5. Norske forhold
5.1 Forbruk og utbredelsesmønster for snus i Norge
Fig. 58 – Álbum de Preciosidades: Luta Constante (autoria atribuída a Aluísio Azevedo). Fonte: Vide Índice de Figuras.
Ridendo Castigat Mores!67 Molière (1622-1673)
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Tradução da legenda: “Através do riso, castiga-se os costumes”. Frase pertencente à peça teatral cômica de Molière intitulada O Tartufo (Le Tartuffe) encenada pela primeira vez em 1664, censurada por religiosos por tê- los ofendidos com o personagem Tartufo, um falso-religioso, em sua jornada para obter o poder e ascender socialmente, fazendo uso do nome de Deus para atingir seus objetivos.
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Fig.59 - As Três Edades de Aluísio Azevedo.
Legenda: A liberdade é a vida. A civilização no Brasil é o vício. A independência é uma mentira. Fonte: Vide Índice de Figuras
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Na charge A Três Edades (Fig. 59), o autor faz uso de várias alegorias, tais como:
a) Na imagem, à esquerda da folha, vemos um índio representando a Idade de Ouro em 1500, portanto, antes ou na época do descobrimento. Aos pés do índio, contornado pela flora brasileira, lê-se a legenda A liberdade é a vida. O índio, nesse caso, é uma imagem recorrente utilizada nas charges de vários artistas da época, significando muitas vezes uma alegoria do país;
b) Na imagem superior à direita da ilustração, intitulada como Idade de Bronze em 1822, é apresentada a figura de um homem montado em seu cavalo, em cima de um púlpito, fardado e com a mão levantada. Trata-se de D. Pedro de Alcântara e o Dia do Fico, representando o momento em que o príncipe decide ir contra as ordens da Corte Portuguesa para voltar a Lisboa. É de conhecimento de todos que esse momento teria sido marcado com a seguinte frase proferida: Se é para o bem de todos e felicidade da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico!68 Interessante como na charge essa imagem é utilizada como forma de debochar da situação em que se encontrava o povo brasileiro, somente sendo compreendida se forem conhecidos os signos envolvidos. Por exemplo, alguns historiadores mencionam que no momento da decisão, a frase proferida não significava exatamente o bem da nação, mas sim a preocupação com vários interesses políticos.
Quando Azevedo representa o momento da decisão do príncipe regente, acrescenta ao conjunto dessa imagem um homem seminu, amarrado e prostrado, sendo pisoteado. O chargista critica a condução política escolhida que leva o povo ao sacrifício e ao sofrimento, como uma encenação cômica. Bakhtin (2005) menciona, sobre a questão relativa à apresentação de personagem em Dostoievski, que:
Todos os traços estáveis de personagem, mantendo-se igualmente substantivos ao se transferirem de um plano de representação para outro, adquirem valor artístico totalmente diverso: já não podem concluir e fechar a personagem, construir-lhe a imagem integral. (BAKHTIN, 2005, p. 48)
68
D. Pedro de Alcântara, após receber uma lista com mais de oito mil assinaturas coletadas por setores aristocráticos que viam como vantajosa sua permanência, para que o país não retrocedesse à condição de colônia portuguesa, foi o autor da frase proferida em 9 de janeiro de 1822. Porém, sua decisão em permanecer no Brasil era também uma questão de sobrevivência, porque Napoleão Bonaparte planejava invadir Portugal e expandir suas conquistas no continente europeu e, não necessariamente, para o bem da nação.
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Em nossa pesquisa, observamos como a utilização de traços estáveis em espaço destinado ao riso, a partir da charge, pode sugerir uma carga de interpretação mais crítica e risível ao que é representado justamente por apresentá-lo “ao avesso”. O que Azevedo deseja transmitir ao público com a imagem de nosso príncipe regente é a pior ideia possível, tripudiando ao pisotear o povo com seu cavalo, povo este que está sempre na condição de sofredor.
c) Logo abaixo dessa encenação, também à direita, vemos outros dois personagens acorrentados. Um com o nome de Mocidade, todo vestido à moda europeia, puxando os forros dos bolsos de sua calça e com ares de superioridade. Enquanto isso, há outra figura, uma mulher, vestida da mesma forma, utilizando a tournure ou anquinha, como era chamada a armação em arame para dar volume à parte traseira da saia.
Observamos que essa mulher tenta convencer Mocidade de algo e, chama atenção o fato de que, além de estar acorrentada, vestida à la mode, é nomeada como Instrução e traz uma grande folha nas mãos com o texto inscrito Matrícula Instrução. O mais interessante é o fato de ser representada com uma máscara da tragédia em seu rosto. Para essas duas figuras, a legenda informa A independência é uma mentira.
Bakhtin faz em seu estudo menção ao uso das máscaras, deixando claro que um exame mais criterioso sobre o sentido de seu uso em cultos antigos seria igualmente produtivo. Ao observarmos a personagem Instrução, podemos pensar que Azevedo deseja com isso demonstrar que a educação está em estado de calamidade. Bakhtin informa que:
O complexo simbolismo das máscaras é inesgotável. Basta lembrar que manifestações como a paródia, a caricatura, a careta, as contorções e as “macaquices” são derivadas da máscara. É na máscara que se revela com clareza a essência profunda do grotesco. (BAKHTIN, 2010, p. 35)
d) No centro da página, em Idade da Folha de Flandres em 1877, figuram:
d.1) à esquerda, há uma mulher seminua, com colar e uma cruz, provável representação do terço, servindo bebida a outro personagem, olhando-o de forma sensual, abraçada a um padre. Ao lado, contornando seu rosto, lê-se Política.
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Para Bakhtin o corpo é mostrado como uma forma de grosseria, imprecações e juramentos (2010, p. 24), linguagem organizada para a construção de imagens ligadas às formas de degradação pela sinceridade como são apresentadas. Assim, em: “As grosserias e obscenidades modernas conservaram as sobrevivências petrificadas e puramente negativas dessa concepção de corpo” (2010, p. 24-25), vemos nas charges uma forma de denegrir a imagem da Pátria ou da República, frequentemente representada nas charges da época a partir da alegoria feminina com um certo valor pejorativo;
d.2) à direita, há um padre que traz inscrito, acima de sua cabeça, pendendo lateralmente a seu rosto a inscrição Igreja. Trata-se de um homem vestindo uma batina negra, sapatos à moda francesa com salto e fivela quadrada, abraçado à Política (a mulher), servindo bebida para o terceiro integrante do conjunto da imagem;
d.3) o terceiro integrante da imagem central está à frente da Política e da Igreja. Trata-se de um homem, também vestido segundo à moda francesa, com uma taça em cada uma das mãos, sendo servido e, praticamente, agarrado pelo padre (Igreja) que parece impedi-lo de se afastar. Esse homem traz uma inscrição em seu casaco, abaixo da linha da cintura, onde se lê Brasil;
d.4) Para o conjunto das três figuras, temos uma coroa acima das cabeças e a inscrição Política e Igreja e, aos pés de Brasil, outra legenda complementar, onde é mencionado A civilização no Brasil é o vício.
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Fig. 60 – O sonho oriental de Aluísio Azevedo. Fonte: Vide Índice de Figuras
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Essa charge, O Sonho Oriental (Fig. 60), publicada em O Mequetrefe, coloca em cena vários figurantes, tal como em uma peça teatral.
a) Acima, à esquerda, vemos um personagem com corpo de homem e cabeça de asno trazendo em sua camisa a inscrição Povo. Suas mãos e pés estão acorrentados e seu gesto sugere que esteja ofertando um homem com vasta cabeleira em sacrifício. Encontramos no texto da edição anterior (n. 93) que o homem em questão seria um porta-voz do povo conversando com um delegado da coroa sobre a questão da greve dos operários da Alfândega, assunto discutido na época. O delegado, por sua vez, é retratado vestido com elegância para a época, com chapéu-coco, cigarrete69 e óculos, típico dos costumes ingleses no final do século XIX, associados geralmente a homens de negócios.
Sobre o uso frequente de representações animalizadas em charges, Bakhtin (2010) menciona que sobre a:
Anatomia grotesca em voga na Idade Média desde o século XIII, era extremamente conhecido em todos os países europeus um poema intitulado
O testamento do asno. Às portas da morte, o asno lega as diferentes partes de
seu corpo aos grupos sociais e profissionais, a começar pelo papa e pelos cardeais. A repartição do corpo reproduz uma repartição paralela da hierarquia social: a cabeça do asno irá para os papas; suas orelhas, aos cardeais; sua voz, aos cantores; seus excrementos, aos camponeses (que deles farão adubo etc.). (BAKHTIN, 2010, p. 307)
b) Próximo, à direita dessa imagem, observamos vários homens exaltados, em discussão ou em comemoração, com os braços levantados. Um deles é representado com um longo nariz. Em cima de seus braços, lê-se a palavra Câmara e, abaixo de seus pés, podemos ler outra inscrição Entendem-se perfeitamente.
c) Logo ao lado, uma figura, sentada junto a uma mesa, parece um boneco articulado, manipulado por outro homem (descrito em “e”). Do seu lado direito, um grande cartaz permite leitura parcial do texto, algo como: Regulamento Decreto de Agre... (sic) 1876. O concurso para as vagas dos empregos nesta semana será (sic)... Vimos, na edição anterior do jornal, que um texto trazia informações sobre o “escândalo que se deu na secretaria do ministério da agricultura sobre uma vaga preenchida por afilhado de ministro, nomeado às escuras, sem abertura de concurso”;
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Cigarette – nome feminino – de cigarro. Pequeno rolo de tabaco picado e envolvido em fino papel. IN: Le Nouveau Petit Robert de La Langue Française, 2008, Paris, SNL, Le Robert.
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d) No canto esquerdo superior, há dois blocos, um na horizontal com a inscrição Instrução, outro na vertical, onde se lê Mercadoria Portuguesa. Trazem como espécie de título para a imagem, Importação. O curioso é que os blocos acabam sendo colocados de forma a resultar na imagem de uma cruz;
e) Logo abaixo desse bloco em formato de cruz, podemos observar a figura de um homem com a cabeça desproporcional, bigode, vestido de forma distinta e com uma longa vara. Ele manipula um boneco articulado, mencionado no item “c”, acompanhado por legenda ascendente, contornando suas costas, onde se lê Concurso Instantâneo e, como complemento da ilustração, logo abaixo de seus pés lê-se Proteção escandalosa. A presença da vara, conforme observamos em artigos de outras edições, diria a respeito à sugestão irônica insinuando ser mais apropriado ao ministro o uso de uma vara de inspetor de quarteirão ao invés de uma pasta, para tornar mais eficiente seu comando. Pelo que lemos em alguns artigos, um dos representantes da Câmara estaria exigindo, como material de trabalho, pastas para organizar os assuntos discutidos em audiência, mas que, segundo chacota dos republicanos, bastaria que tivesse em suas mãos uma vara para fazer valer suas ordens;
f) À esquerda, logo abaixo da primeira imagem da oferta em sacrifício, vemos a figura de um rei ou rainha com cetro, coroa e manto. Na edição n. 95, temos acesso ao texto, que menciona que esses símbolos reais são góticos e ridículos. A mesma figura real tem sua mão esquerda apoiada em uma mesa ladeada pelo personagem a seguir;
g) Observamos que a figura ao lado da representante da realeza apresenta-se com corpo de homem e cabeça de animal, parecendo proveniente do universo fantástico. É bizarra e parece ser um chacal ou bode com chifres e finos e longos dedos com unhas compridas que apontam, como se acusassem, em um tribunal. Toda essa inferência que surge pela simples apresentação dessa figura é complementada pelo texto sobre a cabeça do animal, onde se lê A greve foi grave;
h) No centro, um representante clerical, com chifres, olhos arregalados, óculos e braços abertos, como que convidando a um abraço, é representado com redondo e avantajado ventre, mas não um ventre qualquer, pois está amarrado como um pacote em cruz, trazendo a inscrição Oceano. Ao lado dessa mesma figura grotesca, lê-se o texto escrito em forma ascendente Diabo, Mundo e Carne e, abaixo dos pés dessa mesma imagem, há outra inscrição onde se lê Inimigo da alma;
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i) Um pouco abaixo, acompanhando a imagem do padre, quase que centralizado, vemos um homem magro, vestido com fraque, cartola e um aparente monóculo, tipicamente inglês. Abaixo de seus pés, a inscrição Mestre dinheiro. No espaço entre as pernas, entreabertas, há três desenhos apenas contornados, semelhantes a pequenos porcos, onde estão grafadas as palavras: Santos, Pará e Rio Grande70. Logo acima desses animais, lemos a palavra La-droei-ras dividida entre o lado esquerdo, central e direito das pernas.
O Mestre dinheiro parece ter feição cadavérica, representação muito em voga pelo caricaturista Henrique Fleuiss, Angelo Agostini e Bordalo Pinheiro, que se utilizavam da força dessa imagem, algo não natural, deformado, recorrendo provavelmente ao que Bakhtin define como a imagem do grotesco se opondo à imagem do normal;
j) Logo ao lado do Mestre dinheiro, mais à esquerda, vemos outro homem como que dançando, igualmente vestindo meio fraque. Abaixo de seus pés lê-se Contaste?... Pois dança agora!
k) Ao lado da figura descrita no item anterior, vemos uma outra, em posição de espantalho: braços abertos, na cabeça, uma coroa, cocar ou algo do gênero e a boca aberta, em cima de uma pequena porção de pedras com a legenda Brasil visto de longe;
l) Na parte inferior esquerda, vemos uma mulher com contornos pouco nítidos, aparentemente em prantos, vestida de roupas longas e, na parte inferior à cintura, mais exatamente na saia, a palavra Pátria. Ela parece indiferente a todo o contexto, sem qualquer ligação com os elementos. Parece aqui representar a alegoria feminina comumente utilizada na época para representar “Pátria”, “República” e afins, em estado de prostração;
m) Todos os personagens anteriores, com exceção de Pátria, surgem na fumaça do narguilé71 fumado por um homem com longa barba branca, turbante com adereço de pena e meia lua, sentado tranquilamente com os olhos fechados, como que dormindo. Provavelmente, a imagem faça menção ao uso de ópio, muito em voga na época. Assim, o xeique árabe ou ainda um chinês surge delirando com os personagens típicos dos cenários
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Portos alfandegários da época.
71
A presença do narguilé é trazida em crônicas escritas por Eça de Queiroz no Jornal Diário de Notícias (20.01.1870) a fim de descrever as festas de inauguração do Canal de Suez, no final do ano anterior.
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brasileiros, mas que na verdade, são mais do que reais e têm seus respectivos tipos estabelecendo relação com a droga e com a política72.
Analisando as obras de Rabelais, Bakhtin explica que:
A presença do grotesco é notada como forma de ultrapassar a si mesmo, se abrir ao que está fora da imagem, o baixo corporal é referenciado como a terra e o alto, o céu, o baixo são os órgãos genitais, o ventre e o traseiro. (BAKHTIN, 1979, p. 26).
Assim, observamos que o padre ou representante do clero na descrição do item “h”, ou em todas as outras charges a que tivemos acesso, sempre é representado com ventre avantajado, como se a parte mais importante dele fossem suas vísceras, destacando-as de forma risível, indiferente ao que o cerca, divertindo-se em alegre profanação. No ventre do padre está amarrado o planeta Terra. Assim, dos ritos carnavalescos da Idade Média ou da era Cristã, vemos a charge permeada por formas grotescas, conservando nelas marcas de carnavalização como resultantes da disseminação da festa popular, trabalhando contrastes que nada mais são do que técnicas para apresentar, ao mesmo tempo, o oposto do que somos capazes de ver na superfície, sugerindo ações contraditórias ao cargo que certas pessoas ocupam. “A carnavalização não é um esquema externo e estático que se sobrepõe a um conteúdo acabado, mas uma forma insolitamente flexível de visão artística, uma espécie de princípio heurístico que permite descobrir o novo e inédito.” (BAKHTIN, 2005, p. 168)
Vemos que o conjunto de traços de uma charge está impregnado por uma realidade destorcida, objetivando gerar o riso e comunicar ao público leitor que acompanha as edições dos periódicos, a refletirem sobre (ou reagirem contra) o sistema de imagens carregadas de realismo grotesco e deformações, para que entendam (ou mudem) os caminhos pelos quais o país está seguindo. É uma espécie de destronamento da sociedade da época: destronamento como ação cômica que solicita o riso como arma de combate, muitas vezes apelando para a paródia de textos considerados sagrados que são intencionalmente dessacralizados pela caricatura.
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No século XIX, a guerra conhecida como Guerra do Ópio dizia respeito à Inglaterra e sua produção de ópio em larga escala exportando para outros países. A China reconhecendo o perigo de seu uso, embora fosse bastante utilizada com fins terapêuticos em pequenas doses, intervém e proíbe a produção e distribuição da droga. Porém, teve que ceder à Inglaterra potencialmente melhor armada na época.
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Fig. 61 – Juízo Final de Aluísio Azevedo. Fonte: Vide Índice de Figuras
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Na charge Juízo Final (Fig. 61), observamos que o próprio título faz referência à passagem anunciada pela Bíblia no que diz respeito ao Dia do Julgamento Final e o uso de outros elementos totalmente estranhos às escritas sagradas, trazendo Comte e a alegoria da Liberdade. Teria sido a forma risível e livre de Azevedo brincar de forma inusitada com algo temido por aqueles que têm fé, por aqueles que acreditam nesse evento? O autor escreve legendas e complementa as imagens com acontecimentos históricos, colocando lado a lado personagens reais, míticos, alegóricos, contribuindo:
Para criar uma percepção carnavalesca original da vida política e histórica [...] Todas as imagens se mesclam a acontecimentos políticos e históricos [...] estão subordinadas as linhas de assunto e de sentido [em que] o autor conduz um jogo carnavalesco de uma total liberdade com essas imagens, sem se deixar entravar por nenhum limite de sentido. Graças a isso, as fronteiras entre as coisas e os fenômenos apagam-se completamente e a fisionomia grotesca do mundo aparece com um relevo impressionante. (BAKHTIN, 2010, p. 372-373)
a) A figura à esquerda do quadrante superior, apresentado como Comte, segura na mão direita um livro legendado como Moral de Augusto Comte e, na esquerda, um cartaz onde está escrito Sciencias Positivas. Ele se apoia, aparentemente, em figuras femininas e, em uma delas, há a inscrição Sciencia que, por sua vez, parecem despertar um homem, vestido em camisa listrada, semelhante a um pijama, com a inscrição Povo, como que acordando aturdido;
b) Praticamente da imagem distribuída na folha, há um personagem de feições andróginas com uma tocha na mão esquerda de onde parece sair, como irradiação de luz, a palavra Liberdade. Parece fazer referência à simbólica estátua da liberdade da Revolução Francesa de 1789, como alegoria feminina em que a simbolização dela e da tocha seriam a de guiar o povo ao progresso73;
c) No lado direito da imagem, vemos um homem com tiara papal, gritando horrorizado com olhos arregalados, em cima do assento de seu trono, inclinado, perdendo a sustentação de colunas onde figuram D. Pedro e Visconde do Rio Branco, desestabilizadas. Há outras duas colunas, porém de difícil visualização. A razão para todas as colunas estarem caindo parece se dever à presença de algo inexplicável, como uma serpente gigantesca;
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A tela de Delacroix serviu como inspiração para a Estátua da Liberdade existente nos Estados Unidos, sugerida por Laboulaye em 1865 e construída por Gustave Eiffel.
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d) Ao lado das colunas, como marca d´água, vemos um homem carregando uma cruz, fazendo referência ao Cristo com a cruz nas costas, em nítido sofrimento;
e) Logo abaixo de todas essas imagens, vemos um homem de batina, com óculos, assustado e, aparentemente, fugindo para não ser vitimado pelas colunas ou pela serpente;
f) No centro da imagem, há uma grande circunferência, dividida nos itens que elencamos a seguir:
f.1) O caule de uma árvore centralizada na circunferência trazendo a inscrição Povo;
f.2) Uma serpente enroscada ao tronco da árvore onde se lê, gravado em seu corpo de forma ascendente, a palavra Jesuitismo;
f.3) Um homem enroscado em um galho da mencionada árvore denominado como Impostos;
f.4) no lado esquerdo da árvore, podemos observar três cruzes onde estão crucificados três homens. Na segunda cruz – escrito em texto ascendente, acompanhando a linha vertical da cruz, lemos a inscrição Entre o bem e o mal ladrão. O homem na primeira cruz parece vestido de forma mais simples que o homem da terceira cruz, apresentado com certa elegância, supostamente com um fraque. Aos pés do crucificado do meio, um padre gordo está ajoelhado e abaixo dessas duas imagens lemos Entre um Duque e um Barão;
f.5) Outro homem com capacete traz a inscrição Oh! Yess! Mim não dá mais dinheiro!
f.6) Ao lado da imagem descrita no item 5 e, abaixo do terceiro crucificado, vemos algumas figuras. Uma delas tem a inscrição, na parte inferior do corpo, Nação,