alcibíades.
Na sequência, observamos as descrições, contornadas nas bocas dos poetas trágicos, dos ajustes dessa conturbada relação dos atenienses com Alcibíades: Eurípedes – “ἡἶἷiὁ quem é lento quando ajuda a pátria e rapidíssimo quando a destrói. Sempre acha saída para si, jamais para a ἵiἶἳἶἷ” (v. 1427-29); Ésquilo – “ Não se deve nutrir na urbe leão pequeno [não se nutra o leão na pólis sobretudo]; nutrido, não se fugirá de seu ἷὅὈilὁέ” (v. 1431-33). O político e demagogo é uma cria da própria cidade e, por isso mesmo, a sua ruína, como havia observado Tucídides. O que Aristófanes faz no final das Rãs é consolidar a ideia de Alcibíades como um fenômeno alimentado pelos próprios atenienses. Não há escapatória nessa relação conturbada entre a cidade e as figuras da vida pública.
No trecho final da peça, vemos Sócrates também entrar nesse contexto de crítica política, não nos mesmos termos de Alcibíades; mas parece que o filósofo era visto, de modo semelhante, como um problema de cunho político para a cidade. Demarca-se Sócrates como um dos inimigos da arte trágica:
Alegra não ficar sentado num blá-blá-blá com Sócrates, depreciando a música
ou refugando a magnitude da arte trágica.
Com tró-ló-lós pedantes, com puerilidades de futilidades, passar o tempo inerte
é do homem marginal à inteligência. (v. 1491-99).
Certamente, não há nesse trecho uma nítida associação por parte Aristófanes entre Sócrates e Alcibíades, pois o que lhe importa é mostrar certa predileção sofística de um falatório sem sentido, em detrimento das artes trágicas, que poderiam dar à cidade a sua reestruturação. Trata-se de situar a oposição entre um intelectualismo extravagante,
125 representado por Sócrates, e um verdadeiro saber sobre a vida, personificado na figura de Ésquilo. Visto em conjunto, Alcibíades está no mesmo campo sofístico e político de Sócrates, o que nos remete à descrição dele feita por Ésquilo.
Como se sabe, a figura de Sócrates sempre andou ao lado de uma associação com certos personagens controversos da vida pública ateniense, especialmente com Alcibíades. É o que se observa, por exemplo, nos testemunhos de Xenofonte e de Platão64. Como nos aponta
Xenofonte, a referência a certo socratismo em personalidades oligárquicas, como Crítias, Cármides e Alcibíades é uma das principais calúnias que teria contribuído para a condenação do filósofo. E Platão utiliza esses três personagens, em diálogos homônimos, para sitiar esse tipo de associação entre socratismo e oligarquia; nesse viés, Alcibíades é o mais explorado dos três, na sua relação com Sócrates65, o que demonstra certa predileção por esse personagem
como um símbolo anti-socrático.
Nas Memoráveis (I. 2. 12-48), Xenofonte procura defender Sócrates dessa associação com personagens vinculados à oligarquia, mostrando que, na verdade, esses políticos apenas souberam se aproveitar do vínculo com o filósofo para alcançar destaque na vida pública (I. 2. 47). Os dois personagens mais citados, nesse caso, são Crítias e Alcibíades, que são apontados como os maiores aproveitadores (I. 2. 24), sendo o último descrito como o homem mais desregrado, mais insolente e perverso nos tempos da democracia ateniense (I. 2. 12). Esse homem perverso e oportunista que as Memoráveis nos mostram reaparece em Plutarco, porém com uma roupagem ainda mais extravagante.
Em nítida continuidade com as descrições de Xenofonte e Platão, Plutarco nos faz um apanhado abrangente do personagem em sua Vida de Alcibíades (2.1). Nessa obra, o jovem
64É difícil mesurar em que medida essa relação de fato ocorreu nos moldes que julgamos, posto que as principais
testemunhas do período são, sobretudo, socráticas: Platão e Xenofonte. Com pouca materialidade, temos referência a um diálogo Alcibíades de Ésquines e, no Busiris (XI. 5-6), em que Isócrates tenta defender a imagem de Sócrates das acusações de Polícrates, há uma referência a Alcibíades como se ele não fosse discípulo do filósofo. Nesse caso, dos testemunhos que possuímos, aqueles que possuem mais materialidade e dados são os diálogos de Platão e as Memoráveis de Xenofonte. Além disso, Platão é, certamente, o que mais explora essa relação com finalidades literário-filosóficas, posto que Xenofonte parece fazer um uso mais apologético do que filosófico de Alcibíades. Sendo assim, vemos nos diálogos referência a essa relação no Protágoras (309a-c), no Górgias (481d, 519b), no final do Banquete e, também, nos diálogos homônimos Primeiro e Segundo Alcibíades.
65Além disso, Sócrates, por mais de uma vez nos diálogos, diz estar apaixonado pelo jovem; porém, dois relatos
vêm plenamente recheados de certa ambiguidade. No Protágoras (309a-d) diz ter trocado o amor de Alcibíades por ter encontrado um homem mais belo e mais sábio: Protágoras. No Górgias (481d), vemos que o filósofo anuncia para Cálicles que ele possui duas paixões ( ), χlἵiἴíἳἶἷὅ, filhὁ ἶἷ ἑlíὀiἳὅ, ἷ ἳ filὁὅὁfiἳέ ἠὁ contexto, Sócrates está ironizando seu interlocutor após ele ter perguntado a Querefonte (481b) se Sócrates estaria falando sério ou de brincadeira com ele. Certamente, o trecho apresenta um ar de ambiguidade, que faz sentido diante do olhar de Cálicles; esse percebe, mas não tem certeza do tom de deboche característico do estilo de retórica de Sócrates.
126 político ateniense é caracterizado como um dos homens mais vis do seu período, ao mesmo tempo em que pode ser considerado um dos mais sagazes e espertos. É vil por ter traído sua cidade unicamente em vista de gozar dos prazeres mundanos e fugir de uma punição, demonstrando uma covardia inigualável; por outro lado, isso contrasta com a imagem do jovem inteligente e habilidoso, que soube manipular e conduzir tanto atenienses quanto espartanos em um jogo político de enorme sagacidade. Na verdade, Plutarco nos mostra como o jovem era depositário de uma invejável habilidade política, capaz de domar a fúria dos atenienses mediante sua doce oratória, ou mesmo de se tornar um fidedigno informante dos espartanos. No meio do seu conflito com seus concidadãos soube se mostrar resoluto, fugiu para o meio dos espartanos, tornando-se uma poderosa arma de informação na guerra.
Entretanto, apesar dessa especial inteligência e sagacidade política, o jovem cedia facilmente aos prazeres eróticos e à bebida, o que o teria levado a se tornar um símbolo da “desmedida” ( )έ O que se demonstra é que em detrimento de sua habilidade, digna de um homem de valor, via-se uma personalidade fraca que cedia a qualquer oferta de prazer. Por isso, ele marca a opção por uma vida desregrada, digna de reprovação. Em suma, Alcibíades era mais um dissoluto nos costumes, dado aos excessos, do que um homem virtuoso e honrado. Plutarco reforça esse retrato do jovem como símbolo da “iὀἶifἷὄἷὀὦἳ e desrespeito para com as leis, como um indício de propensão para a Ὀiὄἳὀiἳέ” (16.2.).
De certo modo, a personalidade de Alcibíades é definida por um apego inabalável pelas paixões e pela ambição, dando a entender que todos os eventos de sua vida foram resultado de uma combinação entre uma habilidade e inteligência incomuns, que o possibilitaram se adaptar às circunstâncias e aos prazeres mundanos. O caráter de Alcibíades, nas palavras de Plutarco, é comparável ao de um camaleão (23.4.). Essa afeição descontrolada pelos prazeres fez dele um exemplo máximo do desvio a que está submetido um jovem movido pela ambição. Na verdade, Alcibíades era capaz de se adaptar politicamente a qualquer circunstância, permitindo-lhe manobrar as necessidades de acordo com o caso, mesmo que isso implicasse em certas opções morais: “χlἵiἴíἳἶἷὅ era capaz de passar com igual facilidade do bem ao mal e do mal ao bem e não havia comportamento a que ele se não conseguisse adaptar ou que não conseguisse ἳὅὅὉmiὄέ” (23.5.).
Por conseguinte, Plutarco tenta nos mostrar que Alcibíades era potencialmente um dos homens mais propensos a adquirir uma vida de caráter e de conseguir atingir o modelo dos ensinamentos socráticos, porém era facilmente absorvido pelos prazeres e pela vida desregrada; o que o tornou o oposto da proposta socrática. Isso é o que parece servir de
127 material para a constante exploração filosófica que Platão faz dele como uma espécie de falha no modelo socrático. Portanto, é possível associá-lo a um caráter anti-socrático: “χlἵiἴíἳἶἷὅ era, sem dúvida, facilmente arrastado para os ὂὄἳὐἷὄἷὅέ” (6.2.). Há uma preponderância dos prazeres sobre a natureza do seu caráter, como elo distintivo que define suas ações, negando qualquer perspectiva do controle de si que parece estar implicado no caráter de Sócrates.
Para Plutarco, o jovem é o modelo do hábil orador, cujo objetivo em convencer e em conquistar as multidões se reduz a apenas realizar o benefício próprio, traindo qualquer perspectiva de socratismo. Por isso, podemos afirmar que a sua descrição se encontra definitivamente marcada pela influência da ilustração típica que encontramos tanto em Tucídides, quanto em Xenofonte e Platão: o testemunho segue a iniciativa de mostrar o jovem na sua repercussão do desastre na Guerra do Peloponeso e ilustração política da condenação de Sócrates. O que Plutarco nos mostra é que, mesmo diante dos ensinamentos socráticos, a afeição de Alcibíades pelos prazeres tornava-o uma personalidade vil e, por vezes, perversa, e que dá provas da impossibilidade de uma combinação entre ensinamento socrático e ambição política.
Portanto, por parte dos socráticos, o político ateniense receberia tão frequentemente um retrato caricatural e, até mesmo, depreciativo. O intuito é mostrar que ele não é, no sentido pleno, um resultado dos ensinamentos socráticos, da mesma forma que Cármides e Crítias seriam oligarcas anti-socráticos. Sócrates não é responsável pelo apego de Alcibíades pelos prazeres, muito menos pelo seu comportamento insolente diante da cidade de Atenas. O encantamento pelo discurso socrático, aludido pelo político no Banquete, foi apenas um momento de sua vida, pois ele se afastou do caminho indicado pelo filósofo, seguindo somente sua ambição diante de Atenas. Enquanto os ensinamentos de Sócrates tentavam mostrar o caminho do comedimento, Alcibíades, na ausência dos discursos socráticos, era facilmente dado aos prazeres, como tenta nos mostrar Plutarco, em uma sutil referência ao diálogo:
O amor de Sócrates por Alcibíades, embora contasse com muitos e poderosos rivais, dominava, por vezes, Alcibíades. É que os discursos do filósofo tocavam os dons inatos do carácter do jovem e mexiam com o seu coração até às lágrimas. Mas outras vezes, porém, entregava-se aos seus aduladores, que lhe acenavam com prazeres inúmeros, e escapava, então, a Sócrates. Este movia-lhe caça, como se de um escravo fugitivo se tratasse – era o único homem que lhe inspirava respeito e temor; pelos demais sentia desprezo. (6.1.).
É nesse contexto confuso, de uma personalidade ao mesmo tempo extravagante e cativante, que vemos surgir o elogio a Sócrates do Banquete.