A segunda parte do livro tratará especificamente da arquitetura do século XIX, numa tentativa de superar uma lacuna deixada, segundo Reis Filho, pela tradição do SPHAN, mas também de dotar a história da arquitetura nacional de um novo significado, para o qual São Paulo surge como principal manifestação.
Na primeira metade do século XIX, os grandes centros do litoral, cujas vidas encontravam-se ligadas mais diretamente ao mundo europeu, conheceriam o aparecimento do neoclássico. No primeiro capítulo dessa parte, Reis Filho distingue os dois tipos de arquitetura urbana nesses centros: o das classes mais abastadas, no qual se poderia verificar um nível mais complexo de arte e arquitetura, integrando-se de fato aos padrões de correção formal europeus; e uma arquitetura mais modesta, que conservaria os mesmos traços da arquitetura colonial. Não obstante já estivessem surgindo casas com porão alto (uma forma de desviar o olhar do desconhecido, bem como de alojar os escravos e a criadagem) e jardim lateral, com preceitos plásticos neoclássicos, as formas de implantação seguiriam ainda o modelo tradicional.
Em seguida, Reis Filho se dedica a mostrar a apropriação dessa nova linguagem arquitetônica nas províncias. Tratar-se-ia de uma cópia imperfeita da arquitetura dos grandes centros, pois os proprietários mais abastados dessas províncias, ocupando cargos na administração pública central, ao retornarem às suas terras trariam consigo novas ideias arquitetônicas, fator importante de diferenciação social. No entanto, essas pessoas não disporiam nem de mão-de-obra qualificada nem dos materiais necessários, o que acarretaria apenas numa apropriação superficial do neoclássico. Persistiriam, assim, as soluções
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REIS FILHO. Urbanização e teoria. Op. cit.
tradicionais condicionadas pelo esquema escravista.
Em “Interpretação do neoclássico”, Reis Filho relaciona esse quadro de difusão do neoclássico a uma estrutura política mais ampla. A adoção desse estilo arquitetônico possuiria uma significação política, vez que demonstraria uma espécie de “grau de civilidade” de seus moradores, os representantes políticos de cada localidade. O crescente “aburguesamento” das elites cumpriria uma espécie de função simbólica, indicando quais indivíduos seriam, portanto, dignos da ocupação dos principais cargos políticos por sua proximidade daquilo que era considerado padrão de civilização, tomado em comparação à sociedade europeia.
Em seguida, Reis Filho trata das modificações pelas quais a arquitetura da segunda metade do século XIX passou, relacionando-as com as novas condições sócio-econômicas e tecnológicas de então. No entanto, a arquitetura não é tomada como sendo consequência dessas condições, mas como parte integrante ou parcela importante dessas transformações. Tratar-se-ia não só da expansão da oferta de novos materiais, do transporte e da modificação do tipo de mão-de-obra, mas também de uma nova mentalidade empresarial recém surgida. Com a crescente formação de mestre-de-obras, oficiais mecânicos e artífices no Brasil, o setor da construção civil teria se tornado menos dependente da mão-de-obra e dos materiais importados, favorecendo a expansão da arquitetura europeia no Brasil. Além disso, os agentes sociais responsáveis por essa transformação na vida brasileira, influenciados principalmente pelo pensamento evolucionista e positivista, empenhar-se-iam em romper com a tradição escravista republicana, ao mesmo tempo que se tornariam entusiastas de uma arquitetura cada vez mais atualizada e tecnicamente elaborada. Esses fatores, somados à migração do campo para as cidades, teriam favorecido um grande desenvolvimento urbano, com a ampliação do número de bairros nos entornos das cidades, o que, como já foi mencionado, acarretaria também uma série de problemas. A vida citadina passaria a ter mais importância que a rural, e a arquitetura do campo se tornaria cada vez mais semelhante à das cidades.
O próximo capítulo trata do nível então atingido pelas técnicas construtivas, oferecendo um verdadeiro rol de materiais e técnicas disponíveis com as facilidades de importação e transporte. Em seguida, Reis Filho mostra como essas alterações impuseram mudanças à composição arquitetônica. Dessa forma, a estética pregada pelo ecletismo teria possibilitado a realização de novas experiências espaciais, como as alterações nos esquemas de circulação, os novos problemas de relação entre o interior e o exterior em função do aparecimento dos jardins, a redução da altura dos porões com o afastamento da rua etc.
No último capítulo da segunda parte Reis Filho reflete sobre os motivos da difusão do ecletismo no Brasil, de forma semelhante ao que fez em relação ao neoclássico. Primeiramente, chega à conclusão de que o ecletismo representou um acordo entre diversas correntes arquitetônicas, de forma semelhante a uma espécie de conciliação filosófica, político-social e estética ocorrida tanto na França como no Brasil, conforme leitura que faz da obra do historiador das ideias João Cruz Costa (também de origem uspiana). Por outro lado, o arquiteto paulista procura mostrar que o caráter de imitação do Ecletismo tinha sua razão de ser. A cópia exata do que se produzia na Europa cumpria uma função social já assinalada anteriormente, ou seja, a demonstração simbólica de uma posição política. Assim, a arquitetura deixa então de ser compreendida como “consequência direta das condições sociais”. Pelo contrário, a arquitetura seria então
uma forma de viver, de ir ao encontro da realidade, procurando transformá-la segundo os alvos sociais dos agentes. Pode, portanto, adquirir significados contraditórios, segundo os grupos sociais pelos quais é utilizada. Mas sempre e necessariamente, se não é o caso particular, isto é, se é utilizada por grupos sociais e tem generalidade, é porque adquiriu significado social para o grupo.327