5. FORELDRE
5.9. Foreldrenes forventninger
Após termos consultado diversos guias turísticos, concebidos com o propósito de mostrar a “pequena casa lusitana” a viajantes nacionais e estrangeiros, durante os primeiros anos do Estado Novo, concluímos que esses documentos em pouco diferem de manuais de história. Na verdade, a par das belíssimas ilustrações que encontrámos em quase todos, a grande maioria insistia em transmitir pormenorizadas lições sobre as origens e o desenvolvimento da “Nação” portuguesa. Entre 1933 e 1940 este tipo de publicações viu a sua tiragem ser aumentada como consequência da já referida valorização oficial do setor turístico. O SPN, por exemplo, intensificou a edição de
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documentos de divulgação de destinos de lazer, tendo muitas dessas publicações sido traduzidas e distribuídas em outros países europeus.
Porém, a edição de documentos promocionais turísticos foi profusa logo a partir da canónica publicação As Praias de Portugal. Guia do Banhista e do Viajante, de Ramalho Ortigão, no ano de 1876. Em 1905, a Colonial Oil Company lançou a primeira carta automobilística portuguesa e, dois anos depois, surgiu o Manual do Viajante em
Portugal de Leonildo Mendonça e Costa, seguido, no ano de 1912, de Carta Excursionista de Portugal da Sociedade de Propaganda de Portugal. Em 1924 saiu o
primeiro volume do Guia de Portugal de Raúl Proença, que, além de fornecer conselhos aos turistas, pretendia inventariar o património natural e construído português.
Refira-se, a título de curiosidade, que em 1925 foi a vez de Fernando Pessoa publicar What the tourist should see. Maria Amélia Gomes, um dos membros do grupo que trabalhou a famosa arca de Pessoa, traduziu para português um “texto seguido, completo, dactilografado – coisa rara no espólio de pessoano! – que era nem mais nem menos que um guia pronto a ser publicado dessa Lisboa a que Pessoa chamou seu «lar»” (Gomes, 1992: 5). O texto dividia-se em três partes, sendo que a mais extensa se intitulava “What the tourist should see” e as outras duas, bem menores, “Lisbon newspapers” e “A visit to Cintra, via Queluz”.
Não podemos, igualmente, desprezar a elevada quantidade de edições jornalísticas e de comunicações pronunciadas por oradores relacionados com o setor turísticos que devem eventualmente ser entendidas como uma variante possível de guias turísticos, como iremos constatar de seguida. Retomamos, a esse propósito, o nome de Roque da Fonseca e a comunicação que proferiu no Rio de Janeiro, no ano de 1933, intitulada Portugal, paiz de turismo a que já aludimos anteriormente. Recuperamos este texto, pois entendemo-lo como um dos mais significativos textos de promoção turística do período que ocupa este estudo.
Na verdade, a palestra editada pelo Automóvel Club de Portugal incluía dezassete páginas de texto, profusamente ilustradas com imagens legendadas de destinos turísticos tidos como canónicos, já à época. As vinte e sete fotografias apresentavam polos de atração naturais e construídos, que, mesmo à margem do
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discurso de Roque da Fonseca, corporizavam a imagem (turística) que o país pretendia transmitir de si próprio. Algumas das imagens que ilustravam essa comunicação mostram-nos os monumentos mais emblemáticos de nove cidades do continente (Lisboa, Leiria, Coimbra, Porto, Braga, Guimarães, Viseu, Évora e Tomar). A apresentação destas cidades é intercalada e complementada com a inclusão de outras fotografias de atrações turísticas, por vezes próximas, outras, nem tanto. Assim, por exemplo, a primeira fotografia que representa Lisboa é seguida de outras treze, que deverão ser entendidas como os polos turísticos mais procurados pelos visitantes da capital portuguesa, como sejam o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o tríptico de Nuno Gonçalves, ou ainda o Parque do Estoril, o Palácio Nacional de Sintra e o Palácio da Pena. Destacamos igualmente uma reprodução do interior do Mosteiro de Alcobaça, com os inevitáveis túmulos de D. Pedro e de D. Inês de Castro, e uma imagem da fachada principal do Mosteiro de Batalha (Fonseca, 1933: 15). Dignas de referência são, ainda, as duas últimas imagens selecionadas para ilustrar a reprodução impressa da comunicação de Roque da Fonseca e que retratam o “[t]rajo caracteristico do Minho” (ibidem: 21) e uma atração turística natural, na Serra da Estrela, a Cabeça da Velha (ibidem: 23).
Por si só, estas vinte e sete fotografias, bem como a ordenação que se lhes decidiu atribuir, constroem uma narrativa turística naturalmente corroborada pelo texto de Roque da Fonseca. Assim, no topo das prioridades do visitante deverão estar Lisboa e parte da sua zona limítrofe, com justificativos que aludem ao prestígio e à opulência da época dos descobrimentos, representados pelo arsenal da Marinha, pelo Mosteiro dos Jerónimos ou pela Torre de Belém, e às artes, pelas alusões ao estilo manuelino, aos coches, ou às pinturas de Nuno Gonçalves. O cosmopolitanismo do Estoril e o impulso dado às obras públicas, através de referências à estrada para Sintra e à ponte na cidade do Porto, são também elementos importantes desta história nacional e turística. Os símbolos construídos para ilustrar a vitória de Aljubarrota sobre os castelhanos e a nobreza dos sentimentos do povo surgem igualmente como motivos turísticos a enaltecer e que deviam ser dados a conhecer a quem visita o país.
Da exposição de Roque da Fonseca Portugal emergia, ainda, como um local de cultura e saberes antigos e de arreigadas tradições religiosas, simbolizados pelas
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menções à Universidade de Coimbra, e ao Bom Jesus de Braga, respetivamente. A exaltação da “Nação” foi retomada na última fotografia da publicação do ACP, que retrata o Convento de Cristo, em Tomar, primeiramente tido como um símbolo da Reconquista Cristã e, séculos mais tarde, como ícone da abertura do país ao mundo. A lealdade às tradições rurais era comemorada pela imagem de duas raparigas trajadas à minhota, sendo as belezas naturais representadas pela Serra da Estrela que, na época, era já uma importante atração turística para viagens de inverno.
Merecedora do nosso realce é também a edição de ano novo de 1935 de O
Seculo por incluir dez páginas totalmente dedicadas às sete províncias em que Portugal
continental estava, então, dividido. A abordagem é claramente turística, a perspetiva é claramente nacionalizante. Tal como em muitos outros documentos e representações, não é tarefa fácil determinar onde acaba e onde se inicia a retórica de cada uma. A propósito do Alentejo, “terra do Pão e das canções dolentes”, por exemplo, referia-se a importância histórica de Portalegre (vd. O Seculo, 1 de janeiro de 1935: 15). A Extremadura merecia destaque por ter sido “terra de onde saiu a madeira para as caravélas, e onde o campino é a imagem da bravura” (vd. ibidem: 16), enquanto o Minho, “canteiro alegre e florido, onde nasceu a primeira roza do Nacionalismo Português”, era inevitavelmente aludido como o berço da nacionalidade e a sede dos mais puros e genuínos representantes da “Nação” (vd. ibidem: 23). Na página final, dedicada a Portugal, lia-se:
PORTUGAL terra gloriosa na descoberta, na conquista e colonisação, em qualquer das provincias afirma a unidade espiritual do seu povo.
No fundamento de uma tradição gloriosa, quasi milenária, acrescida, pelo tempo, de novos lances de beleza, de valor e de harmonia, encontram portugueses alicerce firme e duradouro para o largo e nobre edifício da sua fé e da sua honra nacionalista.
... já fronteiras a Natureza marcara á Nação Portuguesa.(...) Portugal aparecia, de jacto, num verdadeiro milagre, com uma formação e uma unidade política, económica e social, que os seculos consolidaram e engrandeceram.
ibidem: 24
Este e outros jornais não deixaram de incluir nas suas edições diversos textos através dos quais se glosava, além da beleza paisagística, a “incomparável grandeza histórica” das regiões, e se enaltecia o “sangue e o sacrifício” populares, entendidos
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como “os mais robustos alicerces da nossa nacionalidade”. Favoritas eram igualmente as descrições de comportamentos e costumes simples e primitivos, tidos como símbolos inquestionáveis das “virtudes lusitanas” (vd. por exemplo, O Seculo, 15 de fevereiro de 1935: 12-15).
Por ocasião da reunião em Portugal da Commission International de Tourisme em 1936, o Automóvel Club de Portugal patrocinou a publicação As Estradas de
Portugal. Arredores de Lisboa de Raúl Proença que se destinava a ser oferecida aos
participantes do congresso organizado pelo ACP. A edição incluía as habituais imagens de Lisboa, do exterior e do interior do Palácio de Queluz e do Convento de Mafra, da serra, do palácio e do castelo dos mouros em Sintra, da cidadela, da costa e da baía de Cascais, do casino, da praia e do Hotel Palácio do Estoril, da Torre de Belém, da Costa de Caparica e do Castelo de Sesimbra. Para cada um destes destinos era disponibilizado um conjunto de informações acerca dos pontos de atração turística existentes, como as igrejas e os museus, bem como uma vasta cronologia histórica sobre os mesmos.
O Centenario Turístico da Serra da Louzã de Amorim Girão, Raúl Miranda,
Vírgilio Correia e Álvaro V. Lemos, editado em 1938, e o Guia do Forasteiro em
Braga. 1939 são dois guias que reiteram as estratégias que temos visto ser usadas nos
documentos de divulgação turística. No ano em que a “Nação” se encontrava engalanada para os festejos e celebrações de dois centenários emblemáticos para mais um ato de revalidação ideológica, Sintra tornou a ser tema de uma publicação particularmente bela, Roteiro Lírico de Sintra, da autoria de Oliva Guerra. Encontramos nas palavras de Oliva Guerra a informação histórica tão do agrado das retóricas nacionalizante e turística, insistindo-se na apresentação do local com o recurso a constantes evocações de reis, como D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. João V, e de artistas, como Camões, Bernardim Ribeiro ou Byron (vd. Guerra, 1940: 8-9). Este roteiro sugeria quatro itinerários possíveis2, ilustrados com fotos coevas, gravuras
2 I Itinerário – Chegada à Estação – Paços do Conselho – Quinta do Guedes – Estrada do Duche – Parque
Municipal – Quinta do Duche – Fonte da Câmara – Hospital da Misericórdia – Paço Real.
II Itinerário – Centro da Vila – Os hotéis – Igreja de S. Martinho – Casa dos Ribrafrias – Os Pisões – Byron e o «Child Harold» - Estrada do Sindicato – Palácio da Pena – Jardins, lagos, mata – Cruz Alta – S. Pedro – O Ramalhão – Convento da Trindade – Castelo dos Mouros – Igreja de Santa Maria – Fonte da Sabuga – Quinta do Saldanha – Regresso à Vila.
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antigas e imagens da população local, envergando trajos de trabalho ou de domingo.
Também aqui encontramos os superlativos a que os textos de divulgação turística nos habituaram e ainda descrições líricas3, como anuncia o título, das paisagens e dos monumentos históricos. Não deixa, ainda, de haver oportunidade de introduzir um
registo de teor mais nacionalizante com a exaltação dos valores da “raça portuguesa” e com as referências aos mitos da origem de Portugal (vd. ibidem: 70).
Data igualmente de 1940 a publicação de Paisagens e Monumentos de Portugal, de Luiz Reis Santos e Carlos Queiroz, com fotografias de Mário Novaes. A introdução de Reis Santos afirmava o propósito de usar imagens e “trechos evocadores e descritivos” para chamar a atenção para os aspetos mais importantes da pátria (vd. Santos e Queiroz, 1940: 5). O caráter hospitaleiro da população portuguesa foi repetido, mas a enfâse do discurso coube às especificidades essenciais do povo construtor da “Nação”, num texto, mais uma vez, evocador da intemporalidade e da singularidade de Portugal:
O povo rústico trabalha, calmo e discreto, quási infantil, mesmo quando sofre e parece, aos olhos d'alguns estranhos, um adulto carregado de explosividade. (...) Atraem-no muito mais as romarias do que o mito das cidades. Vêr o nosso povo folgar, é assistir a um espectáculo de naturalidade e de graça que talvez já não tenha comparação à superfície do Globo. (…) Tudo [na nossa paisagem campestre] é autêntico e, mesmo quando austero, amável. (…) A paisagem portuguesa parece esperar – parece esperar por nós. Há muitos séculos.
Santos e Queiroz, 1940: 8
Insistia-se na necessidade de que os portugueses conhecessem as diversas pátrias que compunham a grande pátria (vd. ibidem: 11) e, quase a finalizar, Paisagens e
III Itinerário – Pisões – Quinta do Relógio – Quinta da Regaleira – Seteais – Penha Verde – Estrada vélha de Colares – Quintas de S. Bento, de S. Tiago e do Pombal – Monserrate – Quinta da Piedade – Colares – Vinhedos e Pomares – O Mar.
IV Itinerário – Costa encantada – Praia Grande, Praia da Adraga, Praia do Cavalo, Fojo, Pedra de Alvidrar, Praia da Ursa, Cabo da Roca, Praia das Maçãs -Dunas, vinhedos e pinhais – Outra vez Colares (história e lenda) – Estrada para Mafra e Ericeira – Solar de Ribafria – Bairro do Casino – Estefânia, a Sintra Moderna – Último olhar de despedida - Regresso. (Guerra, 1940: 13).
3 Vd. por exemplo, “Canta nostálgica a bica musical do Pátio do Leão, torna-se mais quieto na sua mudez tranqüila o ambiente evocador do Jardim de Lindaraya e do Pátio dos Tanquinhos. (...) E sob a carícia fulva do sol, o velho alcaçar mourisco, esfumando o seu perfil de lenda no azul claro do céu, lá fica recostado no fundo verde escuro do arvoredo circundante, como uma jóia estranha sôbre o seu escrínio de veludo secular” (Guerra, 1940: 25), “Lançando os olhos para o vale amorosamente desdobrado em amplo panorama” (ibidem: 29), ou “O mar não tem carícias de gato enamorado” (ibidem: 65).
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Monumentos de Portugal incluía uma preleção acerca da utilidade do património construído para a representação da “Nação”, concluindo que “os monumentos
traduzem melhor as feições íntimas da alma portuguesa do que os factos relatados nos anais da Pátria” (ibidem: 33), por deixarem transparecer “traços comuns de pensamento e sentimentos, que imprimem, à mais colectiva de todas as artes, uma expressão inconfundível de consciência, de força e de unidade nacional” (ibidem: 34).