3 Exposure / Intake
3.1 Food supplements
Para o sociólogo Domenico de MASI (1999), o futuro do planeta será determinado sobretudo pela pesquisa científica, pela busca estética e pelo tempo livre. A nova tecnologia de informação está transformando a economia em todos os níveis. Para ROGERS (1997), o lado positivo dessas transformações é que robótica e eletrônica estão substituindo fisicamente as práticas de trabalho repetitivas. Enquanto as tecnologias simples, como o martelo e a serra, substituíram o trabalho humano de caráter físico, as tecnologias atualmente disponíveis têm praticamente substituído o trabalho intelectual do tipo executivo, fazendo com que ambos possam ser confiados às máquinas. Isto significa, para MASI (1999), que resta ao trabalho humano atual o monopólio do trabalho criativo, responsável pela posição de comando na nova economia criativa. O intercâmbio entre arte e tecnologia – a troca de idéias em lugar de artigos – está se tornando a essência da economia futura.
As condições de trabalho também melhoraram radicalmente, fazendo com que as 80 horas semanais de cem anos atrás cedessem lugar às 37 horas por semana do presente. No mesmo período, as inovações médicas e tecnológicas elevaram a probabilidade de vida comum para oitenta anos, e espera-se ainda que aumente. Pessoas nascidas hoje podem, razoavelmente, se imaginar vivendo mais de 100 anos. Enquanto no passado vivia-se cerca de 300 mil horas e trabalhava-se 120 mil horas, em média, atualmente vive-se 700 mil horas e
trabalha-se, no máximo, 70 mil horas (MASI, 1999).
Por outro lado, as transformações na estrutura do emprego decorrentes de avanços tecnológicos e as conjunturas de crises sistêmicas mundiais que atingem fortemente o Brasil no momento resultaram em desemprego e, de modo menos perceptível, em precarização do emprego. Essa situação tem forte impacto urbano, especialmente nas metrópoles, frustrando a expectativa que identifica tais aglomerações como o locus das oportunidades de trabalho. Ela gera efeitos psicológicos e sociais deletérios (desespero, rompimentos familiares, insegurança, violência), podendo resultar em graves problemas de governabilidade, atingindo a sustentação do processo contínuo de democratização política (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2000). Nesse contexto, o tempo livre originado – bem como as condições em que será utilizado – tem grande influência no processo de obtenção da sustentabilidade urbana.
Para MASI (1999), é uma clara demonstração de que o futuro será determinado, basicamente, pelo tempo sem trabalho. Além disso, na atividade do futuro será impossível a distinção entre estudo, trabalho e tempo livre. Se, no século XX, a sociedade vivia principalmente do trabalho, no próximo século viverá sobretudo do tempo livre; que só será realmente livre se puder ser utilizado segundo a autonomia de cada um. No entanto, a maioria dos países desenvolvidos ainda não está preparada para isso, tão imersa no trabalho que não sabe o que fazer de seu tempo disponível.
Para o autor, o tempo livre deve ser o momento do luxo. Historicamente, associa- se ao luxo aquilo que é raro, como tempo, espaço, silêncio, autonomia, segurança. Esses serão os grandes luxos do século XXI, para os quais as cidades devem se preparar. Os espaços urbanos, entretanto, não estão adaptados a essa transformação. As grandes estruturas para o tempo livre na praia são um exemplo da dificuldade atual em se planejar o espaço para lazer: elas estão se tornando verdadeiros campos de concentração, onde tudo é pré-determinado.
Apesar disso, MASI (1999) acredita que o Brasil tem tudo para se tornar líder do tempo livre entre os países intermediários.
ROGERS (1997) também aborda o potencial do tempo livre disposto pela nova idade tecnológica, estendendo o conceito de trabalho para um alcance mais largo de atividade cultural, que possa englobar atividades em família, com outros cidadãos, em organizações pelos direitos civis, ou mesmo dedicadas a cuidados com saúde, ambiente, artes e educação. Esse trabalho – uma forma de cidadania criativa – possibilitaria ainda a identificação das necessidades sociais que o sistema de mercado negligencia.
Para Raquel ROLNIK (1999), a cidade é o espaço de abrigo do tempo livre. Se, para MASI (1999), a utilização criativa do tempo livre é fundamental ao desenvolvimento humano, para ROLNIK (1999), o espaço urbano é o local por excelência destinado à transformação do tempo livre em atividades de lazer, através da apropriação dos espaços públicos da cidade. É na cidade que as mais diversas formas de lazer se manifestam. Dessa forma, dependendo da qualidade desse espaço, o tempo livre será destinado ao bem-estar ou ao desgaste dos cidadãos.
Partindo do pressuposto que lazer é uma dimensão prazerosa do cotidiano, integrante da vida assim como o trabalho, a qualidade do ambiente construído é fundamental para despertar a sensação de prazer ou desprazer nos habitantes da cidade. Mesmo segundo a definição que considera lazer como o tempo no qual não se trabalha, só aquele tempo despendido no trajeto para o trabalho já poderia ser considerado como parte do lazer ou como tempo perdido, de desgaste e desprazer enormes, dependendo da qualidade do ambiente urbano. Com isso, ROLNIK (1999) reafirma a estreita relação entre urbanismo e lazer.
A história do lazer como tempo livre destinado ao ócio criador é apresentada por YURGEL (1983) de forma paralela à história das sociedades humanas. Segundo a autora, desde as épocas mais remotas da história do Homem, o tempo livre – ou a libertação das
contingências geradas por suas necessidades mais estritas – esteve ligado à construção do espírito humano, à formação da cultura. Encontrar uma finalidade para as horas de lazer foi, desde o princípio, uma conquista de liberdade sobre o mundo ao redor. Ainda hoje, a consolidação de um espaço onde essas atividades possam se manifestar democraticamente deve ser uma preocupação dos planejadores, como forma de assegurar a expressão da cultura urbana.
Le Corbusier foi o primeiro arquiteto a apontar soluções urbanísticas para o problema da recreação. Na Carta de Atenas, apresentou as atividades de habitar e recrear – dois dos quatro princípios básicos – como um sistema dual, ligado ao conjunto da cidade. Para ele, lazer é o espaço-tempo no qual o Homem se nutre de novas forças, recuperando as gastas no trabalho.
O tema do lazer se universalizou para a arquitetura e o urbanismo contemporâneos, tendo sido tema do XI Congresso da União Internacional de Arquitetos, realizado em Varna, em 1972 (YURGEL, 1983). A utilização do tempo livre foi, então, considerada como critério de riqueza social, inseparável das possibilidades humanas de livre e voluntária expressão de suas forças criadoras. Além disso, a recreação foi definida como um fenômeno social, vinculado à possibilidade de total utilização do tempo livre, de acordo com as exigências individuais da natureza humana. Assim, os diversos problemas que impõe o meio ambiente destinado à recreação devem ser o objetivo de uma política estatal, que considere esse ambiente um sistema único, íntegro e dinâmico, em harmonia com os demais sistemas funcionais da vida.
As qualidades estéticas também foram apontadas como importante elemento de recreação. Dessa forma, a natureza, como patrimônio da humanidade, deve ser protegida da urbanização excessiva, da contaminação biológica e dos desmesurados interesses comerciais, uma vez que os problemas da urbanização – especialmente os relacionados à habitação, ao trabalho e ao transporte –, da proteção do meio ambiente e da organização da recreação constituem um todo indivisível.
Apesar dos urbanistas não desconhecerem a existência do tempo livre e a necessidade de seu adequado consumo, as cidades contemporâneas pouco têm em sua geografia, em termos de espaço aberto ou construído, que seja decorrente de um programa dirigido para as horas de lazer da população. Existe, segundo a autora, uma confusão entre a necessidade de estruturas urbanas destinadas ao lazer e a noção de áreas verdes, ligada ao urbanismo do século XIX, voltado à higiene das cidades. Um programa de redescoberta de formas de lazer estaria, dessa forma, inteiramente relacionado à "necessidade de instituir o
lazer como programa urbano, ou melhor, criar no urbano a geografia apropriada ao exercício das atividades próprias para o tempo livre"19.