Para investigar as necessidades de formação de professores do Ensino Fundamental de uma escola pública, no âmbito de conhecimentos subjacentes à construção de uma prática de alfabetização na perspectiva do letramento e efetivar um processo formativo a partir dessas necessidades, optamos, no contexto da abordagem qualitativa, pela investigação-ação. Essa modalidade de pesquisa apresenta-se como mais pertinente para atender às necessidades dos professores sobre a sua profissão, já que está mais diretamente ligada à resolução dos conflitos por eles vivenciados.
Segundo Thiollent, (1994, p. 16):
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Nessa perspectiva, assumimos com Thiollent (1994) algumas premissas essenciais para a investigação-ação:
A interação efetiva entre pesquisador e participantes envolvidos, na qual o pesquisador é o mediador na definição de problemas, na análise de possibilidades de resolução dos mesmos e no acompanhamento e avaliação da investigação/ação;
O objeto de investigação-ação emerge das necessidades indicadas pelos participantes implicados no processo de pesquisa;
O objetivo é prático e, ao mesmo tempo, de conhecimento. Prático, porque pretende contribuir para uma mudança na prática dos professores e de
conhecimento porque a prática também elucida a teoria, buscando-se um equilíbrio entre ambas.
A expressão investigação-ação não é nova no campo das ciências sociais. Ela foi usada pela primeira vez por Kurt Lewin, nos anos de 1940. Esse autor é criador dessa forma de pesquisa sobre as relações humanas ao estabelecer princípios inovadores, tais como: o caráter participativo das relações entre os sujeitos que fazem parte da pesquisa, o impulso democrático e a contribuição à mudança social (PEREIRA, 1998).
Ao teorizarem sobre os significados da investigação-ação, Arnal, Del Rincón e Latorre (1992) afirmam que esta é uma forma de pesquisa que envolve investigadores e professores em um processo de investigação e desenvolvimento profissional em que o trabalho coletivo, no decorrer do processo investigativo, tem os objetivos de promover estudos sobre aspectos profissionais compartilhados; indagar, conjuntamente, a realidade educativa na tentativa de resolução dos problemas práticos de ensino e aprendizagem, confrontando-os com as teorias pedagógicas.
Nesse sentido, a investigação-ação tem uma dupla face: para o pesquisador, ela é objeto de investigação e de produção de conhecimento e, para o professor, é uma oportunidade de formação, fato que proporciona a aproximação entre o contexto em que os docentes exercem a sua prática profissional e o de pesquisa, auxiliando a romper com o distanciamento entre Universidade e a escola, assim também, entre teoria e prática, ajudando, assim, os professores a melhor enfrentar a complexidade da prática educativa, na medida em que aproxima o mundo da pesquisa ao da prática, no contexto da profissão docente.
Segundo Battini (1994, p. 26) a investigação-ação é um processo complexo e coletivo que se organiza em função de três objetivos:
De investigação: produção de conhecimento sobre a realidade; de inovação: contribui para introdução de transformações numa determinada situação dada como problemática, dando soluções; de formação de competências: processo de aprendizagem social envolvendo todos os participantes na direção da transformação social, cultural e política.
Assim, compreendemos que esse tipo de pesquisa se desenvolve em torno da ideia de investigar “com” em vez de investigar “sobre” o que implica na proposição de modificar as relações entre pesquisador e sujeitos pesquisados, particularmente, quando se trata de pesquisar a prática pedagógica.
Essa compreensão articula-se com as proposições de Franco (2004, p. 483) que definem o caráter formativo desse tipo de investigação:
[...] a pesquisa-ação, estruturada dentro de seus princípios geradores, é uma pesquisa eminentemente pedagógica, dentro da perspectiva de ser o exercício pedagógico, configurado como uma ação que cientificiza a prática educativa, a partir de princípios éticos que visualizam a contínua formação e emancipação de todos os sujeitos da prática.
Para Franco (2004), a investigação-ação é incompatível com os procedimentos decorrentes de uma abordagem positivista, visto que requer para seu exercício, um mergulho na intersubjetividade da dialética do coletivo. Essa postura diferenciada diante do conhecimento permite ao pesquisador, ao mesmo tempo, conhecer e intervir na realidade que pesquisa. Essa imbricação entre investigação e ação faz com que uma não possa acontecer sem a outra. As ações são necessárias à construção/compreensão do objeto de estudo em questão, assim como são fundamentais para transformar tais compreensões em produção de conhecimento na situação em investigação.
Ao discutir a dimensão política desse tipo de pesquisa, Freire (1981, p. 35) afirma que:
[...] não posso reduzir os grupos populares a meros objetos de minha pesquisa. Simplesmente não posso conhecer a realidade de que participam a não ser com eles como sujeitos também deste conhecimento que, sendo para eles, um conhecimento do conhecimento anterior (o que se dá ao nível da sua experiência cotidiana) se torna um novo conhecimento.
Freire (1981) concebe as pesquisas fundadas na ação como atos de conhecimento formado por sujeitos cognoscentes e um objeto a ser desvelado que é a realidade concreta. Esta, por sua vez, é compreendida como algo além de fatos em si mesmos, mas como manifestação desses fatos e percepção que deles esteja tendo a população neles envolvida.
Enfim, abstraímos que a nossa opção pela investigação-ação significa:
Implicar professores em formação como sujeitos do seu processo formativo; Articular o processo formativo às necessidades de formação dos professores; Atuar na situação real do contexto de trabalho dos professores, tendo em vista a
situação desejada;
Considerar os limites e possibilidades de aprendizagem dos professores;
Implicar-se como pesquisador assumindo a condição de mediador e de aprendiz no processo de pesquisa.
Após a definição do caráter investigativo do nosso estudo, discutiremos nos próximos itens deste capítulo, os critérios de seleção e as características do lócus da investigação e dos sujeitos envolvidos.