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Kapittel 4: Presentasjon av funn

4.4 Fokus i samarbeidet med deltakerne

As políticas públicas brasileiras foram delineadas seguindo o modelo oligárquico o qual foi imposto à sociedade, resultando em um desenho de política como parte integrante do funcionamento dos mais variados sistemas econômicos adotados pelo país, a exemplo dos modelos primário-exportador e substituição de importações e, claro, do atual modelo neoliberal.

A consequência dessa política no meio rural foi o favorecimento dos médios e grandes produtores. Neste contexto, predomina a grande propriedade no sistema agrário, solidificando uma máquina fundiária altamente concentrada, onde um pequeno grupo controla a maior proporção de terra, de estabelecimentos e de produtos agropecuários.

Nesse processo, o maior prejudicado é o pequeno produtor rural, que sobrevive, na maioria das vezes, sob o regime de agricultura familiar; plantando, colhendo, alimentando- se e vendendo parte da produção, normalmente o excedente. Mas nem sempre isso acontece, o que por si só já caracteriza um quadro de insegurança alimentar e nutricional e traz consigo as dificuldades vividas cotidianamente por essa população. Gomes da Silva (2006, p. 1) cita que

é no campo que se encontram os maiores índices de mortalidade infantil, de incidência de endemias, de insalubridade, de analfabetismo e, que essa imensa pobreza decorre das restrições de acesso aos bens e serviços indispensáveis à reprodução biológica e social, à fruição dos confortos proporcionados pelo grau de desenvolvimento da sociedade.

Os produtores, muitas vezes, necessitam plantar gêneros agrícolas diferentes do que estavam acostumados, modificando consideravelmente seus aspectos culturais e alimentícios. Braga (2004, p. 3) afirma que nossos hábitos alimentares fazem parte de um sistema cultural repleto de símbolos, significados e classificações, de modo que nenhum alimento está livre das associações culturais que a sociedade lhe atribui. Assim sendo, símbolos, significados, situações, comportamentos e imagens que envolvem a alimentação podem ser analisados como um sistema de comunicação, no sentido de que comunicam algo sobre a sociedade que se pretende analisar (DOUGLAS, 1976).

Da Matta (1986, p. 22)estabelece, ainda, uma diferenciação entre alimento e comida, evidenciando o papel da cultura na alimentação

Alimento é algo universal e geral. Algo que diz respeito a todos os seres humanos: amigos ou inimigos, gente de perto e de longe, da rua ou de casa, do céu e da terra.

Mas a comida é algo que define um domínio e põe as coisas em foco. Assim, a comida é correspondente ao famoso e antigo de-comer, expressão equivalente a refeição, como de resto é a palavra comida. Por outro lado, comida se refere a algo costumeiro e sadio, alguma coisa que ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso mesmo, um grupo, classe ou pessoa.

Assim sendo, o que se come, quando, com quem, por que, é determinado pela cultura, transformando o alimento (substância nutritiva) em comida. Isto é importante compreender para que se entenda a questão do gosto (doce, amargo, picante, salgado etc) na alimentação e o simbolismo que ela exerce em diferentes sociedades. Sobre essa dimensão simbólica, Bourdieu (1989) diz que as pessoas, os estratos sociais se distinguem pela maneira como eles usam os bens materiais e simbólicos de uma sociedade de acordo com o acesso a esses bens, dando sentido ao mundo social. O caráter simbólico do alimento também se diferencia com a idade, situação social e outras variáveis. Em todas as faixas etárias, encontra- se uma alimentação entendida como apropriada, variando a adequação em relação ao sexo e a papéis sociais. Existe, portanto, um processo de socialização que procura mostrar o comportamento alimentar mais apropriado a diferentes segmentos da sociedade (DANIEL; CRAVO, 1989). Para Santos e Batalha (2005), a variável situação financeira contribuiu fortemente na escolha dos alimentos e pode determinar a quantidade e qualidade dos alimentos na mesa da população menos privilegiada.

Um produtor em regime de agricultura familiar nem sempre consegue garantir à mesa um alimento saudável e coerente com a cultura alimentar local. Alguns fatores contribuem para isso; um exemplo é a modificação ou introdução de uma nova política na região que valorize mais um produto em detrimento de outro. Isso acarreta uma remodelação nos padrões alimentares dessas famílias, pois o hábito de consumir determinado alimento é substituído por outro. Se não planta determinado produto, normalmente consumido no dia a dia, provavelmente o agricultor vai precisar dispor de parte de sua renda para comprá-lo. Maluf (2007) afirma que esse dispêndio prejudica, sobretudo, as famílias de baixa renda, podendo afetar inclusive o acesso a outros bens e serviços primordiais a uma vida digna.

A solução seria bancar o cultivo e o plantio sob condições próprias, mas como realizar tal façanha sem uma renda familiar condizente com a realidade que necessita? Resultado: manejo inadequado dos solos, prática mais intensiva de queimadas, com o intuito de acelerar o processo de recuperação para novo plantio, sem respeitar o tempo necessário para a recuperação desse solo; tudo isso para, de alguma maneira, garantir seu sustento e de

sua família. Esse cenário traz insegurança alimentar e nutricional para o sertanejo e esquece o potencial produtor que a agricultura familiar traz para a sociedade.

Como um agricultor familiar que vive no meio rural consegue deixar parte de sua produção para venda, se os próprios agricultores carregam a incerteza de dispor de alimentos? Questionamento que, segundo Polain (2004, p.80) encontra sua resposta apenas num espaço social específico, ou seja, são diferentes de local para local, exigindo uma análise criteriosa de cadalócus.

A necessidade calórica de um agricultor que passa, muitas vezes, mais de 8 horas do seu dia trabalhando a terra, carregando instrumentos, é diferente de uma pessoa com as mesmas condições físicas que trabalha, entretanto, em condições completamente diferentes. Seus hábitos alimentares serão diferentes, assim como a necessidade de nutriente de cada um. Nesse sentido, a alimentação pode ser analisada sob diferentes enfoques e contextos, ao mesmo tempo independentes e complementares (SILVA et al, 2004, p.9).

Pensar a Segurança Alimentar e Nutricional em um determinado espaço, antes de tudo, deve ser um exercício crítico da realidade local. Considerando todas as nuances do local, suas potencialidades, suas carências; somente dessa maneira contextualizaremos a SAN de acordo com as especificidades de cada população.