Para corroborar essa perspectiva, gostaríamos de apontar o final do Banquete como um momento em que se demarca nitidamente essa opção por parte de Platão. A cena que encerra o diálogo, em 223d, coloca-nos diante de um personagem que sobrevive de forma sóbria a uma bebedeira em que todos os seus companheiros dormiram. Apesar do sinal de incerteza da narrativa, diante do relato de Aristodemo, é nítida uma opção de Platão de situar o trágico e o cômico como simultâneos:
Agatão porém, Aristófanes e Sócrates eram os únicos que ainda estavam despertos, e bebiam de uma grande taça que passavam da esquerda para a direita (Ἀ α α
Ἀ φ α υ α α π φ π
). Sócrates conversava com eles; dos pormenores da conversa disse Aristodemo
que não se lembrava ( α ῖ α α · α α
Ἀ φ α ) – pois não assistira ao começo e ainda
estava sonolento ( πα α α π υ ) – em resumo
porém, disse ele, forçava-os Sócrates a admitir que é de um mesmo homem o saber
fazer uma comédia e uma tragédia ( φ α , φ , π α α
ῖ α α α ῳ α α α ῳ α π α α π ῖ ), e que aquele que com arte é um poeta trágico é também um poeta
cômico ( α α ῳ π α ξ α ρ ῳ π α ). Forçados a isso
e sem o seguir com muito rigor eles cochilavam, e primeiro adormeceu Aristófanes e,
quando já se fazia dia, Agatão ( α α α α υ α α φ α
π υ υ , α π α α α ῖ Ἀ φ , α Ἀ α). Sócrates, então, depois de acomodá-los ao leito, levantou-
se e partiu; Aristodemo, como costumava, acompanhou-o; chegado ao Liceu ele asseou-se e, como em qualquer outra ocasião, passou o dia inteiro, depois do que, à
tarde, foi repousar em casa ( , α α α ' υ , α α
117
π α α , α α α α π α
απα α )58 (223c-d).
Essa cena nos mostra alguns aspectos que contornam o personagem Sócrates, como uma espécie de desfecho final do Banquete, de modo a demonstrar que a filosofia ocupa um lugar especial a meio caminho entre a tragédia e a comédia. No contexto construído pelo diálogo, Sócrates aparece como um homem excepcional, um típico herói homérico, especialmente no que diz respeito à sua resistência ao álcool. De forma metafórica, essa resistência à bebida tem a função de solidificar uma característica marcante do personagem no diálogo: o controle de si, tanto do corpo quanto da alma. O filósofo é, ao longo do Banquete, não somente uma pessoa temperante, no sentido de controlar prazeres e emoções; por vezes Sócrates tem um controle de si de forma sobre-humana, como se observa na sua resistência ao frio no campo de batalha, tal como contada por Alcibíades. Vemos Sócrates sendo louvado como o homem mais temperante e também como o mais resistente corporalmente, já que possui a capacidade de permanecer sóbrio após um festejo em que todos dormem bêbados. Os únicos que acompanham o filósofo são um comediógrafo e um tragediógrafo; donde então Sócrates defender o papel de fusão entre os dois gêneros, como aquele que permanece sóbrio diante da euforia trágica e cômica.
Portanto, observamos que, como gênero intermediário, a filosofia é capaz de absorver o cômico e o trágico permanecendo temperante e sóbria diante de si mesma, na medida em que não está fechada aos prêmios de festivais, nem às festas particulares. Enquanto a tragédia e a comédia dormem embriagadas, a filosofia vai ao Liceu continuar com suas discussões até o fim do dia: ela é afeita aos locais públicos, apesar de frequentar também festas particulares. O caráter da filosofia, representado por Sócrates, é o de uma fusão entre trágico e cômico, mas que permanece nitidamente em seu papel de intermediário; por isso, pode ser considerada uma atividade trágico-cômica. Em suma, como diz Kierkegaard, Sócrates é uma unidade entre o cômico e o trágico (2013, p. 67). Diante disso, gostaríamos de acrescentar que, por ser essa fusão entre os gêneros, o filósofo também é um herói; um guerreiro que a serviço do pensamento e da virtude, realiza feitos memoráveis que conferem a ele um valor também épico.
Para Diskin Clay (1975, p. 249), o Banquete parece o modelo de uma tragi-comédia que apresenta uma nova forma de drama filosófico, que compreende e transcende tanto a
58 Todas as citações do Banquete serão feitas a partir da tradução de José Cavalcante de Souza (2016), seguidas
118 tragédia quanto a comédia. De acordo com ele (1975, p. 252), o que o Banquete promove enquanto obra é situar o próprio Platão como um autor capaz de compor um gênero de drama que, ao mesmo tempo, é trágico e cômico. Isso porque o seu objeto de imitação, o filósofo Sócrates, apresenta-se no convívio com esses dois gêneros, situados pela presença de Agatão e Aristófanes. Diz ele:
Em Sócrates, Platão descobriu um objeto de imitação que foi tanto cômico quanto trágico. É um erro ver em Sócrates uma figura séria e trágica e em Aristófanes, ou Alcibíades, ou nos sofistas, personagens cômicos e inferiores. Sócrates era ele mesmo cômico e trágico. (CLAY, 1975, p. 255).
Seguindo essa perspectiva, se observamos a complexidade narrativa do Banquete, veremos algo a mais do que a simples confluência entre trágico e cômico, posto que ele nos traz o personagem, suas palavras e suas ações como algo memorável. De um modo geral, o diálogo desperta a curiosidade pelo enquadramento de situações narrativas distintas, nas quais encontramos uma espécie de prólogo dentro do prólogo, a partir do qual se aponta a característica épica do evento narrado por Apolodoro. Há uma conexão entre as narrativas, que se seguem no texto: de Apolodoro a um grupo de ouvintes, em primeiro plano, depois de Apolodoro a Gláucon; paralelamente de Fênix a Gláucon, por fim de Aristodemo a Apolodoro. Porém, as narrativas são dadas cronologicamente de Aristodemo a Apolodoro, de Apolodoro a Fénix, de Fénix a Gláucon, de Apolodoro a Gláucon e de Apolodoro aos ouvintes. Diante dessa complexidade narrativa, a primeira constatação que fazemos é que o encontro exposto pelo Banquete já era um evento famoso no momento em que o narrador apresenta as cenas aos ouvintes. Pode-se observar que os vários momentos narrativos são distintos, posto que culminam em uma dramatização cheia de sutilezas, tal como a que Apolodoro faz ao grupo que lhe escuta e a partir do que diz ter ouvido de Aristodemo. Nesse sentido, podemos observar que os primeiros passos do diálogo, de 172a-173b, têm o intuito de situar esse evento como algo memorável, digno de ser narrado anos depois, podendo ser também exposto nas circunstâncias mais diversas.
Logo, é possível observar que a narrativa feita por Apolodoro, sobre seu encontro com Gláucon (172a), demarca para seus ouvintes a complexidade da narrativa que virá e a sua importância contextual, já que Gláucon se refere a uma narrativa anterior, feita por Fénix. Nesse momento vemos o pedido feito a Apolodoro para dar mais detalhes sobre o encontro, que já era por si mesmo memorável, na medida em que uniu três personagens que são apresentados como pessoas que gozavam de certo renome: Agatão, Sócrates e Alcibíades. O encontro é digno de nota, diz Gláucon (172b), pelos belíssimos discursos feitos sobre o amor. Porém, a narrativa de Apolodoro confere uma grandeza épica ao evento, pois ultrapassa a
119 expectativa depositada por Gláucon. Isso é o que se observa no momento que o narrador aponta para a distância temporal que separa ele e Gláucon do evento original (172c).
Além disso, há o fato de Apolodoro ressaltar para seu interlocutor que ele está, ao longo de três anos, tentando andar em companhia do filósofo para conseguir conhecer suas ações e palavras. Isso nos leva a perceber que Sócrates ainda estava vivo no momento da narrativa e gozava de uma reputação significativa diante dos ouvintes e de Gláucon, pois lhe é atribuído por Apolodoro um caráter épico notável, como alguém cujas palavras e ações (172c- 173a) devem ser observadas e imitadas. Ou seja, é como se os recursos trágicos e cômicos do Banquete estivessem a serviço da criação de um modelo pedagógico. Como se vê na própria personagem-narrador Apolodoro, que tenta ao máximo se assemelhar ao filósofo, Sócrates se consolida como um modelo, um homem a ser seguido em suas palavras e ações, mesmo para aqueles que somente ouviram falar sobre elas. Como disse Clay, Sócrates é colocado a todo instante como um modelo a ser imitado. Isso é o que confere ao filósofo um caráter nitidamente épico.
Portanto, no Banquete, os gêneros épico, trágico e cômico se confluem na construção tanto do diálogo, quanto na consolidação do personagem Sócrates. Certamente, o filósofo é situado em um papel de destaque no convívio com homens renomados de outras áreas do conhecimento, para além da tragédia e da comédia, representadas pela presença de Agatão e Aristófanes. É o caso também de percebemos o destaque de Sócrates diante do médico Erixímaco, do orador Fedro e, de forma mais evidente, diante do político Alcibíades. Sendo assim, o que dá sentido a esse recorte de interpretação é o modo como os gêneros épico, trágico e cômico confluem na representação do filósofo, também ao lado de outros, como a retórica e a medicina. Por isso optamos por restringir nossa análise a esse aspecto dos três primeiros gêneros, cujo enfoque inicial se encontra no discurso feito por Alcibíades no Banquete.
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