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Organisering og kvalitet: Oppsummering av barnehagecasene

5. Brukerundersøkelsen til foreldre 2019

Antes de assumir a presidência do Conselho, Reis Filho ainda foi, ao lado de Luís Saia e Ulpiano Bezerra de Menezes, um dos coordenadores do Curso de Conservação e Restauro, organizado em 1974, numa parceria entre IPHAN, CONDEPHAAT e USP. Os trabalhos que se referem a esse curso o apresentam como uma espécie de “divisor de águas” dentro das práticas preservacionistas paulistas.357 Isso teria sido possibilitado pela noção mais abrangente

de patrimônio proposta por Hugues de Varine-Boham, consultor da Unesco, na qual são contemplados o meio ambiente, o conhecimento e todos os “bens culturais”, compreendidos como sendo “tudo que o homem fabricou”.358 Assim, Varine-Boham teria apresentado,

355

Ibid., p. 66.

356 Na entrevista que me foi concedida.

357 Pode-se citar, por exemplo, RODRIGUES. Op. cit., ANDRADE. Op. cit., LEMOS; MORI; ALAMBERT.

Op. cit. e LEMOS, Carlos A. C. O que é Patrimônio Histórico? 5ª ed. - São Paulo: Brasiliense, 1987.

segundo Rodrigues, uma “definição antropológica” de patrimônio. Além disso, os cursos ministrados por Benedito Lima de Toledo e Augusto da Silva Teles teriam apontado as falhas das práticas de restauro e conservação aplicadas até então, trazendo à tona os preceitos ainda não aplicados da Carta de Veneza.

Por um lado, a realização desse curso atendia às recomendações dos compromissos de Brasília e Salvador, que mencionavam a realização de cursos de especialização na área de preservação e conservação e a realização de parcerias entre o IPHAN e as universidades. Por outro, preparava a FAU para a implantação de cursos de pós-graduação em arquitetura e urbanismo, inexistentes à época no país. Contudo, a principal consequência trazida por esse curso talvez não tenha sido prevista por seus organizadores (principalmente por Luís Saia), e para que seja possível compreender essa afirmação é necessário levantar alguns questionamentos à literatura que trata do assunto.

Não restam dúvidas de que esse curso foi de fato marcante no campo das práticas preservacionistas paulistas, e talvez até mesmo nacionais (vez que antecede em um ano a grande reviravolta ocorrida no IPHAN com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural – o CNRC –, liderado por Aloísio Magalhães). Personagens importantes desse território, a exemplo do próprio Nestor Goulart Reis Filho, Carlos Lemos e Antônio Luiz Dias de Andrade em vários momentos lembraram como esse curso foi importante em suas respectivas trajetórias individuais e para o “Patrimônio” em São Paulo, em geral. Todavia, em que pese a real alteração nos quadros preservacionistas paulistas, seria interessante analisar em que medida essa mudança se deve, de fato, a renovações conceituais. Isso não representaria muito mais à entrada da USP, sobretudo da FAU, na disputa por este espaço de atuação tão caro à atividade profissional do arquiteto? Não seria esse “discurso da mudança”, isso sim, uma estratégia narrativa a fim de consolidar a hegemonia da FAU (representada, além dos três arquitetos que citei logo acima, por Silva Teles e Lima de Toledo, entre outros), num campo extremamente representativo para a institucionalização do ensino de arquitetura, ou seja, o domínio sobre a história da arquitetura? Há razões para acreditar que sim, sobretudo se estivermos de acordo em relação ao fato precedente de que a própria Arquitetura Moderna Brasileira se consolidou através do espaço conquistado por Lucio Costa no SPHAN.

A partir de então, a USP, sobretudo a sua Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, passa a se colocar como alternativa à história da arquitetura produzida no âmbito do IPHAN. Os “novos trabalhos” defendem um maior rigor metodológico em oposição aos trabalhos

supostamente mais amadorísticos e inexperientes do IPHAN, sobretudo os de Luís Saia. Carlos Lemos seria o fundador dessa postura, adotando uma definição mais “antropológica” de cultura e baseando-se na leitura de documentação “primária”. Seus “epígonos” tratariam de reafirmar a invenção dessa nova tradição, conformando assim uma estratégia de legitimação e institucionalização de um locus de autoridade discursiva. Assim o fizeram, por exemplo, Antônio Luiz Dias de Andrade, Lia Mayumi, Marly Rodrigues e Cristiane Gonçalves, reforçando a eficácia da estratégia discursiva.

No entanto, essa suposta superioridade da produção da FAU em relação à do IPHAN não pode ser sustentada, a não ser, talvez, do ponto de vista quantitativo. Em relação à questão do trato com as fontes, logo será publicado o artigo de Jaelson Bitran Trindade, intitulado “A investigação histórica no IPHAN em São Paulo, uma abordagem territorial”,359 no qual o autor

desfaz todos esses mitos relativos ao suposto desconhecimento, por parte de Luís Saia, acerca de documentação primária sobre o patrimônio cultural paulista.

O outro ponto no qual se apoia Carlos Lemos (e toda a “nova história” da arquitetura da FAU), ou seja, a novidade de um enfoque “antropológico”, também não consegue permanecer de pé. Segundo o arquiteto, “o que nos interessa mesmo é saber ‘como’ esse programa é ou foi satisfeito, a partir das condições ou das disponibilidades locais em determinada época. Essa é uma abordagem da competência da antropologia cultural”.360 O

autor utiliza, de fato, trabalhos de autores como Gilberto Freyre e Ernani Silva Bruno. No entanto, as demais referências relativas a antropólogos são muito mais raras que no caso do próprio Luís Saia, que tem a seu favor a densa formação em etnologia e folclore adquirida com Dina Lévi-Strauss e o convívio com intelectuais como Roger Bastide, Claude Lévi- Strauss, Mário de Andrade etc.361 Desnecessário relembrar aqui o que já foi visto

pormenorizadamente no capítulo anterior, ou seja, a preocupação de Saia com a cultura popular, com a investigação de campo, com o ancoramento das interpretações relativas ao processo de interpretação arquitetônica na realidade social e cultural etc.

Assim, mais que uma real superação da contribuição de Luís Saia e do IPHAN para a

359 TRINDADE, op. cit. 360

LEMOS. Casa paulista, op. cit., p. 20.

361 Não me parece concebível acreditar que Lemos desconhecesse a formação de Luís Saia. Conforme mostra

em Viagem pela carne, Lemos recorreu a Saia já nos seus tempos de estudante, a fim de conferir legitimidade a um trabalho da faculdade reprovado por seu tradicionalista professor de história da arquitetura. Com a ajuda de Saia, o trabalho foi imediatamente reconsiderado. Lemos conviveu com Saia também nos tempos do CONDEPHAAT, tendo trabalhado como técnico nesse órgão e no curso ministrado em 1974 na FAU. Assim, Lemos dá a impressão, pela análise de seus escritos, de omitir alguns dados a fim de tornar mais consistente sua argumentação, que se torna cada vez mais explicitamente estratégica.

história da arquitetura paulista, trata-se de uma estratégia de legitimação da produção uspiana a partir do eclipsamento do trabalho desse arquiteto. Esse argumento foi, desse modo, a partir de então, reafirmado por todos aqueles que pretenderam retirar autoridade dessa posição aparentemente “vencedora”. O próprio Reis Filho mostra partilhar, em entrevista pessoal, dessa perspectiva. Embora ele próprio se mostre devedor dos trabalhos teóricos desenvolvidos no IPHAN, numa postura menos agressiva que a de Lemos, por exemplo, acaba reificando os argumentos desse arquiteto, apontando o maior rigor metodológico dos trabalhos desenvolvidos na USP contra a inexperiência dos trabalhos precursores daquela instituição federal, além da falta de recursos e possibilidades com as quais ela sempre sofreu na proteção dos bens culturais do Estado de São Paulo. Dessa forma, é possível afirmar que esse curso, do qual Reis Filho foi um dos organizadores, acabou contribuindo para uma mudança fundamental nas práticas preservacionistas paulistas: a progressiva ocupação de um espaço disponível nesse campo pela FAU, espaço estratégico quando o que importa é a autoridade na produção e no ensino da história da arquitetura.